Defesa da Fé

Edição 19

Os Cativos do Brooklin


Por Márcio Souza

As Testemunhas de Jeová (TJ), em diversos países, têm adquirido o direito de continuarem propagando seus ensinos através de decisões judiciais. A busca de liberdade de expressão e adoração tem sido tema de vários artigos da revista A Sentinela e procuram na lei amparos para propagarem sua ideologia. Contudo, os fatos demonstram que a justiça secular tem sido muito mais tolerante e compreensiva, em contraste com as obrigações impostas pelo Corpo Governante deste movimento.

Em certa ocasião, numa disputa judicial a respeito direito de não saudar a Bandeira Nacional, um dos juízes da Suprema Corte do México, declarou: “Este é um caso difícil, não porque os princípios de sua decisão sejam nebulosos, mas porque a bandeira envolvida é a nossa.” Ainda assim, aqueles juízes concederam permissão para as TJ não saudarem a bandeira. Esta liberdade adquirida pelo grupo é apenas superficial, como ficou explícito pelo juiz que chegou à seguinte conclusão: “A liberdade para discordar não se limita àquelas coisas que não importam muito. Isso seria uma mera sombra de liberdade. A prova de sua essência e o direito de discordar quanto a coisas que tocam o coração da ordem existente.” (1) Exatamente neste ponto são intolerantes!

Em seus artigos, na revista A Sentinela, clama pela liberdade e, nos tribunais, lutam pelo direito de expressão, se levantando em juízo contra aqueles que demonstram as implicações dos ensinos de sua organização, tendo como desculpa sua liberdade de adoração e expressão.

Perguntamos: Onde está o direito dos membros das Testemunhas de Jeová? Usufruem eles da mesma liberdade propagada na revista A Sentinela? Infelizmente, apenas pregam liberdade, mas não permitem que seus membros, seus filhos discordem quanto a coisas que toquem a ordem de sua organização. Pregam liberdade, mas a excluem de seus membros!


Liberdade em custódia


Um candidato a TJ geralmente estuda três livros durante dois anos e, além disso, o discipulado envolve associação com os membros da congregação que se reúnem regularmente cerca de cinco vezes por semana. Assim, cria-se uma dependência social - não aceitar qualquer ensinamento dado no Salão do Reino, significa rejeição de todo o grupo. Finalmente para se batizar terá que responder cerca de 125 perguntas, em sua maioria opostas a teologia cristã, ou seja, terá que negar várias doutrinas vitais.

Dentro de sua comunidade, ferem o direito de seus membros questionarem seus próprios ensinos, fechando-lhes as possibilidades de analisarem e repensarem suas bases doutrinárias. Qualquer manifestação em contrário acarreta punição, que vem através de retaliação social. Se um membro questiona as bases dos seus ensinos poderá ser desassociado. Não permitem que haja associação entre um desassociado (2) ou dissociado (3) e outros membros ativos. Por exemplo, se numa família de TJ encontra-se um desassociado, não se permite sequer que almocem juntos.


Abrindo a “Caixa-Preta”


Um ex-membro do Corpo Governante (CG) (4), Raymond Franz, após 60 anos como TJ, dos quais, nove anos como diretor mundial, agora tem relatado a condição interna do movimento. Em seu livro Crisis de consciência, em espanhol, relata em pormenores, as experiências que teve durante sua condição como membro do corpo de diretores da Sociedade Torre de Vigia.

Embora a revista Watchtower (A Sentinela) apregoasse teocracia (5) como forma de governo apropriado para “organização de Deus”, a autocracia (6) continuava, e foi claramente demonstrada em 1 917, quando Rutherford (segundo diretor da Sociedade Torre de Vigia) teve problemas com o CG e simplesmente expulsou quatro diretores inconvenientes.

Quais os motivos de tais expulsões na sede mundial? Embora aparecessem rumores absurdos - que denegriam a imagem dos envolvidos, uma desculpa comum para explicar a saída de membros relevantes era procurar acusados de imoralidades, desvios de valores ou qualquer coisa que manchasse suas reputações - no entanto, eram pessoas de confiança que cometeram o erro de não aceitarem o sistema. Depois de muitos anos de serviço nos escritórios ou designações, foram considerados apóstatas (7).

A propósito, eu, autor deste artigo, já presenciei e colaborei em diversas expulsões semelhantes, que envolviam apenas pontos de vista diferentes da ideologia da STV - fiz parte das TJ por 24 anos, destes, cinco como ministro ordenado de tempo integral. Também fui membro de duas outras sociedades que dão suporte as TJ.

Entre centenas de problemas ideológicos no seio da organização das TJ, ele enfatiza a atitude inquisidora demonstrada pelos diretores. E isto é antigo, pois remonta a 1914. Esta data é sagrada, considerada como o “fim dos tempos dos gentios”. Segundo o fundador, Charles Russel, ela deveria marcar o início do Armagedom, significando os últimos dias deste sistema de coisas. Esta data sempre foi coluna nos ensinos da revista A Sentinela!

Inédito é saber que a diretoria da organização já tentou mudar este ensino. Uma outra data apreciada foi 1957, pois queriam identificar a era espacial com os sinais nos céus. Se os diretores não têm certeza data, como podem exigir dos seus membros que não discutam sobre o assunto? Qualquer membro que questionar a data de 1914 será punido com desassociação. Contudo, mesmo nas reuniões fechadas do corpo governante há crises de consciência, pois diferente do que se esperava, os membros do CG não são unânimes, e isto até mesmo neste assunto, um dos mais delicados do grupo!

Qual a diretriz que usam para mudar seus ensinos? Decerto não é a Bíblia! Os ensinos enraizados das TJ somente encontram mudanças quando o relatório mundial (8) apresenta notáveis decréscimos, indicando o descontentamento de muitas Testemunhas de Jeová. As mudanças são necessárias para fechar as brechas doutrinárias. Em dez anos apenas, o livro básico para preparar os candidatos ao batismo mudou três vezes! ( 9) Qual motivo? Para esconder a falsa doutrina a respeito do ano de 1914! Sem este “ponto crítico” nenhuma mudança é permitida.

Recentemente, em 1996, houve uma mudança quanto a questão do serviço militar Agora os jovens das Testemunhas de Jeová em idade de alistamento podem optar pelo serviço militar alternativo. No entanto, em tempos passados não permitiam que seus membros se alistassem no Exército e tampouco que oferecessem algum serviço alternativo. Em consequência disso, muitos jovens foram presos e condenados por traição, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial. O que nos sensibiliza é saber que durante muitos anos o CG, em portas fechadas, questionava sobre este assunto, e como a diretoria não chegasse a um consenso, a decisão foi mantida apenas por não alcançar quorum -este mesmo diálogo não é tolerado entre os membros comuns.


Sombras da opressão


Em 1941, Rutherford em um discurso, dirigindo-se especificamente aos jovens de 5 a 18 anos, deu-lhes como presente um livro intitulado Filhos. Emotivamente, convidou estes jovens a terem como alvo o trabalho de casa em casa, protelando o casamento para depois do Armagedom. (10)

Assim, centenas de jovens abraçaram o celibato e, desde então, os escritórios e as designações especiais tinham como requisito básico não casar. Isto chegou ao ponto de criar um provérbio: ”Perder a condição de solteiro significa perder a designação.” Esta regra durou nove anos. (11) Contudo, sua sombra continua, isto porque os ministros ordenados das Testemunhas de Jeová não podem ter filhos.

Depois se soube que, naquela época (1 94 1), Rutherford estava morrendo de câncer. Seu maior desejo era ver a “nova ordem” ou “novo mundo” surgir- haviam profetizado o início do governo milenar de Cristo para aquela época-, embora suas declarações fossem censuradas pela maioria da diretoria, não podia ser barrado; afinal, era o presidente e poderia fazer outra limpeza.

As crises na STV continuaram. Em 1975(12) os diretores exigiram que o papel do CG fosse real e não fictício. O então presidente, Nathan H. Knorr, não agüentou nem um tumor cerebral que estava sofrendo, nem a pressão da diretoria e então foi feita a reorganização. Finalmente, os membros da diretoria passaram a ter voz ativa. Note-se que desde 1874 se apregoava a existência de um Corpo Governante, mas o mesmo de fato nunca havia existido, senão a partir de 8 de junho de 1975. Uma das doutrinas básicas do TJ é a relevância do “escravo fiel e discreto” como canal de Deus para a humanidade. Se tal doutrina, que é a base da unidade dos TJ, era fictícia, o que se pode esperar das demais?


Encontro com a liberdade


Muitos tem se decepcionado com os falsos ensinos, com os fracassos de previsões sobre o Armagedom. Outros passam a conhecer na “pele” o fanatismo religioso da liderança.

A Palavra de Deus não dá glória a outros, mas declara: Se, pois, o Filho vos libertar; verdadeiramente, sereis livres. Falta as TJ o poder regenerador que liberta do pecado, da religiosidade farisaica e da exclusividade cega.

Jamais uma organização poderá gloriar-se de ser o “caminho”, pois esta posição já está ocupada! Somente a graça e o senhorio de Jesus Cristo podem conduzir o homem à salvação. Ele não é apenas um caminho, mas o caminho, a verdade e a vida (João 14.6). As palavras daquele juiz ecoam como um clamor à liberdade: A prova de sua essência é o direito de discordar quanto as coisas que tocam o coração da ordem existente.


Notas

1 - Crisis de Conciencia, pg. 122 Raymond Franz Editorial Clie. Galvani, 113-115. 08224. Terrassa- Barcelona.

2- Desassociado: quem foi expulso das TJ .

3 - Dissociado: quem rejeita os ensinos das TJ

4 - Corpo Governante: liderança máxima das TJ, composto atualmente de 14 anciãos, nos EUA.

5 - Teocracia: forma de governo em que a autoridade emana de Deus.

6 - Autocracia: governo de um só príncipe.

7 - Apóstata: esta palavra significa alguém que deixou os ensinos ortodoxos; para a STV – Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados – significa alguém que não mais concorda com seus ensinos.

8 - Cada TJ deve fazer um relatório mensal de suas atividades, que somaram ao relatório de cada país. Este relatório inclui tempo dedicado a divulgação de sua literatura e, através dele, sabe-se quantas TJ tem em cada país.

9 - A Verdade Que Conduz a Vida Eterna (durou ate 1984 ), Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra (durou ate l994) e Conhecimento Que Conduz à Vida Eterna (a partir de 1995).

10 - Armagedom: ocasião, no fim da grande tribulação, quando Jeová destruirá este sistema de coisas e começará uma nova ordem, um paraíso na terra. (Ponto de vista das TJ).

11 - Até 1950 o casamento era totalmente evitado; desde então os ministros ordenados casam-se, mas evitam ter filhos.

12 - F. Franz, tio de Raymond Franz, era vice-presidente e cotado para a presidência, mas seu fracasso na previsão do Armagedom para 1975 cooperou para que perdesse a força presidencial que seus antecessores mantiveram.

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