Defesa da Fé

Edição 20

Clonagem


Discussão Ética e Religiosa

Por Christiano P. da Silva Neto

Os clones eram, até recentemente, apenas ilustres personagens dos contos de ficção científica. Quase sempre a idéia era a de um exército de seres humanos, todos iguais, prontos para conduzir ao poder aquele que os havia clonado.

Hoje, os clones são uma realidade científica e, mais do que isso, um debate que começa a envolver toda a sociedade, discutindo valores éticos, morais, filosóficos e religiosos por trás destas novas possibilidades laboratoriais.


Introdução


Surpreso, e com um certo temor. Assim o mundo recebeu a notícia de que os cientistas haviam clonado uma ovelha adulta, dando origem a um animal geneticamente idêntico, mas tão novinho quanto qualquer recém-nascido. Foi, então, aberto o debate em torno dessa questão, principalmente sobre a possibilidade de clonagem de seres humanos. Depois descobrimos que estávamos um tanto quanto atrasados. Essas experiências já haviam sido realizadas há algum tempo em vários animais, e não eram absolutamente novidade nos círculos científicos.

Teria havido já alguma experiência com seres humanos? A imprensa noticiou que sim e citou o trabalho de dois cientistas do Centro Médico da Universidade George Washington, Robert Stilmann e Jerry Hall, em outubro de 1993. Essa experiência, entretanto, quando muito deveria ter sido rotulada como pseudoclonagem, já que tudo que eles haviam feito fora gerar gêmeos idênticos artificiais a partir de embriões humanos. Vamos explicar melhor.

Em alguns casos, ao iniciar seu desenvolvimento, o óvulo fertilizado divide-se, dando origem a dois ou mais embriões. Este é o processo natural da formação de gêmeos idênticos. Hall e Stilmann romperam a capa protetora de um óvulo fertilizado já em processo de divisão e industrializaram capas protetoras para suas células, tornando-as, cada uma, um novo embrião.

A verdadeira experiência de clona gem, entretanto, consiste em se obter um ser vivo (clone) exatamente igual, do ponto de vista genético, ao ser do qual ele foi clonado. Isto foi feito pela primeira vez com sapos em 1952. Cientistas tomaram a célula de um animal adulto, removeram o seu núcleo e o implantaram em um ovo fertilizado que tivera seu núcleo removido. Apesar de serem bem-sucedidos em alguns casos, o fato é que apenas um em cada mil implantes teve êxito.

Recentemente, a experiência foi repetida com ovelhas, mas desta vez foi utilizado um óvulo não fertilizado. Dolly, a ovelha-clone que virou capa de revista em várias partes do mundo, ficou famosa. Entretanto, os resultados negativos obtidos durante todo o processo jamais foram divulgados em toda a sua extensão. Em alguns casos os implantes não funcionaram; em outros geraram animais defeituosos, indicando que está longe o dia em que poderemos realizar um clone humano sem o risco de todas essas adversidades. Apesar disso, o debate em torno das questões éticas foi deflagrado.


O potencial humano


Dizem que o ser humano faz uso de apenas 5% de sua capacidade. Não tenho a menor idéia de como isso foi medido, se é que o foi algum dia. Muito provavelmente, esta é apenas uma expressão a nos comunicar que a capacidade de um ser humano se assemelha a um iceberg, sendo a porção de que costumamos nos valer equivalente à parte não submersa. Em outras palavras, a quase totalidade da nossa capacidade permanece na forma potencial, ainda por garantir sua existência no mundo real.

Se isto é verdade, e os avanços da ciência nos últimos anos já nos mostram que sim, tudo que fizemos até agora dá-nos uma pálida percepção do que ainda podemos fazer. Muitas das questões com que hoje nos defrontamos chegam até a perder o significado diante daquelas com que nos veremos envolvidos em um futuro até muito próximo. É óbvio, porém, que nada disso nos exime da responsabilidade e do dever de discutir essas questões que, por certo, tocam as fibras mais profundas dos conceitos éticos, morais, filosóficos e religiosos de toda pessoa educada.

O homem tem características que o distinguem completamente dos demais animais. Estes vivem apenas segundo os ditames de seus próprios instintos, incapazes de realizações que ultrapassem esses limites ou de se verem envolvidos em questões éticas, por exemplo. Os seres humanos, por outro lado, têm se mostrado capazes de ultrapassar todas as barreiras, e de vencer toda a sorte de dificuldades que surgem à sua frente. Hoje, nossa experiência aponta, de modo inequívoco, para o fato de que, a intervalos sempre mais curtos de tempo, nós mesmos nos mostraremos surpresos diante de nossas próprias realizações.

Assim, a questão se devemos ou não ir tão longe quanto já fomos tem de ser confrontada com a realidade do nosso potencial. Teríamos nós sido feitos por Deus com um potencial imenso mas, para nos mantermos dentro dos limites razoáveis do certo e do errado, confinados ao uso de míseros 5% desse potencial? Responder de modo afirmativo é, obviamente, também afirmar que, ao criar o homem, Deus teria desperdiçado recursos, atraindo para si mesmo um problema incon tornável, porque a humanidade certamente vai trilhar todos os caminhos que puder.

Há quem aborde esta questão com argumento bíblico e, para sustentar a tese de que não devemos ir tão longe, cita a experiência da torre de Babel. Basta, porém, um mínimo de reflexão a este respeito para perceber que este argumento é destituído de sentido.

Não sabemos qual era a altura dessa torre, mas devia ser menor do que os gigantescos edifícios que hoje construímos em várias partes do mundo. Mesmo, porém, que você não concorde com esta afirmação, e julgue que a torre de Babel era mais alta do que a torre da Sears, localizada em Chicago, e que é o edifício mais alto do mundo, o homem de hoje já realizou façanhas muito maiores, singrando o espaço sideral e pisando em território lunar.

A verdade é que o episódio da torre de Babel encontrou o seu final por causa das intenções dos que a estavam construindo. O versículo 4 do capítulo 11 de Gênesis nos mostra que eles pretendiam construir uma torre tão alta que o seu topo chegasse aos céus, tornando-os célebres e imunes a qualquer adversidade. Em outras palavras, pretensão, arrogância, desejo de chegar aos céus por meios que independessem da vontade de Deus; estas eram as reais motivações daquela gente. Isto, porém, Deus não poderia admitir, nem mesmo em termos de planejamento, já que o projeto em si era completamente inexeqüível e contrariava o pressuposto cristão indiscutível de que só Cristo se apresenta como a porta de entrada para essa dimensão maior.

Só isto explica o fato de já termos ido muito mais longe e Deus não nos ter impedido. Temos construído edifícios muito mais altos do que a torre de Babel, mas nossa motivação é apenas a de resolver alguns problemas de acomodação de grupos e segmentos da sociedade. Pisamos em solo lunar e, muito breve, possivelmente estaremos em outros mundos, mas o que nos leva a este tipo de realização é o desejo de conhecer mais do universo que nos abriga. A conclusão a que chegamos, portanto, não poderia ser outra: podemos e devemos fazer uso de cada centímetro cúbico da capacidade que Deus nos deu, indo até onde pudermos nessa caminhada, rompendo barreiras em direção aos nossos próprios limites, que hoje se mostram além dos horizontes que podemos divisar. Pensar de forma diferente seria desrespeitar o nosso Criador, que nos fez com a mente inquisi tiva que temos e com o desejo de ir sempre mais longe do que já fomos.


Clones: Certo ou Errado?


Mais uma vez, a experiência da torre de Babel pode ser de grande valia na análise desta questão. Ela nos mostra que uma realização não é, necessariamente, boa ou má. Nenhuma realização pode ser submetida a julgamento divorciada de suas causas e das circunstâncias que a cercaram. Do mesmo modo, a questão relativa aos clones, se são certos ou errados, não pode ser analisada sem que explicitemos as razões para esse tipo de experiência.

Esclarecendo um pouco mais, vamos considerar, por exemplo, um casal que não pode mais ter o privilégio da maternidade, com um filho que subitamente se vê acometido de meningite, prestes a morrer, sem que a medicina possa fazer qualquer coisa a respeito para preservar essa vida. Nada, é óbvio, irá superar a dor dessa perda, mas a clonagem poderia amenizar esse sofrimento. Colhida uma célula dessa criança, seria devolvida a essa mãe, primeiro a oportunidade de abrigar, dentro de si, uma nova vida. Após nove meses, ela seria novamente mãe de uma criança que, em todos os aspectos, seria filha do casal, e muito parecida com aquela que se fora.

Talvez alguém mais radical no nosso meio pudesse argumentar dizendo que, se Deus permitiu que a primeira criança se fosse era exatamente isso que Ele tinha em mente. Nesse caso, poderíamos usar o mesmo tipo de argumento e dizer que se Ele permitiu que a segunda criança entrasse em cena, era exatamente isso que Ele havia planejado. Não creio, portanto, que esta seja a rota que devamos seguir, porque assim acabamos substituindo a realidade mais objetiva pelo que imaginamos ser real.

Parece-nos que não há nada de errado com a experiência que descrevemos acima, exceto pelo fato de que ela ainda não se constitui em uma possibilidade real. Consideremos, agora, que não haja nada de errado com o casal e com seu filho, e que eles resolvam fazer uma clonagem da criança para ter, nesse clone, um banco de órgãos, caso seu filho venha a precisar de um transplante. Nenhum outro banco de órgãos seria mais conveniente porque nesse haveria uma total compatibilização entre doador e receptor; mas, a experiência em si, nós a reputaríamos como monstruosa, e moralmente errada.

Fazer experiências com o urânio é certo ou errado? Bem, depende da nossa motivação. Se planejamos a construção de uma bomba atômica, visando à guerra, muitos considerarão errado. Mas se o objetivo da experiência é o controle das radiações, a fim de que possam ser utilizadas no tratamento de certas doenças que tanto afligem a humanidade, é óbvio que esta será considerada uma boa causa. De igual modo, para que possamos estar em condições de julgar o ato de clonar um ser humano, e decidir se isto é certo ou errado, precisamos saber com que intenção esse tipo de experiência estará sendo levado a efeito. De qualquer forma, as poucas experiências feitas nessa direção já se mostraram úteis, conduzindo-nos a um novo patamar no que diz respeito ao conhecimento relacionado à herança genética, permitindo-nos vislumbrar, em futuro próximo, o fim de doenças e males hereditários.

Há, entretanto, outros pontos que transcendem esse básico, e que também precisam ser considerados. Recentemente, a imprensa deflagrou um debate em torno do fato de que um laboratório estava cogitando sobre a possibilidade de descartar embriões humanos não utilizados em suas experiências. Eles haviam sido produzidos para resolver o problema de casais estéreis mas, prevendo-se o insucesso de algumas das tentativas, foram produzidos maior número do que o necessário, e alguns acabaram sobrando.

A sociedade se divide em dois grupos em relação a essa questão. Há os que consideram o ser humano somente a partir do seu nascimento. Para esses, descartar os embriões não envolve qualquer questão ética, moral ou religio sa. Outros, porém, entendem que o ser humano já é uma realidade a partir de sua concepção. Nesse caso, seria uma atrocidade inominável descartar os embriões como se nunca houvessem existido. Essas pessoas certamente mantêm o ponto de vista de que uma experiência capaz de deixar esse tipo de resíduo não deveria jamais ser conduzida. A única forma de se resolver este problema seria a produção de um embrião de cada vez, o que talvez possa ser pos sível no futuro, tanto no caso da fertilização in vitro, quanto no caso dos clones.

Todos esses detalhes nos mostram que esta não é uma questão de solução fácil. Há muitos pontos obscuros a esse respeito e que ainda precisam primeiro ser detectados para que uma opinião mais abrangente acerca dos clones possa finalmente ser elaborada.


O clone visto por dentro


Sabemos que o clone carrega consigo o mesmo material genético do ser que o originou, isto é, do qual ele foi clonado. Mas, e quanto às suas características psicológicas, suas preferências, suas habilidades? Que podemos dizer acerca da questão espiritual?

Estes são pontos importantes, que certamente nos permitirão uma reflexão mais acurada sobre os clones. Antes, porém, vejamos mais alguns aspectos interessantes acerca da reprodução no mundo animal.

Sabemos que, da forma tradicional, um novo ser é concebido quando um espermatozóide encontra um óvulo e o fertiliza. Nesse momento, fundem-se os elementos presentes em cada uma dessas partes, dando origem ao material genético do ser que está sendo concebido. Assim, parte de suas características tem origem paterna, e parte, materna.

Na espécie humana, por exemplo, gêmeos 1 idên ticos são gerados quando o óvulo fertilizado, em suas subseqüentes divisões fraciona-se, dando origem a dois organismos distintos. Oriundos do mesmo material genético, eles guardam entre si semelhanças muito significativas, mas não totais. Gêmeos idênticos, por exemplo, possuem impressões digitais distintas.

Já com os clones, 2 a situação é inteiramente diferente. O material genético vem de um único doador e o óvulo em que ele é implantado, que teve seu núcleo removido, funciona somente como o meio adequado para que todo o conjunto se desenvolva em direção ao novo ser. Nesse caso, clone e doador são de fato geneticamente idênticos.

Isto, entretanto, não significa que eles sejam réplicas exatas um do outro. Isto pode não acontecer nem mesmo no que diz respeito à aparência física. Fatores externos sempre podem interferir no desenvolvimento, introduzindo diferenças que denominamos de circunstanciais. Do ponto de vista psicológico e comportamental, a situação não é muito diferente. Todos somos fruto das experiências vividas e não há qualquer razão para que os clones venham a se constituir uma exceção.

Assim, caem por terra os sonhos que alguns ainda acalentam de poder clonar um cientista famoso e obter uma pessoa capaz de dar, no mesmo nível, continuidade ao trabalho que vinha sendo conduzido. Ou então, de formar um time de futebol a partir de clones de um jogador famoso. Nada disso seria possível, pelo menos não por essa via.

Algumas perguntas talvez fiquem sem resposta até que os clones se tornem uma realidade mais palpável, se é que algum dia chegaremos a esse ponto. Uma das características mais extraordinárias dos seres vivos é o fato de que cada um deles é único em sua espécie, individualizado por suas características. Os clones, entretanto, caminham em sentido contrário. Teriam, um clone e seu doador, as mesmas impressões digitais? Se essa pergunta tiver resposta afirmativa, estaremos diante do princípio de um caos que logo se estabeleceria por toda a socie dade, mantidas as regras que hoje a governam.

Por outro lado, algumas perguntas encontrariam respostas nessas experiências. A transmissão de características se constitui em um assunto polêmico quando extrapolamos essa idéia além dos limites físicos. Creio que através dos clones se poderia verificar que talentos, habilidades e inteligência não são transmitidos através do material genético.

É significativo o fato de que, durante anos, as Escrituras Sagradas foram questionadas em função de dois de seus episódios, reputados como falsos. Um deles é o da formação da mulher a partir do primeiro homem criado por Deus; o outro, o do nascimento virginal de Jesus. O argumento era sempre o de que só através do nascimento se pode obter um ser humano, e que isto necessariamente envolve o relacionamento sexual entre um homem e uma mulher. Não estamos, de modo algum, afirmando que uma clonagem teve lugar em ambos os casos, pelo menos não nos moldes da experiência com que agora nos defrontamos. Os clones, entretanto, vieram nos mostrar que o argumento era falso. O efeito prático disto é que este argumento não mais se constitui em uma amea ça à cre dibilidade da Bíblia.

Não há, também, qualquer indicação, bíblica ou científica, de que espermatozóide e óvulo carreguem, dentro de si, partes incompletas de espírito, que também se fundem no momento da concepção para formar o espírito do novo ser. Não! A presença do espírito em cada ser humano, no momento de sua concepção, não é responsabilidade humana. Essa é a parte de só a Deus compete e com a qual não temos de nos preocupar. Assim, ainda não será desta vez que poderemos trazer à vida zumbis, na forma de corpos que andam, desprovidos de espírito, se é que alguém tem interesse nisso.


Conclusão


Este tema é demasiadamente importante para ser tratado à sombra de idéias preconcebidas ou de falsos conceitos. Mente aberta e uma compreensão acurada dos fatos são elementos indispensáveis para que se proceda a uma análise dos clones com a devida isenção.

A inseminação artificial e a fertilização in vitro nos mostraram que as relações sexuais não são absolutamente necessárias para a concepção de um novo ser. Os clones vieram nos mostrar que espermatozóide e óvulo, meros coadjuvantes no processo de reprodução humana, porque o astro é o bebê que vai nascer, são também dispensáveis, pelo menos com as funções que antes desempenhavam. Na verdade, o material genético utilizado foi, em algum tempo e lugar do passado, gerado a partir de um encontro entre um espermatozóide e um óvulo. Além disso, o processo de clonagem faz uso de um óvulo, introduzindo aí a figura de uma “mãe hospedeira”.

Assim, vemos que o processo de clonagem difere da concepção natural em vários aspectos, envolvendo pelo menos uma pessoa que, necessariamente, não possui qualquer vínculo genético com o clone. Por outro lado, tecnicamente, um clone e seu doador são “irmãos idênticos”, de uma forma que, por meios naturais, seria absolutamente impossível.

Quais as perspectivas, então? Vamos institu cionalizar essas novas técnicas? É óbvio que não. Isto seria destituído de qualquer sentido prático. Além disso, Deus planejou o relacionamento entre um homem e uma mulher, e a conseqüente formação de uma família, para que os filhos pudessem encontrar um ambiente propício não só para o seu desenvolvimento físico, mas também para promover sua saúde psicológica, emocional e espiritual, preparando-os para a vida adulta.

Caso clones humanos venham a se tornar uma realidade, certamente vamos ter problemas nessas áreas. Concebidos por essa via indireta, como se sentiriam os clones sendo praticamente filhos de ninguém? Quais seriam as repercussões do ponto de vista psicológico? Que outras diferenças apresentariam em relação aos demais seres humanos? Seriam eles discriminados pelo restante da população? Estas são perguntas ainda sem resposta, mas que devem ser objeto de reflexão na discussão sobre a validade de se prosseguir com tais experiências, viabili zando-as também para a nossa espécie.


O que dizem as Escrituras?


Podemos e devemos analisar os grandes temas do momento de todos os ângulos possíveis: éticos morais, filosóficos etc. Como cristãos, porém, entendemos que toda e qualquer conclusão deve estar de acordo com o que dizem as Escrituras, que consideramos o manual que o Criador nos legou para que soubéssemos como nos comportar e como operar o mundo em que vivemos.


a) Será que fomos longe demais?

Há quem pense que sim, mas o que as Escrituras dizem é que Deus deu domínio total sobre Sua criação. Encontramos essa declaração no primeiro capítulo de Gênesis, versículo 26: “... Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Em ponto algum das Escrituras encontramos fronteiras ou limites impondo qualquer sorte de restrição a esse domínio, exceto no que podemos derivar das palavras de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de todo a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27).

É ridículo afirmarmos que os cientistas estão “brincando de Deus”. Tudo que eles de fato desejam é adquirir um conhecimento mais pleno da natureza que possa ser revertido em benefício para nós mesmos. A torre de Babel não foi impedida por causa de sua meta que era chegar aos céus. Isso, nós sabemos muito bem, era um objetivo que não poderia ser alcançado. Hoje já construímos edifícios muito mais altos e já fomos muito mais longe do que jamais poderiam ter ido as pessoas daquele tempo, e Deus não obstruiu nosso caminho. O ponto nevrálgico daquela história foi o fato de que os homens daquele tempo desejavam chegar a Deus por uma via alternativa, e isso Ele não poderia permitir, nem mesmo em intenção, “Porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos...” (1 Tm 2.5-6).

Na verdade, aquilo que denominamos de técnicas de clonagem são técnicas de manipulação do material genético dos seres vivos, e a clonagem, propriamente dita, apenas uma de suas aplicações. Já estamos colhendo alguns dividendos do uso dessas técnicas, no melhoramento de plantas e animais, na possibilidade de socorro a espécies ameaçadas de extinção e, talvez o maior triunfo de todos, o fim já anunciado de algumas desordens genéticas que há muito afligem a humanidade. Tudo isso é muito bom e devemos agradecer a Deus por todas essas conquistas, porque “tudo de bom que recebemos... tudo isso vem de Deus...” (Tg 1.17, versão Linguagem de Hoje). O problema é que o conhecimento que temos da natureza é uma via de mão dupla, e pode tanto ser usado para o bem, quanto para o mal. Precisamos, então, estar atentos para essa incongruência que nos acompanha como humanidade, desde que nos afastamos do propósito para o qual o Senhor nos criou.


b) E a questão do espírito?

Outro ponto muito discutido é se clones humanos terão ou não espírito e/ou alma. Para examinar essa questão do ponto de vista bíblico, temos de recorrer aos capítulos iniciais das Escrituras, onde encontramos os detalhes referentes à criação do gênero humano: “Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhes nas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente” (Gn 2.7). O passo seguinte foi a ordem para que nos reproduzíssemos, obviamente através de relações sexuais entre homens e mulheres. Hoje, porém, sabemos que, de um ponto de vista puramente reprodutivo, o papel das relações sexuais é o de proporcionar condições para que óvulo e espermatozóide se encontrem e assim ocorra a concepção de um novo ser.

Esse conhecimento nos possibilitou, há algumas décadas, a experiência de fertilização in vitro, uma novidade que trouxe novo alento a mulheres que experimentavam dificuldades para en gra vidar. Nesses casos, o encontro entre espermatozóide e óvulo se realiza em um tubo de ensaio e o embrião que ali se forma é depois implantado no útero da mulher para que ocorra o restante do processo de gestação. Quando isso começou a ser feito, alguns segmentos da sociedade pretenderam discutir a questão espiritual, mas hoje vemos que as pessoas geradas através desse tipo de procedimento são tão humanas quanto as outras geradas por um processo natural.

Quando observamos as técnicas de clonagem, vemos que elas são apenas um avanço nessa direção. O material genético, extraído do ser que será clo nado, teve sua origem no encontro entre um espermatozóide e um óvulo, de modo que não estamos, de um ponto de vista básico, fazendo nada realmente novo. Assim, a expectativa em relação à clonagem de seres humanos, se isto algum dia se tornar uma realidade, é a de que teremos seres tão humanos quanto todos nós que hoje expressamos nossas preocupações a esse respeito. Em outras palavras, o que estamos dizendo é que, não importa que atalhos tomemos no sentido de viabilizar a reprodução entre seres vivos (homens, animais ou plantas) o resultado será sempre aquele que o Criador programou desde o início, quando as espécies foram por Ele criadas.


c) Um ponto especialmente crítico

Como dissemos antes, há algumas questões básicas que deveriam ser consideradas antes que nos aventuremos a uma clonagem de seres humanos. Wilmut, que clonou a ovelha Dolly, fez 277 tentativas até obter sucesso, gerando uma ovelha geneticamente idêntica à portadora do DNA utilizado em seus experimentos. Para nós, cristãos, que consideramos a vida estabelecida desde a sua concepção, este fato é um problema, a menos que se contorne o tipo de dificuldade que Wilmut encontrou e se possa fazer exatamente um único experimento bem-sucedido para cada ser humano clonado.

Problema semelhante, entretanto, encontramos também na fertilização in vitro, onde vários óvulos são submetidos a uma solução com espermato zóides, e assim temos a formação simultânea de vários embriões, sendo apenas um utilizado para a continuidade do processo. Este é um ponto crítico que o segmento evangélico já deveria ter discutido. Curio samente, não temos observado qualquer debate a esse respeito ou orientação pastoral para que nossas mulheres não se submetam a procedimentos que incluem a eliminação de embriões formados e não utilizados.

A julgar pelo modo como a ciência e a sociedade de hoje têm caminhado, sem levar em consideração o que dizem as Escrituras, é quase certo que breve teremos de substituir nossas preocupações a esse respeito pela administração dos problemas decorrentes da aplicação efetiva dessas técnicas em seres humanos. Um fórum por excelência para a discussão de temas relacionados com o Criador e Sua criação é o da ABPC – Associação Brasileira de Pesquisa da Criação que representa o ministério criacionista no Brasil. Solicite informações, escrevendo para: ABPC – Caixa Postal 3115 – Agência Zerayd de Menezes – Belo Horizonte, MG. – CEP 30140-970 e receba material de divulgação do mnistério e um boletim do Institute for Creation Research, para conhecer o trabalho que está sendo realizado nos Estados Unidos. Alternativamente, você pode nos visitar na Internet, em: http://www.impacto.org/abpc ou entrar em contacto conosco enviando-nos um e-mail para nosso endereço eletrônico: abpc@pobox.com.


Notas:

1. Oriundos do mesmo material genético, gêmeos idênticos guardam semelhanças muito significativas entre si, mas não totais.

2. Clones oriundos da mesma fonte serão idênticos do ponto de vista genético.

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