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Simpatias –
Feitiçarias Caseiras
Por Lídio Hamon
Estas são algumas das milhares de receitas mágicas de
domínio popular, as quais muitos recorrem a fim de
resolver seus problemas. Seus praticantes as chamam de
simpatias e são largamente empregadas pelo povo
brasileiro, sendo difundidas como inofensivas tradições
folclóricas. Mas... Será que as simpatias são realmente
inofensivas? Que poderes envolvem? Que perigos escondem?
Quais os reais limites entre a fé e a superstição? O uso
de palavras bíblicas santifica esta prática? Há alguma
relação entre a simpatia e a bruxaria?
Possuir respostas para estas perguntas é vital. Pessoas
que jamais entrariam em um terreiro ou se envolveriam
com algum tipo de ocultismo tornam-se ingenuamente (ou
não) vítimas das maldições inerentes a este tipo de
prática. A inocência não serve de escudo.
Definindo simpatia
O que é mesmo simpatia? O dicionário Aurélio a define,
entre outras coisas, como: “ritual posto em prática, ou
objeto supersticiosamente usado, para prevenir ou curar
uma enfermidade ou mal-estar”.1 Mas esta explicação é
muito branda. A significação de um site sobre simpatia é
outra bem diferente para esta prática: “Simpatia é a
maneira ritual de forçar poderes ocultos a satisfazerem
a nossa vontade”.2
Este conceito é exato e sincero, uma vez que não são as
meras palavras, atos, rituais e objetos que vão levar a
realização do desejo do praticante da simpatia, mas,
sim, os poderes nela invocados. Não são as gotas de
azeite, os pingos de vela e/ou o pano vermelho os
verdadeiros objetos da fé. Os praticantes, quando usam
destas coisas, colocam sua fé em entidades indefinidas
ou em algum santo católico, como no caso de Santo
Antônio, Santo Expedito e São Jorge, muito comuns em
simpatias.
Isso significa que, mesmo sem intenção, ou
involuntariamente, procura-se criar algum vínculo com o
mundo espiritual e manipulá-lo de forma a atender nossos
desejos. A grande questão é: com quem a magia da
simpatia lida?
Brincando com o inimigo
Neste mundo pragmático em que vivemos, o que as pessoas
geralmente querem saber é: “Funciona?”. O mesmo site
comenta: “A simpatia tem grande prestígio, dada a
psicologia do povo que quer resultados imediatos, sem
tratamento e sem trabalho, trazidos pelas escamoteações
da mágica. Em suma, o milagre”.3
Embora a única preocupação do praticante seja obter
resultado imediato, ele, porém, não se detém para
questionar qual a fonte do poder por trás das simpatias.
Claro que a maioria não funciona, e o aparente efeito de
algumas não passa de coincidência ou auto-sugestão. Mas
quando se trata de um “milagre” real, os envolvidos não
questionam o autor do suposto milagre, nem sequer
cogitam que estes “poderes ocultos” têm como fonte os
espíritos malignos.
A Bíblia relata que quando Moisés foi enviado por Deus
ao Egito para falar a faraó acerca da libertação do povo
hebreu, lançou sua vara ao chão e Deus a transformou em
cobra. Entretanto, os magos egípcios fizeram o mesmo com
seu poder (Êx 7.10-12). Os milagres foram iguais, mas a
fonte deles era antagônica: Moisés invocava ao Deus
verdadeiro, e os outros, cultuavam falsos deuses e
espíritos malignos.
Assim, pode-se depreender que desejar milagres e não se
preocupar com a “fonte de origem” é abrir a porta para a
atuação do diabo. Sobre o poder do diabo em obrar
prodígios a Palavra de Deus esclarece: “A vinda desse
iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder,
e sinais e prodígios da mentira, e com todo engano da
injustiça para os que perecem. Perecem porque não
receberam o amor da verdade para se salvarem” (2Ts
2.9,10; grifo do autor).
Fé e superstição
“De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela
palavra de Deus” (Rm 10.17). Logo, a fé bíblica, a fé
verdadeiramente cristã, é uma conseqüência de se ouvir e
aceitar a Palavra de Deus. A superstição, elemento
essencial das simpatias, não tem seu fundamento nas
Escrituras Sagradas, se é que possui algum fundamento.
As pessoas que se envolvem com simpatias, o fazem pela
indicação de outro, e não se preocupam em analisar os
poderes ocultos que se escondem por trás das mesmas.
Mesmo o uso de objetos, palavras e atos narrados na
Bíblia podem se degenerar em superstição. Embora a
Palavra de Deus se utilize desses elementos, tais
elementos, no entanto, só têm valor quando baseados na
fé. “Tudo o que não é por fé, é pecado” (Rm 14.23).
Temos de fazer distinção entre as narrações bíblicas e
os princípios bíblicos. Quando Deus ordenou ao povo de
Israel que desse voltas ao redor dos muros de Jericó e
tocasse trombetas para que os muros caíssem (Js 6), não
estava ensinando com isso um ritual de “como derrubar
muros”. A Bíblia é explícita ao dizer que “pela fé
caíram os muros de Jericó” (Hb 11.30), e não pelo
simples fato de serem rodeados. Houve uma ordem
específica de Deus e uma obediência em fé
correspondente, então Deus operou. A vitória veio de
Deus pela fé, e não porque aquele era um ritual mágico.
Da mesma forma, o fato de Jesus ter cuspido na terra,
feito lodo, passado nos olhos de um cego e este ter sido
curado após lavar-se no tanque de Siloé, não significa
que Jesus estava ensinando, com isso, um ritual para
curar cegos (Jo 9.11). Aquele foi um milagre produzido
pelo poder de Cristo mediante a fé, e não passos a serem
seguidos pelos cegos que buscam cura. A Bíblia estava
narrando um acontecimento, não ensinando um ritual para
curar cegos.
É importante também mencionar a repetição de palavras
que geralmente está inserida nas simpatias. Jesus
condenou a prática das chamadas “rezas”, quando disse:
“E, orando, não useis de vãs repetições, como os
gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos.
Não vos assemelheis, pois, a eles...” (Mt 6.7,8). Embora
no dicionário orações e rezas sejam palavras sinônimas,
na prática, porém, as rezas tornaram-se fórmulas mágicas
com poder em si mesmas, e não representam nenhuma
manifestação de fé, no sentido bíblico.
É bom ratificar que, biblicamente, fé significa confiar
(crer) em Deus e em Cristo (Jo 14.1). Os cristãos oram e
tomam atitudes confiando nas promessas divinas, e não em
meras palavras e atos por si só. Os praticantes da
simpatia não agem de acordo com um relacionamento
pessoal com Deus ou Jesus.
O nome de Deus em vão
“SALMOS 37 e 38 — Leia os salmos 37 e 38 três vezes ao
dia, durante três dias. Após tê-lo feito, publique o
texto (salmo) no jornal no quarto dia e veja o que
acontece. Faça dois pedidos difíceis e um impossível”.4
Tem-se popularizado o uso de Salmos, ou mesmo do nome de
Jesus, como simpatia para a resolução de problemas.
Todos os dias, os jornais trazem uma coluna de
agradecimento ou de recomendação de pessoas que
aconselham os leitores a usar o “salmo tal” ou a
“palavra tal” para resolverem seus problemas e
alcançarem alguma coisa.
“Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o
SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em
vão” (Êx 20.7). Embora alguns achem que, ao citarem a
Bíblia, Deus ou Jesus valida este tipo de atitude, o
oposto, no entanto, é que é verdade. As pessoas estão,
de fato, querendo manipular a Deus por meio de palavras
e ritos, quando a Bíblia ensina que isto é abominável
aos seus olhos.
Nós, os cristãos, mais do que ninguém, reconhecemos o
poder da Palavra de Deus. Mas este poder só é válido
quando tomamos toda a Bíblia como regra de fé e conduta,
e não quando extraímos trechos isolados e os usamos com
um ritual, ou quando escrevemos um salmo ou outro trecho
qualquer das Escrituras e os usamos como talismã. O
salmo 91 é Palavra de Deus e, se creio nele e o aplico
em minha vida, ele trará resultado. Entretanto, o mero
pano ou papel onde ele está impresso não é um talismã
para ser colocado atrás da porta para me proteger de
espíritos malignos.
Temos de tomar cuidado para que a nossa fé não se
deteriore em superstição e idolatria. Em Números 21.4-9,
Deus ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze
e colocasse sobre uma haste. Todos os israelitas que
olhassem para ela seriam curados, e assim aconteceu.
Todavia, com o passar dos dias, o povo de Israel, ao
invés de colocar sua fé no Deus que os curava ao olharem
para a serpente de bronze, puseram sua confiança na
própria serpente e passaram a adorá-la e a oferecer-lhe
incenso. Substituíram Deus por um dos instrumentos que
Ele usou para abençoá-los. Por isso o rei Ezequias
ordenou sua destruição: “Ele tirou os altos, quebrou as
estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a
serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até
àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e
lhe chamaram Neustã” (2Rs 18.4; grifo do autor).
Feitiçaria caseira
“A bruxaria está na moda, e é possível encontrar cada
vez mais adeptos em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba
e Belo Horizonte. Suas fileiras exibem advogados,
contadores e engenheiros [...] As feiticeiras modernas
não gostam de ser chamadas de bruxas. Preferem o termo
medieval wicca (pronuncia-se uíca), que deu origem à
witch (bruxa em inglês). A palavra vem do alemão
arcaico, wic, que significa dobrar, porque a mágica
teria função de mudar ou ‘dobrar’ os acontecimentos”.5
Mas, como diz Eddie Van Feu 6 em seu livro Wicca —
Rituais: “A verdade é que wicca é só um termo mais
bonitinho para bruxaria”.7
Os que consideram exagero comparar simpatia e feitiçaria
fariam bem em atentar para este assunto. Vejamos os
rituais ensinados no mesmo livro sobre wicca8:
Para proteger seu lar
“Deixe romãs abertas na janela da casa para trazer paz e
harmonia para sua família”, ou: “Faça uma cruz com dois
pedaços de canela em pau e coloque-a escondida atrás da
porta em sua escrivaninha”.
Para ter amor
“Guarde uma rosa ou um amor-perfeito dentro de seu livro
de poesia ou do seu romance favorito. Tenha-o sempre à
cabeceira, pois este é um poderoso talismã”.
Perguntamos: qual é, então, na prática, a diferença
entre a simpatia e a bruxaria? Ambas se apóiam em
rituais, objetos e palavras para alcançar seus
objetivos. Ambas utilizam elementos cristãos. Ambas
definem apenas vagamente os poderes envolvidos na
realização de seus “encantamentos”. Em outras palavras,
são usados apenas termos diferentes em relação ao mesmo
tipo de prática. As forças malignas utilizadas pelos
bruxos na História Antiga e Medieval continuam sendo
acionadas por meio das chamadas “simpatias”. O
sincretismo cristão encobriu essa realidade, mas não
pode mudar a essência do que realmente envolvem essas
práticas.
Os historiadores são unânimes em admitir que o
catolicismo português trazido para o Brasil era
fortemente influenciado pela bruxaria européia. Como
resultado, as mesmas práticas continuam sendo realizadas
“camufladamente”. Logo, simpatias nada mais são do que
bruxarias caseiras efetuadas por pessoas que apenas
querem resultados e estão dispostas a fazer qualquer
coisa para alcançá-los.
Livrando-se da simpatia
“Andamos por fé, e não por vista” (2Co 5.7). Este é o
fundamento da fé evangélica e bíblica. Quando o
relacionamento diário com Deus se baseia em objetos,
fórmulas, rituais e/ou palavras previamente
estabelecidas, então ocorre um afastamento. Não importam
quantas “graças” as pessoas digam que alcançaram por
este meio, isto não prova que foi Deus quem realizou
nada. O Novo Testamento rejeita completamente o uso de
tais subterfúgios para se alcançar resposta divina, e o
Velho Testamento só o faz quando é orientado por Deus e,
mesmo assim, como símbolos espirituais de Cristo.
Não se engane, caro leitor, mexer com simpatia é mexer
com o oculto, e todo benefício que resultar disso é
aparente. “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o
conselho dos ímpios (receitas de simpatia e magia) [...]
Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei
medita de dia e de noite. Será como a árvore plantada
junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na
estação própria, e cujas folhas não caem. Tudo o que
fizer prosperará” (Sl 1.1-3; parênteses do autor).
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