Oswaldo Prado

BRASIL, UMA NAÇÃO EVANGÉLICA?

Por Jamierson Oliveira


Quando se fala em pesquisa sobre o universo religioso brasileiro e, especificamente, o universo evangélico, o primeiro nome que nos vem à mente é o do pastor Oswaldo Prado. Mestre em Teologia, com especialização em Missiologia, e doutorando em Ministérios pela Faculdade Teológica Sul Americana, ele coordena o Brasil 2010, o mais completo e dinâmico projeto de pesquisas sobre a Igreja evangélica brasileira. O alvo do projeto é audacioso: plantar estrategicamente 100 mil novas igrejas em todo o território nacional. Pastoreou durante vinte anos a Igreja Presbiteriana Independente do Ipiranga, SP, e a autoridade com que fala sobre o tema é fruto da experiência vivida na prática e acumulada durante todo esse período, o que pode ser percebido nas respostas à entrevista que concedeu à Defesa da Fé de seu escritório em Londrina, PR.

Defesa da Fé – Como a geografia deste Brasil gigantesco afeta a religiosidade do brasileiro?

Oswaldo Prado – Trata-se de uma tarefa quase utópica tentar resolver esta equação entre a religiosidade brasileira e a sua geografia. Vivemos definitivamente num país de dimensões continentais. Além disso, somos um povo miscigenado, não somente de culturas, mas de espiritualidades, as mais variadas. Sendo assim, temos descoberto alguns fatos interessantes. Hoje, por exemplo, a região Norte do Brasil é uma das mais densas em termos de população evangélica. Encontramos altos índices de presença evangélica em Estados como Roraima e Rondônia. Em uma recente pesquisa feita em Manaus pelo Projeto Brasil 2010, encontramos mais de duas mil igrejas evangélicas, algo inimaginável até tempos atrás. Por outro lado, o sertão nordestino carrega uma herança fortemente católica e sincretista. Se rumarmos para o extremo Sul do país, encontraremos o secularismo e as seitas, como, por exemplo, Umbanda e Candomblé, avançando de maneira surpreendente, fazendo que o Rio Grande do Sul seja hoje o Estado onde os evangélicos menos crescem e as seitas afro-brasileiras mais avançam. Este é o nosso Brasil, tão extenso territorialmente e com tantos desafios para se tornar uma nação efetivamente cristã.

Defesa da Fé – Qual é a sua análise geral da amostragem religiosa do último Censo do IBGE?

Oswaldo – Mesmo tendo avançado muito na década de 80, com um crescimento de mais de 5% ao mês, fiquei agradavelmente surpreso com os números mostrados no Censo 2000 em relação aos evangélicos brasileiros. Superamos a marca de 70% de crescimento em uma década, o que, convenhamos, é algo extraordinário, e também inusitado. Se nestes últimos quatro anos crescemos nos mesmos níveis da década de 90, já somos aproximadamente 35 milhões de evangélicos e 19% da população brasileira. Um dado importante a ser colocado é que estes números refletem todos aqueles que, de alguma forma, se declaram evangélicos. Assim, inclui-se dentro deste contingente boa parte de evangélicos nominais que raramente participa do dia-a-dia das igrejas.

Defesa da Fé – Um dado que me chamou a atenção: 7,4% dos brasileiros se declararam sem religião. Como o senhor interpreta este fato?

Oswaldo – Poucos têm dado atenção a este fato do crescimento daqueles que se declaram “sem religião”. Na verdade, quem cresceu mais na década de 90 depois dos evangélicos foi este grupo. E tudo indica que continuam crescendo, especialmente nas camadas mais intelectualizadas da população. Ou seja, entre os universitários, entre os que promovem as artes e a cultura e entre os livres pensadores. Um fato preocupante é que a Igreja não parece estar tão atenta a tudo isso, e tem saído em busca da evangelização de outros grupos. A meu ver, a Igreja, aparentemente, não dispõe hoje de ferramentas adequadas para dialogar com esse grupo. E isso me faz lembrar o que disse Francis Schaeffer, pensador cristão, quando servia junto aos universitários na Suíça: “A Igreja está normalmente quinze anos atrás daquilo que hoje está acontecendo no mundo”.

Defesa da Fé – Há evangélicos nesse grupo?

Oswaldo – Não saberia dizer se há evangélicos entre esse grupo. Mas, certamente, existem muitos que estavam em nosso meio e hoje se declaram totalmente desiludidos com a religião. E o rumo destes, normalmente, é tornarem-se alheio a tudo aquilo que diga respeito ao evangelho. As portas de saída da Igreja também têm sido largas, e, às vezes, o desejo incontrolável de crescimento a todo custo tem provocado toda sorte de decepções na vida de muitos cristãos.

Defesa da Fé – E quanto aos grupos que aparecem no Censo 2000 com baixa expressividade no Brasil, o que acontece com essas religiões?

Oswaldo – O maior crescimento negativo mostrado pelo Censo 2000 ocorreu exatamente com o grupo que detém o maior porcentual de adeptos no Brasil. A Igreja Católica Romana perdeu praticamente 20% de fiéis entre 1990 e 2000, e tudo indica que este processo de encolhimento prossegue. Há outros grupos vinculados etnicamente, mas, por serem pequenos, têm, conseqüentemente, pouca expressividade. Aqui estão incluídos o hinduísmo, o budismo e o islamismo que, no Censo 2000, totalizavam aproximadamente 250 mil adeptos. Outros grupos religiosos, como, por exemplo, a Umbanda, o Candomblé e o próprio espiritismo, se mostram ainda com pequena representatividade oficial (em torno de três milhões de adeptos), mas, certamente, estão inseridos na vida de muitos que preferem não declarar que pertencem a estas religiões, o que demonstra que vivemos imersos em um grande universo sincretista.

Defesa da Fé – E quanto aos evangélicos, visto que já se passaram 150 anos desde a chegada dos primeiros missionários no Brasil? Qual é a avaliação que podemos fazer?

Oswaldo – A história dos evangélicos no Brasil é bastante recente, se tomarmos em conta a herança da Reforma protestante. Passamos por algumas fases no decorrer desse processo. A primeira delas, diz respeito à inserção missionária, a partir da metade do século 19, quando a presença mais marcante foi dos congregacionais, metodistas, presbiterianos e batistas. O início do século 20 marca a entrada dos pentecostais, em especial da Assembléia de Deus, que vai detonar o começo de um processo de pentecostalização crescente em nosso meio. A partir da década de 70, nasce, de forma mais visível, o movimento neopentecostal, espalhando-se por todo o país e tornando-se responsável por um novo paradigma de espiritualidade. Então começa a imperar os postulados da teologia pentecostal, mas sem a presença forte dos dogmas de usos e costumes. O Censo 2000 mostrou claramente que dois terços, aproximadamente, dos evangélicos brasileiros são pentecostais ou neopentecostais.

O que dizer de tudo isto? Claro que, nestes últimos tempos, temos visto sinais positivos da presença evangélica. Em muitos cantos deste país, há ilustres anônimos e desconhecidas igrejas realizando a missão integral da Igreja, levando o evangelho, mas cuidando também das desgraças da nossa sociedade corrompida e injusta. Existem movimentos missionários fazendo que brasileiros sejam enviados para muitos lugares do mundo. Percebe-se, com isso, um processo de conscientização da missão da Igreja, tanto em Jerusalém como até os confins da terra. Mas existem também movimentos visíveis agindo de modo contrário a tudo isso. A Igreja nunca buscou tantos holofotes para si mesma. Ou seja, uma busca desenfreada de crescimento sem levar em conta o discipulado e a maturidade na fé cristã. Muitos líderes lutam para ser reconhecidos pelo seu sucesso e não por seu comprometimento com a cruz. Em suma, a religião se tornou um bom negócio, mesmo que se tenha de jogar a ética fora. Estamos vivendo um grande paradoxo. São dias de avanço sem precedentes, mas também dias de grande perigo. O nosso Deus não troca sua glória com ninguém.

Defesa da Fé – Diante disso, podemos afirmar que ainda precisamos de missionários em “Jerusalém”?

Oswaldo – Ainda falta muito para que a nossa nação seja alcançada pelo evangelho de Cristo. Percebo muito ufanismo nos dias de hoje no meio dos evangélicos. Às vezes, a impressão que temos é de que a tarefa já foi concluída. O Brasil 2010, por sua coordenação de pesquisa, não tem procurado somente levantar informações sobre como anda a Igreja nos mais variados pontos da nação, mas também trabalhar na conscientização da necessidade da evangelização de inúmeros povoados, tribos e cidades em nossa nação. De um total de 5560 municípios brasileiros, o Censo 2000 mostrou que existem 1132 com menos de 5% de evangélicos. As grandes metrópoles, como Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, continuam sendo enormes desafios para a evangelização. O desafio da simultaneidade de missão permanece; ou seja, devemos enviar missionários para outros povos da terra, mas também precisamos alcançar a nossa “Jerusalém”.

Defesa da Fé – O senhor acredita numa crise do modelo atual de evangelização?

Oswaldo – Não acredito que exista um só modelo de evangelização. Na verdade, o próprio Jesus foi extremamente criativo, usando diversas situações para compartilhar as boas-novas. O que mais temos aqui no Brasil são modelos. Infelizmente, a maioria deles importada, e descontextualizada. O que parece estar em crise é o próprio evangelho, que tem sido, muitas vezes, deturpado e relativizado. Já foi o tempo em que se pregava sobre a simplicidade do evangelho de Jesus; isto é, sobre arrependimento e fé. Hoje em dia, adicionamos outros ingredientes para torná-lo mais atraente aos nossos ouvintes. Exatamente por isso “a mensagem da cruz” tem rareado e tem sido difícil ouvir sobre Jesus, por mais incrível que isso possa parecer.

Defesa da Fé – Diante deste quadro, como entender o chavão evangélico “O Brasil pertence ao Senhor Jesus”?

Oswaldo – Frases lapidares como essa têm-se tornado comum em nosso meio. Infelizmente, declarar certas expressões não produz necessariamente a transformação da nossa nação. O que a Bíblia ensina é que temos de pregar. Valeria a pena indagar: “Se o Brasil já pertence ao Senhor Jesus, por que ainda vivemos em um país corrupto, repleto de injustiças, e onde a saúde e a educação são privilégios de poucos?”. Declarações de conteúdo positivo podem ajudar na motivação, mas resta saber se estamos dispostos a pagar o preço de levar esta mensagem a todos os povos da terra. Melhor seria substituirmos estas frases por aquela dita por Bartimeu, diante de Jesus: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”.

Defesa da Fé – Qual é a proposta do projeto Brasil 2010 para se alcançar essas cidades?

Oswaldo – A nossa visão é permitir que haja, ainda nesta geração, uma igreja acessível a cada pessoa em nosso país, o que significaria uma igreja local para cada mil pessoas. Para nós, a questão fundamental é a acessibilidade. Como permitir que isso aconteça? Trabalhamos em três áreas: visão (para que haja despertamento para plantação de novas igrejas), oração (para que o Senhor envie os obreiros e o Espírito Santo realize a obra) e pesquisa (para que sejamos estratégicos e saibamos onde estão as cidades menos alcançadas).

Defesa da Fé – Essa estratégia inclui as comunidades étnicas?

Oswaldo – O projeto Brasil 2010 é fundamentalmente inclusivo quanto às comunidades que precisam ser alcançadas. Com isso, estamos procurando servir não somente este ou aquele grupo, mas, se possível, o maior número de grupos etnolingüísticos presentes em nossa nação. Temos trabalhado em parceria com as organizações missionárias que têm agido com as tribos indígenas, atuado junto às chamadas tribos urbanas e voltado os nossos olhos para as tribos ribeirinhas da Amazônia e do sertão nordestino.

Defesa da Fé – Como foi estabelecido o critério de uma igreja para cada mil pessoas?

Oswaldo – A visão do Brasil 2010 tem sua origem num projeto iniciado nas Filipinas, na década de 1970, quando igrejas, denominações e pastores se uniram para plantar 50 mil novas igrejas naquele país até o ano 2000. Isso significava ter uma igreja acessível para cada mil habitantes. Este alvo não somente foi alcançado pela igreja das Filipinas, mas ultrapassado. Na verdade, trata-se apenas de um critério, pois entendemos que: se uma igreja for plantada estrategicamente poderá servir coisa de mil pessoas na região em que for estabelecida. Estimamos, hoje, que existam cerca de 150 mil templos evangélicos em todo o Brasil, e o alvo do nosso projeto é 250 mil até o ano 2010.

Defesa da Fé – Qual é o valor necessário que deve ser investido para que esses objetivos sejam atingidos?

Oswaldo – No que tange ao sustento dos coordenadores nacionais e regionais do projeto Brasil 2010, somos todos missionários que levantam seu próprio sustento. Além disso, grande parte do trabalho de pesquisa em muitas cidades do nosso país tem sido realizada por voluntários que acreditam na visão de plantação de novas igrejas. Sobre os 100 mil templos previstos, há uma forte herança no meio do povo evangélico de que a igreja está associada ao templo. A chamada teologia do santuário se faz presente de forma intensa. Temos nos tornado muito mais uma religião de templos do que uma comunidade do Reino. Isto provoca conseqüências bem claras, no que diz respeito ao “custo” de plantarmos novas igrejas. Mas não temos, de forma alguma, desprestigiado aqueles que desejam construir templos. Mas, por outro lado, temos incentivado pastores e denominações a buscarem saídas de custo menor, para que todos os recursos de que disponham sejam, prioritariamente, investidos em pessoas e não em estruturas. Espero que os leitores desta revista façam contato comigo! (www.brasil2010.org.br)

 

 

 

 


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