O evangelho da especulação

Por Elvis Brassaroto Aleixo

A) — Você sabe qual é o sexo dos anjos?

B) — Depende.

A) — Como assim? Depende de quê? Do anjo?

B) — Bem... depende de algumas coisas. Esta é uma, entre outras, mas, para responder melhor a sua pergunta, precisamos primeiro considerar...

Que os leitores nos perdoem por interromper, subitamente, o diálogo. Não dá para supor que, em um curto artigo como este, tivéssemos a pretensão de “desvendar” o sexo dos anjos. Se o leitor não sabe, continuará sem saber. Todavia, gostaríamos de consolá-lo da seguinte forma: esse conhecimento não é realmente significativo. Não fará crescer um par de asas em suas costas. Não aumentará sua espiritualidade. Enfim, não o aproximará mais de Deus.

O fato é que, desde os concílios medievais, ou até antes, já se discutia o assunto com entusiasmo, mas o consenso nunca foi a conclusão dos debates. A discussão acerca da sexualidade angelical está sendo tomada aqui para aludir à banalização da teologia vulgar que tem sido cultivada pela mídia evangélica brasileira.

Certamente, seria tão imaturo quanto injusto generalizá-la, assim como seria impróprio alistar aquelas que julgamos aprovadas neste crivo. Sinceramente, a despeito da ousadia de abordar o assunto, não nos posicionamos como juízes absolutos da causa, pois estamos inseridos no mesmo contexto. Entretanto, sempre há ressalvas que não podem, jamais, ser esquecidas e rendemos graças a Deus por isso, ainda que sejam somente mencionadas brevemente.

Examinando os diversos veículos da mídia que os evangélicos têm empregado para compartilhar sua fé, percebemos o quanto temos sido abençoados e como a Igreja está engajada em sua missão (Mc 16.15). Todavia, o bom emprego dessas oportunidades está condicionado a um elemento não muito refletido em alguns casos: a responsabilidade. Televisão, rádio, jornais, revistas e sites — todos são instrumentos formadores de opinião, embora seus administradores nem sempre estejam plenamente conscientes disso. São mídias que influenciam na construção da “intelectualidade espiritual” dos fiéis. Funcionam como grandes púlpitos ao ar-livre, cujos pregadores podem fazer ressoar suas vozes em muitas e distantes direções.

Ora, onde há mídia quase sempre há ibope, daí o nosso compromisso com aqueles que se alimentam com o que o Senhor tem-nos concedido. E, como servos responsáveis, precisamos, constantemente, questionar e avaliar o grau nutricional da comida que oferecemos, pois, de outra forma, incorreremos no grave risco de reunirmos ao nosso redor crentes anêmicos.

Sabemos que o que dá ibope nem sempre é bom e edificante (1Co 6.12), e essa é a imensa passarela em que desfila a especulação fútil, que geralmente é aplaudida pela polêmica. E as duas, especulação e polêmica, quando unidas, tornam-se imbatíveis na sustentação da “audiência”.

Veja o leitor que não censuramos qualquer tipo de especulação. Falamos daquela que qualificamos “fútil”. Há assuntos e circunstâncias a serem considerados. Especular nada mais é do que averiguar minuciosamente e não negamos que a Bíblia seja digna de tamanha e zelosa atenção. Contudo, inquieta-nos quando essa especulação se atém somente, ou primeiramente, em detalhes que não conduzem os fiéis a lugares sólidos (Mt 7.24-27). A circunstância é pior quando isso se dá de forma desvelada, pública e irresponsável, sem ajuizar os diversos graus de espiritualidade e conhecimento das pessoas que, descuidadamente, acompanham essas mídias. Ficamos pensando o que se passa na cabeça de um novo convertido que se insere nesse mundo de especulações, polêmicas e confusões.

Atualmente, séculos depois dos concílios medievais, o sexo dos anjos está ultrapassado. Hoje há crentes ocupados em descobrir se as sandálias que o anjo Gabriel usou em suas aparições estavam em harmonia com a moda do costume judaico vigente. Francamente, parece piada, mas uma pesquisa superficial em alguns sites evangélicos confirma tudo isso. Chega a ser hilário o que se discute nestes fóruns e chats. Como os atenienses, são pessoas que não fazem outra coisa senão ouvir e dizer novidades. É o afamado “disse-que-disse gospel” (At 17.21).

È bastante estranho que um crente se preocupe tanto com estas coisas e mal consiga gaguejar quando alguém lhe pede explicações sobre pilares doutrinários de sua fé. Há, nisso tudo, uma escancarada inversão de valores.

É nesse âmbito que surgem os celeiros mais produtivos no desenvolvimento de idéias e conceitos extrabíblicos que chegam, por vezes, a ocultar aquilo que realmente é bíblico e está para sempre registrado (Mt 24.35). Isso sem falar que, quando o extrabíblico é alimentado, usurpa a posição de “doutrina declarada”, evolui e transforma-se em blasfematória heresia.

Portanto, é fundamental a orientação pastoral. Este é o nosso apelo: que os pastores orientem suas ovelhas diante dessa mesa tão farta, mas que já começa a oferecer alimentos com prazos de validade vencidos.

De nossa parte, suplicamos ao Senhor para que não nos deixe simpatizar com esse tipo de garçom e que não nos prive de sua graça. Somente assim compartilharemos aquilo que de fato edifica e nunca perece!

 

 

 

 


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