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Quer pagar
quanto?
Por Elvis Brassaroto Aleixo
A pergunta que intitula este artigo nos traz à memória
um apelo publicitário que pode ser classificado hoje
como um dos convites exponenciais ao consumismo
desenfreado e desnecessário em nosso país. A nossa
intenção não é filosofar sobre as teorias e práticas do
segmento das vendas, do marketing, etc., todavia, é
inegável que tais apelos produzem resultados lucrativos.
É claro que para os consumidores que têm necessidade de
determinado produto, decidir quanto querem pagar por ele
é uma proposta bastante tentadora, apesar de sabermos
que as coisas não funcionam exatamente assim. E o que
dizer ainda das ofertas que propõem benesses gratuitas
do tipo “pague duas e leve três” ou semelhantes? Estas
supostas gratuidades são ainda mais apelativas e nunca
passam despercebidas.
Dívidas, dívidas e mais dívidas. No âmbito secular,
todos nos empenhamos para honrar nossos pagamentos.
Queremos nos livrar das dívidas. Entretanto, é curioso
como na esfera espiritual os caminhos são diferentes.
Ocorre um fenômeno! Os homens querem comprar o que não é
possível à sua condição deficiente. Fazem questão de
contrair uma dívida impagável. Querem negociar com Deus
a salvação de suas almas, como se isso fosse possível,
como se o ato redentivo fosse um mero produto a
disposição em uma vitrine ou prateleira. Neste caso,
porém, a moeda indicada à transação é diferente. Querem
comprar a salvação por meio da aquisição de conhecimento
e sabedoria humanas, da ioga e meditação, do ascetismo
(abstenção de quaisquer tipos de prazeres), da
autoflagelação, da observância de leis (especialmente a
mosaica), da observância de rituais (especialmente o
batismo), da filantropia (obras de caridade), da
penitência e sacramentos, da resignação diante do ciclo
de reencarnação (samsara, carma), da fidelidade
exclusivista a uma determinada instituição religiosa,
enfim... a lista é quilométrica.
O que nos chama a atenção é que grande parte desta
tendência pode ser encontrada entre as inúmeras facções
“cristãs”, isto é, entre aqueles que professam exercer
fé nas Escrituras neotestamentárias. Esses grupos
desmerecem e desqualificam a cruz de Cristo quando
impõem aos fiéis normas religiosas para a salvação. É
como se eles se colocassem na posição de consumidores e
se candidatassem a responder à pergunta: “Quer pagar
quanto?”. Cada um deles tem sua proposta. Mas a triste
notícia é que nenhum deles consegue, com todo o seu
esforço e às vezes até sinceridade, proporcionar a
aquisição dessa grande bênção espiritual (a salvação),
ainda que estejam seguros de seu êxito. Esta heresia é
introduzida pelo inimigo de nossas almas de forma
sorrateira e traz satisfação pessoal aos seus cultores.
A salvação pelas obras é um dos estigmas mais patentes
das seitas. Não há um grupo sequer que não detenha esta
“cicatriz”.
A resposta capital sobre esta questão é conhecida dos
leitores de Defesa da Fé. Conhecemos de cor (de memória)
o texto bíblico áureo que se opõe à salvação por méritos
humanos: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé;
e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras,
para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). A clássica
definição da graça divina é de que ela é um favor
imerecido, entretanto, podemos ir além e acrescentar que
este favor é demonstrado onde há absoluto demérito da
pessoa que a recebe. Como disse Agostinho, “a graça de
Deus não encontra homens aptos para a salvação, mas
torna-os aptos a recebê-la”. Esta é sua essência. As
obras revelam o caráter de nossa fé, mas não podem
comprar nossa salvação. Quando as obras são meritórias
para a salvação, a graça não pode atuar: “Mas se é por
graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça
já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais
graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Rm 11.6).
Temos um pequeno resumo explicativo acerca do assunto,
escrito por Paulo, quando comenta sobre o pecado
original (adâmico) e a reconciliação efetuada por
Cristo, “o reino da graça”: “... Porque, se pela ofensa
de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o
dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo,
abundou sobre muitos [...] Porque o juízo veio de uma só
ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito
veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se
pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito
mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da
justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois
assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os
homens para condenação, assim também por um só ato de
justiça veio a graça sobre todos os homens para
justificação de vida. Porque, como pela desobediência de
um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela
obediência de um muitos serão feitos justos. Veio,
porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o
pecado abundou, superabundou a graça; para que, assim
como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse
pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso
Senhor” (Rm 5.15-21).
Lembremo-nos de que “nada que não seja gratuito pode ser
seguro para os pecadores [...] A não ser que sejamos
salvos pela graça, não poderemos absolutamente ser
salvos” (Charles Hodge). Tomemos cuidado e estejamos
sensíveis para não barganharmos tão grande salvação (Hb
2.3). Tudo já foi sacramentado (Jo 19.30), a cédula que
nos era contrária foi invalidada e cravada na cruz (Cl
2.14) e não fomos comprados com coisas corruptíveis, mas
com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro
imaculado e incontaminado (1Pe 1.18,19). Esta será
sempre a nossa resposta à pergunta que intitulou este
artigo.
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