Apologética



O antissobrenaturalismo e a crítica do Antigo Testamento


Muitos críticos têm verdadeira aversão ao sobrenatural. Mas, se não pudermos aceitar o sobrenatural, não podemos, também, aceitar a revelação da divindade e muito menos a encarnação de Jesus e sua ressurreição. Se o valor histórico das Escrituras é descartado e os milagres são impossíveis, nada fica na Bíblia que mereça crédito.

Para muitos críticos, a simples presença de um elemento sobrenatural no texto serve de evidência suficiente para que rejeite a sua historicidade. Não levam em conta que a ciência moderna não mais encara a natureza como um sistema fechado, pelo que não se pode mais insistir em que os milagres são impossíveis, cientificamente. A religião de Israel é uma religião histórica, e olhar para ela não levando em consideração sua historicidade é um dolo ao povo de Israel.

Resumidamente, pode-se dizer que, dentro de uma história de cosmovisões, temos o teísmo, que postula a existência de Deus e sua imanência dentro de um Universo aberto; o deísmo crendo em Deus, mas negando sua manifestação no Universo; e, enfim, o naturalismo, negando acentuadamente, a existência de Deus.

O naturalismo tem como base as seguintes premissas:

 A matéria existe eternamente e é tudo o que existe. Deus não existe

 O cosmo existe como uma uniformidade de causa e efeito num sistema fechado

 Os seres humanos são máquinas complexas

 A morte é a extinção da personalidade e da individualidade

 A história caminha em linha reta, mas não tem nenhum objetivo predeterminado

 O próprio homem produz suas normas éticas.

Fonte: SIRE, James W. O Universo ao lado. São Paulo: Editorial Press, 2001, p. 66-91.

O naturalismo posto em prática se equivale ao humanismo secular. "Nascido no século 18, ele cresceu no século 19 e chegou à maturidade no século 20". Mas, felizmente, antes de o século 20 terminar, começaram a aparecer rachaduras no edifício naturalista.

Algumas explicações naturais têm sido propostas por alguns críticos e teólogos liberais, que alegam que, pelo fato de o êxodo ser cercado por eventos miraculosos, acreditam que os milagres foram inserções posteriores para "enfeitar" a passagem, a fim de que tivesse maior credibilidade. Esse tipo de raciocínio apenas demonstra a repulsa por milagres.

A estudiosa Karen Armstrong faz a seguinte declaração quanto à historicidade do livro de Êxodo: "O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica". Vale ressaltar que sempre houve períodos na história em que se manifestaram milagres com mais frequência, conforme o contexto e a necessidade; e o momento que o povo de Israel passava era um momento de crise em sua história, tendo a necessidade de uma maior intervenção divina.

De forma muito clara se expressa o erudito em Antigo Testamento, H. H. Rowley, sobre a historicidade do êxodo de Israel do Egito: "É bem improvável que esse relato houvesse sido inventado pelos israelitas. Se o tivessem inventado, seria de esperar que atribuíssem sua libertação ao Deus a quem até então haviam cultuado. Se a missão de Moisés fosse obra do seu próprio coração e da sua simpatia para com os seus compatrícios maltratados e oprimidos, de esperar seria que ele lhes apresentasse em nome do seu Deus. Em vez disso, dirigiu-se a eles na confiante persuasão de que fora mandado por Iahweh [...] Povo algum seria capaz de inventar, contra a verdade, uma história de que seus antepassados tinham sido escravos de uma nação estrangeira. Povo algum inventaria a história de que havia sido libertado por um Deus que, até então, não havia adorado, caso não tivesse sólidos motivos para crer que isso era verdade. E homem algum complicaria, desnecessariamente, a sua tarefa de libertar um lote de escravos, com uma estranha história de que havia sido enviado por um Deus cujo nome eles jamais reconheceriam como o nome de seu Deus, a não ser que estivesse profundamente convencido de que isso era verdade [...] Desconte-se qualquer dos aspectos desse acontecimento e a narrativa ficará mais inacreditável do que como está na Bíblia."

Em 1907, P. Volz publicou a primeira edição de sua obra Mose, e nela duvidou que a religião de Israel tivesse sido fundada em acontecimentos históricos. Contudo, na segunda edição, em 1932, ele retratou sua opinião: "A religião mosaica e com ela toda a religião veterotestamentária é uma religião histórica, não uma religião natural. Foi fundada em um lugar determinado, numa época determinada, por uma pessoa determinada, em uma sociedade determinada. Apoia-se em fatos históricos".

A mola propulsora desta nova exegese é a impossibilidade de acontecimentos sobrenaturais. Milagres não são possíveis. Portanto, se houve milagres, os respectivos textos devem ser entendidos como lendas, mitos e sagas. A principal razão pela qual os naturalistas não creem em milagres é porque a sua visão de mundo os impede de crer. Wilhelm Möller diz: "Não acho que se pode tornar plausível que, em qualquer raça, as fábulas e os mitos viessem, no decorrer do tempo, a serem aceitos cada vez mais como fatos reais, de modo que devêssemos agora, quiçá, estar dispostos a aceitar como fatos históricos as lendas do Poema dos Nibelungos ou de Chapeuzinho Vermelho. Mas isto, segundo os críticos, deve ter acontecido com Israel".

Segundo os críticos da Hipótese Documental, alusões proféticas em textos do Antigo Testamento devem ser consideradas uma vaticinium ex eventu, ou seja, uma profecia posterior ao evento profetizado. Mas, apenas mentes que não consideram possíveis eventos sobrenaturais nos textos bíblicos podem supor tal argumento.

Para Andrew E. Hill, "a questão da confiabilidade histórica das narrativas do Pentateuco (e de outras do Antigo Testamento) depende, pois, das pressuposições referentes à natureza do texto bíblico" (HILL, 2006, p. 65). Em suma, os críticos negam a origem divina das Escrituras e o sobrenatural das narrativas bíblicas sob o pressuposto de que a Bíblia é um documento meramente humano pré-científico. Também buscam recriar a história de Israel por meio de achados arqueológicos, dados literários e modelos contemporâneos sociopolíticos.

A razão que leva os críticos a negarem a historicidade de algumas narrativas do Antigo Testamento é que essas narrativas, algumas vezes, não estão em conformidade com os padrões da escrita da história moderna. A historiografia moderna enfatiza a sequência cronológica rígida e clara, seleção equilibrada do material, citações textuais, e assim por diante. Mas, ocorre que os escritores bíblicos não tinham o objetivo de escrever um tratado de história; o que observamos nos escritores bíblicos, na maioria das vezes, são propósitos e perspectivas teológicos, o que vem justificar as discrepâncias com a historiografia moderna".

Assim, dentro do propósito e alcance dos escritores bíblicos, eles apresentaram os dados históricos da melhor maneira possível. "A preocupação do texto não é comprovar a história, mas, antes, impressionar o leitor com a significação teológica desses atos. História e teologia estão estreitamente conectadas no texto bíblico". Sem dúvida, a metodologia literária que determinado pesquisador adote, afetará a resposta que se dá à questão histórica.

Quando os críticos negam a intervenção sobrenatural de Deus, negam baseados em suas pressuposições filosóficas e não devido à análise das evidências históricas dos textos bíblicos. Para garantirmos a veracidade de um acontecimento, precisamos investigar se ele realmente aconteceu e não simplesmente negá-los mediante especulações filosóficas. Suas conclusões são determinadas por uma metafísica antissobrenatural. Todo o conteúdo da história de Israel deve ser naturalizado segundo suas pressuposições. Para os críticos mais radicais, toda a história da origem de Israel está envolta em mitos e lendas, e personagens como Abraão e Moisés são tidos como figuras não históricas. Alguns chegam à conclusão de que teria havido um clã com o nome de Moisés, e o mesmo não passava de uma figura não histórica, tal qual a figura dos patriarcas.

Segundo os pressupostos da Hipótese Documental e de alguns críticos, seria mais fácil dizer que a história da travessia do mar Vermelho (ou de juncos/bambuzal) pode ser interpretada corretamente sem referência à sua verdade histórica. Esta maneira de interpretar a passagem em questão, e outras semelhantes, atrai muitas pessoas, principalmente porque possibilita àqueles que negam a crença no sobrenatural, mas desejam continuar sendo identificados como cristãos, encontrarem uma solução para o seu dilema.

A aceitação dos eventos sobrenaturais dependerá dos pressupostos que o intérprete tenha. Se ele vê a Bíblia como qualquer outra literatura em uma perspectiva humana, evidentemente negará qualquer fator sobrenatural e considerará as Escrituras como uma "antologia religiosa", porém, se o intérprete admite a realidade de Deus e a Bíblia como a Palavra de Deus inspirada, não terá a mínima dificuldade em aceitar o sobrenatural.

Para o teólogo bíblico Geerhardus Vos, "o histórico pode ser sobrenatural, o sobrenatural pode entrar na história e, assim, tornar-se uma peça daquilo que é histórico em sua forma mais elevada". Ainda segundo Canon Dyson Hague (apud TORREY), "a descrença antecedeu a crítica, não foi consequência dela".

Samuel J. Schultz esclarece como devemos lidar com o Antigo Testamento ao relacioná-lo com o natural e o sobrenatural: "O Antigo Testamento só pode ser entendido em seu sentido mais amplo como história sagrada. Para que se tenha uma compreensão total de seu conteúdo, é necessário reconhecer que os fatores naturais e os sobrenaturais são essenciais em toda a Bíblia".

Uma vez aceita a realidade da existência de Deus, automaticamente deve-se aceitar a existência do sobrenatural. Nada além da vontade de Deus pode impedir a manifestação do sobrenatural.


Por Danilo Raphael Moraes


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