José Carlos Alcântara da Silva

O desafio de traduzir a Bíblia

Por Jairo de Oliveira

O pastor José Carlos Alcântara da Silva é presidente da ALEM — Associação Lingüística Evangélica Missionária —, com sede em Brasília, DF, doutorando em ministério e professor doAcampamento de Sobrevivência na Selva, unidade da missão destinada a treinar candidatos ao campo missionário nas situações mais extremas. Mas foi por conta do projeto Visão 2025, com o qual está envolvido, e cujo desafio é a tradução da Bíblia, que conversamos com ele a fim de entendermos melhor esta que é a mais nobre missão da Igreja. Eis o resultado!

Defesa da Fé – Atualmente, qual é a dimensão do desafio mundial dos grupos lingüísticos para a tradução da Bíblia?

José – Segundo os dados mais recentes, cerca de três mil línguas carecem das Escrituras, totalizando quase 400 milhões de pessoas que não podem ler um versículo sequer da Bíblia em sua língua materna. Esse número representa um pouco mais da população da América Latina, que é de 348 milhões de habitantes. As estatísticas mais conservadoras falam em 250 milhões de pessoas sem a Bíblia, o que não deixa de ser um número alarmante.

Defesa da Fé – Qual é a relevância da tradução da Bíblia para os povos minoritários?

José – Certa vez, William Cameron Tawnsend (Fundador da Associação Wicliffe para Tradução da Bíblia) estava na Guatemala e falou a respeito do evangelho para um indígena daquele país. No final da conversa, aquele indígena indagou a Tawnsend: “Se o seu Deus me ama tanto, e se Ele se importa comigo, por que então não fala a minha língua?”. Creio que esta pergunta responde a questão.

È a língua materna que fala ao nosso coração. O rei Dario baixou um decreto para que todos os povos, nações e pessoas de diferentes línguas relacionadas ao Império babilônico temessem ao Deus de Daniel (Dn 6.25,26). No dia de pentecostes, os povos reunidos ouviram a Palavra de Deus em sua própria língua (At 2.8).

Uma equipe da ALEM e da SIL foi ministrar o curso “Escrituras em uso”, em Guiné Bissau. No final do treinamento, um pastor, depois de ter aprendido a ler e a escrever na sua própria língua, afirmou o seguinte, com muito orgulho: “Eu lia e até pregava em português (falado apenas por 10% da população, apesar de ser a língua oficial do país), mas a língua que me corta o coração é o papel”, sua língua materna.

A língua materna é um tesouro que cada pessoa, cada grupo, cada nação carrega dentro de si. Deus valoriza muito este tesouro.

Defesa da Fé – Em média, qual é o tempo necessário para se traduzir a Bíblia para uma língua ágrafa?

José – É variável de acordo com o contexto, com a proximidade da língua com aquelas já analisadas ou tenham as Escrituras traduzidas. Há casos em que foram dedicados quarenta anos para que a tradução fosse concluída, enquanto outros o trabalho foi possível em um período menos longo. O evento da informática trouxe grande ajuda para os tradutores. Uma adaptação do Novo Testamento de uma língua que já tenha tradução para outra pode ser feita em cinco anos.

Defesa da Fé – Qual é a sua maior crítica ao movimento missionário brasileiro nas últimas décadas?

José – Antes de qualquer crítica, temos de acentuar que existem muitos pontos positivos no movimento missionário brasileiro. A falta de preparo dos nossos missionários tem sido um ponto de discussão há alguns anos, e isso tem contribuído para mudanças. Sinto que há uma ênfase exacerbada em determinadas áreas em detrimento de outras. As organizações missionárias e as igrejas têm concentrado esforços nos grupos majoritários, esquecendo-se dos minoritários. A igreja e seus missionários não podem eleger alguns povos e condenar outros ao esquecimento.

Muitas vezes, nossos missionários realizam o trabalho de forma tradicional. Ou seja, repetem-se as mesmas metodologias de trabalho da igreja de origem sem analisar o contexto cultural, social e lingüístico dos povos com os quais lidam e, assim, reproduzem a cara da igreja brasileira em outro país. Procedimento esse que criticamos em demasia quando pensamos naqueles que nos legaram a nossa herança religiosa.

Muitos irmãos, especialmente da África, têm reclamado da postura colonialista dos nossos missionários, que, muitas vezes, querem impor algumas coisas que, simplesmente, são bagagens culturais ou acessórios dispensáveis ao evangelho.

Além do mais, criaram-se alguns estereótipos em relação aos missionários, como: só são missionários de fato aqueles que vão para a África, para os países muçulmanos e, de preferência, a lugares em que haja perseguição e corra bastante sangue. Ser missionário na América Latina não dá status e, aqui no Brasil, às vezes, não há reconhecimento nem desperta o interesse da maioria das igrejas.

O missionário que lida com os indígenas, por exemplo, é tido, quase sempre, como alguém que não tem outras habilidades. Ou seja, não serve para nada. No entanto, deve ser a pessoa mais qualificada possível, para que desenvolva bem o trabalho. Isso por tratar-se de uma área do ministério que demanda homens e mulheres altamente preparados, tanto academicamente quanto espiritualmente. Para dar aulas numa escola indígena, por exemplo, há a necessidade de uma formação de terceiro grau. Se uma pessoa não serve para a igreja, muito menos para o trabalho missionário, sobretudo para o trabalho indígena. Ela estaria prestando um desserviço ao povo e ao reino de Deus.

Defesa da Fé – O que é a Visão 2025?

José – Em 1999, pesquisadores constataram que há no mundo cerca de três mil línguas sem a Bíblia. Diante dessa realidade, elaborou-se um megaprojeto denominado Visão 2025, cujo alvo — mediante parceria entre organizações missionárias e igrejas evangélicas do mundo inteiro — é alocar uma equipe de tradutores da Bíblia em cada língua que necessite até o ano 2025.

Defesa da Fé – De que maneira o senhor acredita que a Igreja brasileira pode responder a estes desafios?

José – A Visão 2025 é, acima de tudo, um chamado de urgência diante da necessidade dessas línguas. No ritmo em que andava a tradução, seriam necessários 150 anos para alcançar todas as línguas. Com a proposta da Visão 2025, em pouco mais de vinte anos teremos a presença de tradutores e, conseqüentemente, de missionários em todas elas. Em segundo lugar, a Visão 2025 é um chamado às parcerias. Sozinhas, as organizações missionárias, as pessoas, e muito menos as igrejas, dariam conta de uma tarefa tão gigantesca. Mas, como disse um pastor de Papua Nova Guiné: “Juntos, nós podemos”. A igreja pode responder a esse desafio motivando e disponibilizando profissionais para a tradução da Bíblia e cedendo outros para trabalhos de apoio e formação, servindo com seus dons. Sua resposta, ainda, pode vir por meio de suporte financeiro às pessoas, aos missionários tradutores e às organizações missionárias, para que todos possam desenvolver seus projetos, além de um grande movimento de oração pela tradução da Bíblia, o que é indispensável!

Defesa da Fé – O que é a ALEM e como surgiu?

José Carlos – A Missão ALEM, fundada em 12 de agosto de 1982, é uma associação civil, de direito privado, sem fins lucrativos, de cunho científico, caráter humanitário e objetivo religioso, cuja missão é, por meio da tradução da Bíblia, ajudar a Igreja brasileira a fazer discípulos de todas as nações. Para atingir seus objetivos, a ALEM recruta, treina e envia tradutores da Bíblia.

Defesa da Fé – Ao longo desses anos, de que maneira a missão tem participado do movimento missionário brasileiro?

José – Ao longo de sua história, a ALEM já treinou, na área de lingüística, cerca de seiscentos missionários, candidatos ao campo, que fizeram o Curso de Lingüística e Missiologia — CLM. Muitos estão espalhados pelo mundo inteiro, representando a Igreja brasileira e as organizações às quais estão filiados. Com o treinamento que recebem nas áreas de lingüística, antropologia cultural, educação bilíngüe e intercultural, os missionários que passam pelo nosso treinamento adquirem ferramentas que facilitam bastante o seu trabalho em outros contextos culturais, como aprendizado e análise da língua, identificação cultural, desenvolvimento de um projeto de educação, etc.

Defesa da Fé – Além dos projetos desenvolvidos no Brasil, quais são os projetos desenvolvidos fora do país?

José – Atualmente, temos uma parceria com a Igreja evangélica de Guiné Bissau, onde temos atuado mais na área de treinamento de consultores de educação, tradução e lingüística. O próximo passo será a locação de equipes que poderão trabalhar em projetos de tradução. Diante dos desafios da Visão 2025, pretendemos enviar algumas equipes para Papua Nova Guiné, onde cerca de quatrocentas línguas carecem das Escrituras e, também, para outros países em que haja necessidade de tradutores da Bíblia. Isto será feito por meio de parcerias com igrejas e outras organizações missionárias que, de alguma maneira, possam nos apoiar em projetos de tradução.

Defesa da Fé – O Curso de Lingüística e Missiologia (CLM) é considerado, pelas outras agências missionárias, o melhor curso lingüístico do Brasil. Quais são as razões para tamanho respeito?

José – Não nos consideramos os melhores, mas procuramos fazer o melhor. A formação acadêmica dos nossos professores ajuda bastante. Mas é o nosso compromisso com o reino de Deus, a nossa paixão pelos povos e o nosso desejo de vê-los todos com a Palavra de Deus na língua que lhes fala ao coração que nos dão esse respaldo e nos motiva muito a nos aprimorarmos cada vez mais no treinamento que oferecemos.

 

 

 

 


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