Apologética



As testemunhas de Jeová e o hino alemão


Por Alan Feuerbacher

A evidência apresentada por Penton, em carta que enviou à Sociedade Torre de Vigia em 11 de agosto de 1995 (três anos antes de sair a Despertai! de 8 de julho de 1982) sobre Balzereit era irrefutável; por isso, a Sociedade não pôde continuar a fazer de Balzereit um bode expiatório.

Mas, as razões por detrás da mudança na atitude da Sociedade Torre de Vigia em relação a Balzereit talvez tenham sido outras: se eles continuassem a dizer que Balzereit tinha alterado (ou deturpado) o conteúdo da Declaração para agradar os nazistas, isso seria admitir que, de fato, havia na Declaração frases especialmente escritas para agradar os nazistas!

É obvio que isso não convém à estratégia de vitimização das testemunhas de Jeová, de se fazerem passar por mártires no período do holocausto. Portanto, a Sociedade Torre de Vigia adotou uma nova estratégia (muito mais inteligente): ilibar Balzereit de toda culpa (coisa fácil de fazer, especialmente porque a Sociedade Torre de Vigia não assume que o difamou) e dizer que a Declaração não tinha absolutamente nada de mal e até era bem-intencionada!

O historiador M. James Penton cita a transcrição da gravação das conferências sobre a história das testemunhas de Jeová na Alemanha, dadas em 1976, na República Federal da Alemanha por Konrad Franke, o superintendente da filial da Torre de Vigia na Alemanha entre 1955 e 1969 : "[...] Quando a reunião começou, foi precedida por uma canção que nós já não cantávamos há muitos anos, especialmente na Alemanha".

Por que Rutherford, segundo presidente da Organização, escolheu precisamente para esta reunião um cântico que os Estudantes da Bíblia já não cantavam há muitos anos? Vejamos o que Franke diz a seguir: "Devido à melodia. Embora não houvesse problema com a letra - bem, os músicos que estão aqui reconhecerão que as notas eram [retiradas] da melodia de Deutschland, Deutschland, über alles! ["Alemanha, Alemanha, acima de tudo". Era o hino nacional alemão.]

Eis a razão pela qual já não cantavam, há muitos anos, essa canção: toda gente a reconhecia como tendo exatamente a mesma melodia do hino alemão! A própria Despertai! reconhece isso na página 13 da edição de 8 de julho de 19987, ao dizer que eles "talvez relutassem em cantar" aquele cântico porque "a melodia" do cântico "era a mesma que a do hino nacional" alemão.

Voltemos ao relato de Franke: "Conseguem imaginar como nos sentimos? Muitos não podiam cantar; era exatamente como se alguém os estivesse estrangulando. Que espécie de líderes tínhamos nós, que nos trouxeram [para] tais perigos - e o perigo de hesitar ou balbuciar nestas circunstâncias - em vez de nos ajudarem e apoiarem, de modo que pudéssemos tomar uma posição destemida [contra o nazismo]. Que todos os anciãos que estão aqui entre nós [participando desta conferência] possam aprender alguma coisa destes exemplos, e que reconheçam as suas responsabilidades em tais assuntos no futuro próximo".

Por que haviam de ter essa curiosa reação ao cântico se, conforme diz a Despertai! (p. 13), "os Estudantes da Bíblia na Alemanha, ocasionalmente, ainda cantavam o hino 64?" Será que era por que até eles reconheciam que aquilo era uma estratégia para ganhar as boas graças dos nazistas?

Essa declaração da Despertai! também é contrariada pela afirmação do ex-diretor da filial alemã, Franke, que diz que aquela era "uma canção que nós já não cantávamos há muitos anos, especialmente na Alemanha", conforme citado antes.

Outro ponto em que a Despertai! é pouco honesta é ao dar esta desculpa (p. 13): "Realmente, o congresso começou com A Gloriosa Esperança de Sião, Cântico 64 do cancioneiro religioso das testemunhas de Jeová. A letra desse cântico foi adaptada à música composta por Joseph Haydn, em 1797. O Cântico 64 já estava no cancioneiro dos Estudantes da Bíblia pelo menos desde 1905. Em 1922, o governo alemão adotou a melodia de Haydn com a letra de Hoffmann von Fallersleben como hino nacional".

Aqui, a Sociedade Torre de Vigia está sendo pouco honesta. Vejamos o motivo:


Ponto 1


O cancioneiro que os Estudantes da Bíblia usavam em 1933 não era o cancioneiro de 1905

Aquela reunião, onde foi adotada a resolução e se entoou o Cântico 64, ocorreu em 1933. Nesta altura, as testemunhas de Jeová usavam um cancioneiro lançado em 1928 (veja o livro Proclamadores, página 241), portanto, seis anos depois de a Alemanha ter escolhido aquela melodia de Haydn para hino alemão!

É irônico que o livro Proclamadores diga: "1928: Cânticos de Louvor a Jeová (337 cânticos, uma mistura de hinos novos, escritos pelos Estudantes da Bíblia, e de outros mais antigos. Na letra, fez-se esforço especial de afastar-se de sentimentos da religião falsa e da adoração de criaturas)".

Por que - seis anos depois de a Alemanha estar usando aquela melodia como hino nacional - os Estudantes da Bíblia decidiram manter no seu cancioneiro essa melodia que estava inconfundivelmente ligada a um hino nacional que glorificava a "Alemanha acima de tudo" (Deutschland, über alles)?

E por que, entre os 337cânticos que existiam no cancioneiro, eles tiveram logo de escolher um cântico que qualquer pessoa identificaria com o hino alemão? A Despertai! não responde a essa pergunta, mas a razão para a escolha é perfeitamente óbvia.


Ponto 2


A Despertai! oculta a origem da "melodia de Haydn"

Pela forma como a Despertai! descreve a "melodia de Haydn", o leitor fica com a impressão de que essa era apenas mais uma das melodias de Haydn. A verdade - que a Despertai! preferiu esconder dos seus leitores - é que a melodia foi, desde a sua origem, um Hino Imperial em honra do Kaiser Francisco II!

Essa melodia foi composta por Haydn como "um Hino Imperial (Hino do Kaiser) para Francisco II, o último Kaiser do [...] 'Santo Império Romano'". Referindo-se à mesma melodia, a Encyclopedia Britannica diz que: "Em 1797, Haydn deu à nação austríaca a empolgante canção Gott erhalte Franz den Kaiser ('Deus, salve o imperador Francisco')". A Encyclopedia Britannica diz, ainda, que "a melodia [foi] originalmente composta por Joseph Haydn em 1797 como um hino imperial austríaco".


Ponto 3


A Despertai! oculta dos seus leitores que a "melodia de Haydn" tinha sido, durante mais de 100 anos, o Hino da Áustria!

Essa melodia, "com várias variações no texto, serviu como Hino da Áustria até o fim do império Austro-Húngaro, em 1918 (fim da 1a Guerra Mundial)". A Encyclopedia Britannica diz que a melodia "foi usada como hino austríaco durante mais de um século".

A Encyclopedia Britannica ainda afirma que essa canção "foi usada durante mais de um século como hino nacional da monarquia austríaca e como canção patriótica Deutschland, Deutschland über alles ("Alemanha, Alemanha sobre tudo") na Alemanha".

Reunindo as informações recolhidas nestas últimas citações, concluímos que a canção foi usada desde 1797 até 1918 como hino da Áustria! Por que, então, a Despertai! esconde esse fato?

Quando a Sociedade Torre de Vigia decidiu incluir a melodia no seu cancioneiro de 1905, a canção, desde já, tinha atrás de si uma longa história de mais de um século como Hino do Império Austríaco e, também, como "canção patriótica [...] na Alemanha", exaltando a Alemanha "acima de tudo".

Quando a Sociedade Torre de Vigia decidiu manter a melodia no seu cancioneiro de 1928, a mesma, entretanto, já em 1922, tinha sido adotada como Hino da Alemanha. Seja qual for o ângulo por que se examine a questão, a posição da Sociedade Torre de Vigia, neste assunto, é completamente indefensável e a Despertai! escondeu informação dos seus leitores.


Ponto 4


A Despertai! esconde dos seus leitores que a "melodia de Haydn" tinha sido um Hino não oficial da Alemanha desde meados de 1850

Essa melodia "tinha sido um hino nacional não oficial [da Alemanha] na segunda metade do século 20". Esses fatos mostram que a honestidade da Sociedade Torre de Vigia deixa muito a desejar e esse artigo da revista Despertai! não passa de uma desastrada tentativa de branqueamento do comportamento vergonhoso que teve naquela ocasião, em 1933.


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