Apologética



A presença do fato religioso na sociedade



Por Cristiane Ribeiro de Mello Araujo

Reflexões sobre o conceito de religião

Como cientista da religião e cristã, reconhecemos que falar de religião não é fácil. Há uma di-versidade de teorias a respeito do fato religioso, e essa diversidade é grande. A observação do fato religioso pode ser feita, entre outras formas, a partir das relações sociais ou políticas de uma instituição religiosa, ou para compreender melhor suas dimensões sociológicas ou psicológicas.

Max Weber (1904-19) distingue religiões rituais, de redenção, soteriológicas - com as relativas figuras do feiticeiro, do sacerdote e do profeta -, mas também considera o caráter monoteísta ou poli-teísta das religiões, sem com isso ignorar que há religiões sem Deus ou sem deuses. Além dessas consideradas por Weber, há as religiões que consideram que os "espíritos" podem ser reconhecidos como as causas dos principais acontecimentos da vida humana e, por isso, serem objetos de culto. E há ainda outras, com cultos consagrados aos mortos e aos antepassados.

Através da história podemos entender que há diferenças de experiências religiosas que se ex-plicam pelas diferenças de economia, cultura e organização social.


A definição social de religião


Existem vários problemas para definir o que é religião neste âmbito. A exigência de uma defi-nição preliminar ou de uma elaboração do conceito não escapa ao filósofo que se interroga sobre a religião.

Uma maneira de analisar consiste em partir do termo para dele tirar os diversos significados usuais e obter uma definição média, razoável. Mas procedendo desta forma só resolveremos um pro-blema de vocabulário, para o qual a religião é "a adoração dos deuses, aos quais nos dirigimos pela oração"; é uma forma egoísta de religião, que pretende forçar a natureza e não faz referência a divin-dades personificadas.

Rubem Alves coloca que a religião nasce com o poder que o homem tem de dar nome às coisas. E que ela se apresenta como uma rede de símbolos. De maneira poética, ele diz que a religião nasce, "como mensagem do desejo, expressão de nostalgia, esperança de prazer..." (Alves, 1996:74).

Durkheim, em Formas elementares da vida religiosa, escrito em 1912, estabelece a definição social da religião de modo tão sólido que todas as investigações a respeito do fenômeno religioso tem necessariamente de se referir a ele. Esta definição recorre a um certo numero de noções - mistério, sobrenatural, profano, sagrado, ascetismo, proibições, almas, deuses, iniciações, magia - que ao mesmo tempo situa umas em relação às outras e cada uma delas em relação à própria definição. O ponto de partida de Durkheim é o da unidade do fato religioso.

Estudando "a mais primitiva e mais simples religião atualmente conhecida", propõe-se fazer a-florar os elementos constitutivos da religião e facilitar a sua explicação. Há duas noções geralmente consideradas essenciais em sua definição de religião. Uma primeira noção muito facilmente conside-rada como característica do fenômeno religioso é a de sobrenatural ou de mistério.


A sobrenaturalidade e o mistério como fenômenos religiosos


Durkheim opõe as definições e as análises de filósofos como Spencer e Max Muller. E sublinha que este papel sofreu variações nos diversos momentos da historia cristã. Durante muito tempo a re-ligião nada teve de misterioso ou de incompatível com a ciência e a filosofia. A noção de forças natu-rais, afirma Durkheim, deriva provavelmente da noção de forças religiosas: "Não poderia, pois, haver entre umas e outras o abismo que separa o racional do irracional". A atitude dos antigos ou dos pri-mitivos perante o mundo físico é, sob este aspecto, muito próxima da atitude de um homem moderno perante os fatos sociais.

Procede-se como se a religião formasse uma espécie de entidade indivisível, quando ela é um todo formado de partes: um sistema mais ou menos complexo de mitos, dogmas, ritos, cerimônias.[...] mas também existem outros fenômenos que se formam espontaneamente sob a influência de causas e locais. Nos países europeus o cristianismo esforçou-se por absorvê-los e assimilá-los; imprimiu-lhes a cor cristã [...] persistiram até data recente ou persistem [...] festas da árvore de maio, do solstício de verão, do carnaval, crenças diversas relativas a gênios, a demônios locais, etc. (Durkheim, 1989:67).

Enfim, a religião, mais do que explicar as novidades, as monstruosidades e os acontecimentos inesperados destina-se a dar conta "do caminho habitual do universo" e "a manter de modo positivo o curso normal da vida".


A divindade como fenômeno religioso


A segunda idéia examinada por Durkheim é a de divindade. Tylor, propôs definir mais ampla-mente a religião como "a crença em seres espirituais". Mas, observa Durkheim, que também esta concepção supõe que as entidades, objeto das crenças humanas, são seres conscientes, aos quais os homens se dirigem para os cativar ou os comover por meio de preces, sacrifícios, ritos propiciatórios, etc. Entretanto, há um grande número de fatos aos quais esta concepção da religião não se aplica, pois ignora que há religiões sem deuses e sem espíritos e que mesmo em religiões "deístas", há ritos completamente independentes da idéia e da existência de deuses ou de espíritos.

Durkheim propõe sua definição geral da religião como sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas e interditas, as quais unem numa única comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a elas aderem. Já Max Muller vê em toda religião um es-forço para conhecer o inconcebível, para exprimir o inexprimível, uma aspiração ao infinito (1989:55).


A religião como realidade coletiva e expressiva


A religião é assim concebida como uma realidade coletiva e expressiva. Coletiva, porque es-tende-se ao conjunto das crenças que, por sua vez, "pressupõem uma classificação das coisas reais ou ideais que os homens representam, em duas classes ou em dois gêneros opostos, definidos geralmente por dois termos distintos - bastante bem traduzidos pelas designações de profano e de sagrado".

A extensão destes dois âmbitos pode variar de uma cultura para outra. A crença e a prática reli-giosas estão, pois, necessariamente separadas. A religião, concebida como uma sistematização geral do mundo, é duplamente expressiva do social: social em si mesmo, devido às proibições e às jurisdi-ções que instituem a oposição entre sagrado e profano, e é social também em relação às instituições que regem a passagem de um ao outro (do sagrado ao profano ou vice-versa).

Como é apresentado por Renato Ortiz no livro Formas elementares da vida religiosa, "Dur-kheim acentua sempre o lado consensual da religião, sendo a igreja o espaço no interior do qual as crenças e as práticas religiosas se articulam e se unem em torno de uma mesma comunidade moral". (1989:20). Weber a enxerga como uma espécie de "empresa de salvação de almas".

A definição da religião como coletiva e como expressiva do social leva, de modo aparentemen-te contraditório, a privilegiar os critérios negativos de definição. Levi-Strauss observa maliciosamente que, a este nível de generalidade, todas as filosofias e todas as religiões se confundiram. Os três critérios que, para Durkheim, definem a religião são:

 A religião é um sistema. (Se pelas eventualidades da história, o conjunto se dilui e a sistema-ticidade se perde, trata-se de um culto - residual ou folclórico - mas não de uma religião);

 A religião refere-se a realidades sagradas (O uso metafórico do termo 'religião' é privado de ambigüidade);

 A religião é fruto de uma comunhão moral.

Se um destes três caracteres falta, não se está em presença de uma religião. "Podemos dizer, portanto, em resumo, que quase todas as instituições sociais nasceram da religião [...] Se a religião gerou tudo o que existe de essencial na sociedade, é porque a idéia da sociedade é a alma da religião" (Durkheim, 1989:496).

Se ao lermos tudo que até aqui foi escrito, julgarmos que nas definições de religião podemos encaixar qualquer religião, estaremos certo. Assim como podemos até perceber que uma torcida de um time de futebol, reunida numa comemoração, se enquadra dentro dessas definições de religião, afinal é um grupo social reunido com uma finalidade de "cultuar", adorar (no caso de alguns) ou ho-menagear, a um deus, o futebol, e enquanto reunida, tem uma moral e algo que é sagrado.


A religião segundo a Bíblia


Somente na epístola de Tiago 1.27, vemos, na tradução para o português, a palavra religião: "A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo".

Este texto nos indica modos morais e éticos de se viver em sociedade. E em nada contradiz a ciência com relação do que é religião. De acordo coma definição de Durkheim o cristianismo é uma religião.

Os evangélicos são, contudo, privilegiados, pois possuem a Bíblia, o manual de instruções que os informa sobre como chegar, qual o caminho, ao transcendente: "Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14.6). Assim, temos a resposta para a pergunta "Qual a religião verdadeira?" A religião verdadeira é fazer com que toda a sociedade a nossa volta veja e seja atingida pelos preceitos morais e éticos do manual do instrutor, nosso Senhor, porque ele foi escrito não por quem conhece o caminho e a verdade, mas por quem é o caminho e a verdade.

* Cristiane Ribeiro de Mello Araújo é mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Presbi-teriana Mackenzie.


Bibliografia:

Bíblia de Estudo Vida Nova

ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Ars Poética, 1996.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares de vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Ed. Pauli-nas,1989.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

GEILER, Norman L. Fundamentos Inabaláveis: respostas aos maiores questionamentos contemporâneos à fé cristã. São Paulo: Editora Vida, 2003.

Enciclopédia Einaudi, volume 30, verbete Religião-Rito, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.


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