Defesa da Fé

Edição 23

Secularismo teológico


Para escrever este artigo sobre as novas tendências da Teologia, temos de começar por examinar o pensamento do homem dos nossos dias. Estamos no limiar do novo milênio, e pode-se afirmar que os últimos dois ou três séculos foram férteis na evolução do pensamento humano. O assunto foi abordado pelo teólogo brasileiro Ricardo Godim, no III Encontro de Pro fissionais Cristãos em que este teólogo destacou cinco aspectos do pensamento da modernidade:


Por Camilo S. Coelho

Secularização, que foi a libertação da tutela religiosa, nos seus vários aspectos, nomeadamente: A ciência devocional é substituída pela ciência utilitarista ou tecnociência, geradora de conforto e felicidade. A tutela do papa e do rei dá lugar aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A decadência do catolicismo medieval e o surgimento do protestantismo. A religião mística, desprovida da razão, dá lugar ao livre exame da Bíblia, que se torna um livro acessível a todos. A tutela religiosa dá lugar a uma sociedade sem influência da religião, ou seja, a descristianização da sociedade.

Pluralização, que se traduziu em um maior número de opções disponíveis na sociedade, em todos os aspectos. É no supermercado, na livraria, no vestuário, na arquitetura etc. Pode-se definir plu ralização com a frase “viva como achar melhor”, o que tem muitas semelhanças com a antiga Grécia e Roma, só com a diferença de que este “ecumenismo” não tem centro e deu origem a várias cosmovisões. Surgiu um sem-número de “fés” que competem entre si, com pouco ou quase nada em comum.

Privatização, que é o direito de cada indivíduo escolher e proteger a sua liberdade pessoal, pois num mundo de cosmovisões tão diferentes, há que se proteger de outras idéias no seu mundo privado. Isto tem vantagens, pois implica a independência pessoal, mas tem como conseqüência, que nos tornamos órfãos da comunidade, pois somos o único senhor das nossas decisões. A privacidade, por um lado, ajuda a nos protegermos do totalitarismo e das tiranias culturais, mas dá-nos uma responsabilidade acrescida, pois passamos a ser os únicos árbitros de nós mesmos, gerando-se uma sociedade de solitários.

Globalização, que é de certa maneira uma reação à privatização, pois, como ser solitário, o homem busca a sua identificação com a chamada “aldeia global”. Desde a invenção da imprensa, do rádio, da televisão, dos computadores, e da Internet, as distâncias estão cada vez mais curtas e sentimo-nos cada vez mais e mais integrados nesta aldeia global, tornando- nos cidadãos do mundo. Como conseqüência desta globalização, temos uma cultura mais reduzida, que conduz à superficialidade, devido ao excesso de informação, sem termos tempo para a examinar, absorver ou rejeitar, e o tempo é mais rápido. A cosmovisão da mo dernidade é global, o que, por um lado, é ótimo, pois por meio da Internet temos acesso a todo o mundo, incluindo as maiores bibliotecas, mas em vez de produzir mais cultura, produz uma cultura rasa e sem a menor crítica.

Fragmentação, que é a situação do homem sem raízes, sem centro, sem raciocí nio, sem Deus, só ele próprio com a sua emoção de momento. É o homem reduzido ao eu mínimo. Como conseqüência, temos o encerramento das portas migratórias, a guerra étnica, o neonazismo e o fragmentar das culturas e da religião.

Segundo Ricardo Gondim, é este o contexto cultural em que vivemos nos últimos anos e que, embora em decadência, ainda se mantém nos nossos dias.


Influência da modernidade na teologia


Podemos destacar vários aspectos da influência da modernidade na teologia:

Penso que, em primeiro lugar, devo mencionar o descrédito da religião. Desde que a secularização libertou a ciência da tutela religiosa, os investigadores dos vários ramos das ciências puderam trabalhar livremente, sem se preocupar se as suas conclusões estavam ou não de acordo com os ensinos da Igreja Católica. Iniciou-se, então, o desenvolvimento dos vários ramos do conhecimento humano, incluindo a própria Teologia. Por exemplo: A medicina desenvolveu-se mais nos últimos três séculos do que nos três milênios anteriores. As grandes viagens de circunavegação vêm revogar a concepção cosmogônica da Antiguidade, que considerava a terra como um disco plano à superfície das águas, apoiado em colunas. O aumento da alfabetização em geral e o aparecimento da imprensa tornaram a Bíblia um livro acessível a todos, pois até a Igreja Católica já desistiu de a proibir.

Em segundo lugar, e de certa maneira como conseqüência do descrédito da religião, há o surgimento de uma nova cosmovisão.

Deus deixou de ser o centro da cosmovisão para ser substituído pela mente humana. A antiga cosmovisão, com a estratificação de sociedade, defendida pelo catolicismo medieval, em que se imaginava uma grande catedral em que Deus estava na cúpula, vindo a seguir o papa, os reis, o clero, a nobreza, o povo e os escravos, foi substituída por uma nova cosmovisão em que o centro já não é Deus, mas a mente humana deificada.

Certamente que rejeitamos a antiga cosmovisão, pois embora possamos ser crentes e membros das igrejas, somos também produtos da secularização e estamos prontos a defender o nosso conceito de liberdade.

Podemos também questionar se a antiga cosmovisão foi produto da revelação bíblica ou simples fruto da tradição religiosa. Mas também podemos perguntar se estará a mente humana preparada para ser o centro da nossa própria cosmovisão.

Conse qüên cias da mo derni dade na tendência da Teolo gia atual. Os fatos que aca ba mos de men cionar levaram ao descrédito não só o catolicismo, mas também as religiões em geral. Os dirigentes religiosos perderam a sua credibilidade e o homem do nosso tempo tem certa dificuldade em considerar a Teologia como uma ciência. Lembro, por exemplo, o caso da Universidade de Coimbra com capela privativa para o seu reitor, que inicialmente era um sacerdote. Passamos de uma época em que a Teologia era considerada a mãe de todas as ciências para o extremo oposto, em que muitos têm dúvidas em aceitá-la como ciên cia. Parece que atualmente a Teologia se isolou das outras ciências, fato que vem afetar ainda mais a sua credibi lidade entre os estudiosos.

Escusado será mencionar as dificuldades de expansão das igrejas dos nossos dias, em especial nas sociedades com maior desenvolvimento, onde é mais marcante o pensamento da modernidade, nomeadamente na Europa. Em face do contexto cultural em que vivemos, muitos dos mais respeitáveis teólogos parecem responder afirmativamente à seguinte questão: Não deveria a mensagem do Evangelho adaptar-se à atualidade? Penso que não é possível responder com um sim ou com um não. Tudo depende do que se entende por “adaptação aos nossos dias”. Segundo 1 Co 9.19-23, Paulo procurava uma certa identificação com aqueles a quem comunicava o Evangelho, mas acredito que isso, embora implicasse métodos diferentes nos meios de comunicação, não significava que o Evangelho fosse diferente.

Nos jornais que se publicam hoje, encontro páginas inteiras dedicadas aos signos e anún- cios sobre astrologia, fatos impensáveis no auge do Ilumi nismo. Parece que o pensamento da modernidade já está de certa forma em decadência. Será acertado rejeitar na época presente uma abordagem teológica sob uma visão teocên trica, que sobreviveu aos ataques de várias culturas nos últimos 4000 anos, para a adaptar aos nossos tempos, sendo de prever que, tudo que se faça estará já ultrapassado nas próximas décadas, obrigando a próxima geração a nova alteração? Não se tornaria assim o Evangelho um produto do nosso próprio con texto cultural?

Uma das maiores dificuldades do pensamento da modernidade em relação à religião encontra-se na cosmo visão do homem dos nossos dias, que já não se aproxima de Deus pelo que Ele é, pelo fato de Deus existir e ser o nosso Criador. No pensamento secular do nosso tempo, o homem é o centro da sua própria cosmovisão. Assim, Deus é olhado sob o aspecto utilitarista. É o homem, centro da sua própria cosmovisão que vai ponderar se vale a pena aceitar a Deus, e antes de perguntar se Deus existe ou se é verdadeiro, a principal pergunta é: Para que serve Deus? Em que é que Ele me poderá ser útil? Assim, é compreensível a tentação de substituir a tradicional apresentação do Evangelho sob uma visão teocêntrica por uma apresentação antropocêntrica, mais em sintonia com o pensamento da modernidade em que o ser humano é o centro da sua própria cosmovisão.

Mas a apresentação do Evangelho sob uma visão antropocêntrica, que parece à primeira vista uma alteração insignificante, tem um sem-número de conseqüências secundárias: Embora as pregações sejam mais compreensíveis para o homem secularizado, nem por isso se tornam mais aceitáveis e credíveis, pois o homem perdeu a confiança nas igrejas, onde, por vezes, é apresentado um “deus envergonhado de ser Deus”, que procura adaptar-se ao pensamento da modernidade e mendigar um pouco de atenção do homem, centro da sua própria cosmovisão. As pregações tendem a esquecer a apresentação do Deus supremo, para mostrar cada vez mais a imagem de um deus que está ao serviço do ser humano, que vem resolver os seus problemas sociais e que o convida a colaborar. Assim, a Igreja abandona a sua missão profética para se tornar simples instituição de solidariedade social. A salvação, por meio do sangue de Jesus derramado no Calvário em favor da humanidade, idéia base do Evangelho, é substituída por uma exortação a uma vida mais útil em favor do nosso semelhante que apela mais para o amor-próprio do que para a regeneração do ser humano, que passa a ser obra do próprio homem. Já não se dá a devida ênfase à cruz de Cristo, nem se fala na cruz que cada cristão tem de carregar, pois isso levaria à imediata rejeição do Evangelho pelo pensamento da modernidade, mais preocupado com a utilidade da mensagem do que com a sua veracidade. Sobre o assunto, o teólogo Paul Tillich, (“Perspectivas da teologia protestante nos séculos dezenove e vinte” tradução da ASTE 1986, p. 64s), afirma que se procura cada vez mais uma religião razoável, pela eliminação nas pregações de temas como a morte, a culpa, e o inferno, e ataca-se com mais furor a idéia do pecado original, por colidir com a crença no desenvolvimento progressivo da situação do homem na terra. Embora ele se refira à época do Iluminismo, julgo que a observação ainda se mantém válida, pois ainda há quem continue a busca da tal religião razoável.

Mas, se os antigos métodos de comunicar o Evangelho não resolvem, quais as alterações aceitáveis e quais as que devemos rejeitar? Penso que serão aceitáveis todas as alterações que tendam a uma maior integração do culto evangélico à nossa realidade, como, por exemplo, as alterações ao nível da liturgia e dos hinos, que são tradições culturais e, como tais, deverão ser alteradas sempre que necessário, pois não são propriamente o Evangelho, mas o meio de o transmitir. Noto nas igrejas atuais uma grande preocupação na preservação da sua identidade litúrgica, que não é propriamente o Evangelho e que, por vezes, tem conseqüências desastrosas, pois acaba por se formar uma “minicultura” própria de cada igreja, em que até as palavras têm significados que só são válidos nessa realidade, em que as pregações só satisfazem e só têm significado para o restrito grupo dos seus crentes. Afinal, Jesus nunca foi o que poderíamos chamar de “pregador de sinagoga” ou “pregador de igreja”. Embora também tivesse ensinado no Templo e nas sinagogas, os principais ensinos de Jesus foram divulgados perante as grandes multidões, nas praias e nos montes. É, portanto, urgente reco locar a mensagem do Evangelho no ambiente em que Jesus a divulgou. Estabelecendo um paralelo de idéias com nossa época, poderíamos dizer que o Evangelho deverá ser anunciado no ambiente secular dos nossos dias. Em vez de “subirmos ao púlpito das igrejas” para dar continuidade a uma tradição cultual e cultural que já pouco ou quase nada diz ao homem atual, há que aprender a “descer ao púlpito de Jesus”. No entanto, não tenho dúvidas em rejeitar as alterações que impliquem a anulação ou o “diluir” da mensagem do Evangelho tal como Jesus o anunciou, ou que de certa forma sejam a influência da modernidade na própria mensagem do Evangelho, pois isso seria o sal a perder o seu sabor, ou talvez ainda pior. Seria uma inversão de valores, seria o próprio “sal” a ser salgado pelo “mundo”.

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