Vivendo de Luz

Quando passar fome é uma virtude

Por João Flavio Martinez

Talvez alguém possa estranhar o tema em pauta, entretanto ele é um dos mais recentes assuntos do mundo das religiões. Apesar de os seguidores desse movimento ‘do Viver de Luz’ dizerem que não se trata de mais uma religião, não é o que vemos na prática, pois usam uma linguagem metafísica na propagação da sua “ciência”.

Abaixo faremos várias citações que, na sua maioria, foram extraídas do site: http://www.vivendodaluz.com/PT/articles/jas/lol_update_2001.html

Quem começou esse movimento?

Segundo uma das adeptas do “Viver de Luz”, Alice Domingues (Centro Holístico do RJ), uma das maiores autoridades deste assunto é a escritora australiana Jasmuheen, autora do livro “Viver de Luz”. Ela já esteve no Brasil várias vezes dando entrevistas e palestras. Mas parece que o movimento criou mais força após Evelyn Levy Torrence (uma das mais aguerridas defensoras desse ensino) ter sido entrevistada num programa televisivo, provocando polêmica ao afirmar que estava há dois anos sem comer, somente vivendo da luz. Incentivando as pessoas a pararem de comer - “comida é veneno”, disse ela.

A opinião científica

Para a endocrinologista Geísa Macedo, que chefia o ambulatório de Diabetes do Hospital Agamenon Magalhães, a hipótese da alimentação solar não só é absurda como é impossível alguém sobreviver por 40 dias sem comida. “Sem o alimento, o corpo começa a buscar energia internamente, através da queima das reservas de proteínas, de gorduras, chegando a ponto de causar perda de musculatura”, explica. Em outras palavras, a pessoa passa a devorar a si mesma. “E também não é possível ativar nenhuma glândula. Se alguém muda seu ritmo de vida, passando a ter mais tranqüilidade no dia-a-dia, certamente vai influenciar seu sistema neuroendócrino a ponto de fazê-lo funcionar melhor. Mas isso está longe de ser uma mudança na função glandular”, completa. Quanto à influência do Sol sobre o organismo, a médica explica que ele ativa a produção de vitamina D através da pele e ajuda a desencadear a puberdade, mas não tem qualquer atuação sobre a nutrição. “Acho que o único lado positivo de toda essa divulgação na mídia é conscientizar as pessoas sobre os males do consumo excessivo de comida. O resto deve ser visto com muita cautela”, alerta.

O que é a metafísica?

Vamos elucidar o que é metafísica, pois esse vocábulo é muito aplicado pelos seguidores dessa doutrina. Metafísica “é a divisão da filosofia que se ocupa de tudo o que transcende o mundo físico ou natural” (Enciclopédia Britânica do Brasil Publicações Ltda). Ou seja, acreditar na metafísica é ser místico ou religioso, de alguma forma.

É claro que o assunto todo não passa de um tema esotérico/religioso. Alice Domingues (Centro Holístico do RJ), afirmou que se não houver fé na nova prática de vida a pessoa não terá êxito em sua nova maneira de se alimentar. Ela assegurou que espírito, mente e uma fé confiante nessa mudança de hábito alimentar trará o resultado da libertação da necessidade dos alimentos. Para ela, comer é uma questão social, e não essencial: “Eu me alimento apenas socialmente, e não por necessidade”, afirmou em entrevista por telefone.

Evelyn induz que Jesus Cristo e a Bíblia defendem seu ponto de vista e corroboram com a idéia de viver de Luz. (Veremos esse assunto mais adiante). Também afirma: “A purificação e a desintoxicação do corpo permitem que o físico alcance uma vibração energética muito mais fluida, deixando, com isso, o espírito livre para se movimentar com muito mais facilidade para dentro e para fora do corpo. A não alimentação provoca um poder espiritual mais ativo e isso permite que a pessoa possa viver novas e diferentes realidades pessoais. O ser purificado trabalha no campo invisível com a consciência, realiza viagens astrais, desperta a intuição, abre sem medo o coração e aceita totalmente o mundo espiritual como verdade”. Ou seja, segundo Evelyn o parar de comer traz enlevo espiritual e provoca poderes sobrenaturais. É claro que isso gira em torno de uma ótica religiosa e sobrenatural/esotérica.

O prana

Na realidade, não é que eles não se alimentam de nada: a “comida” deles é “prana”, energia universal que é obtida a partir da respiração e da absorção da luz solar. Algo como a fotossíntese realizada pelas plantas que, no caso dos humanos, seriam feitas pelas glândulas pineal e hipófise. É o que afirma Evelyn.

De onde vêm esses ensinos?

Dos mestres Astrais. Diz Evelyn que “Os mestres astrais sempre ensinam que uma ação externa só tem poder e valor se dermos esse poder e valor a essa coisa. Os mestres me ouviam, me mostravam, me contavam e eu lia e lia e lia... Um dia recebi a orientação de encontrar um mestre virtual para me ajudar a passar pelos obstáculos de minha vida cotidiana... me foi indicado que estudasse com um índio Tolteca chamado Don Juan. Don Juan era amigo da morte... muito amigo... Don Juam me ensinou muitas coisas valiosíssimas, foi ele quem me ensinou a não temer mais a morte. Foram doze anos de um aprendizado diário com Don Juan, através de Castaneda, praticando todos os ensinamentos”.

Dos livros e sites: “Aconselho seguindo algumas etapas, que são: Ler livros sobre o assunto, investigar sites, conversar consigo mesmo sobre essa possibilidade de vida e recolher a maior carga possível de poder pessoal para tomar a decisão de não desistir de maneira nenhuma”.

A iniciação: o processo dos 21 dias

Tudo começa com o processo dos 21 dias. Vejam o que atesta Evelyn em seu site: “Esse processo não é e nem pode ser considerado como uma nova dieta de emagrecimento. Essa nunca foi a proposta do trabalho, que visa única e exclusivamente a desintoxicação orgânica humana e reconexão interna com o Eu Superior... Para se tomar a decisão de parar de alimentar-se de elementos sólidos é preciso muita consciência e visão, para que o processo possa ser realizado com absoluto êxito... O Processo dos 21 dias foi elaborado pela australiana Jasmuheen, há cerca de 10 anos. Jasmuheen, depois de pesquisar e estudar a influência dos alimentos na vida humana, recebeu a autorização espiritual para ensinar às pessoas mais conscientes como se reconectar com seu Eu Superior através de uma reprogramação física, energética, mental e espiritual... Esse processo de reprogramação alimentar foi dividido em três grupos de sete dias, totalizando um programa de 21 dias, que começa com a decisão interna de parar de comer... Essa decisão pode ser tomada de diversas e diferentes maneiras: ir parando aos poucos (quando a pessoa gradativamente reduz a alimentação, cortando os alimentos mais pesados); aplicando jejuns alternados; entrando numa dieta à base de frutas; parando completamente a alimentação com uma data marcada (neste caso a pessoa precisa estar 100% consciente de sua decisão radical)”.

Entretanto, o dr. Regis Barbier afirma: “Tornar as glândulas pituitária e pineal capazes de absorver a energia solar e nutrir o corpo significa realizar uma transmutação biológica. Isso nunca foi feito por cientistas. E se isso for possível a um ser humano, não acredito que alguém o faça em apenas 21 dias”, justifica. “Seria necessário um processo alquímico capaz de transformar fótons em proteínas e açúcares”.

Por que as pessoas morrem quando param de comer?

A essa pergunta os adeptos desse movimento respondem que as pessoas só morrem porque seus cérebros estão programados para morrerem quando param de se alimentar. Isso seria cômico se não fosse levado a sério pelos indivíduos praticantes do “viver de luz”.

Refutação teológica

É uma religião. Apesar de ter ouvido categoricamente de Alice Domingues que esse movimento não é religioso, é só perscrutar um pouquinho e veremos que tudo não passa de esoterismo/nova era, sendo uma das mais recentes maneiras religiosa de expressão. Frases como: “A não alimentação provoca um poder espiritual”; “Recebeu a autorização espiritual para ensinar as pessoas mais conscientes”; “O Eu divino”; “Está escrito até na Bíblia...”. Enfim, são inúmeras expressões religiosas usadas em toda a doutrina desse movimento, fazendo dele mais uma religião, ou melhor, seita - a seita do Viver da Luz.

A questão da gula. Afirmam os adeptos dessa seita: “Até na Bíblia a gula é mencionada como algo maléfico”. Notemos primeiro o que é gula, segundo o dicionário Aurélio: “Excesso na comida e na bebida... Apego excessivo a boas iguarias”. Não diz nada sobre parar de comer, mas que gula é um excesso na ingestão de alimentos.

A Palavra de Deus também condena esse excesso: “E olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia” (Lc 21.34). Observem que a Bíblia condena a glutonaria, mas não instrui ninguém a se privar das boas iguarias.

Adão e Eva. Sobre o primeiro casal e a queda, Evelyn diz: “Tudo começou com uma linda e cheirosa maçã! Dizem as Escrituras que Eva não resistiu ao encanto da fruta e pela primeira vez na vida sentiu vontade não só de tocar, cheirar e apreciar, mas de ingerir aquela fruta tão linda e atraente. Ao experimentar o primeiro pedaço, Eva sentiu o prazer do paladar e apresentou sua descoberta para seu companheiro Adão que também experimentou e gostou da maçã. Até aí não aconteceu nada de errado, pois a maçã era um dos presentes de Deus e nunca fora proibida de ser degustada com amor e prazer... Porém, Eva se tornou dependente daquele prazer...”.

Bem, provavelmente a tal “árvore proibida” e o tal fruto não era a macieira e conseqüentemente a maçã, provavelmente era uma figueira e o fruto um figo (leia Gn 3.7). Evelyn não conhece nem o básico das Escrituras e tenta usá-la para apoiar seus devaneios. Entretanto, a problemática do contexto do livro de Gênesis é outra. O pecado de Eva não foi em si comer um fruto ou uma maçã, pois a Palavra havia dito: “E o Senhor Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida” (Gn 2.9). Ou seja, a questão não era alimentar ou dietética, mas de obediência ao Senhor. Aquela determinada árvore foi a prova de obediência que Adão e Eva tiveram para optar em obedecer a Deus ou não: “De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16-17). Após a queda do primeiro casal, Deus ainda deu liberdade para que o homem se alimentasse de carnes: “Tudo o que se move, e vive
, ser-vos-á para alimento” (Gn 9.3). Adão e Eva nunca viveram de Luz!

Jesus Cristo e os alimentos: “Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11.19). Evelyn tenta argumentar que Jesus jejuou, mas se esquece que a prática do jejum nada tem a ver com ficar para sempre sem comida ou bebida. O jejum era uma forma de consagração a Deu em momentos de crise e reflexão (Mt 6),nunca uma iniciação para parar de comer. Essa idéia foi inventada e não tem respaldo bíblico. A Bíblia ainda diz que Jesus, olhando para certa multidão faminta, deu uma ordem aos seus discípulos: “dai-lhes vós de comer” (Mt 14.16).

Evelyn menciona Cristo como um de seus instrutores nessa nova revelação, entretanto não haveria melhor hora para o Cristo ensinar esse conceito de “viver de luz” do que naquele dia em que a multidão anelava faminta no deserto. Mas Cristo não ensinou isso, ao contrário, Ele efetuou um grande milagre - O Milagre da Multiplicação dos pães. A multidão comeu até se fartar e todos voltaram para a cidade alimentados e bem nutridos.

Um corpo imortal como o espírito. A Palavra de Deus diz que o nosso corpo é corruptível e que enquanto estivermos nele seremos sujeitos à morte (1Co 15.52,53). Ainda é enfatizado pela Palavra que ao homem é ordenado morrer (Hb 9.27). Só em Cristo Jesus podemos ser salvos da morte, pois Ele já a venceu e ressuscitou. Apesar disso Evelyn afirma: “... o corpo pode ser imortal e carregar o mesmo espírito por toda a existência, ou por quanto tempo quiser”.

O apóstolo Paulo qualifica movimentos desse tipo como doutrinas de demônios. “Mas o Espírito expressamente diz que em tempos posteriores alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios... proibindo o casamento, e ordenando a abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos que são fiéis e que conhecem bem a verdade; pois todas as coisas criadas por Deus são boas, e nada deve ser rejeitado se é recebido com ações de graças; porque pela palavra de Deus e pela oração são santificadas” (1Tm 4.1-5). Tudo o que é bom e saboroso Deus tem prazer que seus filhos desfrutem: “Se quiserdes, e me ouvirdes, comereis o bem desta terra” (Is 1.19). É claro que algo que tenha bom sabor, mas que causa algum malefício ou vício deve ser evitado, pois: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas; mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1 Co 6.12).

Tanto a conclusão médica quanto a teológica condenam o ensino dos adeptos do “Viver de Luz”. Na verdade, em minhas pesquisas e entrevistas com os seguidores desse movimento descobri que todos eles, inclusive a Evelyn, se alimentam, ainda que em pequenas porções. NÃO ESTÃO TOTALMENTE SEM COMER. Esse movimento, além de antibíblico, é extremamente perigoso e nocivo à nossa sociedade. Se nada for feito, pessoas inocentes começarão a morrer. Até no próprio site do “viver de luz” é mencionado um caso que terminou mal: “É verdade que existiu um caso de uma senhora que morreu durante o processo...”.

A incógnita é: quantos ainda serão vitimados por permitirem que coisas desse nível sejam ventiladas pela mídia sem que ninguém tome as devidas providências? Onde estão as autoridades do nosso país? Ou será que a nossa democracia permite qualquer lance? Alguma providência precisa ser tomada, esse ensinamento absurdo e lunático não pode continuar sendo vinculado sem que haja a preocupação com os receptores! Sabemos que há pessoas que não têm estrutura neuropsicológica para agüentar esse tipo de idéia e podem enveredar-se por um caminho sem volta, e isso poderá gerar um verdadeiro caos. Que o leitor ore e procure se informar muito bem sobre esse mais novo ensino em nosso meio.

 

 

 

 


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