Defesa da Fé

Edição 07

Congregação Cristã no Brasil. Seita ou movimento contraditório? (Parte I)


Por Josué Giamarco e Alberto Alves da Fonseca

Análise histórica


1. Origens

O principal documento para a reconstituição dos primórdios da Congregação Cristã no Brasil é o testemunho escrito por seu fundador, o ancião Louis Francescon (Luigi Francesconi), em Chicago, Illinois, U.S.A. Originalmente esse livreto recebia o nome de “Resumo de Uma Ramificação na Obra de Deus Pelo Espírito Santo no Século Atual”, publicado pela primeira vez em 1942, na cidade de são Paulo. Hoje recebe o título de “Histórico da Obra de Deus...”, revelando sua tendência e ideias exclusivistas.

Louis Francescon, operário italiano, homem oriundo de um grande despertamento espiritual, teve a honra de ser um dos iniciadores da Reforma Italiana, que no século XVI surgira cheia de promessas e esperanças, para logo desaparecer, deixando apenas vestígios.

Nasceu no dia dia 29 de março de 1866, na Comarca de Cavasso Nuovo – província de Udine, Itália, tendo imigrado para os EUA após servir ao exército e chega no dia 3 de março de 1890 à cidade de Chicago, Estado de Illinois¹.

No mesmo ano começou a ter conhecimento do Evangelho através da pregação do irmão Miguel Nardi. Em 1891 teve compreensão do novo nascimento e aceitou a Cristo como seu Salvador. Em março do ano seguinte, junto ao grupo evangelizado pelo irmao Nardi e algumas famílias da igreja Valdense, fundaram a Primeira Igreja Presbiteriana Italiana, tendo sido leito Filippo Grilli como pastor. Francescon foi eleito diácono e, após alguns anos, ancião dessa igreja.

Após três anos, recebeu uma revelação enquanto lia a Bíblia Sagrada, em Colossenses 2.12: “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos.” No momento da leitura ouviu duas vezes as seguintes palavras: “Tu não obedecestes a este meu mandamento” ².

A partir daí, inicia o questionamento do batismo por apersão praticado pela Igreja Presbiteriana Italiana, questionamento, acerca da prática do batismo, e não da doutrina da salvação, uma vez que ele mesmo afirma: “No ano de 1898, o Senhor salvou o irmão Giuseppe Beretta por meio dos Metodistas Livres, americanos, o qual após algum tempo uniu-se conosco, Presbiterianos Italianos” ³. Parece-nos que a doutrina atual da CCB sobre o batismo por imersão está intimamente ligada à salvação, se trata de uma doutrina desenvolvida por ela muito depois.

No princípio de setembro de 1903, Francescon convenceu Giuseppe Beretta se batizar por imersão: “Então, servindo-se Deus também de outros meios, convenceu-se e dois dias após fez-se batizar mesmo em Elgin, por um irmão americano pertencente à Igreja dos irmãos (Church of the Brethren). Na ocasião lhe disse: 'Irmão Beretta, agora que sois batizado, na próxima segunda-feira, dia 7 que é o Dia do Trabalho, batizar-me-ás também'.” 4

Com a viagem do Pastor Filippo Grilli para a Itália, coube a Francescon, como ancião, presidir à reunião no dia 6 de setembro de 1903 (domingo), oportunidade em que, após 9 anos, da revelação acerca do batismo, falou com a Igreja acerca deste assunto, o que fez, convidando a todos os membros da Igreja Presbiteriana Italiana para assistir ao seu batismo por imersão. O batismo foi realizado no dia 7 de setembro de 1903, em Lake-front, de Chicago, aonde compareceram cerca de 25 irmãos, dos quais 18, incluindo Francescon, foram batizados. Co a chegada do Pastor Filippo Greilli, da Itália, Francescon não pode fazer outra coisa que pedir seu desligamento daquela igreja, e o grupo batizado, juntamente com ele, também se desligou, mesmo à sua revelia. Estabeleceram uma pequena comunidade evangélica livre, reunindo-se na casa dos irmãos.

Em fins de 1907 o grupo liderado por Francescon tomou contato com o nascente movimento pentecostal, participando das reuniões realizadas na missão localizada na West North Avenue, 943, que tinha como pastor William H. Durham.

É importante fazermos aqui parênteses para dar mais detalhes sobre o ministério que foi desenvolvido pelo Pr. William H. Durham (1873-1912). Dinâmico líder do início do movimento pentecostal e proponente da doutrina da santificação como processo contínuo, e não como uma crise ou experiência, colaborou para distinguir a doutrina pentecostal neste ponto da teologia Holliness originária. Tendo ouvido falar sobre o derramamento do Espírito, que estava ocorrendo na Califórnia em 1906, Durham visitou a Missão da Rua Azuza, em Los Angeles, tendo recebido o batismo do Espirito Santo pelo dom de línguas estranhas, no dia 2 de março de 1907, e nesse momento o Pr. J. Seymour profetizou que onde Durham pregasse, o Espírito Santo seria derramado sobre o povo. Além de Francescon (fundador da Congregação Cristã no Brasil), muitos outros pioneiros e líderes do movimento pentecostal participaram dos trabalhos desenvolvidos na missão da W. Nort Avenue: A.H. Argue; E.N. Bell; Howard Goss; Daniel Berg, um dos fundadores da Assembleia de Deus no Brasil; Aime Semple McPherson, fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular. Esse pastor faleceu no verão de 1912, vitimado de uma pneumonia, após uma série de viagens em campanhas evangelísticas.

No dia 25 de agasto de 1907, naquela Missão, o próprio Francescon recebeu o batismo do Espírito Santo, e algum tempo depois o Pr. Durham informou a ele que o Senhor o tinha chamado para levar sua mensagem à colonia italiana.

O grupo de crentes italianos vinha há algum tempo reunindo-se na W. Grand Avenue, 1139, e no dia 15 de setembro de 1907, com a manifestação poderosa do Espírito Santo entre eles, podendo-se afirmar que surge a primeira comunidade evangélica italiana de fé pentecostal: a "Assembleia Cristiana”. Outros nomes dignos de nota neste avivamento entre os italianos são: Pietro Ottolini, Giacomo Lombardi, Lucia Menna, Umberto Gazzeri, Giuseppe Petrelli, pessoas que se dedicaram de forma integral na obra de missão e evangelização, sem nenhum auxílio financeiro, a não ser aquele providenciado por Deus 5.

O movimento expandiu-se, surgindo através do trabalho de seus diversos líderes na igreja de Filadélfia, Califórnia e Nova York, além de Illinois. Hoje esse trabalho foi encaminhado pela Igreja Cristã da América do Norte, que surgiu da junção de duas denominações pentecostais ítalo-americanas: Assembleias de Deus Pentecostais Italianas e a Igreja Cristã Italiana Inorganizada da América do Norte. A primeira foi fundada por John Santamaria e seu filho Rocco, resultante do contato também com a mensagem pentecostal através do Pr. William H. Durham, organizada em 1932. A segunda, organizada anteriormente, em 1927, pelo próprio Francescon, defendia um ferrenho congregacionalismo, mas em 1948 somou-se à outra. Hoje, essa igreja tem uma doutrina muito parecida com a das Assembleias de Deus, apesar de guardar ainda certas características culturais, como o fato de as mulheres manterem os cabelos cobertos durante os cultos, e seu periódico continua a ser editado em dois idiomas: The Light House em inglês, e Il Faro em italiano.6

No dia 4 de Setembro de 1909, Francescon e Giacomo Lombardi (iniciador do movimento pentecostal na Itália), embarcam em Chicago, para a cidade de Buenos Aires, capital da Argentina, onde, em contato com familiares de membros da igreja norte-americana, instalaram o trabalho pentecostal entre a colonia italiana dali. Hoje, a igreja que ali surgiu foi incorporada pela Igreja Cristã Pentecostal da Argentina.

Nessa mesma viagem, em 8 de março de 1910, embarcam para o Brasil, com destino a São Paulo. No segundo dia de sua estada no Brasil encontraram um italiano chamado Vicenzo Pievani, na Praça da Luz, onde pregaram o evangelho. Parece, todavia, que de início seu trabalho foi pouco promissor, até que em 18 de abril G. Lombardi partiu para Buenos Aires, e Francescon foi para Santo Antônio da Platina, no Paraná, chegando lá em 20 de abril de 1910, e deixou estabelecido ali um pequeno grupo de crentes pentecostais, o primeiro grupo desse segmento no Brasil. Ao retornar em 20 de junho para São Paulo, após um contato inicial com a Igreja Presbiteriana do Brás, onde alguns membros aceitaram a mensagem pentecostal, bem como alguns batistas, metodistas e católicos romanos, surge a primeira "Congregação Cristã" organizada em nosso país. Já, no mês de Setembro, Francescon segue novamente para o Panamá, deixando ali a novel igreja sem maior respaldo.

A partir daí, o trabalho da Congregação Cristã espalha-se por onde existem colonias italianas, notadamente na região sudeste do país, principalmente nos Estados de São Paulo e Paraná, onde até hoje se concentram. Seu fundador, o ancião Louis Francescon, faleceu em 7 de Setembro de 1964, na cidade de Oak Park, Illinois, U.S.A..

Até aqui podemos ver que a história da Congregação Cristã não trás maiores diferenças que possam explicar sua posição sectária de hoje, mas veremos alguns detalhes que poderão ajudar a explicar isso.

Conforme consta nas memórias do Pr. Gunnar Vingren, missionário sueco, que em conjunto com Daniel Berg iniciaram no Brasil o trabalho da Assembleia de Deus, o encontro com Francescon em 1920, quando passou por São Bernardo, foi muito cordial: "Senti a liberdade do Espírito Santo entre estes crentes, que testificavam de maneira gloriosa e falavam em línguas pela operação do Espírito Santo. O irmão Luiz Francescon me contou todos os milagres que Deus havia feito, quando enfermos haviam sido curados. Paralíticos, cegos, tuberculosos e aqueles que haviam quebrado pernas e braços o Senhor curara.” 7 O que teria levado, então, no aspecto histórico, a impedir que essas duas igrejas pentecostais juntassem suas forças, e, por conseguinte, a decisão da Congregação Cristã quanto às demais denominações fosse diferente do exclusivismo hoje existente? Por que não ocorreu aqui o mesmo que nos Estados Unidos, onde o grupo original de pentecostais italianos, a "Assembleia Cristiana" ou Igreja Inorganizada, foi aos poucos assimilando e sendo assimilada por outros grupos?

Primeiramente, devemos ter em mente que a Congregação Cristã tem origem num ambiente teológico onde a predestinação domina, tendo vindo seu fundador, assim como boa parte de seus primeiros membros, da igreja presbiteriana. Isso, somado ao fato de que algumas profecias davam conta de que lhe seriam enviados os que haveriam de se salvar 8, além do fato de o ancião Francescon não ficar continuamente junto aos novos grupos, mas, como ele mesmo escreveu, esteve em nosso país cerca de dez vezes, em períodos intercalados 9, com certeza causou grande vácuo na interpretação e orientação da liderança nacional, levando a surgir uma interpretação extremista dos conceitos calvinistas.

Ao lado disso, tornando ainda mais difícil uma futura convivência pacífica com a outra representante do movimento pentecostal, em 1928 ocorre um cisma dentro da Congregação, e a parte insatisfeita desliga-se dela e passa a fazer parte da Assembleia de Deus, que nesse momento está se instalando na capital paulista. Tal falo, inclusivamente, serviu de base para o boato difundido pelos membros da Congregação, de que as Assembleias de Deus teriam sido fundadas por ex-membros de sua igreja, história até hoje contada entre eles. Tal atitude acirrou os ânimos, somando-se as diferenças doutrinárias quanto à salvação, predestinação (livre-arbítrio), às diferenças de costumes (uso de véu e ósculo santo) e a ferrenha oposição à organização humana, sendo que "a recusa à organização humana é o ponto de separação entre as Congregações e as Assembleias de Deus. Não se trata apenas de uma diferença eclesiástica, mas de uma questão de princípios" 10. Tais fatos podem ter impedido o relacionamento da Congregação com o único grupo que também defendia o pentecostalismo em nosso país naquela época.

Outra declaração de Francescon revela implicitamente ranço de exclusivismo religioso, quando ele diz: "Eis como o benigno Deus começou Sua obra. Pelo batismo da água, segundo o mandamento do Senhor Jesus, fomos tirados das seitas humanas e de suas teorias;..." e "Todas as vezes que eu voltava à América do Norte, encontrava sempre novidades no meio dos irmãos; coisas diferentes daquilo que tinham aprendido no começo.'' 11 Parece que Francescon indiretamente qualifica as outras igrejas, até mesmo a de onde ele procedeu como seita humana e teórica! e assume posição de rejeição a quaisquer mudanças não apresentadas por ele.

Ainda com referência à Congregação, "o iluminismo e apelo ao Espírito leva a uma rejeição da organização. O modelo das igrejas evangélicas representa a ingerência do humano na obra divina. O modelo da Congregação Cristã, segundo Nélson, é o de parentesco, ou o patriarcal. A burocracia é mantida no mínimo absoluto, e não há pastores, mas somente anciãos não remunerados. Provavelmente a figura de Francescon ajudou a solidificar esse modelo; ele representava uma autoridade incontestável, mas quase sempre ausente. Outro fator é a estrutura familiar italiana. A liderança é por antiguidade mais do que por carisma ou por competência. A dependência da tradição oral fortalece essa liderança. O modelo é reforçado pelo imaginário de uma família extensa; a igreja é conhecida corno ''irmandade''. 12 Apesar disso existe claramente grande importância dada ao ancião responsável por assumir os trabalhos da sede da igreja localizada no bairro do Brás, em São Paulo, mas não podemos definir seu papel como de um presidente de convenção, talvez mais como de um mediador entre iguais.

Não devemos, todavia, pensar que essa recusa à organização seja uma característica encontrada apenas na Congregação Cristã. Na origem do movimento pentecostal era comum essa ojeriza a toda a forma de organização que pudesse abafar a atuação do Espírito. Bem demonstra esse fato o que nos relata uma citação do líder pentecostal sueco Lewi Petrus, quanto aos missionários no Brasil, citado na biografia de um dos fundadores da Assembleia de Deus: "Durante os últimos anos, temos sido enganados aqui na Suécia com a notícia de que os missionários e a missão no Brasil estava organizada numa denominação bastante forte. Quem nos disse isto. mencionou que a sede da organização está no Pará e que no princípio consistia somente de três missionários, mas que depois se estendeu, dominando a obra em todo o Brasil.

Os missionários no Brasil, estão, quando se trata do assunto da organização, inteiramente no mesmo ponto de vista que as igrejas livres da Suécia. Todos expuseram a sua perfeita aprovação sobre o pensamento bíblico de igrejas. locais livres e independentes, entre as quais deve haver uma colaboração espiritual, mas sem a organização da qual os missionários agora tinham sido acusados que professavam e praticavam.” 13

Mas, ainda maia importante que esses fatos, há outro problema, esse, sim, de importante significado, que foi muito bem aventado pelo professor Émile G. Léonard, ilustre historiador francês, já na década de cinquenta: "Parece-nos, entretanto, haver nas Congregações uma profunda fraqueza, que faz com que não as possamos considerar absolutamente protestantes (o que, aliás, elas não pretendem, mantendo-se afastadas de todas as igrejas) mas que nos faz desejar que o protestantismo brasileiro se interesse pelo problema que elas apresentam. Não se trata de nada relativo ao Espirito ou a essas manifestações, e sobre as quais não insistimos; as curas miraculosas, a glossolalia, os êxtases, e eventualmente as convulsões. Aqui não há nada desconhecido, anticristão ou antibíblico. Muitas outras denominações protestantes tiveram essas manifestações, nos seus primeiros tempos, e lamentam secretamente não serem mais privilegiadas. Entretanto, tal como na Igreja Evangélica Brasileira, o papel da Bíblia aqui também parece bem pequeno. Os fiéis parecem considerá-la mais um livro de oráculos que se abre para encontrar a resposta do Espírito a uma questão ou a uma necessidade, do que o relato de uma Revelação que deve ser conhecida e meditada sistematicamente. As Escolas Dominicais são substituídas pelo "cultos para menores”, cópia dos cultos comuns, com os três cânticos de início, os testemunhos, as orações (nas quais se manifestam os fenômenos de glossolalia), o sermão, novas preces e a benção final. O conhecimento bíblico que as. crianças possuem, reduz-se muitas vezes a um certo número de passagens ou versículos particularmente comentados. Os próprios guias espirituais declaram, sem embaraço, que não leram toda a Bíblia. Suas prédicas, feitas apenas sob a inspiração do Espirito, sobre textos que lhes são “dados" naquele momento, não são preparadas. Não possuem livro algum, nem jornal de edificação, nem cultura alguma religiosa, considerando ilegítima toda literatura humana – o que é para eles, aliás, motivo de glória – o mesmo acontecendo com todos os seus fiéis. Pode-se doer que todos os conhecimentos bíblicos mais ou menos sistemáticos que existem nas Congregações, provém de prosélitos recrutados nas denominações protestantes. Felizmente eles são numerosos, pois certas comunidades evangélicas perdem importantes frações que passam para comunidade vizinha.

Felizmente...; essa não é a opinião dos pastores dessas comunidades. Que eles olhem, entretanto, um pouco além de seus efetivos. O movimento "glória" é um fato, e fato considerável, que possui, certamente, centenas de milhares de batizados e simpatizantes. Por importante que seja o recrutamento entre protestantes, a grande maioria deles provem de meios católicos, e desses meios proletários perante os quais não se encontram muito comodamente, não obstante toda sua boa vontade. Há, aqui um grande problema. Essas almas serão abandonadas apenas às manifestações do Espírito, num conhecimento insuficiente da Revelação, da Bíblia e, através dela, do Salvador e de sua Cruz?" 14

Isso realmente torna difícil a consideração da Congregação Cristã no Brasil como igreja protestante, pois vai contra um dos lemas centrais da Reforma: “Sola Scriptura", e, quanto ao ensino, sabemos que “se há uma religião neste mundo que dê relevância ao ensino, sem dúvida tal religião é a de Jesus Cristo. Com frequência já se tem destacado o fato de que a doutrina tem uma mínima importância nas religiões não cristãs; nelas o destaque está na realização de um ritual. Mas é precisamente nisto que o cristianismo se diferencia das demais religiões: ele tem doutrina. Ele se apresenta aos homens com um ensinamento definido, positivo; declara-se ser a verdade; nele o conhecimento dá suporte à religião, conquanto seja um conhecimento somente acessível sob condições morais... Uma religião divorciada do pensamento diligente e elevado tem tido, através de toda a história da Igreja, a tendência de se tornar fraca, estéril e nociva.'' 15


Pontos de doutrina e da fé da Congregação Cristã no Brasil


Com a expressão "Pontos De Doutrina e Da Fé Que Uma Vez Foi Dada Aos Santos" a Congregação Cristã no Brasil faz sua Declaração de Fé, declaração esta muito comum entre as muitas denominações evangélicas no Brasil. Estes são os pontos de doutrina e da fé da Congregação Cristã no Brasil:

1. Nós cremos na inteira Bíblia e aceitamo-la como infalível Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo. A Palavra de Deus é a única e perfeita guia da nossa fé e conduta, e a Ela nada se pode acrescentar ou dela diminuir. É, também, o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. (II Pedro 1.21: II Tm 3.16,17: Rom 1.16).

2. Nós cremos que há um só Deus vivente e verdadeiro, eterno e de infinito poder, Criador de todas as coisas, em cuja unidade há três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. (Ef., 4.6: Mat., 28:19: I João, 5:7).

3. Nós cremos que Jesus Cristo, o Filho de eus, é a Palavra feita carne, havendo assumido uma natureza humana no ventre de Maria virgem, possuindo Ele, por conseguinte, duas naturezas, a divina e a humana: por isso é chamado verdadeiro Deus e verdadeiro homem e é o único Salvador, pois sofreu a morte pela culpa de todos os homens. (Luc., 1:27,35;João, 1.14; I Pedro 3.18).

4. Nós cremos na existência pessoal do diabo e de seus anjos, maus espíritos, que, junto a ele, serão punidos no fogo eterno. (Mat., 25;41).

5. Nós cremos que a regeneração, ou o novo nascimento, só se recebe pela fé em Jesus Cristo, que pelos nossos pecados foi entregue e ressuscitou para nossa justificação. Os que estão em Cristo Jesus são novas criaturas. Jesus Cristo, para nós, foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção. (Rom, 3.24 e 25: I Cor., 1.30: II Cor., 5.17).

6. Nós cremos no batismo na água, com uma só imersão em Nome de Jesus Cristo (Atos, 2.38) e em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. (Mat., 28.18,19).

7. Nós cremos no batismo do Espírito Santo, com evidência de novas línguas, conforme o Espírito Santo concede que se fale. (Atos, 2:4: 10.45-47; 19.6).

8. Nós cremos na santa ceia. Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomando o pão e havendo dado graças, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo, que por vós é dado: fazei isto em memória de mim". Semelhantemente tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós. (Luc., 22:19,20; I Cor., 11:24,25)

9. Nós cremos na necessidade de nos abster das cousas sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da fornicação, conforme mostrou o Espírito Santo na assembleia de Jerusalém (Atos, 15:28,29; 16.4; 21:25).

10. Nós cremos que Jesus Cristo tomou sobre Si as nossas enfermidades. "Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da Igreja e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente. e o Senhor o levantará; e se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados”. (Mat., 8:17; Tiago, 5:14,15).

11. Nós cremos que o mesmo Senhor (antes do milênio) descerá do céu com alarido, com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. (I Tess., 4.16,17; Ap., 20.6).

12. Nós cremos que haverá a ressurreição corporal dos mortos, justos e injustos. Estes irão para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna. (Atos, 24:15; Mat., 25:46).

Como o leitor pode observar, os "Pontos de Doutrina e da Fé" da CCB são pontos semelhantes aos de qualquer denominação cristã tradicional, com exceção do artigo 7°, que revela sua linha pentecostal.

A problemática que ocorre na CCB não é de caráter totalmente doutrinário, mas, sim, a insistência no "iluminismo", na predestinação total e nos costumes e práticas que são os verdadeiros responsáveis diretos e indiretos de seu exclusivismo religioso, tornando-os seu verdadeiro corpo doutrinário. Podemos resumir o corpo doutrinário da CCB, na prática, da seguinte maneira:

1. Só existe salvação na gloriosa Congregação. Ela é a verdadeira graça, o tronco principal, as demais são apenas ramos;

2. o Espírito Santo dirige tudo: não é necessário se preparar, examinar ou meditar nas Escrituras Sagradas. Não pode estudar a Bíblia, pois a Bíblia não foi feita para ser estudada, mas para ser obedecida;

3. só o batismo efetuado na CCB é verdadeiro;

4. está espiritualmente acima de qualquer outra denominação, porque é a única igreja em que as mulheres observam a prática do uso do véu no culto, conforme I Co 11.1-16;

5. a irmandade deve saudar com a "a paz de Deus", e nunca com a "Paz do Senhor", porque existem muitos senhores, mas Deus existe um só;

6. está espiritualmente acima de qualquer outra denominação, porque é a única igreja que observa a prática do "ósculo santo";

7. é pecado dar o dízimo, porque o dizimo está na lei, e nós estamos na graça;

8. só existe um pastor da Igreja: Jesus Cristo. Os demais pastores são homens carnais;

9. não devemos pregar o evangelho, porque o evangelho não pode ser escandalizado: só se deve pregar se Deus mandar;

10. só podemos orar de joelhos.

A base essencial do exclusivismo religioso da CCB está resumido nesses dez itens acima citados, e a crença inflexível nesses pontos é que faz que ela rejeite e condene todas as demais igrejas cristãs diferentes do seu ensino. Partem do seguinte raciocínio: se não é igual ao nosso ensino, logo está incorreto; sendo assim não pode ser salvo, e, se porventura tiver de ser salvo, virá para a Congregação. A doutrina da salvação fica portanto implicitamente ligada aos seus costumes e práticas, além de radicalizar a doutrina da predestinação, criando então a ideia de ser o único caminho, o canal de ligação, a verdade, "a verdadeira graça" etc.

O que é diferente para a CCB tornar-se algo não verdadeiro, e, não sendo verdadeiro, não pode atingir a salvação, uma vez que só é atingida com a verdade, no caso, a CCB. Usa-se então um raciocínio correto e até lógico, mas para um contexto inevitavelmente incorreto, ilógico e, acima de tudo, egocêntrico.

A Congregação Cristã no Brasil atingiu este clímax contextual egocêntrico de tal forma que, não obstante possuir um credo doutrinário não questionável, suficiente para ser classificada apenas como mais uma denominação cristã, enquadra-se melhor nos grupos de igrejas contraditórias, devido à sua insistência no iluminismo subjetivo e em defender tenazmente o monopólio da salvação. Essa anomalia é satisfatoriamente entendida pelo fato de a CCB dar mais ênfase ao subjetivismo que ao seu próprio credo doutrinário, e a grande contradição está perfeitamente visível aí, ao possuir um credo doutrinário não questionável, embora flagrantemente anulado por este iluminismo subjetivo e pelos usos e costumes. Assim a tradição, ou como eles usam: "os mais antigos", acabam por anular os "Pontos de Doutrina e Fé", cumprindo com precisão as palavras do Senhor Jesus: "...anulam a Palavra de Deus por causa da vossa tradição...". Lamentavelmente, poucos são os fiéis da CCB que conhecem e valorizam os "Pontos de Doutrina e da Fé Que Uma Vez Foi Dada Aos Santos ".


Notas Finais

1 Louis Francescon - Histórico da Obra de Deus, Revelada Pelo Espirito Santo, no Século Atual, IV edição, Congregação Cristã no Brasil, SP, 1977, p. 07

2 Op. cit. p. 08

3 Op. cit. p. 08

4 Op. cit. p. 09

5 David A. Womack e Francesco Toppi - Le Radici del Movimento Pentecostale, A.D.I. Media, Roma, 1989, p. 124

6 J. Gordon Melton - The Encyclopedia of American Religions, Volume 1, McGrath Publishing Company, Wilmington North Carolina, U.S.A., 1978, pp. 280-281

7 Ivar Vingren - Gunnar Vingren, O Diário do Pioneiro, Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 1ª edição, 1973, RJ, p. 102

8 Louis Francescon - Histórico da Obra de Deus, revelada pelo Espirito Santo, no século atual, IV edição, Congregação Cristã no Brasil, SP, 1977, pp.15-16

9 Louis Francescon - Histórico da Obra de Deus, revelada pelo Espírito Santo, no século atual, IV edição, Congregação Cristã no Brasil, SP, 1977, pp. 24,29

10 Émile G. Léonard - O Protestantismo Brasileiro; estudo de eclesiologia e de história social, 2ª edição, RJ e SP, JUERP/ASTE, 1981, p. 348

11 Louis Francescon - Histórico da obra de Deus, revelada pelo Espírito Santo, no século atual, IV edição, Congregação Cristã no Brasil, SP,1977, p. 25

12 Paul Freston, Nem Anjos Nem Demônios: Interpretações Sociológicas do Pentecostalismo/ Alberto Antoniazzi... (et al.) - Petrópolis, RJ, Vozes 1994, pp. 106,106

13 Ivar Vingren - Gunnar Vingren - O Diário do Pioneiro; 1ª edição, Casa Publicadora das Assembleias de Deus, RJ, 1973, p. 157

14 Émile G. Léonard - O Protestantismo Brasileiro; estudo de eclesiologia e de história social, 2ª edição, RJ e SP, JUERP/ASTE, 1981, pp. 350 e 351.

15 James Orr, The Christian View of God and the World, Grand Rapids: Eerdmans, 1954, pp. 20-21

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