Apologética



Por que não aceitamos os evangelhos apócrifos


Por Augustus Nicodemus

“Evangelho” é a tradução para o português da palavra grega, “boas novas” , usada a princípio no Novo Testamento para se referir ao conteúdo da mensagem de Jesus Cristo e dos seus apóstolos. Posteriormente, a palavra veio a se referir a um gênero literário específico que nasceu com o cristianismo no século I. “Evangelho”, no singular, foi usado pelos Pais Apostólicos mais antigos para se referir tanto a um evangelho individual quanto a uma coleção deles. O termo “evangelhos” (plural) só passou a ser usado em meados do século II. Justino Mártir faz referência às “memórias compostas pelos apóstolos que são chamadas de ‘evangelhos’”. Lembremos que o cristianismo, em termos culturais, ocasionou o surgimento de gêneros literários como epístolas e evangelhos.

Esse novo gênero literário que veio a ser chamado de “evangelho” tinha algumas características distintas. Incluía obras escritas por autores cristãos entre o século I e o século IV que giravam em torno da pessoa de Cristo, sua obra e seus ensinamentos. Essas obras reivindicavam autoria apostólica ou de algum outro personagem conhecido da tradição cristã. Reivindicavam também que seu conteúdo remontava ao próprio Jesus.

Existem centenas de “evangelhos” conhecidos. Alguns são apenas mencionados na literatura dos Pais da Igreja e deles não temos qualquer amostra do conteúdo. Outros sobreviveram em fragmentos ou reproduzidos parcialmente em outras obras, como, por exemplo, o Evangelho dos Hebreus, o Evangelho dos Ebionitas (ou dos Doze Apóstolos), o Evangelho dos Egípcios, o Evangelho Desconhecido e o Evangelho de Pedro, para mencionar alguns. Já outros sobreviveram em cópias completas ou quase completas, como os Evangelhos de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João; o Evangelho de Tomé; o Evangelho de Judas; o Evangelho de Nicodemos; o Proto-Evangelho de Tiago; o Evangelho de Tomé, o Israelita; o Livro da Infância do Salvador; a História de José, o Carpinteiro; o Evangelho Árabe da Infância; a História de José e Azenate; o Evangelho Pseudo-Mateus da Infância; a Descida de Cristo ao Inferno; o Evangelho de Bartolomeu e o Evangelho de Valentino, entre outros. Esses evangelhos são tradicionalmente classificados em canônicos e apócrifos.


Evangelhos canônicos


Nessa primeira categoria se enquadram somente quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Conforme a tradição patrística e da Igreja, eles foram escritos no século I pelos apóstolos de Jesus Cristo ou alguém do círculo apostólico. Marcos teria sido o primeiro a ser escrito, no início da década de 60, por João Marcos, que, segundo a tradição, registrou o testemunho ocular de Simão Pedro. Ele escreveu aos cristãos de Roma para ajudá-los e fortalecê-los diante das perseguições.

Mateus teria sido escrito em meados da década de 60 por Mateus, o publicano apóstolo, para evangelizar os judeus, a partir do seu testemunho ocular e talvez usando o Evangelho de Marcos como base para a estrutura da narrativa. Lucas foi escrito pelo médico gentio Lucas, convertido ao cristianismo, que foi companheiro de viagem de Paulo e que frequentava o círculo apostólico. Ele teria produzido esse evangelho pelo final da década de 60, a partir de pesquisa que fez da tradição oral e escrita que remontava aos próprios apóstolos. Seu objetivo, conforme declaração no início da obra de Lucas-Atos, era firmar na fé um nobre romano chamado Teófilo. Já o Evangelho de João teria sido escrito pelo apóstolo amado por volta da década de 70 ou 80, aparentemente com vários objetivos, entre eles combater o crescimento do gnosticismo incipiente da época. João escreve a partir de seu testemunho ocular, a partir do seu entendimento acerca da pessoa e da obra de Cristo.

Esses quatro evangelhos cedo foram reconhecidos pela igreja cristã nascente como inspirados por Deus e autoritativos, como Escritura Sagrada, visto que seus autores foram os apóstolos, a quem Jesus havia prometido o Espírito Santo para os guiar em toda a verdade (Jo 16.13; 14.26). Assim, eles aparecerem em listas importantes dos livros recebidos como canônicos pela igreja, como a Cânon Muratoriano (170 d.C.), a lista de Eusébio de Cesareia (260-340) e a lista de Atanásio (367).

Os demais evangelhos, chamados de apócrifos, implicitamente reconhecem a validade do critério canônico da apostolicidade, ao também reivindicarem para si a autoria apostólica ou de alguém relacionado com os apóstolos. Além disto, especialmente os evangelhos oriundos de comunidades gnósticas reivindicam o conhecimento de segredos que não foram revelados aos apóstolos e que vieram como uma revelação posterior, como veremos em seguida.


Evangelhos apócrifos


O nome vem do grego “oculto”, “secreto”. Eles foram escritos por várias razões. De acordo com Farkasfalvy, “as motivações para a produção destas novas obras foram muitas e em número crescente: devoção, satisfação da curiosidade, apoio para necessidades doutrinárias, inovações, novas tendências, a influência de vários grupos eclesiásticos, alguns dos quais dentro da corrente principal do cristianismo, outros se apartando e se isolando. Disputas doutrinárias, comunidades que se dividiam e práticas aberrantes demandavam a produção adicional de mais “escrituras sagradas”.

Esses evangelhos são geralmente classificados em narrativas da infância de Jesus, narrativas da vida e da paixão de Jesus, coleção de ditos de Jesus e diálogos de Jesus.

As narrativas da infância mais conhecidas são o Proto-Evangelho de Tiago; o Evangelho de Tomé, o Israelita; o Livro da Infância do Salvador; a História de José, o Carpinteiro; o Evangelho Árabe da Infância; a História de José e Azenate e o Evangelho Pseudo-Mateus da Infância. Entre as narrativas da vida ou paixão de Cristo mais importantes se destacam o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Nicodemos, o Evangelho dos Nazarenos, o Evangelho dos Hebreus, o Evangelho dos Ebionitas e o Evangelho de Gamaliel.

Existem apenas dois que se enquadram na categoria de coleção de ditos de Jesus, o Evangelho de Tomé – que será analisado mais adiante neste artigo – e o suposto documento Q (Quelle, “fonte” em alemão), de cuja existência não se tem prova concreta. Na categoria de diálogos de Jesus com outras pessoas e revelações que ele fez em secreto mencionamos o Diálogo com o Salvador e o Evangelho de Bartolomeu.

Essas obras são chamadas de evangelhos apócrifos porque não são consideradas genuínas, produzidas pelos apóstolos ou pelos autores cujos nomes as encabeçam. Além disso, a grande maioria delas pretende transmitir um conhecimento esotérico, oculto, além daquele conhecimento dos apóstolos. Em grande parte, esses evangelhos foram escritos por autores gnósticos com o propósito de difundirem as suas ideias no meio da igreja, usando para isso a autoridade dos evangelhos canônicos e dos apóstolos. Alguns deles foram encontrados no século passado em Nag Hammadi, no norte do Egito.

O Proto-Evangelho de Tiago, por exemplo, escrito no século II, que descreve o nascimento e a infância de Jesus e a juventude da Virgem Maria, é tipicamente uma tentativa de satisfazer a curiosidade popular em torno de coisas não mencionadas nos evangelhos canônicos. A teologia desse “evangelho” é de um docetismo popular: Jesus tem um corpo não sujeito às leis do espaço e do tempo. O escrito não tem valor como fonte histórica sobre Jesus. De acordo com Bernheim, “é a primeira obra cristã para a glória da virgemMaria [...] defende a virgindade perpétua de Maria”.

Outro exemplo é o Evangelho da Verdade. Esse não é um evangelho no sentido costumeiro da palavra; é antes uma meditação, uma espécie de sermão sobre a redenção pelo conhecimento (gnosis) de Deus. É atribuído ao gnóstico Vanlentino, que viveu em meados do século II e, por conseguinte, não ajuda em nada a pesquisa sobre o Jesus histórico. Na mesma linha vai o Evangelho de Filipe, escrito antes de 350 a.D. É, evidentemente, uma compilação de materiais mais antigos. O texto causou certo sensacionalismo quando da sua publicação, porque sugere uma relação amorosa entre Jesus e Maria Madalena. O Evangelho de Pedro – preservado num fragmento que se conservou – descreve o processo contra Jesus, sua execução e sua ressurreição. Sua cristologia é a do docetismo: aquele que sofre e morre é apenas uma aparição do verdadeiro Jesus, que é divino e por isso não pode sofrer e morrer. Conforme esse evangelho, o corpo de Jesus se volatiliza na cruz antes de subir ao céu.

É preciso dizer que existem vários destes evangelhos apócrifos que foram compostos por autores cristãos desconhecidos, não gnósticos, e que aparentam refletir um tipo de cristianismo popular marginal. A maior parte deles pretende suprir a falta de informação histórica nos evangelhos canônicos, fornecendo detalhes sobre a infância de Jesus, diálogos dele com os apóstolos, informações sobre Maria e demais personagens que aparecem nos evangelhos tradicionais. Em alguns casos, parece que foram escritos para defender doutrinas não apostólicas e que estavam começando a ganhar corpo dentro do cristianismo, como, por exemplo, o conceito de que Maria é mãe de Deus e medianeira. Conforme já vimos, o Proto-Evangelho de Tiago, já no século III, explica porque Maria foi a escolhida: por sua virgindade e santidade, e a defende como mãe de Deus e medianeira. O tema real deste apócrifo é a natividade de Maria. Ele reconta e altera as narrativas da natividade de Jesus encontradas nos canônicos e acrescenta informações como a viuvez de José e os filhos que tinha antes de casar com Maria. Inclui lendas e fábulas e muitas histórias extracanônicas.

Alguns dos evangelhos apócrifos contêm exemplos morais não recomendáveis. Por exemplo, o Evangelho de Tomé, o Israelita, narra diversos episódios em que o menino Jesus amaldiçoa e mata quem fica em seu caminho: “De outra feita, ele andava em meio ao povo e um rapaz que vinha correndo esbarrou em suas costas. Irritado, Jesus lhe disse, ‘Não prosseguirás teu caminho’. E imediatamente o rapaz caiu morto” (IV.1). Mais adiante se narra o que aconteceu

com pessoas que criticavam o menino Jesus: “e no mesmo instante, aqueles que haviam falado mal dele ficaram cegos” (V.1).

Quase todos os apócrifos são recheados de histórias lendárias e ingênuas, como o Evangelho de Nicodemos, que narra como José de Arimateia, Nicodemos e os guardas do sepulcro se tornaram testemunhas da ressurreição de Jesus. Esse evangelho evidentemente foi escrito por cristãos para provar que Jesus morreu de forma injusta e que ressuscitou dos mortos conforme o testemunho de pessoas como José de Arimateia, os guardas do sepulcro, etc. É um livro cheio de lendas, fantasias e histórias fantásticas.

Os evangelhos apócrifos usaram diversas fontes em sua composição: o Antigo Testamento, os próprios evangelhos canônicos e as cartas de Paulo. Usaram também tradições cristãs extracanônicas, de origem desconhecida, e suas próprias idéias e conceitos. Um bom exemplo é o Evangelho de Nicodemus, já mencionado no parágrafo anterior. A obra baseia-se nos sinóticos e em João. O autor conhece o livro de Atos e os escritos de Paulo, além do Antigo Testamento. Quando se vale dos relatos dos evangelhos canônicos, quase sempre reconta a história alterando-a e entremeando-a com lendas, fábulas e informações extracanônicas de origem desconhecida. Essa característica de contar novamente a história bíblica de maneira adulterada é comum em todos os tipos de apócrifos do Antigo e do Novo Testamento.


A atitude da Igreja para com os evangelhos apócrifos


No período pós-apostólico, alguns desses evangelhos chegaram a ser recebidos por um tempo, como leitura proveitosa, como o Evangelho de Pedro. Serapião, bispo de Antioquia, a princípio recomendou este evangelho em 191 d.C. Mais tarde, o próprio Serapião reconheceu que a obra tem elementos estranhos e a desautorizou: “Pois nós, irmãos, recebemos Pedro e os demais apóstolos como o próprio Cristo. Mas aqueles escritos que são falsamente inscritos com seu nome, nós, como pessoas experientes, rejeitamos, sabendo que tais escritos não foram entregues por ele. Quando, na verdade, eu vim ver vocês, eu supunha que todos estes escritos estavam de acordo com a fé ortodoxa, e, embora eu não tivesse lido o Evangelho escrito sob o nome de Pedro, que foi trazido a mim por eles [os gnósticos], eu disse: Se essa é a única coisa que ameaça produzir mal-estar entre vocês, que seja lido, então. Mas, agora que eu percebi, pelo que me foi dito, que a mente deles estava secretamente acariciando alguma heresia, envidarei toda a pressa para chegar até vocês de novo.

Talvez Serapião tenha se escandalizado com passagens deste apócrifo que revelam a heresia gnóstica, como a parte em que diz que na cruz, após clamar “por que me desamparaste?”, Jesus “volatilizou-se e subiu ao céu” (V.19), uma clara referência ao ensinamento gnóstico de que Jesus não tinha um corpo físico real.

Aqui cabe-nos mencionar o testemunho de Eusébio em sua História Eclesiástica, ao falar dos Evangelhos de Pedro, Tomé e Matias: “Nenhum desses livros tem sido considerado digno de menção em qualquer obra de membros de gerações sucessivas de homens da Igreja. A fraseologia deles difere daquela dos apóstolos; e opinião e a tendência de seu conteúdo são muito dissonantes da verdadeira ortodoxia e claramente mostram que são falsificações de heréticos. Por essa razão, esse grupo de escritos não deve ser considerado entre os livros classificados como não autênticos, mas deveriam ser totalmente rejeitados como obras ímpias.

Os evangelhos apócrifos continuaram a ser lidos mesmo após o século II, quando nenhum outro evangelho era reconhecido como normativo a não ser estes que agora constam no cânon. À medida que o poder da igreja crescia, os evangelhos apócrifos foram desaparecendo, embora a leitura deles nunca tenha cessado inteiramente durante a Idade Média. Sua popularidade e influência podem ser vistas nos relevos de sarcófagos da Europa ocidental durante a Idade, nos vitrais de igrejas e catedrais daquele período, na arte que aparece em manuscritos e nos temas das dramatizações dos mistérios realizadas nas igrejas da época.

Essa postura de rejeição aos evangelhos apócrifos prevaleceu até a Reforma Protestante e o período posterior chamado de ortodoxia protestante. Com a chegada do método histórico-crítico, filho do Iluminismo e do racionalismo, passou-se a negar a autoria apostólica e a inspiração divina dos evangelhos canônicos. Os mesmos passaram a ser vistos como produção da fé da igreja, sem valor real para a reconstrução do Jesus histórico. Dessa perspectiva, os evangelhos apócrifos chegaram então a ser considerados como literatura tão válida como os canônicos para nos dar informações sobre o cristianismo nascente, embora não sobre o Jesus histórico.


O renascimento do interesse pelos evangelhos gnósticos


A partir da visão crítica defendida pelo liberalismo teológico e pelo método histórico-crítico, em anos recentes os evangelhos escritos pelos gnósticos passaram a receber grande atenção e importância nos estudos neotestamentários das origens do cristianismo e na chamada busca do Jesus histórico.

Vários fatores têm contribuído para isso. Primeiro, o surgimento do Jesus Seminar nos Estados Unidos. A criação do Seminar é considerada o início da terceira etapa da busca do Jesus histórico, iniciada pelos liberais do século XVIII. Um de seus membros mais conhecidos, cujas obras têm sido traduzidas e publicadas no Brasil, é John Dominic Crossan. Em sua obra O Jesus Histórico: a vida de um camponês judeu do mediterrâneo, de 1991 (publicado em português em 1994), ele emprega os apócrifos Evangelho de Pedro e especialmente o Evangelho de Tomé para a reconstrução do Jesus histórico. Segundo Crossan, essas duas obras são mais antigas que os evangelhos canônicos e contêm informações importantes que não foram incluídas em Mateus, Marcos, Lucas e João. Essa atitude de Crossan é característica dos demais membros do Jesus Seminar e de muitos outros eruditos neotestamentários críticos, que aceitam a autoridade dos evangelhos apócrifos, especialmente os gnósticos, acima daquela dos canônicos. Aqui podemos mencionar Elaine Pagels, cuja obra Os Evangelhos Gnósticos, recentemente traduzida e publicada em português, vai nessa mesma direção.

Em segundo lugar, a publicidade e o sensacionalismo da grande mídia em torno da descoberta e publicação dos textos dos evangelhos gnósticos, como os Evangelhos de Judas e de Tomé. A grande mídia tem difundido a teoria de que a igreja cristã teria ocultado e guarda até hoje outros evangelhos que remontam à época de Jesus e que contradiriam e refutariam totalmente o cristianismo tradicional e ortodoxo. A veiculação pela mídia vai na mesma linha de propaganda e especulações anticristãs voltadas mais diretamente contra a Igreja Católica Romana e que acaba respingando nos protestantes, especialmente nas igrejas históricas. Em 2004, foi o Evangelho de Tomé. Em 2006, foi a vez de o Evangelho de Judas ganhar a capa de revistas populares pretensamente científicas. A ignorância dos articulistas, o preconceito anticristão, a busca do sensacionalismo, tudo isso contribuiu para que a publicação do manuscrito copta do Evangelho de Judas recebesse uma atenção muito maior do que a devida. Em 2007 foi a suposta sepultura de Jesus. Uma inscrição antiga contendo o nome de Tiago, irmão de Jesus, e outras “descobertas” arqueológicas fizeram a festa da mídia em anos mais recentes.

Não se deve pensar que essa atitude é um fenômeno atual. Desde os primórdios do cristianismo escritores pagãos como Celso e Amiano Marcelino publicam material atacando as Escrituras e o cristianismo. Quando da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e das polêmicas e questões inclusive jurídicas que envolveram a tradução e a publicação dos primeiros rolos, a imprensa da época especulava que os manuscritos representariam o fim do cristianismo, pois traria informações que contradiriam completamente o evangelho. Os anos se passaram e verificou-se a precipitação da imprensa. Os rolos na verdade tiveram o efeito contrário, confirmando a integridade e autenticidade do texto massorético do Antigo Testamento.

Em terceiro lugar, produções de Hollywood como “O Código da Vinci”, “O Corpo”, “Estigmata” e “A Última Ceia de Cristo”, que se baseiam nesses evangelhos gnósticos, têm servido para difundi-los popularmente.


O evangelho de Judas


Examinemos mais de perto os dois evangelhos gnósticos que mais têm atraído recentemente a atenção da academia e do público em geral, que são os Evangelhos de Judas e de Tomé.

O Evangelho de Judas preservou-se em um manuscrito copta do século IV, que supostamente conteria uma tradução do evangelho apócrifo grego de Judas, cuja origem é estimada em meados do século II. A restauração e a tradução do manuscrito copta foram anunciados em 6 de abril de 2006 pela National Geographic Society, em Washington.

Não se trata da descoberta do Evangelho de Judas. O mesmo já é um velho conhecido da igreja cristã. Elaborado em meados do século II, provavelmente na língua grega, era conhecido de Irineu, um dos pais apostólicos. Na sua obra Contra as Heresias, Irineu o menciona explicitamente como sendo uma obra espúria produzida pelos gnósticos da seita dos cainitas: “... eles (cainitas) dizem que Judas, o traidor, conheceu estas coisas e que somente por haver conhecido antes dos outros a verdade, consumou o mistério da traição [...] Esse estilo de ficção chamam de evangelho de Judas (Contra as Heresias, I, XXXI, 1).”

No século IV (por volta de 370 d.C.) o bispo Epifânio, em sua obra Panarion, escrita para combater as heresias de sua época, menciona o Evangelho de Judas como uma obra de origem gnóstica que torna o traidor em um feitor de boas obras: “... afirmam [a seita dos cainitas] que, por esta razão, conheceu Judas exatamente o conteúdo destas coisas. Defendem também que são descendentes dele (Judas), o qual assume o grau maior da gnosis, até o ponto de prepararem um opúsculo com o seu nome, intitulado evangelho de Judas.” (Panarion, 38, 1.5).

Teodoreto, bispo de Ciro, também conhecia este evangelho. Em sua obra Compêndio de Fábulas Heréticas (466 d.C.), ele comentou: “... dizem [os cainitas] conhecer também um evangelho (de Judas), composto por eles, pois dizem que ele recebeu o laço como paga de sua traição” (Compêndio, I.15).

Não se trata também da descoberta de um manuscrito antes desconhecido contendo essa obra. Acredita-se que o único manuscrito conhecido, escrito em copta, foi descoberto em meados da década de 1950 e depois de uma longa peregrinação nas mãos de colecionadores, bibliotecas, comerciantes de antiguidades e peritos, chegou às mãos das autoridades. Sua existência foi anunciada ao mundo em 2004. Trata-se de um códice com 25 páginas de papiro, envoltas em couro, das 62 páginas do códice original. Somente essas 25 páginas foram resgatadas pelos especialistas. A tradução que veio a lume em 2006 é dessas páginas. O que é de fato novo é a tradução do texto desse apócrifo, texto até então desconhecido. Contudo, o ponto central que a mídia tem destacado com sensacionalismo já era conhecido mediante as citações de Irineu, Epifânio e Teodoreto, ou seja, que esse evangelho procura reabilitar o traidor, transformando-o em vítima e herói.

Várias matérias publicadas na mídia diziam que Judas Iscariotes é o autor desse evangelho. Contudo, não existe prova alguma disso. Segundo o relato dos quatro evangelhos canônicos, Judas suicidou-se após a traição (Mt 27.5; At 1.18-19). Como poderia ser o autor dessa obra? Já Irineu, no século II, atribuía a autoria do Evangelho de Judas aos cainitas, uma seita gnóstica, conforme vimos antes. No códice descoberto e publicado em 2006, não consta somente o evangelho atribuído a Judas, mas duas obras mais: a “Carta a Filipe” atribuída ao apóstolo Pedro e “Revelação de Jacó”, relacionada com o patriarca hebreu. A presença do Evangelho de Judas em meio a essas duas obras apócrifas é mais uma prova da autoria espúria desse evangelho. É curioso o preconceito da mídia, que sempre veicula matérias que negam a autoria tradicional dos evangelhos canônicos, mas que rapidamente atribui a Judas Iscariotes a autoria desse apócrifo.

É importante também notar que o manuscrito do Evangelho de Judas que foi traduzido não data do século II, mas do século IV. Especula-se que é uma tradução para o copta de uma obra mais antiga escrita em grego, que por sua vez dataria de meados do século II. Daí a inferir a autoria de Judas Iscariotes, que morreu na primeira parte do século I, vai uma grande distância. A seita dos cainitas, segundo Irineu em Contra as Heresias, era especialista em reabilitar personagens bíblicos malignos, como Caim, os sodomitas e Judas. A produção de um evangelho reabilitando o traidor se encaixa perfeitamente no perfil da seita. Ao final, pesando todos os fatos e filtrando o sensacionalismo e o preconceito anticristão, a publicação do Evangelho de Judas em nada contribuirá para nosso conhecimento do Judas Iscariotes histórico e muito menos do Jesus histórico – servirá apenas para nosso maior conhecimento das crenças gnósticas do século II. Não representa qualquer questionamento sério do relato dos evangelhos canônicos, cuja autoria e autenticidade são muito mais bem atestadas, datam do século I e receberam reconhecimento e aceitação universal pelos cristãos dos primeiros séculos.


O evangelho de Tomé


Esse evangelho consiste numa coleção de 114 ditos que Jesus supostamente teria ditado a seu irmão gêmeo, Tomé. Ele faz parte da livraria gnóstica descoberta em Nag Hammadi em meados do século passado. O que temos é um manuscrito copta, tradução de uma versão em grego desse evangelho, datada do século III. Calcula-se que o evangelho original deve ter sido escrito no século II. Não se trata de um evangelho no sentido usual do termo, visto que não contém qualquer narrativa sobre o nascimento, ministério ou paixão de Cristo. Trata-se de uma coleção de ditos de Jesus sem qualquer moldura geográfica, temporal ou histórica que nos permita localizar quando, onde e em que contexto Jesus os teria pronunciado. Calcula-se que foi escrito na região da Síria, onde existem tradições sobre o apóstolo Tomé e onde se sediava a seita dos encratitas, ascéticos que defendiam uma forma heterodoxa de cristianismo.

Apesar de trazer muitas citações dos evangelhos canônicos, a teologia do Evangelho de Tomé é abertamente gnóstica. Defende a salvação através do conhecimento secreto e esotérico que Jesus revelou a seu discípulo Tomé. Está eivado das dicotomias e dualismos característicos do pensamento gnóstico mais evoluído do século II. Trata-se claramente de uma produção dos mestres gnósticos, que se valeram dos evangelhos canônicos e do nome do apóstolo Tomé para divulgar e espalhar suas crenças.


Conclusão


Apesar de todos os esforços da mídia e dos liberais, não se conseguiu provar que os evangelhos gnósticos foram escritos no primeiro século. Eles são produções posteriores aos evangelhos canônicos e se valeram destes como fontes. O maior argumento dos liberais para provar que o Evangelho de Tomé, contendo ditos de Jesus, foi escrito no século I antes dos canônicos depende da existência do suposto proto-evangelho “Q”, que nunca foi provada.

O testemunho dos pais apostólicos é unânime em rejeitar esses evangelhos e considerar a maior parte deles como falsificações feitas pelos gnósticos com o propósito de espalhar suas ideias e ensinamentos. O conteúdo deles é distintamente diferente dos evangelhos canônicos e da religião ensinada no Antigo Testamento. Assim, nenhum deles jamais foi reconhecido como autêntico e apostólico. Desde cedo a igreja cristã rejeitou essas obras, pois não preenchiam os critérios de canonicidade: não foram escritas pelos apóstolos ou por alguém ligado a eles, contradiziam a doutrina cristã, tinham exemplos e recomendações morais e éticas pouco recomendáveis, e seus autores falsamente atribuíram a autoria aos apóstolos, como, por exemplo, o Evangelho de Tomé, de Pedro, de Bartolomeu, de Filipe. Além do mais, suas histórias fantásticas acerca de Cristo claramente revelavam seu caráter especulativo e supersticioso, ao contrário da sobriedade e da seriedade dos evangelhos bíblicos. Não é de admirar, portanto, que eles não constem em nenhuma das primeiras listas de livros reconhecidos nas quais aparecem os quatro evangelhos canônicos.

As reconstruções do Jesus histórico feitas pelos que dão prioridade aos apócrifos, especialmente os evangelhos gnósticos, deixam sem explicação o surgimento das tradições escatológicas a respeito dele que hoje encontramos nos evangelhos canônicos. Nem mesmo a tese da “imaginação criativa da comunidade” defendida pela crítica da forma pode explicar satisfatoriamente como um camponês judeu, com ideias e estilo de vida de um filósofo cínico, praticando o curandeirismo entre o povo simples, cheio de ideias gnósticas, acabou por ser transformado no Cristo que temos nos evangelhos em tão curto espaço de tempo, com as testemunhas oculares dos eventos ainda vivas.


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