Uma outra lição sobre o “vale de ossos secos”

Por Eguinaldo Hélio de Souza

“Então profetizei como se me deu ordem. E houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso. E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito. E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo” (Ez 37.7-10).

Gostaria de acrescentar mais uma meditação sobre esta passagem tão utilizada e referida das Escrituras que, sem dúvida, é uma das mais lindas. Garimpar Ezequiel 37 é uma forma feliz de enriquecer-se em Deus. Por isso, gostaria de acrescentar mais uma moeda ao rico tesouro que esse texto nos tem fornecido.

Como pregadores, sabemos o quanto são importantes os ventos do versículo 12. O exército que havia sido restaurado de forma maravilhosa adquiria, agora, poder sobrenatural para cumprir sua missão. O vento de Deus soprou sobre a tropa, que se tornou “um exército grande em extremo”. Adorar em Espírito, andar em Espírito, viver em Espírito. A tônica do avivamento é constante em livros, mensagens e hinos.

Num momento como esse quem lembra dos ossos? Parecem não importar tanto, sendo apenas história que ficou para trás. Aquele grupo, agora, está cheio de vida e, por conta disso, capaz de realizar grandes coisas, em nome do Deus vivo. Por que, então, se preocupar? O avivamento era o alvo, e fora atingido!

Precisamos, porém, lembrar que os ossos não podem ser retirados; caso contrário, voltamos à estaca zero. De nada nos adiantaria o sopro de vida sobre aquele grupo se, dentro dele, uma firme estrutura óssea, não sustentasse todo o edifício. Invisíveis sim, desnecessários não.

Há um grande desprezo pela doutrina teológica quando o avivamento chega ou mesmo quando se está buscando por ele. Quando cheios do Espírito, o conhecimento parece dispensável, isso porque alguns crentes julgam ser suficiente a força sobrenatural para se manterem de pé. Diante da glória da Shekiná enchendo o templo quem lembra das colunas que o sustentam? Mas as colunas também fazem parte da estrutura.

O vento vindo do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste não é um substituto para os ossos, antes, é a conclusão de um processo que começou com o primeiro. Ainda que ocultos, os ossos precisam existir e ser fortes. Desprezá-los é loucura. Alguns historiadores eclesiásticos apontam a extinção dos Quackers como resultado de sua despreocupação com um corpo doutrinário. Sem dúvida, foi um grupo formidável, a ponto de o próprio Voltaire (mesmo sendo cético) reconhecer que eles ousaram ser verdadeiros cristãos. Marcaram a história, mas não permaneceram nela, porque, além da fluidez do Espírito, necessitamos de solidez.

A base da Palavra jamais pode ser relegada a segundo plano. Todo aquele organismo era importante. Só estava apto a receber o Espírito quando cada parte fosse restaurada. Teologia é a ciência das coisas de Deus e a Bíblia é a matéria-prima original de nossa espiritualidade. Sem isso, corremos o risco de enveredar por uma espiritualidade vazia, relativista, imprecisa, “um trem no asfalto”.

Um corpo sem espírito não se move. Sem ossos, não se sustenta. Um corpo sem espírito não tem expressão. Sem ossos, não tem forma. Qualquer declaração, por mais espiritual e cristã que pareça, deve ser analisada em seus fundamentos. Até mesmo os mais belos hinos podem carecer de base bíblica. Religião sem teologia e espiritualidade sem verdade podem não ser cristianismo.

Claro que não vamos viver só de ossos (não somos peleontólogos). Mas também não podemos viver sem eles. Um grupo tem de ter estrutura teológica, um mínimo de conhecimento teológico para que não transforme espiritualidade em credulidade tola e fé em superstição. Se há leis imutáveis no mundo físico, também há no espiritual. Se aquelas são importantes e precisam ser conhecidas, estas também.

Quando entramos em um prédio, não precisamos entender de engenharia para que possamos desfrutar da construção. Mas é necessário um engenheiro para assinar a planta e orientar o trabalho. Às vezes, é imprescindível checar as estruturas e ver o seu estado antes de continuar. Ninguém deve se arriscar naquilo que não é sólido.

Comecemos com os ossos (neste caso, a teologia). Então, prossigamos até a unção (o avivamento). Mas recusemos um cristianismo que acha que tem de escolher entre um e outro, ignorando que deve abraçar os dois.

 

 

 

 


Copyright © 2017 ICP. Todos os direitos reservados.