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Maio de 2007
Princípios de
um bom governo na igreja
Por Rodolfo Montosa
Jesus gerou a Igreja-organismo. E a Igreja-organismo,
por sua vez, produziu a Igreja-organização. E fez isso
para poder operar, expressar-se, viver em seu contexto e
geração. A Igreja-organização deve promover e estimular
a Igreja-organismo, pois foi criada exclusivamente para
isso. A história nos ensina, contudo, que a tendência
natural da Igreja-organização é buscar seus próprios
interesses, dissociando-se da Igreja-organismo. A
Igreja-organismo constrói sua autoridade na fé, no
sangue muitas vezes derramado de seus mártires, nos
carismas e na unidade da comunidade. Ao constituir, com
as melhores intenções, a Igreja-organização, dota-a de
poder. Então, a Igreja-instituição (ou
Igreja-organização) passa a exercer o poder recebido,
esquecendo-se, muitas vezes, que esse poder não é seu
originalmente: “A lógica do poder é querer mais poder,
conservar-se, preservar-se, entrar em compromissos e,
caso corra risco, fazer concessões para sobreviver”.
Assim caminha a Igreja-organização em busca de sua
própria autonomia, pois nela existe a semente e o
instinto de sobrevivência. Insubordina-se, por natureza,
sempre que não for submetida a forças que a obriguem a
se render à Igreja-organismo. Corre todos os riscos que
a própria humanidade corre de se corromper, desviar-se
de sua finalidade e se distanciar de seu Criador.
É possível que o governo da Igreja possa se defender de
si mesmo? É possível construir mecanismos de blindagem
da inclinação natural à corrupção? É possível assegurar
que a Igreja-organização cumpra fielmente sua missão em
submissão à Igreja-organismo?
Em primeiro lugar, existe um ambiente estranhamente
favorável para a depuração de todo o tipo de corrupção
no governo da Igreja. Esse ambiente é a perseguição.
Durante todo tipo de perseguição na história da Igreja,
e não é diferente nos dias de hoje, somente permaneceram
(nem sempre vivos) aqueles que verdadeiramente
pertenciam à Igreja-organismo. A marca dos líderes
investidos na posição de governo da Igreja perseguida é
semelhante ao dos dias de Atos. Assim como Estêvão,
colocado na posição de governo da Igreja, martirizado
por sua fé, “a autoridade destas pessoas vem pela
vivência exemplar do mistério de Cristo e não pelo poder
sacro de que foram investidas”.
Mas o ambiente de liberdade (muitas vezes, enganosa
liberdade, como nos dias da institucionalização da
Igreja por Constantino) exige práticas e princípios que,
ao menos, tentam mitigar esse risco de perversão e
devassidão. Alguns princípios podem, sim, ajudar no
difícil desafio de governar a Igreja-organização no foco
da Igreja-organismo, tais como: liderança partilhada,
flexibilidade, transparência, eqüidade, prestação de
contas, cumprimento das leis e ética.
O princípio da flexibilidade
“Desde os tempos de Jesus, a liderança tinha de ser
partilhada”. E Jesus demonstrou isso quando enviou os
apóstolos, de dois em dois, para proclamar o evangelho.
Fundaram novas Igrejas, constituíram grupos de líderes,
chamados “anciãos” (porque eram membros mais antigos),
ou “bispos” (literalmente, “os que supervisionam”), ou
“diáconos” (que significa “servos”). O título não
importava, mas, sim, a tarefa — supervisão e serviço.
Sempre grupos de pessoas. Toda a centralização excessiva
aumenta o risco de desvio da Igreja-organização. A
Bíblia ensina claramente que os dons do Espírito Santo
são distribuídos, o que justifica que o governo deve
incluir e compartilhar o poder.
“Sobre o tipo de governo que uma Igreja deve adotar, a
Bíblia ensina princípios e não padrões”, por mais que
alguns queiram insistir que são padrões as estruturas
X,Y ou Z ou os cargos e funções A, B ou C. Por essa
razão, assim como as soluções foram acontecendo ao longo
da Igreja neotestamentária (p. ex.: Estêvão), o governo
da Igreja deve ser flexível o suficiente e as
estruturas, os códigos e os mecanismos de decisão
surgirem como solução para as questões de seu tempo e,
quando necessário, serem transformados, para que os
novos desafios sejam atendidos. Na prática observada,
entretanto, “as estruturas das igrejas têm,
repetidamente, aprisionado a Igreja, assim como os
contêineres, que inibem a fermentação, podem matar a
vida do vinho — e ninguém pode sentir o aroma e o
sabor”. A Igreja-organização deve servir e se adaptar às
necessidades da Igreja-organismo, não o contrário.
O princípio da transparência
Outro importante princípio no governo da Igreja deve ser
a transparência. Os líderes são chamados, assim como
todos os cristãos, para andar na verdade, na luz, para
fugir do que é obscuro, oculto, escuso. A coerência
chama à existência a transparência. A transparência deve
estar presente na vida pessoal, nos relacionamentos, na
vida financeira e, é claro, na vida ministerial. Nesta
última, ser um líder transparente é satisfazer às
diferentes necessidades de informação dos diversos
públicos com os quais a Igreja se relaciona, dentro de
sua denominação, entre os diversos líderes internos,
entre seus participantes e na comunidade em que está
inserida. Um governo transparente tem apoio espiritual
por meio da oração, desperta a confiança daqueles que
estão à sua volta e mostra sua dependência do Espírito
Santo.
O princípio da eqüidade
O princípio da eqüidade se refere ao tratamento justo e
equânime entre os líderes e os diversos níveis de
estrutura de governo. Na verdade, a eqüidade está entre
as práticas de boa governança que mais pode estimular o
bom funcionamento do trabalho. Isso porque, pela
eqüidade, é possível despertar nas pessoas o sentimento
de que todos, independente da função que desempenham,
têm a mesma importância para o resultado final da
missão. Entre os problemas para colocar a eqüidade em
prática, inclusive na igreja, estão as preferências
pessoais e o nível de afetividade para com determinadas
pessoas ou, até mesmo, para com algumas áreas de
atuação. Dois textos bíblicos inspiram o tema: “Meus
irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo,
Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tg 2.1) e
“Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e
sois redargüidos pela lei como transgressores” (Tg 2.9).
O princípio da prestação de contas
Estamos diante de mais um importante princípio para um
bom governo: a prestação de contas. Em Lucas 16, Jesus
conta mais uma parábola para despertar seus ouvintes
quanto à necessidade da prestação de contas. Para o rico
senhor da parábola, a prestação de contas era um
pré-requisito, uma prática que deveria ser natural e
contínua. Caso contrário, desabilitaria o mordomo a
permanecer no cargo. Na prática, a prestação de contas
serve para conferir se os mordomos que servem na Casa de
Deus têm a visão afinada com a do seu Senhor.
Representa, acima de tudo, segurança, tanto para quem
presta contas como para quem recebe a prestação de
contas. Isso porque, caso o mordomo planeje executar o
serviço de outra maneira que não aquela estipulada (ou
seja, fora da visão), há tempo para que o erro seja
evitado.
A prestação de contas nada mais é que o relatório
periódico feito por parte dos agentes de governança a
quem os elegeu, nomeou e/ou contratou. É algo difícil de
se cumprir, pois incorre em avaliação e exposição.
Poucos são aqueles que gostam ou aceitam ser avaliados.
A prestação de contas deve ser periódica, ter os
critérios definidos e comparados com períodos anteriores
e envolver números (critérios objetivos) e histórias
(critérios subjetivos). Ela ajuda o líder a se proteger
de si mesmo, atentando para o fato de que quase todos,
conscientemente ou não, têm uma inclinação a ser
manipulador, ou seja, “alguém que explora, usa e
controla a si mesmo e os outros como ‘coisas’, de forma
que cause o próprio fracasso”.
O princípio do cumprimento às leis
Faz-se necessário enfatizar que um bom governo da Igreja
deve cumprir as leis do país em que está inserido.
Alguns líderes acreditam que, por fazerem parte do povo
de Deus, estão acima das leis dos homens, típica soberba
da Igreja-organização em processo de corrupção pelo
poder. Para cumprir as leis, um líder deve observar, de
maneira preventiva e perspicaz, as implicações legais de
todas as decisões tomadas e transações realizadas em sua
igreja. Afinal, como Paulo escreveu aos irmãos da Igreja
de Corinto, “zelamos do que é honesto, não só diante do
Senhor, mas também diante dos homens” (2Co 8.21).
Perante o Sistema Jurídico brasileiro, o “não cumprir
por ignorância” não é válido, por isso, é melhor se
precaver buscando uma boa assessoria legal. Isso é ser
responsável.
O princípio ético
Um último princípio para um bom governo é a ética. É a
definição dos valores que regem o comportamento dos
integrantes da Igreja-organização em seus
relacionamentos internos e externos. Nos aspectos
internos, podem-se abordar as interações dos componentes
da Igreja-organização com seus pares, autoridades
estabelecidas, outros departamentos ou ministérios
internos. Nos aspectos externos, podem-se estabelecer as
interações com pessoas e órgãos públicos, fornecedores
de bens e serviços, meio ambiente, outras igrejas,
sindicatos e associações e partidos políticos. Para
melhor compreensão deste princípio, vale diferenciar o
que é ético, o que é moral e o que é legal.
“Ética se relaciona ao ambiente mais imediato da
organização ou da igreja, como seus padrões de
comportamento, política, valores, relacionamentos e
tomada de decisões. Já moralidade, baseia-se num padrão
absoluto — a Bíblia. Por último, legalidade se refere a
uma lei codificada”.
De maneira simples, se alguma coisa é ilegal, é porque
está violando a lei. Se é imoral, é porque não está em
conformidade com algum padrão bíblico. Se é antiético, é
porque está em desacordo com práticas e padrões aceitos
na comunidade mais próxima. A Igreja-organização pode
viver diversas situações resultantes da combinação
desses fatores. Por exemplo, situações ilegais, mas que
não são imorais. Situações éticas, mas ilegais.
Situações imorais, porém, eticamente aceitas na
comunidade.
Esses são apenas alguns exemplos. O alvo da
Igreja-organização é alinhar seus padrões éticos aos
valores morais bíblicos e à lei codificada que a rege
perante as autoridades públicas.
Notas:
1 BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder, p.91.
2 Ibid., p. 87.
3 KEELEY, Robin (org.). Fundamentos da teologia cristã,
p. 274.
4 RYRIE, Charles C.. Teologia Básica, p. 467.
5 SNYDER, Howard A. e RUNYON, Daniel. Decoding the
Church, p. 61.
6 DUNNAM, Maxie e HERBERTSON, Gary. The manipulator and
the Church, p. 83.
7 BIEHL, Bobb e ENGSTROM, Ted. The effective board
member, p.9.
O autor é diretor do Instituto Jetro. www.institutojetro.com
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