Apologética



Sou eu um apóstolo?



Por Silas Tostes

Nos nossos tempos há vários títulos eclesiásticos. Os presbiterianos usam reverendo. Os católicos padre. Às vezes sacerdote. Os anglicanos vicário. Boa parte dos evangélicos preferem pastor. Há também o uso dos títulos bispo, diácono, evangelista, presbítero e outros. Bispo e presbítero nem sempre com o mesmo sentido encontrado no Novo Testamento. Além destes, percebe-se que nos cinco continentes os evangélicos passam usar apóstolo, para designar papel de liderança em uma igreja, ou denominação.

Normalmente as pessoas que não eram apóstolos no Novo Testamento, mas possuíam papel de liderança, eram chamados de presbíteros e bispos . Estas duas palavras são usadas como sinônimos no Novo Testamento (At. 20:28; 1Pe. 2:25; Fp. 1:1; 1Tm. 3:2; Tt. 1:5-7). Duas passagens, At. 20:28 e 1Pe. 2:25, definem o papel do bispo como de pastor do rebanho. Ambas palavras designavam, portanto, líderes das igrejas locais. As passagens, At. 14:23 e Tt. 1:5-9, indicam que eram eleitos e deveriam ser irrepreensíveis.

A palavra presbítero inicialmente era usada para os anciões judeus, detentores de autoridade para grandes decisões (Mt. 15:2: 16:21; 21:23). Depois foi utilizada para descrever os anciões com autoridade na igreja (At. 11:30; 14:23; 15:2, 4, 6, 22, 23; 16:4; 20:17).

Tem sido a tradição evangélica usar o título de pastor para todo aquele que é o líder máximo de uma igreja local, ou membro da equipe pastoral. Segue-se, assim, a tradição neotestamentária que define o bispo/presbítero como pastor do rebanho (At. 20:28 e 1Pe. 2:25). Valoriza-se pela utilização do título de pastor, a função pastoral do bispo e presbítero.

Veja que pastor é um dos cinco ministérios em Ef. 4:11. Se usarmos a mesma lógica, em princípio, deveríamos chamar a pessoa que tem o ministério de profeta, como profeta, e conseqüentemente o mesmo seria verdade para mestres, evangelistas e apóstolos. Os cinco ministérios (Ef. 4:11) seriam também, neste caso, nossa maneira de designar títulos no Corpo de Cristo, indicando a função no mesmo.

Percebemos, contudo, que a palavra apóstolo como título, ou mais propriamente como designação de chamada e função no Corpo, era utilizada somente para alguns. Enquanto bispo e presbítero para outros. Como utilizar a palavra apóstolo em nosso contexto eclesiástico? Se faz necessário para isto, entender à luz do Novo Testamento em que consiste ministério apostólico. Este é o nosso propósito.

Definir os vários níveis de apostolado é complexo. Seremos minuciosos para entendê-los corretamente. A palavra apóstolo como qualquer outra, pode ter um sentido geral e bem amplo, como sentidos mais restritos. A compreensão de todos seus sentidos, nos ajudará a determinar como utilizá-la no contexto da igreja (Ef. 4:11).

Com a intenção de entender os vários níveis de apostolado, seguiremos os seguintes passos. Primeiro, abordaremos o significado e uso no Novo Testamento dos verbos enviar, apostello e pempo. Em segundo lugar, uma vez que a palavra apóstolo, apostolos no grego, vem do verbo apostello, consideraremos o que esta significa. Assim como é utilizada no Novo Testamento. Em seguida, veremos que Deus é a fonte do poder apostólico. Não havia nos apóstolos atitude arrogante, mas o reconhecimento que Deus os capacitava. Em quarto lugar, consideraremos em que sentido podemos entender 1Co. 12:28 e Ef. 4:11. Quinto, responderemos a pergunta: como podemos ser igreja apostólica hoje? Sexto sugeriremos o uso da palavra servo como título eclesiástico. Isto por que há no grego três palavras diaconos, leitourgos e doulos. Estas descrevem que nossa a atitude em relação ao Senhor e aos irmãos, deve ser a de servo. Faremos, por fim, a conclusão.

Partimos do pressuposto que a Bíblia é nossa infalível regra de fé e prática. A esta nos submetemos.

A abreviação ao longo do texto NT, se refere ao Novo Testamento.

Todas as passagens bíblicas citadas provem da versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida.

Passemos as considerações do assunto como proposto.


1) O SIGNIFICADO E USO DOS VERBOS APOSTELLO E PEMPO


Há um sentido comum e outro especial para o verbo apostello. Assim como para pempo. Ambos significam enviar, e aparecem com freqüência no NT grego. Pempo, portanto, é sinônimo do verbo apostello. O uso comum para pempo e apostello, ocorre referindo-se a alguém, ou algo, que foi enviado, ou algo ou alguém que envia. Isto por haver voz ativa e passiva. O sentido especial, porém, ocorre quando Deus é o enviador. Por conseqüência o enviado possui tarefa divina a ser realizada.

Apostello é formado pela preposição apo, a qual significa a separação de um lugar para o outro, ou de uma parte do todo. E pelo verbo stello, que refere-se a por, colocar,arranjar, trazer junto. Apostello, portanto, significa enviar (colocando algo, ou alguém, de um para outro local), como ocorre quando algo ou alguém é enviado sob ordem ou mandato. Apostello carrega em si o peso de envio oficial ou autorizado, designando que alguém, ou algo, vá para algum lugar. Num sentido mais forte, apostello significa expulsar, havendo assim o envio de um para outro local. Porém, pela força como sugere expulsar.

Há vários exemplos do uso corriqueiro e óbvio de apostello no NT. Veja que Herodes envia soldados com a finalidade de matar os meninos até dois anos de idade (Mt. 2:16). Os fariseus enviaram seus discípulos para surpreender Jesus, com a pergunta sobre pagamento de imposto (Mt. 2:17). Há muitas outras passagens com este óbvio uso de apostello.(Mt. 11:1; 14:35; Mc. 3:31; Mc. 4:29; Mc. 6:7).

É verdade, porém, que há outros textos onde apostello refere-se a alguém designado por Deus para tarefa divina. Este é um uso especial do verbo, por ser Deus o enviador. João Batista foi enviado para preparar o caminho do Messias (Mt. 11:10; Mc. 1:2; Lc. 7:27; Jo. 1:6; Jo. 3:28). Os anjos serão enviados para coletar os salvos (Mc. 13:27; Hb. 1:14; Ap. 22:6). Moisés foi enviado para libertar o povo (At. 7:14). Gabriel foi enviado para trazer boas novas (Lc. 1:19; Lc. 1:26). O Espírito Santo seria em breve enviado sobre a Igreja (Lc. 24:49; At. 1:8; Ap. 5:6). A Palavra foi enviada (At. 10: 36; 13:26).

Apostello, expressando que alguém foi enviado por Deus para realização de uma tarefa, tem seu ápice no envio do Messias (Jo. 9:27). Ele foi prometido de muitas maneiras no VT. Como a semente da mulher (Gn. 3:15; Gl. 4;4). Como servo do Senhor (Is. 52:13-53:12). Como filho de David (Sl. 132:11; Jr. 23:5; At. 13:23; Rm. 1:3). Como o ungido (Sl. 45:7; Is. 11:2; 61:1; Mt. 3:16; Lc. 4:18; Jo. 3:34; At. 10:38). E de muitas outras formas. Sendo assim, não é de se admirar que nas próprias palavras de Jesus, Ele era um enviado do Pai (Mt. 15:24; Mc. 9:37; Lc. 4:18, 43; 9:48; Jo. 5:36; Jo. 5:38).

Na parábola dos lavradores maus, Deus que enviara seus profetas (Mt. 23:37; Lc. 13:34), por fim, enviara seu próprio Filho (Mt. 21:33-42; Mc. 12:1-12; Lc. 20:9-19). Haviam matado os profetas e iriam matar o Filho de Deus. Ele era, contudo, a pedra angular enviada pelo Pai (Mt. 21:42; Jo. 3:28, 34).

Jesus como enviado do Pai é chamado Apóstolo (enviado). “ Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus,” (Hebreus 3:1). O apostolado de Jesus é singular (Jo. 3:16-17), pois somente Ele poderia ser enviado para salvar. "Porquanto Deus enviou (apostello) o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (João 3:17). Ou seja, para que o mundo não perecesse, mais tivesse vida eterna (Jo. 3:16). E fosse por Jesus resgatado (Mc. 10:45). Sem Ele não há salvação (At. 4:12). De maneira resumida, a tarefa de Jesus como enviado do Pai, era salvar.

O uso do verbo pempo NT, como sinônimo de apostello, corrobora ao fato que há tanto um sentido corriqueiro para enviar. Como um sentido que denota que alguém foi enviado por Deus, para realização de uma tarefa. Elias foi enviado a viúva (Lc. 4:26). Profetas e Jesus foram enviados com propósitos divinos (Lc. 20:11-13). João Batista era enviado do Senhor (Jo. 1:33). O anjo do Senhor foi enviado (Ap. 22:16). O Espírito Santo seria enviado (Jo. 14:26, Jo. 15:26; Jo. 16:7). Jesus era enviado (pempo) do Pai para salvar (Jo. 5:23, 24, 30, 37; Jo. 6:38, 39, 40, 44).

Tendo como contexto o uso de apostello e pempo no NT, afirmamos que sempre houve pessoas ao longo da história enviadas por Deus. Pessoas como Moisés, Elias, João Batista e Jesus. Estes prévios envios por parte de Deus, consiste no contexto histórico para o envio dos apóstolos no NT. Como disse Jesus. “ Por isso, também disse a sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns deles matarão e a outros perseguirão,” (Lucas 11:49)


2. O SIGNIFICADO E USO DA PALAVRA APÓSTOLO NO NT


A palavra apóstolo é grega, apostolos, vem do verbo apostello (enviar). Tanto no grego, como no português, é um substantivo masculino. Esta se refere a um delegado, mensageiro, alguém enviado sob ordens. Veremos que há um uso corriqueiro para a palavra apóstolo no NT. Como um especial, denotando um enviado designado por Deus para uma tarefa. Isto está dentro da lógica como palavra originária de apostello.

No sentido corriqueiro e óbvio de apostolos, Epafrodito era uma mensageiro (Fp. 2:25). Assim como os irmãos companheiros de Tito na tarefa de levar a oferta para Jerusalém (2Co 8:18, 22, 23). Nestes casos, eram mero mensageiros ou acompanhantes. Apóstolos no grego.

Por outro lado, vemos no NT que há pessoas chamadas apóstolos, por terem recebido de Deus uma tarefa a realizar. Isto é, não só Jesus (Hb. 3:1) no papel de salvador. Mais outros apóstolos com outros papéis. Entre estes há três grupos. O grupo singular, colocado como fundamento da Igreja (At. 2:42; Ef. 2:20; Ap. 21:14). São insubstituíveis como alicerce. Membros deste grupo são os doze, já incluindo Matias, Tiago (irmão de Jesus) e Paulo. Vamos nos referir as estas pessoas a partir de agora como grupo seleto. Há também no NT, apóstolos no sentido de missionários transculturais, implantadores de igrejas. Pessoas que transpuseram barreiras culturais no exercício de fazer discípulos de todas as nações (Mt. 28:19). Tanto evangelizaram como ensinaram. Bons exemplos no NT são Barnabé, Andrônico, Júnias, Timóteo, Silas e outros. Por último, há os apóstolos num sentido bem amplo da palavra, referindo-se a todo cristão colocado como testemunha de Jesus.

Membros do grupo seleto também foram missionários transculturais, como Paulo. Os demais apóstolos do grupo provavelmente também, segundo as tradições. Sabemos pelo NT que Pedro se deslocou para outras regiões (Gl. 2:11). João até Éfeso, segundo a tradição, e de lá para a ilha de Patmos (Ap.1:9).

Por outro lado, pessoas como Barnabé, Andrônico, Júnias, Timóteo, Silas e outros, apóstolos no sentido de missionário, não fizeram parte do grupo seleto. Não foram seus ensinos entendidos como base da Igreja. Para estes, como para nós, ser cristão significava perseverar no ensino apostólico do grupo seleto (At. 2:42; Ef. 2:2).

Passemos a provar que a palavra apóstolo no NT é usada para se referir ao grupo seleto, a missionários transculturais e a todo cristão testemunha de Jesus. Em cada um destes casos, Deus está designando seus servos à realização de uma tarefa. Mesmo que a mesma inclua diversidade de realizações.


2.1 Os doze apóstolos

Inicialmente Jesus chamou um a um de seus discípulos ( Mt. 4:18; Jo. 1:40-41, 43, 47-48). Outros foram sendo agregados. Mas num dado momento, os chamou e escolheu doze entre todos. Inicialmente como enviados (Apóstolos de Cristo), deveriam pregar e expulsar demônios. "13 Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. 14 Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar (apostello no grego) a pregar 15 e a exercer a autoridade de expelir demônios.” (Marcos 3:13-15). Dariam frutos (Jo. 15:16).

Foram chamados por Jesus para a tarefa ministerial, e na ocasião nomeados apóstolos (enviados de Cristo). "12 Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus. 13 E, quando amanheceu, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos:” (Lucas 6:12-13). Esta nomeação pública como apóstolos, seguida da convivência com Jesus até sua ascensão, lhes deu singular credibilidade. Mais tarde importantes questões foram levadas até eles para solução (At. 15:1-4).

A palavra apóstolo quando dirigida aos doze, portanto, refere-se a um grupo de pessoas que foram nomeados, enviados (apóstolos), por Jesus. Comumente referia-se a este grupo como os doze. Depois nos doze estava incluído Matias. Uma vez que Judas foi desclassificado pela traição, que o levou ao suicídio.

Se considerarmos os doze individualmente, percebemos que sabemos somente o nome de alguns. Outros como Tomé e Bartolomeu um pouco mais. Contudo, mesmo que Pedro, Tiago e João foram mais mencionados no NT, não são mais importantes. Os doze tinham a mesma autoridade (Mt. 16:19; Mt. 18:18; At. 2:42; Ef. 2:20; Ap. 21:14).

A força estava no grupo por terem sido designados por Jesus apóstolos (Lc. 6:12-13). Por isso, agiram juntos no desempenho da tarefa apostólica. Testemunharam (At. 2:37). Ensinaram (At. 2:42). Testificaram sobre a ressurreição de Jesus (At.4:33; 5:30-32; 5:42). Supervisionaram o avanço do Evangelho; (At.8:14; At. 11:19-22). Curaram os enfermos (At.2:42; 5:12). Treinaram líderes (At. 4:36; At. 5:36; At. 11:22; At. 15: 2, 4, 6, 22, 23). Fizeram assistência social (At. 5:37; At. 6:1-3). Decidiram a importante questão da inclusão dos gentios à Igreja (At. 15). E nos deixaram os evangelhos e outras partes do NT.

Os doze fazem parte deste grupo singular, seleto, pois foram colocados como fundamento da Igreja (Mt. 16:19; Mt. 18:18; At. 2:42; Ef. 2:20; Ap. 21:14). Como enviados de Deus para a realização de uma tarefa, os doze são insubstituíveis como alicerce da Igreja. O NT foi canonizado tendo por base, se o livro tinha ou não autoridade apostólica. Por ter sido escrito ou endossado pelos apóstolos. Preservava-se, assim, a possibilidade de permanecermos firmes nas orientações do grupo seleto.

Não podemos dizer que os doze (já incluindo Matias no grupo) falharam. A igreja implantada em Jerusalém evangelizou e trabalhou por todo Império Romano. Podem ter saído devido a perseguição (At. 8:1). Mais uma vez evangelizados e discipulados pelos doze (alicerçados pelos doze), foram eficientes por onde passaram (At. 8:1; At. 11:19-22). Além disto, uma vez decidida a inclusão dos gentios à Igreja, pelos apóstolos em Jerusalém (At. 15:1-4), possibilitou-se mais expansão do Evangelho. Quem fora eles teria autoridade para lidar com tal questão? Havia uma confiança maior neles, pois andaram com Jesus, e foram por Ele escolhidos publicamente.

Matias não pode ser desconsiderado. Foi incluído no grupo em At.1:21-26. Seu trabalho com os demais foi registrado por Lucas. Como por ocasião do estabelecimento dos diáconos. (At. 6:2-6). E em outras ocasiões At. 8:1 e At. 15: 15: 2, 4, 6, 22, 23.

Catalogamos agora algumas das características principais dos doze.

1) Foram regularmente chamados de doze (Mt. 10:1-5 Mc 3:14 6:7 Lc 6:13 9:1);

2) Foram escolhidos por Jesus para serem fundamento da Igreja (Mt. 16:19; Mt. 18:18; At. 2:42; Ef. 2:20; Ap. 21:14);

3) Foram capacitados pelo Espírito Santo (Jo 14:16, 17, 26; 15:26, 27; 16:7-15; Jo. 20:22; At. 2:1-4);

4) Inicialmente pregariam só para judeus Mt. 10:5-6; Lc. 24:47; At. 13:46;

5) Depois pregariam à todas as nações (Mt. 28:18-20; Mc. 16:15; Jo. 17:18; Jo. 20:21; 2Tm. 1;11);

6) Reconheceram Jesus como o Cristo de Deus (Mt 16:16; Lc.9:20);

7) A igreja em Jerusalém cresceu debaixo do cuidado deles (At 3:1- 6:7; 15:4);

8) Tinham poder para fazer milagres, que confirmavam o apostolado deles (Mt. 10:8; Lc. 9:6; Mc. 6:13; Mc. 16:20; At 2:43; At. 5:12).

Além destas características acima, há três que são especiais, pois podem ser somente atribuídas aos doze.

1) Deveriam ter visto Jesus e serem capazes de testificar dele. Tanto de sua vida, como obra, morte, sepultamento e ressurreição (Jo. 15:27; Jo. 16:13; Jo. 14: 26; At 1:2-9, 21-22; 1Co 9:1; At 22:14, 15). Ver também (Lc. 24:48; At. 1:8, 22, 2:32, 3:15 5:32);

2) Foram chamados publicamente para o apostolado por Jesus Lc 6:13;

3) Seriam infalivelmente inspirados por palavras verbais e escritas, (Jo 14:26; 16:13; 1Ts 2:13);

O grupo seleto foi acrescido com a inclusão de Tiago e Paulo. Jesus mesmo os fez testemunha de sua ressurreição, e os enviou designando-lhes tarefa a realizar.


2.2 Tiago e Paulo foram acrescidos ao grupo seleto

Podemos afirmar com certeza, que somente mais duas pessoas foram adicionadas ao grupo seleto, Tiago, irmão de Jesus, e Paulo. Se houve mais alguém adicionado ao grupo não sabemos. Parece que não termos evidência suficiente para pensar ao contrário.

Tiago e Paulo caracterizam-se por terem visto Jesus. E sido por Ele enviados.

Houve uma aparição de Jesus ressuscitado só para Tiago, irmão de Jesus (1Co. 15:7). Quando Tiago filho de Zebedeu estava morto (At. 12:1-2), Tiago irmão de Jesus exercia papel de liderança em Jerusalém (At. 15:13; At. 21:18; Gl. 2:9, 12). Foi influente na solução da questão da inclusão dos gentios à Igreja (At. 15:13-21). Foi mencionado e considerado apóstolo por Paulo, na mesma qualidade dos demais. “ E não vi outro dos apóstolos, senão Tiago, o irmão do Senhor.” (Gálatas 1:19). Veja também (1Co. 15:7).

Mesmo que não tenhamos os detalhes, concluímos que Tiago foi chamado apóstolo e enviado por Jesus, por ocasião da aparição exclusiva ocorrida para ele (1Co. 15:7). De qualquer maneira, foi considerado apóstolo no mesmo pé de igualdade com os demais. Atos 15 confirma isto, quando o vemos na assembléia com os demais apóstolos.

O NT dá testemunho de que Paulo foi também incluído no grupo seleto de apóstolos. Viu Jesus (At. 9:3-6; At. 22:6-14; At. 26:13-20), e foi comissionado para o apostolado por Ele. " Não sou eu, porventura, livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor? Acaso, não sois fruto do meu trabalho no Senhor?” (1Coríntios 9:1). Jesus o chamou de testemunha e ministro enviado aos gentios. “16 Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, 17 livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio (apostello no grego),” (Atos 26:16-17). Veja também At. 9:15 para dimensão ministerial de Paulo entre os judeus.

Sendo assim, Paulo podia reivindicar ser apóstolo. Era testemunha da ressurreição de Jesus. Havia sido designado para a tarefa de testemunhar dele, em especial para os gentios. (1Co. 15:9; Rm. 1:1; Rm. 11:13; 2Co. 1:1; 11:5; Gl. 1:1; Ef. 1:1; Cl. 1:1; 1Tm. 1:1 e 2Tm. 1:1, 11. Em suas próprias palavras: “ Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos,” (Gálatas 1:1).

Como os demais, Paulo tinha os sinais do apostolado. “ Pois as credenciais do apostolado foram apresentadas no meio de vós, com toda a persistência, por sinais, prodígios e poderes miraculosos.” (2 Coríntios 12:12). Percebia-se, assim, que não era um impostor, pois Deus era com ele. Não o seria se Paulo fosse mentiroso. Havia em seu ministério um mover divino visto pelos milagres extraordinários. Assim como Deus fazia sinais maravilhosos por meio dos doze (At. 5:12). O mesmo ocorria no trabalho apostólico de Paulo. “ E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários,” (Atos 19:11).

Além disto, Paulo recebeu endosso dos demais apóstolos ainda nos seus dias (At. 9:26-28; Gl. 2:15-19; 2Pe. 3:15-16). Pedro reconheceu que os escritos de Paulo tinha inspiração divina. Suas palavras vinham da sabedoria divina. “15 e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, 16 ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.” (2 Pedro 3:15-16).

O que faz dos doze, Tiago e Paulo, especiais e insubstituíveis, é o fato de terem sido colocados como fundamento da Igreja (Mt. 16:19; Mt. 18:18; At. 2:42; Ef. 2:20). Ninguém mais, por mais consagrado que seja terá tal papel. Ser crente é perseverar no ensino dos apóstolos, no nosso fundamento (At.2:42; Ef. 2:20).

Os demais crentes não são alicerces, mas pedras vivas do templo onde Deus habita, a Igreja (1Pe. 2:5). Cuja finalidade é: “ Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1 Pedro 2:9).

Perguntamos agora, havia na Igreja Primitiva algum outro tipo de apóstolo, além dos membros do grupo seleto?

Passemos a provar que a palavra apóstolo também foi usada, significando missionário transcultural


2.3 Os missionários transculturais da Igreja Primitiva foram chamados apóstolos

A palavra missionário é de origem latina e possui o mesmo significado da palavra apóstolo, ou seja, enviado. No NT a palavra apostolos também foi utilizada para os missionários transculturais implantadores de igreja, companheiros de Paulo. Como ele labutaram em missões. “ Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos e estavam em Cristo antes de mim.” (Romanos 16:7). Vemos que Andrônico e Júnias eram missionários e companheiros de Paulo, até mesmo nas prisões, devido a obra missionária.

Outros companheiros de Paulo em missões, que padeciam perseguições foram chamados apóstolos. “ Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens.” (1 Coríntios 4:9). É verdade que 1Co. 4:9 também pode ser referir aos membros do grupo seleto. Mais é igualmente verdade, que vários missionários transculturais, companheiros de Paulo, padeceram perseguições como espetáculo ao mundo, por exemplo Silas em Filipos (At. 16:22, 24).

Em outro texto, Paulo, Silas e Timóteo são chamados de apóstolos. Silas e Timóteo, assim como Paulo, foram importantes missionários do primeiro século. “ Embora pudéssemos, como enviados (apóstolos no grego) de Cristo, exigir de vós a nossa manutenção, todavia, nos tornamos carinhosos entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos;” (1Ts 2:7; 1Ts. 1:1). Juntos fundaram a igreja em Tessalônica (1Ts. 1:1), e em outras partes. Silas e Timóteo, como Paulo, foram enviados por Deus à Macedônia (At. 16:6-10). Silas havia integrado a equipe missionária de Paulo, após o Concílio em Jerusalém (At. 15:25-27). Timóteo foi agregado a equipe, após a chegada a Listra (At. 16:1). Estavam presentes por ocasião da direção para irem a Macedônia (1Ts. 2:7). Assim como Lucas, portanto, 1Ts. 2:7 claramente se refere a apóstolos no sentido de missionários transculturais, implantadores da igreja na Macedônia.

Barnabé, outro missionário do primeiro século, foi chamado apóstolo, em pleno exercício do ministério missionário. “ Mas dividiu-se o povo da cidade: uns eram pelos judeus; outros, pelos apóstolos.” (Atos 14:4). “ Porém, ouvindo isto, os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgando as suas vestes, saltaram para o meio da multidão, clamando:” (Atos 14:14). Na ocasião estavam em Icônio (At. 14:4). Depois em Listra (At. 14:14). As barreiras transculturais eram tantas em Listra, que nem entendiam a língua, por isso, demoraram para perceber o mal entendido que ocorria (At. 14:11-14).

Mesmo quando a palavra apóstolo no NT se refere aos falsos apóstolos, demonstra que era utilizada para atividade missionária transcultural. Um falso apóstolo, ou missionário, era alguém que normalmente saia da Judéia para pregar uma forma judaizada de Cristianismo (At. 15:1). Segundo Augustus Nicodemus Lopes, Paulo chama atenção a esta forma de missões as avessas: Em suas cartas, Paulo alerta contra aqueles que difundiam o que ele considerava como perversão do ensino apostólico por motivos escusos. Ele denuncia a presença e atividade de falsos apóstolos em Corinto. Eram obreiros fraudulentos, que se transfiguravam em apóstolos de Cristo. Segundo o mesmo autor, este desenvolvimento missionário dos falsos apóstolos ocorreu em outras regiões, não só em Corinto. Regiões como a Galácia e Colosso. Em outras palavras, reprovável como era o trabalho dos falsos apóstolos. Contudo, mesmo nestes casos percebe-se a dimensão missionária da palavra apóstolo. Os falsos também viajavam para pregar e ensinar. Não temos, portanto, como desassociar missões da palavra apóstolo.

Não há dúvida, então, que missionários transculturais do primeiro século eram chamados apóstolos. Eram pessoas cuja tarefa designada por Deus, incluía a implantação da igreja em áreas não evangelizadas. (At. 13:1-2; At. 16:7-10). Pessoas como Barnabé, Andrônico, Júnias, Timóteo, Silas, Paulo e outros (1Co. 4:9).

Devemos fazer um importante esclarecimento. A palavra apóstolo vem sendo usada no meio evangélico, para se referir ao um evangelizador, plantador de igreja, estando este em seu próprio contexto cultural. As vezes é usada para se referir a um líder eclesiástico, detentor de máxima autoridade na igreja. Ou autorizador para que novos trabalhos sejam implantados, os quais estarão sob o cuidado do apóstolo autorizador. Este uso da palavra apóstolo tem sua lógica, devido ao fato que missionários transculturais do primeiro século terem sido implantadores de igrejas. Contudo, tal uso é destituído da dimensão missionária transcultural vista no NT.

Neste sentido, a palavra apóstolo se assemelha a palavra presbítero. Veja que no NT, só aparece a palavra presbítero no plural. Ou para designar os anciões judeus, ou anciões cristãos. Havia nas igrejas, portanto, um respeitado grupo de líderes que coletivamente tomavam as decisões. Muitas vezes, porém, usamos a palavra presbítero para designar um auxiliar, a caminho do pastorado. Vemos que o uso atual de palavras bíblicas, nem sempre é coerente com seu uso no NT.

O missionário transcultural implantador de igreja pode se destacar mais pela evangelização, ou pelo trabalho de edificação, como Timóteo e Tito. Claro que um profissional no campo, também pode ser um implantador de igreja. Como foi o médico Dr. Roberto R. Kalley no Brasil (1855). Seu ministério ilustra que missões deve ter sua dimensão integral, como demonstrado pelos apóstolos.


2.4 Há um sentido bem amplo para a palavra apóstolo

Há uma noção bem abrangente para o termo apóstolo. Além do grupo seleto, e dos missionários transculturais do primeiro século, podemos dizer que num sentido geral, todo cristão é um apóstolo. Pois é enviado do Senhor para ser sua testemunha (Mt. 28:18-20; Mc. 16:15; Lc. 24:44-48; Jo. 15:15; Jo. 20:21; At. 1:8).

Paulo estava convencido que Deus deseja que todos sejam salvos (1Tm. 2:4). Mas para isso todos devem receber Jesus para salvação (1Tm. 1:15). O único mediador entre Deus e os homens (1Tm. 2:5). Contudo, isso só ocorre se formos enviados (apóstolos no sentido missionário). “14 Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? 15 E como pregarão, se não forem enviados (apostello no grego)? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Romanos 10:14-15). Espera-se que outros cristãos sejam também testemunhas de Jesus. Enviados para que não evangelizados creiam.

Vimos que os verbos pempo e apostello indicam que houve ao longo da história, pessoas especialmente designadas por Deus para uma tarefa. Pessoas como Moisés, Elias, João Batista e Jesus. Isto consiste no contexto histórico para o surgimento dos apóstolos no NT.

A palavra apostolos no NT pode ser utilizada com sentido corriqueiro, como um mero mensageiro (Fp. 2:25; 2Co. 8:18, 22, 23). Assim como para se referir a um grupo seleto, alicerce da Igreja (Mt. 16:19; Mt. 18:18; At. 2:42; Ef. 2:20). Há também os apóstolos que foram missionários transculturais do primeiro século, como Barnabé, Andrônico, Júnias, Timóteo, Silas, Paulo e outros. Há o sentido amplo da palavra, denotando que todo cristão é testemunha de Jesus (At. 1:8).

Os apóstolos, especialmente do grupo seleto, não foram arrogantes. Reconheceram que o poder e a capacitação vinha de Deus, o enviador que lhes designara a tarefa a ser realizada.


3. DEUS É A FONTE DO PODER APOSTÓLICO


Jesus e o grupo seleto de apóstolos deixaram claro que a fonte do poder, que nos capacita ao ministério, é o próprio Deus. O poder do Altíssimo veio sobre Maria, em poder Jesus foi concebido (Lc. 1:35). Foi depois visitado pelo Espírito Santo (Lc. 3:21-22), no batismo de águas passou a estar ungido para o trabalho. O poder de Deus o acompanhou a partir desta visitação (Lc. 4:1, 14, 18). Por isso, expulsava demônios (Lc. 4:36). Curava enfermos (Lc. 5:17). Mais tarde concedeu poder para que seus discípulos expulsassem demônios e curassem (Lc. 9:1; Lc. 10:19). Por fim, deixou claro que sem este poder, não implantariam a Igreja (Lc. 24:49; At. 1:8).

O apóstolo Pedro, por sua vez, também reconheceu que o poder vem de Deus (At. 2:33; At. 2:16-21; 1Pe. 1:5; 2Pe. 1:3). O mesmo ocorre no ensino de Paulo. Disse que os crentes são selados com o Espírito Santo (Ef. 1:3).

Há duas palavras usadas por Paulo que definem bem, que Deus é a fonte do poder para o ministério. Estas são energeia, e, energeo. De energeia temos a palavra energia, refere-se no NT a força sobrenatural que emana de Deus, ou a uma força sobrenatural do diabo, depende do contexto.

Energeo é simplesmente o verbo cujo significado é operar, atuar, produzir, mostrar poder, atuar. Paulo compreendia que era pelo energeo (operar) de Deus que ele fora capacitado para o ministério entre os gentios. E Pedro para o ministério entre os judeus. “ Pois aquele que operou eficazmente (energeo) em Pedro para o apostolado da circuncisão também operou eficazmente em mim para com os gentios.” (Gálatas 2:8). Não havia em Paulo arrogância, mas um reconhecimento de que Deus o capacitava. Em outras passagens afirmou o mesmo. Era Deus que concedia o Espírito que operava (energeo) milagres (Gl. 3:5). É Deus que opera (energeo) tudo em nós. Inclusive a distribuição dos dons espirituais (1Co. 12:6, 8).

Vindo de energeo, temos energeia. E é por esta força sobrenatural de Deus, que Paulo foi constituído ministro (diaconos no grego), um servo no apostolado. “ Do qual fui constituído ministro (diaconos) conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante (energeia) do seu poder.” (Efésios 3:7). No ministério, Paulo se afadigava muito devido esta energeia. “ para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia (energeia) que opera eficientemente em mim.” (Colossenses 1:29).

Vemos, portanto, que Jesus, Pedro e Paulo, deixaram claro que a capacidade para o ministério, ou apostolado, vem de Deus. Não havia nestes arrogância, por ter Deus os designado para uma tarefa.

Mediante tudo que temos exposto, como podemos compreender 1Co. 12:28 e Ef. 4:11?


4. EM QUE SENTIDO PODEMOS ENTENDER 1Co. 12:28 E Ef. 4:11?


Temos duas opções de compreensão para os textos acima citados. Ou os compreendemos entendendo a palavra apóstolos, se referindo ao grupo seleto, ou aos apóstolos (missionários transculturais).

A passagem de 1Co. 12:28 diz. “ A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (1 Coríntios 12:28). Se apóstolos no verso se refere ao grupo seleto, significa que sem eles não haveria fundamento da Igreja. Por isso, foram colocados primeiro. Assim como toda construção começa pelo fundamento. Se apóstolos no verse se refere a missionários do primeiro século, implantadores de igrejas. Significa que sem eles, que são os primeiros no tempo a chegar e implantar a obra, não haveria igreja. Sem implantação da igreja, não há como desenvolver os demais ministérios.

Particularmente penso que os membros do grupo seleto foram missionários, e no caso deles, 1Co. 12:28 faz sentido nas duas possibilidades. Patrick Johnstone entende que 1Co. 12:28 refere-se a missionários, por serem os primeiros no tempo a chegar e implantar a obra.

A passagem: “ E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres,” (Efésios 4:11). Pode também ser entendida das duas maneiras. Ou apóstolos em Ef. 4:11 são os membros de grupo seleto, nosso fundamento. Ou são os missionários transculturais do primeiro século. Contudo, como Ef. 4:11 se refere a ministérios das igrejas locais. E uma vez que os membros do grupo seleto são insubstituíveis. Parece melhor entender que Ef. 4:11 diz respeito aos apóstolos, missionários transculturais do primeiro século.


5. COMO PODEMOS SER IGREJA APOSTÓLICA?


Podemos ser uma Igreja Apostólica de três maneiras. A primeira, é simplesmente nos esforçando para continuar nas práticas e doutrinas apostólicas (At. 2:42; Ef. 2:20), pois o grupo seleto é alicerce da Igreja.

A outra maneira, é nos tornar uma Igreja Missionária, levando o Evangelho para os cantos não evangelizados do mundo, como fizeram, Barnabé, Andrônico, Júnias, Timóteo, Silas, Paulo e outros. Igrejas que se recusam a investir nas áreas não evangelizadas não deveriam se considerar apostólicas, por ignorarem a dimensão missionária da palavra apóstolo. Visite o site www.sepal.org.br/ para informações sobre povos não alcançados.

A terceira possibilidade é nos propor a ser testemunhas de Jesus, no sentido mais amplo da palavra apóstolo. Contudo, o sentido mais amplo não pode invalidar a submissão ao ensino do grupo seleto. E nem nosso envolvimento na obra transcultural.

Precisamos considerar estas três possibilidades conjuntas de ser apostólicos, para de fato o ser.


6. POR QUÊ NÃO USAR SERVO COMO TÍTULO ECLESIÁSTICO?


Estando no contexto de inovação para títulos eclesiásticos, como apóstolo, por quê não usar a palavra servo? Esta não foi utilizada como título no primeiro século. Mas com certeza expressa bem a natureza do serviço e vida cristã.

Há três palavras no NT para servo, diaconos, leitourgos e doulos. Foram usadas por Paulo para descrever sua condição de servo em relação a Deus e aos irmãos. Se realmente servirmos a Deus (ser servo de Deus) obedecendo seus mandamentos (Jo. 14:23), seremos também servos uns dos outros (Mt. 23:11). E amaremos nosso próximo como a nós mesmos (Mt. 19:19).

Diaconos no NT tem um sentido específico, ao referir-se ao grupo de pessoas eleitos para trabalhos práticos (At. 6:1-6; 1Tm. 3:8, 12; Fp. 1:1). Mas tem também um sentido mais geral, denotando que a pessoa está sob ordens, ou seja, um servo. Neste sentido, Paulo era um diácono de Cristo 1Co. 3:5; 2Co. 3:6; 2Co. 6:4; Ef. 3:7; Fp. 1:1. Não somente Paulo, mas também Timóteo (1Ts. 3:2; 1Tm. 4:6). Epafras (Cl. 1:7). E Tíquico (Ef. 6:21; Cl. 4:7). Veja que os líderes das igrejas, se denominavam servos, sob as ordens de Cristo.

Até mesmo Jesus foi constituído diácono da circuncisão (dos judeus), como consta em Rm. 15:8. Ele espera que sejamos servos (diaconos no grego) uns dos outros. Veja Mt. 23:11; Mc. 9:35; 10:43.

Outro termo utilizado por Paulo para servo é leitourgos. Refere a um servo, que a semelhança de um funcionário público, presta serviço a comunidade, ou ao próximo. Paulo definiu-se como ministro, utilizando leitourgos, em Rm. 15:16. “ para que eu seja ministro (leitourgos) de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles seja aceitável, uma vez santificada pelo Espírito Santo.” (Romanos 15:16). Este termo nos lembra que Paulo ao servir ao Senhor, o fazia servindo o próximo.

A passagem de At. 13:2, afirma que serviam ao Senhor, quando o Espírito Santo disse, separai Paulo e Barnabé para a obra que os tenho chamado. O verbo servir neste texto é leitourgeo, do qual vem leitourgos. Ou seja, serviam eles ao Senhor, conforme serviam os cristãos de Antioquia. E só ai foram chamados para o campo missionário. Deus chamou os que já sabiam servir, no pleno exercício do ministério. Os apóstolos Paulo e Barnabé eram servos (leitourgos), por isso foram chamados.

O terceiro termo utilizado por Paulo é doulos, escravo. Era um servo completamente sem direito, totalmente as ordens de seu dono. Era um dos termos prediletos de Paulo (Rm. 1:1; Gl. 1:10; Fp; 1:1; Tt. 1:1). Ele até mesmo se considerava um escravo dos Coríntios (2Co. 4:5). Jesus ao se humilhar pela encarnação, foi conhecido também como um servo, doulos (Fp. 2:7). Mesmo Jesus abriu mão de tudo, se colocando como um escravo, sem direito, no exercício de sua obra missionária salvifica.

Os três termos no grego para servo, diaconos, leitourgos e doulos, expressam a natureza do serviço e vida cristã. Deveriam ser mais usados por líderes eclesiásticos, como o foram por Paulo para descrever condição ministerial. Poderiam ser até mesmo títulos eclesiásticos.

Podemos concluir pelo nosso estudo os seguintes pontos:

• O uso dos verbos pempo e apostello no NT, indicam que sempre houve pessoas enviadas por Deus para tarefas específicas (especiais). Pessoas como Moisés, Elias e João Batista. Entre estes enviados, Jesus é singular no papel de salvador;

• Entre os especialmente enviados, além de Jesus, há um grupo seleto de apóstolos. Estes são alicerce da Igreja (At. 2:42. Ef. 2:20). O grupo é constituído pelos doze, mais Tiago, irmão de Jesus, e Paulo;

• Há também os especialmente enviados (apóstolos), que foram os missionários transculturais do primeiro século. Pessoas como Barnabé, Andrônico, Júnias, Timóteo, Silas e outros;

• Há um sentido amplo para a palavra apóstolos, pois todos nós somos enviados do Senhor para ser suas testemunhas (At. 1:8);

• Os apóstolos do grupo seleto foram humildes em reconhecer que o poder e capacitação vinham de Deus. Tanto por seu operar (energeo), como por sua energia (energeia), tinham o poder (dunamis);

• Os textos 1Co. 12:28 e Ef. 4:11 não nos autorizam fazer uso da palavra apóstolo para denotar líder eclesiástico autoritário, primeiro da hierarquia. Os textos, ou se referem aos apóstolos do grupo seleto, ou aos missionários transculturais do primeiro século. Apóstolo como missionário faz mais sentido em Ef. 4:11. Já em 1Co. 12:28, a palavra apóstolo pode se referir ao grupo seleto, ou aos missionários do primeiro século;

• Aprendemos que podemos ser igreja apostólica nos submetendo ao ensino do grupo seleto (alicerce da igreja). Assim como sendo uma igreja missionária, levando o evangelho para aqueles que nunca ouviram. Como fizeram os missionários transculturais do primeiro século;

• Aprendemos que a palavra servo expressa melhor a natureza do serviço e vida cristã. Há três palavras gregas que isso endossam: diaconos, leitourgos e doulos. Por quê não usá-la como título eclesiástico?

Sejamos apostólicos, portanto, segundo o significado e uso da palavra apóstolo no Novo Testamento. Sejamos obedientes aos ensinos do grupo seleto. Façamos missões como ordenado por Jesus (Mt. 28:19). Sejamos testemunhas de Jesus (At. 1:8). Façamos tudo isso simultaneamente, reconhecendo que a capacidade vem de Deus.


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