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Idolatria
disfarçada
Por Paulo Cristiano da Silva
Os católicos sempre encontraram uma maneira de se livrar
da acusação de serem idólatras. Quando pressionados com
textos bíblicos sobre seu modo de culto prestado a Deus,
aos santos, às imagens, às relíquias, à eucaristia e à
Maria, prontamente respondem que não levamos em conta a
cuidadosa distinção de culto feita pela Igreja Católica
para não incorrer neste pecado.
Os eruditos católicos precisam fazer esta distinção,
pois, sem ela, não poderiam escudar-se quando
pressionados com a acusação de idolatria. Com esta
nuança de palavras, sentem-se livres para prosseguir com
seus sofismas teológicos. Diante das severas
advertências bíblicas, foi necessário fabricar-se uma
tríplice distinção entre o que eles classificam “latria”,
que seria o grau mais alto de adoração, “hiperdulia”, um
grau abaixo daquele (tido como veneração a Maria) e
superior à “dulia”, também veneração, mas prestada aos
santos e aos objetos relacionados a tais santos, como,
por exemplo, as imagens.
Os católicos dizem que prestam unicamente o culto de
“latria” a Deus e o culto de “dulia” aos santos, sem
incorrerem no risco de confundi-los. Contudo, esta
“cuidadosa” diferença desaparece na prática. Vejamos,
mais à frente, como ela tende a se confundir no
desenrolar do culto que o devoto católico presta.
O papa Gregório estava errado quando disse que “as
imagens são os livros dos ignorantes”. A bem da verdade,
as imagens são mais eficazes para cegar os olhos
espirituais destas pessoas e, conseqüentemente,
deixá-las mais ignorantes ainda, do que para tirá-las
desta condição.
Quando a imagem de algum “santo” cai no chão e quebra, o
devoto não diz apenas que a imagem se quebrou, mas
afirma ter quebrado o próprio santo, seja ele Antônio,
Benedito, Jorge, José, entre outros, repetindo assim o
episódio de Labão, que acusou Jacó de roubar não só suas
imagens, mas seus “deuses” (Gn 31.30).
Imagine um católico fazendo a oração que segue, curta e
fervorosa, diante do quadro da sagrada família — Jesus,
Maria e José.
Meu Jesus, misericórdia.
Doce coração de Maria, sede a minha salvação.
Jesus, Maria, José eu vos dou meu coração e minha alma.
Jesus, Maria, José assisti-me na última agonia.
Jesus, Maria, José, expire a minha alma entre vós em
paz.
Amém.
Perguntamos: Qual é o católico que consegue fazer a
distinção entre “latria”, “dulia” e “hiperdulia” quando
se prostra para rezar fervorosamente perante os três
personagens do quadro? Como bem expressou a pesquisadora
de religiões, Mary Schultze: “a mão-de-obra é grande
demais!”
Como quase todas as invenções doutrinárias do
catolicismo através dos séculos têm seu embrião no
paganismo, esta suposta distinção entre um culto e outro
não é uma exceção. Os pagãos rodeados por seus muitos
deuses e intercessores fizeram uma hierarquia de culto
para eles, distinguindo entre divindades maiores e
divindades menores. A Roma papal, cópia fiel do
paganismo, também procedeu do mesmo jeito. Isto nos traz
à memória um texto bíblico em que aparece uma situação
análoga: “Assim estas nações temiam ao SENHOR e serviam
as suas imagens de escultura; também seus filhos, e os
filhos de seus filhos, como fizeram seus pais, assim
fazem eles até o dia de hoje” (2Rs 17.41; grifo do
autor).
O correto uso dos vocábulos da Bíblia
Os termos gregos dulia e latria não têm nenhuma
semelhança com a definição que lhes dá o catolicismo.
Podemos desmontar este arcabouço doutrinário levantado
pela teologia romanista simplesmente recorrendo ao
original grego do Novo Testamento.
Dulia: é derivado do verbo grego douléuo, cujo
equivalente é “servir”, “ser escravo”, “subserviente”.
Este verbo é usado para expressar o nosso dever de
servir a Deus, e aparece em passagens como:
Mateus 6.24
“Ninguém pode servir (douleuein) a dois senhores...”
Atos 20.19
“Servindo (douleuôn) ao Senhor com toda a humildade...”
Romanos 12.11 (V. tb. 14.18)
“Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no
espírito, servindo (douleuontes) ao Senhor”
Latria: o termo aparece nas escrituras gregas cristãs
como adoração como culto, ritos, cerimônias, serviços
exteriores. Vejamos alguns exemplos de seu uso:
João 16.2
“Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que
qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço (latreian)
a Deus”.
Romanos 9.4 (V. tb.12.1)
“Que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a
glória, e as alianças, e a lei, e o culto (latreia), e
as promessas”
Hebreus 9.6 (V. tb. 9.1)
“Ora, estando estas coisas assim preparadas, a todo o
tempo entravam os sacerdotes no primeiro tabernáculo,
cumprindo os serviços (latreias)”
A palavra comumente usada na Bíblia Sagrada para
adoração é proskyneo, cujo significado, entre outros, é
prostrar-se e adorar, e não latreia. Vejamos:
Mateus 4.10
“Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está
escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás (proskunêseis), e
só a ele servirás (latreuseis)”
Tanto o culto de latria quanto o de dulia devem ser
prestados somente a Deus, e a mais ninguém. Somente
diante de Deus devemos nos prostrar e somente a Ele
devemos servir. Portanto, servir a alguém em sentido
religioso que não seja o próprio Deus é declaradamente
idolatria, e foi essa a censura do apóstolo Paulo quando
escreveu aos gálatas reprovando a vida idólatra que
outrora levavam.
“Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por
natureza não são deuses” (Gl 4.8).
No original grego aparece a palavra dulia. Era
justamente este o tipo de culto que os gálatas prestavam
aos seus deuses, mas nem por isso Paulo os poupou de
serem chamados de idólatras.
Aos tessalonicenses, o apóstolo diz o seguinte: “Porque
eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos
para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a
Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro” (1Ts 1.9).
Diante disso, entendemos que o culto de dulia deve ser
prestado com exclusividade a Deus, ficando claro que o
apóstolo, ao usar o termo dulia, condena esta
superstição com a mesma força com que a condenaria com o
termo latria” (Institutas, livro I, cap. 12).
O que é hiperdulia?
A definição do dicionarista para o prefixo hiper é:
“posição superior; além; excesso”. Será que com o culto
de hiperdulia os católicos não estariam cultuando a
Maria acima e além de Deus e, conseqüentemente,
transformando-a em um ídolo? As Escrituras nunca
registram uma hiperdulia para Deus, mas apenas a dulia,
já os católicos querem prestar a Maria um culto ou
serviço superior ao que é prestado ao próprio Deus, ou
seja, uma hiperdulia!
Para que nenhum católico diga que estamos jogando com as
palavras para acusá-lo falsamente, vejamos o que afirma
o livreto intitulado “Com Maria rumo ao novo milênio”,
da editora Paulus:
“Houve um tempo em que os católicos veneravam demais os
santos. Esqueceram-se um pouco de Jesus. Ele até parecia
um santo ao lado dos outros...” (p. 13; grifo do autor).
Evidências disso são os títulos “santóides” conferidos a
Jesus, tais como: “São Bom Jesus dos Milagres” e “Senhor
Jesus do Bonfim”, entre outros.
Se isto não for idolatria, então não sabemos mais o que
poderia ser!
Todavia, os fatos falam por si só. E a questão em pauta
envolve fatos, e não nomes. Alguém já disse que “contra
fatos não há argumentos”. Não adianta querer esconder a
situação espiritual em que os católicos se encontram com
sutilezas e supostas distinções de palavras. Suas
práticas constituem-se em atos de adoração explícita, ou
seja, quando um católico se prostra diante de uma imagem
de Maria e lhe faz pedidos, isto é idolatria.
Onde está a diferença da qualidade do culto que prestam
a Deus, aos santos ou a Maria e suas imagens? Ela
desaparece por completo no desenrolar da adoração do
fiel.
Por tudo isso é que não podemos aceitar a sutileza usada
pelos teólogos católicos para diferenciar os tipos de
culto que prestam em seus “arraiais”.
Oremos para que o Espírito Santo conceda-lhes
oportunidades de reconhecer, em tempo oportuno, aquele
que é o único digno de adoração. De verdadeira adoração!
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