Márcia Tostes

SOLDADOS FERIDOS

Por Jamierson Oliveira


Márcia Tostes é missionária junto à Missão Antioquia, onde serve como diretora do Programa de Treinamento e Cuidado Integral dos Missionários, e membro da Comissão de Missões da aliança Evangélica Mundial. Sua visão quanto ao cuidado do missionário teve início na Inglaterra, país em que ela e seu esposo, Silas Tostes, receberam treinamento missionário no All Nations Christian College. Desde então, vem se especializando no assunto. É formada em enfermagem e obstetrícia pela Universidade Estadual de Londrina (PR), e em habilidades e atitudes em aconselhamento pela Westminster Pastoral Fondation, em Londres, com especialização em Terapia Familiar Sistêmica, pelo Instituto de Formação em Terapia Familiar em São Paulo. Tem dois filhos: André e Lucas. Vejamos o que tem a dizer na entrevista que segue.

Defesa da Fé – Como você desenharia a trajetória missionária da igreja brasileira nesses últimos anos?

Márcia Tostes – Vou delimitar-me aos últimos 30 anos da história. Acredito que no primeiro momento, durante os anos 70, houve um despertar missionário muito expressivo, o que pode ser constatado pelo aparecimento de várias agências missionárias brasileiras. Depois disso, houve um outro momento, com um despertamento mais voltado para as igrejas locais. Creio que, atualmente, estamos vivendo um momento de entendimento entre igrejas e agências e, por conta disso, estamos aprendendo que precisamos trabalhar em parceria. Mas, apesar deste crescimento, do envolvimento missionário e do entrosamento entre igrejas e agências, e depois de tantas conferências e congressos, ainda há muitas igrejas que não fazem missões.

Defesa da Fé – Você vê mais erros ou acertos nesses 30 anos de atividades evangelísticas transculturais?

Márcia – Vejo erros e acertos, mas, acima de tudo, vejo um desejo de aprender. Como, por exemplo, na questão do treinamento missionário. Após uma pesquisa, feita pela SEPAL, ficou demonstrado que o maior fator de retorno prematuro dos missionários é devido aos problemas ligado à área de caráter. E o imediatismo ao enviar, excluindo o preparo pré-campo, contribuiu fortemente para que isso ocorresse, levando muitos ao fracasso. É sabido que o missionário, que será um evangelista em outra cultura, um plantador de igrejas, precisa de base bíblica, teológica, missiológica e antropológica. Presumindo que o missionário já é um experiente obreiro e já fez seminário, se passasse por um conceituado curso de preparo sofreria menos no campo. Não porque seria imune às lutas e às crises, mas simplesmente porque saberia o que estaria ocorrendo com ele. Mas está havendo uma grande ênfase sobre estas questões nos treinamentos atuais.

Defesa da Fé – Um fenômeno curioso que podemos perceber é a maior participação das mulheres na história missionária. Arriscaria uma opinião sobre os motivos disso?

Márcia – Acho que é resultado direto do grande número de mulheres nas igrejas, seminários, etc. Em nenhum momento, queremos excluir a importância de homens consagrados que Deus usa por todo o Brasil e nos campos. Contudo, não podemos relevar o fato também comprovado em outra pesquisa da SEPAL, que mostra que os casais somam a maior porcentagem dos missionários brasileiros atuando em campos transculturais.

Defesa da Fé – Como elas estão lidando com o mundo muçulmano, por ser um mundo extremamente machista?

Márcia – Exatamente pelos desafios próprios dos países muçulmanos quanto às diferenças de gênero que há um campo muito amplo entre as mulheres. Enquanto os homens só podem trabalhar com homens, mulheres só podem trabalhar com mulheres. Sendo assim, para aquela realidade as mulheres são indispensáveis. Só não se aconselha missionárias solteiras, porque na cultura islâmica todas as mulheres devem ser casadas.

Defesa da Fé – O mundo ainda continua esperando missionários brasileiros ou isso foi mais romantismo da nossa parte?

Márcia – Acredito que os brasileiros podem sim contribuir, e muito, para o avanço da obra missionária em todo o mundo. Mas pensarmos que o mundo está “clamando” por missionários brasileiros chegar a ser uma atitude orgulhosa de nossa parte. Creio que Deus espera da Igreja brasileira, grande ou pequena, o mesmo que o Senhor espera da igreja indígena, ou de outras: que façam missões!

Defesa da Fé – Em quais áreas o missionário brasileiro leva vantagem no contexto transcultural?

Márcia – Na nossa cultura, existe um traço muito forte conhecido por todos, o famoso “jeitinho brasileiro”. Este é um fator que tanto pode ser positivo quanto negativo. Falando positivamente, este traço torna os brasileiros pessoas extremamente versáteis, flexíveis e de fácil adaptação. Estes ingredientes têm ajudado os brasileiros a fazer muitos amigos nos campos, facilitando a evangelização. Por outro lado, esta característica pode ser perigosa, pois, muitas vezes, o brasileiro não respeita as regras e as convenções sociais, culturais, etc, esperando sempre dar o nosso famoso “jeitinho”.

Defesa da Fé – São por estas razões que a maioria deles volta do campo?

Márcia – Podemos dizer que sim. Veja bem, o famoso jeitinho pode ser usado na hora do envio, “escapando” do treinamento, das exigências de vistos próprios, do sustento necessário, etc. Quando as dificuldades (já esperadas!) aparecem, são poucos os que perseveram, tanto de um lado como do outro. Explicando, os órgãos enviadores, muitas vezes, não perseveram nos acordos feitos com o missionário, que também é enviado sem o devido preparo para o campo.

Defesa da Fé – Sobre este ponto, como a igreja está pastoreando seus obreiros transculturais?

Márcia – Muitas igrejas estão mais responsáveis e preocupadas. Lembrando que os problemas de famílias missionárias podem ser muitos e complexos, como perca das raízes com a pátria e a igreja enviadora, indefinição quanto à identidade cultural e racial dos filhos e noções diferentes da gravidade quanto ao pecado, entre outros pontos. Se associarmos outros conflitos eclesiásticos e de personalidade a isso tudo, podemos dizer que os nossos missionários precisam ser muito bem acompanhados. É importante saber também que o cuidado pastoral com o missionário vai desde as pequenas coisas, como comunicação ativa, visita no campo e uma boa recepção, tanto para o obreiro quanto para sua família, além de pensar em sua aposentadoria e seguro de vida. Tenho visto aumentar o interesse por estas questões, além da necessidade de apoiar melhor financeiramente o missionário no campo.

Defesa da Fé – Este é o ano do 4º CBM – Congresso Brasileiro de Missões. O que deveria mudar em nossas estratégias e metodologias? Márcia – Na estratégia, penso que devemos priorizar várias áreas, simultaneamente. Em primeiro lugar, devemos manter ativa a conscientização da igreja local. Em segundo, alcançar os não-alcançados (com menos de 1% de evangélicos), mesmo que isto requeira mais investimento (teológico/financeiro), por se tratar de campos fechados. Em terceiro, diante da crescente urbanização, não devemos desconsiderar as camadas mais carentes da sociedade. Em quarto, pensar nos passos práticos para se atingir essas prioridades.

Quanto à metodologia, não há uma certa para o mundo todo. Para cada área deverá ser definida uma forma de alcance, segundo o contexto social, político, religioso. Enfim, claro, tendo Jesus como modelo. Acredito que o 4o CBM (veja o site www.amtb.org.br) ajudará os interessados a compreender estas realidades que, em muitos casos, são distintas, exigindo uma revisão de tudo o que pensamos e fazemos.

Defesa da Fé – Quais conselhos deixaria para quem está no campo e para quem se prepara para ir?

Márcia – O meu conselho pode ser dividido no pré e no pós no campo. Contudo, não pode se restringir somente ao missionário. A tarefa missionária envolve, em primeiro lugar, a Igreja. No pré-campo, expresso a necessidade de um bom preparo espiritual, cultural e intelectual, sem o qual os missionários estarão sujeitos a passar por situações para as quais não tiveram nenhuma pré-orientação. Há poucos meses, visitei uma missionária e ela me disse o seguinte: “O Curso de Preparo Missionário é como uma vacina que não impede totalmente a enfermidade, mas ameniza os sintomas”, concordei com ela.

No campo, o maior zelador do missionário é ele mesmo. Mas o missionário deve estar bem atento às suas necessidades espirituais, emocionais e físicas e “gritar por socorro” quando necessário. Além disso, os colegas missionários são uma fonte importante de cuidado mútuo. Para isto, no entanto, é essencial manter um bom relacionamento com todos.

No pós-campo, o missionário, igreja e agência precisam ir se preparando, para que o obreiro não fique desamparado depois de tantos anos de serviço.

Por último, gostaria de citar uma frase de Laura Gardner, conselheira de missionários da Wycliffe: “Não existe uma igreja perfeita, ou uma agência perfeita, ou missionários perfeitos. O importante é que estamos caminhando na direção certa, crescendo em cooperação missionária”. Não que tenhamos alcançado, mas seguimos para o alvo!

 

 

 

 


Copyright © 2017 ICP. Todos os direitos reservados.