Apologética



Transfusão de sangue - Transplante de órgão ou refeição?



Por Marcos Paiva

Quando a transfusão de sangue foi proibida pela Sociedade Torre de Vigia, liderança internacional das Testemunhas de Jeová, época na qual também era vetada a vacinação e a inoculação de soros, criou-se como sustentáculo para o ensinamento a regra que respondia a esta indagação: “Muitos dizem que uma transfusão não é semelhante a comer sangue. É sólido este ponto de vista?”.

A STV argumentou este entendimento dessa maneira:

“Um paciente no hospital pode ser alimentado através da boca, através do nariz, ou através das veias. Quando soluções de açúcar são dadas por via intravenosa, isso é chamado alimentação intravenosa. Portanto, a própria terminologia do hospital reconhece como alimentação o processo de colocar nutrição em nosso sistema através das veias. Conseqüentemente, o enfermeiro que administra a transfusão está a alimentar o paciente com sangue através das veias, e o paciente que recebe o sangue está a comê-lo através das veias” (grifo nosso). (The Watchtower [A Sentinela] – 1º de julho de 1951, p. 415 – em inglês) – (grifo acrescentado)

A STV traz atualmente o mesmo entendimento daquela época, estabelecendo entre seus membros – sócios – que toda a recepção interna de substância orgânica de outro ser vivo, inclusive o sangue, não difere em nada de qualquer refeição feita naturalmente por via oral. Outra analogia que tenta estabelecer a idéia de ingestão de sangue intravenosa, diz:

“Algumas pessoas podem raciocinar que receber uma transfusão de sangue realmente não é comer. Mas não é verdade que quando um paciente está impossibilitado de comer através da boca, os médicos freqüentemente alimentam-no pelo mesmo método através do qual uma transfusão de sangue é administrada? Examine as escrituras cuidadosamente e note que elas nos dizem para nos mantermos livres de sangue e nos abstermos de sangue. (At 15.20, 29) O que significa isto? Se um médico lhe dissesse para se abster de álcool, será que isso significaria simplesmente que você não devia tomar álcool através da boca, mas que o podia transfundir diretamente nas suas veias? É claro que não! Assim também se abster de sangue significa não introduzi-lo nos nossos corpos de modo nenhum” (grifo nosso). (The Watchtower [A Sentinela], 1.º de junho de 1969, pp. 326-327 [em inglês]).

O leitor que porventura já tenha feito parte do quadro de sócios da instituição STV, seguindo as diretrizes de seu Corpo Governante, já deverá provavelmente ter tido contato com este ensinamento por inúmeros discursos e estudos ministrados nos Salões do Reino das Testemunhas de Jeová, entretanto, questionamos: Seria esta a correta visão de tão nobre recurso médico? É provável que não!

A comparação que se faz da citação acima carece de bom senso, para que se respeite a clara intenção de um médico que adverte seu paciente a que não consuma bebida alcoólica; sem dúvida com o fim de poupar-lhe das conseqüências advindas deste vício. É claro ainda para todos, que jamais se fez transfusão de álcool com qualquer propósito médico, pois o tal procedimento levaria o paciente à morte.

Da mesma forma, poderíamos considerar dois pacientes que dão entrada em um hospital com históricos de desnutrição – no primeiro caso, e de acidente automobilístico no qual a vítima perdeu muito sangue, no segundo.

Dispensaria-se o diploma acadêmico se a cada um de nós fosse oferecida uma orientação médica por escrito, na qual constasse a terapêutica a ser empregada em cada um dos casos, indicando, provavelmente, alimentação propriamente dita para o desnutrido e bolsas de sangue para imediata transfusão no acidentado, uma vez que, invertendo-se o procedimento, viria a óbito o acidentado pela perca de sangue não reposto, falta que jamais poderia ser suprida apenas por alimentos, enquanto que o desnutrido, falta de nutrientes encontrados numa dieta alimentar completa, receberia inutilmente fluído sanguíneo em suas veias.

O Corpo Governante adotou ainda o argumento do médico Jean Baptiste Denys, do século XVII, um dos pioneiros na técnica de transfusões, o qual pronuncio-se da seguinte forma:

“Ao realizar uma transfusão, isso nada mais é do que nutrir através de um caminho mais curto do que o normal, ou seja, colocar nas veias sangue já feito em vez de tomar alimento que só depois de várias mudanças se transforma em sangue” (grifo nosso). (The Watchtower [A Sentinela], 15 de setembro de 1961, p. 558 [em inglês]) – (grifo acrescentado).

A citação de Denys, todavia, não encontra hoje, sequer apoio entre os médicos ligados a STV, simpatizantes desta declaração, visto que o juramento que se faz quando se conclui um curso de medicina, isenta o formando de quaisquer vínculos religiosos, restando-lhe apenas responder da forma mais responsável possível pelas vidas que lhe forem confiadas no transcurso de sua carreira, o qual fatalmente seria quebrado se por esta determinação da STV, ao invés de salvar-se uma vida, por-se-ia a mesma a perder.

Como num novo fundamento providenciado, as testemunhas de Jeová associaram a transfusão de sangue ao transplante de órgãos e tecidos, quando no passado não pensavam desta forma, como vimos anteriormente, na citação em destaque da Sentinela de 1º de julho de 1951.

Em recentes inserções, datadas de 1990, incluem-se, com certa aparência de substituição doutrinária, os seguintes textos:

“Como observa Denton Cooley, cirurgião cardiovascular: Uma transfusão de sangue é um transplante de órgão” (grifo nosso). (Despertai!, 22 de outubro de 1990, p. 9) – (grifo acrescentado)

“Quando os médicos realizam um transplante de coração, do fígado, ou de outro órgão, o sistema imunológico do receptor pode detectar a presença do tecido estranho, e rejeitá-lo. Todavia, uma transfusão é um transplante de tecido” (grifo nosso). (Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida? (1990), p. 8; ênfase no original.) – (grifo acrescentado)

As Testemunhas de Jeová, nas pessoas de seus dirigentes, passaram a ter dificuldades com a anterior interpretação de Gênesis 9.4, àquela na qual se associava sangue a alimento oral, quando na década de 60, após atualizarem-se cientificamente, substituíram a alegação última pela atual, ou seja, não se tratando mais a transfusão como uma forma de comer sangue, mas de sustentar a própria vida através dele.

Como já exposto, sabemos que para o sangue se tornar alimento, deve ser ingerido como tal, ingressando no organismo através da boca, descendo até o aparelho digestivo onde o fluído seria processado e transformado, em sua parte proveitosa, em nutrientes, efeito que não se alcança na transfusão intravenosa, por ser o sangue totalmente aproveitado, sempre com a finalidade de reposição de um órgão perdido ou necrosado, e jamais como meio de nutrição, de forma idêntica a um transplante renal.

Concernente ao transplante de órgãos, a STV exarou determinação proibitiva para esta prática entre os anos de 1967 e 1980, classificando este exercício clínico como canibalismo.

Embora o transplante de órgãos seja hoje algo aceito pela STV, num intervalo de treze anos passados, não o foi, o que condenou pela falta de esclarecimento um sem número de testemunhas de Jeová pelo mundo; inutilmente aclamadas como heróis enquanto milhares de famílias lamentavam a perda de uma vida que poderia ser salva com uma simples transfusão; casos e mais casos de sócios se digladiando nos tribunais a fim de reclamar da própria negligência.

Tudo isso acaba por formar um obstáculo quase que intransponível na história do Corpo Governante das testemunhas de Jeová, pois que uma vez considerada a hipótese de se extinguir tal doutrina, isentando-se após tanta dor e perdas os membros da STV de qualquer proibição de se submeterem a uma transfusão de sangue, obviamente os defrontariam com um colapso sem precedentes entre seus membros em todo o mundo.

Não é de se estranhar a ânsia encontrada nas publicações das testemunhas de Jeová dando conta da possibilidade, hoje real, da confecção de sangue artificial, como constatamos a seguir no rol de nada menos que 16 publicações anteriores.

“Sangue artificial: w 85 4/15 21; w 83 11/1 23; w 82 5/1 7; g 82 6/22 26; g 81 6/22 29-30; g 80 2/22 21-3; g 80 8/8 29-30; w 79 11/15 29; g 79 8/8 31; g 79 10/8 29; g 78 2/8 29; g 74 6/22 22; g 73 7/8 31; g 72 6/22 29-30; g 70 1/22 30; g 70 2/8 30” [“w” é a abreviatura da revista A Sentinela; “g” é a abreviatura da revista Despertai!].

Passou a vigorar no fim da década de 40 um decreto que proibia totalmente a aceitação de sangue transfundindo sob quaisquer formas, como determinou o Corpo Governante, não importando se o fluído varia na sua composição total ou fracionada. Tempos após, estabeleceu-se de forma quase imperceptível para os adeptos da STV, gradualmente, novas normas para este procedimento, enfatizando cada vez mais as questões técnicas da transfusão.

Na tabela abaixo encontramos, devidamente discriminada, a maneira tida como admissível para as testemunhas de Jeová no tocante a esta questão.


Componentes do sangue e práticas proibidas

Sangue total

Plasma

Glóbulos brancos (leucócitos)

Glóbulos vermelhos

Plaquetas

Armazenar o sangue do próprio paciente para transfusão posterior


Componentes do sangue e práticas permitidas

Albumina

Imunoglobina

Preparados hemofílicos (Fator VIII e IX)

Passagem do sangue do paciente através de uma bomba cárdio-pulmonar, ou outra em que a circulação extracorpórea seja ininterrupta.

O Corpo Governante passa então a classificar as substâncias contidas no sangue como maiores ou menores, o que notadamente, e por não possuir sustentáculo, revela a forma arbitrária e inconsistente com a qual a STV trata seus seguidores.

Fica ainda claro, que este “escape” teve de ser providenciado para que se reduzisse o número de baixas entre seus seguidores, e que tal teria de ser providenciado de forma a não despertar a indignação de muitos que, por obediência aos dirigentes internacionais, sepultaram muitos de seus entes queridos, os quais não teriam vindo a óbito, não fosse tão equivocada interpretação.


Os Principais Componentes do Sangue


Plasma: Cerca de 55% do sangue. É constituído por 92% de água, o resto é constituído por proteínas complexas, tais como globulina, fibrinogênia e albumina.

Plaquetas: cerca de 0.17% do sangue.

Glóbulos Brancos: cerca de 1%

Glóbulos Vermelhos: cerca de 45%

Despertai, 22 de Outubro de 1990.

A inconsistência da política da Torre de Vigia quanto a componentes aceitáveis e não aceitáveis é bem ilustrada pela sua política quanto ao plasma. Como se pode ver nas informações extraídas da edição de 22 de Outubro de 1990 da Despertai! (veja Box) este elemento constitui cerca de 55% do volume do sangue. Evidentemente, segundo o critério do volume, é colocado na lista de “componentes maiores” proibidos pela Torre de Vigia. E, no entanto, o plasma chega a ser constituído por 93% de água simples. Quais são as componentes dos aproximadamente 7% restantes? Os principais são albumina, globulina (da qual as imunoglobulinas são as partes mais importantes), fibrinogênia e fatores de coagulação (usados nas soluções hemofílicas). Estes são precisamente as componentes que a organização põe na lista dos que são permitidos aos seus membros! O plasma é proibido apesar de os seus componentes principais serem permitidos – desde que sejam introduzidas no corpo separadamente. Como disse certa pessoa, é como se alguém fosse proibido pelo médico de comer sanduíches de queijo e presunto, mas lhe dissessem que pode separar os componentes do sanduíche e comer o pão, o queijo e o presunto separadamente.

Os leucócitos, muitas vezes chamados “células brancas do sangue” (glóbulos brancos), também são proibidos. Na realidade, o termo “células brancas do sangue” é muito enganador, pois a maioria dos leucócitos no corpo de uma pessoa existe de fato fora do sistema sangüíneo. O nosso corpo contém cerca de 2 a 3 quilos de leucócitos e só cerca de 2 a 3% destes estão no sistema sangüíneo. Os outros 97 ou 98% estão espalhados por todo o tecido do corpo, formando o seu sistema de defesa (ou imunológico).Dado tal aspecto e considerando que a STV passou a autorizar o transplante de órgãos, logo, identifica-se uma contradição quanto ao impedimento, ainda que parcial da transfusão, uma vez que num transplante pode-se receber muito mais leucócitos do que numa transfusão.

A ausência de quaisquer bases morais ou lógicas para essa proibição é também vista no fato de o leite humano conter leucócitos, e, de fato, contém mais leucócitos do que se podem encontrar numa quantidade equivalente de sangue. O sangue contém cerca de 4.000 a 11.000 leucócitos por milímetro cúbico, enquanto o leite de uma mãe pode conter, durante os primeiros meses de aleitação, até 50.000 leucócitos por milímetro cúbico. Isto representa entre cinco a doze vezes mais do que a quantidade presente no sangue!

Outro aspecto importante é o fato de a STV identificar na lei mosaica o fundamento para vetar a transfusão, afirmando que todo o sangue de animais, por determinação divina, deveria ser derramado no chão, tentando com isto apoiar também a tese de que se faz contrário à Bíblia o ato de armazenamento de sangue, como se observa nos respectivos bancos de coletas.

Considere agora os fatos seguintes com respeito às componentes que a organização classifica como admissíveis:

Um destes componentes é a albumina. A albumina é usada principalmente em tratamentos relacionados com queimaduras e hemorragias graves. Uma pessoa com queimaduras de terceiro grau em 30 a 50% do corpo necessitaria de 600 gramas de albumina. A política da Torre de Vigia permitiria isto! Quanto sangue seria necessário para extrair esta quantidade? Seriam necessários uns 10 a 15 litros (de 10.6 a 15.9 quartos de galão) de sangue para produzir essa quantidade de albumina. Isto dificilmente poderia ser considerado uma “pequena quantidade” e é igualmente óbvio que os litros de sangue do qual a albumina foi extraída foram armazenados, não foram “derramados no chão” se opondo assim a posição da STV.

A situação é semelhante no caso da imunoglobina (ou globulina gama). Para produzir globulina gama em quantidade suficiente para uma injeção por seringa (uma vacina que pessoas, incluindo testemunhas de Jeová, que viajam para certos países do sul podem tomar como proteção contra a cólera) são necessários perto de 3 litros de sangue como fonte do fornecimento. Isto é ainda mais sangue do que geralmente se emprega numa transfusão. E, de novo, a globulina gama é tirada do sangue que é armazenado, e não “derramado no chão”.

Restam os preparados hemofílicos (Fatores VIII e IX). Antes de estes preparados começarem a serem usados, o tempo médio de vida de um hemofílico na década de 1940 era 16 anos e meio. Hoje, graças a estes preparados derivados do sangue, um hemofílico pode alcançar o tempo normal de vida. Para produzir preparados que manteriam um hemofílico vivo durante este período de tempo estima-se que seriam necessárias extrações de 100.000 litros de sangue. Embora os preparados hemofílicos representem em si mesmos apenas uma fração desse total, quando consideramos a sua fonte não podemos deixar de nos perguntar como é que isto poderia alguma vez ser considerado como envolvendo uma “pequena quantidade” de sangue?


Para as testemunhas de Jeová, uma feliz novidade: O sangue artificial!


Consiste de uma criação alternativa realizada por cientistas canadenses, exatamente elaborada para atender os casos em que o credo religioso não permite a transfusão sanguínea. Trata-se de uma solução sintética com hemoglobina (proteína que contem ferro). Apesar de não apresentar células (glóbulos vermelhos), a substância consegue cumprir o papel primordial do sangue, ou seja, conduzir oxigênio aos tecidos.

Como não podia deixar de ser, a primeira pessoa a participar do teste para adoção da técnica foi uma criança de 14 anos – uma testemunha de Jeová.

Mas apesar das argumentações e da retórica forçosa adotada pela STV para defender este veto, e ainda, embora a ciência tenha recentemente encontrado a saída para essa deficiência desnecessária, estariam as testemunhas de Jeová corretas em afirmar que a Bíblia contem fundamentos para a referida doutrina?

Uma análise acurada da Palavra de Deus nos mostrará que em mais uma oportunidade o Corpo Governante exacerbou de sua autoridade, condenando vidas humanas à morte.

A primeira citação a ser usada como base doutrinária pelas testemunhas de Jeová foi o texto anotado em Gênesis 9.4, onde lemos:

“A carne, porém, com sua vida, isto é, o seu sangue, não comereis” (Tradução de Almeida Corrigida Fiel).

“Somente a carne com sua alma – seu sangue – não deveis comer” (Tradução do Novo Mundo da Escrituras Sagradas – TNM).

Com a finalidade de proibir a transfusão de sangue, a STV faz uso indevido de uma série de versículos que tratam da proibição do uso de sangue animal na alimentação, afirmando, como já anteriormente citado, que aceitar a transfusão de sangue é o mesmo que comê-lo. Todavia, o contexto deste capítulo de Gênesis esclarece que jamais poderia ele ser usado isoladamente para a discutida finalidade.

Este versículo também sofreu interpretação distorcida quando revelado na forma de proibição da vacinação, a qual permaneceu “fora do alcance” das testemunhas por muitos anos (The Golden Age 4, fevereiro de 1931p. 293 – Hoje, a Despertai!.), mantendo este posicionamento por incompletos 23 anos, quando então o aboliram em A Sentinela, de janeiro de 1954, p.15.

O transplante de órgãos recebeu a reprovação do Corpo Governante no ato da publicação da Sentinela de 1 de junho de 1968 – p. 349, considerando este procedimento médico tal repugnante quanto o canibalismo, uma prática comum entre os povos bárbaros.

A STV, procurando amparo médico para suas doutrinas, equiparou a transfusão de sangue aos transplantes de órgãos, apontando ambas as práticas como contrárias as Escrituras Sagradas, baseando-se, para tanto, no texto de Atos 15.20:

“Mas escreve-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue” (Tradução de Almeida Corrigida Fiel).

“TNM”

Está suficientemente claro nesta citação bíblica a passagem refere-se tanto ao texto de Gênesis 9.4, já transcrito, como também à restrição divina que se repete em Levítico 17.10-14, que em primeiro momento referia-se ao consumo da carne de um animal cujo coração ainda denotasse pulsação, isto é, que o mesmo ainda estivesse vivo.

Numa consideração mais elementar, o motivo que pelo qual Deus vetou aos homens o consumo de sangue, está diretamente relacionado a santidade que este fluído possuía, em especial nos rituais sacrificais do tabernáculo, observando que a regra remonta aos tempos de Noé (Gn 9.4), onde se acha frisado que a vida do animal reside em seu sangue, sendo que esta mesma santidade deriva do fato de que era o sangue que Deus à Si exigia como forma de expiação de pecados, o qual era apresentado no altar do Senhor.

Ainda neste âmbito, tinha-se por obrigatório a todo homem que derramasse o sangue de um animal que não se prestasse ao sacrifício, que agisse da mesma forma que os que os preparavam para o holocausto, a saber, que derramassem todo o sangue do animal em terra e, após isso, cobrissem-no com pó, como rege Levítico 17.13.

Acrescente-se a tudo isso o aspecto que engloba o costume judaico, que na atualidade não consideram o significado primitivo do sacrifício, seguindo, contudo a idéia de ter o sangue como algo sagrado devido a sua representatividade vital e já não pelos princípios expostos no Velho Testamento, que relaciona o sangue à expiação de pecados, uma vez que judeus ortodoxos, somente ingerem carne kosher, isto é, “bem preparadas”.

Em contestação aos conceitos da STV, encontramos nas palavras do Senhor Jesus em João 15.13, uma contundente declaração de que, se assim for necessário, a própria vida de alguém deve, como prova de extremo amor, ser entregue por seus amigos, declaração que se acha anotada com semelhante teor na TNM, onde se lê:

“Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”.

(Tradução de Almeida Corrigida Fiel).

Esta expressão associa-se em perfeita conformidade com toda a doutrina sacrifical descrita no Velho Testamento, quando, segundo a lei, a cada pecado cometido, teria o transgressor que apresentar ao sacerdote, de acordo com seu erro, um animal que se encaixasse nas especificações da Lei Mosaica para que, por meio de sua morte, o derramamento do sangue pudesse atender ao propósito da expiação, pagando o animal pelo erro de seu ofertante, já que não se vislumbra apenas no Novo Testamento a verdade de que trata a epístola aos Hebreus no capítulo 9, no versículo 22, quando no mesmo livro e capítulo, nos vv. 16-18, atesta-se que há necessidade de o testador morrer para que seu testamento tenha valia, constatando-se no v. 18 que mesmo a primeira aliança foi sancionada com sangue.

À exaustão, tivemos esclarecido nosso entendimento quando a tamanha distinção existente entre ingerir, comer, deglutir, alimentar-se oralmente do fluído sanguíneo e recebê-lo em transfusão como substituto da porção do mesmo tipo que por qualquer motivo se perdera.

A declaração cristã anotada acima corrobora plenamente o plano salvífico, mesmo que consideremos de forma literal a interpretação de Gênesis 9.4, aludindo a forçosa interpretação da STV, pois que Cristo, como antítipo do sacrifício – o Cordeiro, efetivamente entregou seu sangue de forma muito mais cruenta que um procedimento médico realizado com todos os cuidados necessários à que o doador não se veja prejudicado, considerando todos as cautelas empregadas quando se recebe, para armazenagem, certa quantidade de sangue coletada.

Considere-se ainda, que a técnica de transfusão não se enquadra no ato que se consuma com a intencional extravagância daqueles que consomem gêneros alimentícios que levam sangue em sua receita, como no caso do chouriço (mistura de sangue suíno acrescido de açúcar que toma, antes de ser picado, a forma de uma lingüiça), destacando-se que um doador jamais cogita, tanto quanto o receptor, que o sangue doado será objeto de solução para famintos, mas antes, que terá o nobre propósito de salvar a vida daquele que se vê necessitado para fins estritamente medicinais.

Neste aspecto, contrariamente a visão das testemunhas de Jeová, a doação de sangue recebe entre toda a sociedade, o mais alto conceito em sentimento de humanidade e amor ao próximo, características que devem ser obrigatoriamente encontradas entre os que se dizem cristãos.

No que respeita ainda as ações humanitárias, peculiar característica daqueles que pela fé trabalham em prol da sociedade, podemos encontrar nas palavras de Tiago em sua epístola universal, uma dura reprovação a todos os que, tendo consciência do benefício que devem executar em favor de seu semelhante, não o fazem, o que, segundo a menção feita pelo autor, constitui-se em pecado (4.17), posição esta que se equipara à citação de Cristo na parábola do servo vigilante (Lc 12.35-48), quando o Mestre menciona que este é caracterizado pelo pronto atendimento às vontades de seu Senhor, e, em se tratando de Jesus, Sua vontade – não era – é: “E o segundo [grande mandamento], semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39).

Como se constata, tanto Tiago como Cristo arremessam à condenação eterna os praticantes do desamor.

A publicação das testemunhas de Jeová intitulada “Raciocínios a base das Escrituras”, quando apresenta seus argumentos quanto a transfusão de sangue, descrevendo o tratamento que deve ser dado àqueles que os indagam dizendo: “O que fará se um médico disser: Morrerá se não tomar transfusão”, sugere como resposta:

“Se a situação for realmente tão grave, poderá o médico garantir que ele não morrerá se tomar sangue?... Mas há alguém que pode restituir a vida a pessoa, e esse é Deus. Não acha que, quando a pessoa enfrenta a morte, seria uma péssima decisão dar as costas a Deus, violando a sua lei? Eu tenho realmente fé em Deus, e você?” (página 348 – grifo acrescentado)

Escorados neste triste entendimento, os dirigentes da organização Torre de Vigia trazem a verdade e o propósito bíblicos aos seus moldes particulares, renegando o amor como suprema determinação divina.

Jesus Cristo, Ele mesmo, deu exemplo de um que para não desfalecer faminto, transgrediu a Lei e ficou sem culpa. Quando o rei Davi chegou-se ao sacerdote Aimeleque e, com fome ele e os seus, tomou dos pães da proposição, os quais, segundo Marcos 2.25-26, não era lícito que Davi e seus homens comessem (1 Sm 21.6), rememorando a Lei descrita em Levítico 24.5-9.

Da mesma forma, Jesus justificou seus discípulos que, no sábado – essa era a inquirição dos fariseus – colheram espigas numa seara para matar a fome; para suprir uma necessidade que, havemos de convir, era menos imediata que uma transfusão de sangue, atitude esta que segundo o juízo de Deus, em Cristo, jamais receberia condenação. (texto bíblico?)

Seriam, pois, os fundamentos da STV portadores de maior justiça do que os de Cristo?

No lamentável entendimento das testemunhas, na mesma obra e página citadas acima, encontramos como segunda alternativa de resposta, o seguinte:

“Isso talvez signifique que ele não saiba tratar do caso sem uso de sangue. Quando possível, procuramos pô-lo em contato com um médico que tenha a experiência necessária, ou então procuramos outro médico” (grifo nosso).

Destacamos da própria TNM o texto expresso de Paulo, quando escreveu aos Colossenses pedindo-lhes cautela para que não se perdessem no engano de qualquer, ao dizer: ”Acautelai-vos: talvez haja alguém que vos leve embora como presa sua, por intermédio de filosofia e de vão engano, segundo a tradição dos homens, segundo as coisas elementares do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

De certa forma, há nobreza de caráter nas testemunhas de Jeová, quando demonstram plena obediência aos seus dirigentes, todavia, quando a ordem parece desprovida de bom senso, o correto seria fazer como os cristãos de Beréia, chamados pelo apóstolo de Tarso de “mais nobres” quando comparados aos de Tessalônica, declarando em Atos 17.11: Ora, estes últimos eram de mentalidade mais nobre do que os de Tessalônica, pois recebiam a palavra com o maior anelo mental, examinando cuidadosamente as Escrituras, cada dia, quanto a se essas coisas eram assim” (TNM).

Como é sabido, a inobservância das diretrizes ditadas pela STV, implica em sérias punições para seus sócios, o que acaba levando muitos deles a tomarem atitudes que beiram a insânia.


Transfusão e Aids


A STV, vantajosamente amparada por alguns elementos da mídia, também especula a rejeição ao nobre ato da doação e transfusão de sangue, baseada na hipótese de, num desses procedimentos, ver-se o receptor seriamente prejudicado, se devido a algum deslize das pessoas responsáveis pela coleta e exame, esse se achar contaminado.

A exploração apelativa dessa remota possibilidade tem afetado, não somente entre seus seguidores, mas na sociedade como um todo, a boa vontade e caridade de muitos que sinceramente desejam ajudar seu semelhante, doando daquilo que possui como bem físico maior.

É certo que houve, outrora, casos de infecção por transfusão, todavia, funcionou como ocorrência triste que trouxe aos laboratórios e hospitais duplicada noção de responsabilidade quanto a coleta, seleção e armazenamento de sangue.

Essas apelações, além dos prejuízos descritos acima e do descrédito que se propaga quanto ao método, trouxe dissabor às autoridades que administram a cruz vermelha, irrepreensível entidade que ampara, em vários países, necessitados não só de transfusão, mas de todo amparo médico disponível.

Alguns dos artigos destacados pela organização das testemunhas de Jeová foram:

“O sangue tornou-se um negócio de dois bilhões de dólares por ano. A busca de lucros relacionados com ele resultou numa gigantesca tragédia na França. Sangue contaminado com o vírus HIV causou a morte de 250 hemofílicos por doenças ligadas à AIDS, e centenas mais foram infectados” The Boston Globe, 28 de outubro de 1992, página 4.

“Uma aliança maligna” de negligência médica e ganância comercial levou à morte cerca de 400 hemofílicos alemães, e pelo menos mais 2000 foram infectados com sangue contaminado com o HIV”. Guardian Weekly, 22 de agosto de 1993, página 7.

“O Canadá teve também o seu escândalo do sangue. Estima-se que mais de 700 hemofílicos canadenses tenham sido tratados com sangue infectado com o HIV. O governo foi alertado em julho de 1984 de que a Cruz Vermelha estava distribuindo sangue contaminado com AIDS a hemofílicos canadenses, mas os produtos de sangue contaminado só foram retirados do mercado um ano depois, em agosto de 1985”. The Globe and Mail, 22 de julho de 1993, página A21, e The Medical Post, 30 de março de 1993, página 26." (Despertai!, 22 de maio de 1994, p. 31)


Quais são os riscos de uma transfusão de sangue?


Baseado nos ataques feitos pela STV quanto ao risco de infecção quando da transfusão sanguínea, apresentamos o quadro comparativo do grau de risco que se encontra e outros procedimentos médicos.

PROCEDIMENTO / GRAU DE RISCO LETAL

PENICILINA / 1 A CADA 30 MIL

ANESTESIA GERAL / 1 A CADA 15/30 MIL

TRANSFUSÃO / 1 A CADA 83/676 MIL

Como se nota, as preliminares do ato cirúrgico que exija anestesia geral, promove risco mais de cinco vezes maior de haver prejuízo ao paciente do que o de uma transfusão, da mesma forma que uma dose de antibiótico a base de penicilina para tratar uma mera infecção de garganta, pode, caso não haja a prudência do teste prévio, levar o organismo a uma reação fatal ou com seqüelas.

Com a descoberta do fluído artificial substitutivo do sangue, poderão as testemunhas de Jeová esquivar-se mais seguramente do “quase dever” para com seus semelhantes, enquanto nós, que cremos na Lei do Amor que transcende todo entendimento, perseveraremos na vontade de Cristo, a saber, que amemos nosso próximo como Jesus nos amou, dando sua vida, seu sangue, por nós na cruz do monte Calvário.


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