Defesa da Fé

Edição 24

Um guia bíblico sobre ortodoxia e heresia I


Parte 1 – Robert M. Bowman, Jr. (tradução Josué Giamarco)

Para a maioria dos cristãos, hoje em dia, o fato de aprender a discernir a doutrina ortodoxa da doutrina herética aparentemente não se faz necessário. Ou tratam a doutrina como minimamente importante e, portanto, reconhecem as acusações de heresias como bruscas e sem amor ou a tratam como sumamente importante e, portanto, consideram qualquer pessoa que não esteja de acordo com seus pensamentos como um herege em sentido absoluto. Em suma, a maioria dos crentes parece crer que quase não há hereges ou que quase todos os que estão fora de seu pequeno grupo são hereges.

A capacidade de discernimento doutrinário, então, se encontra em sério perigo. Embora ministérios de discernimento e de combate às seitas heréticas estejam crescendo rapidamente por toda parte, muitos deles operam tendo como base uma compreensão excessivamente estreita da ortodoxia. Portanto, tais grupos se acusam de uma forma merecida de serem “caçadores de heresias” e desacreditam a prática do discernimento doutrinário. No outro extremo – e geralmente racio cinando de forma contrária aos “caçadores de heresias” – se encontram aqueles dentro da comunidade cristã que rechaçam as advertências de heresia entre os que professam ser cristãos.

Neste artigo tratarei de desenvolver um enfoque equilibrado do assunto da heresia doutrinária. Apresentarei um caso bíblico para a prática de discernir o ortodoxo das doutrinas heréticas e oferecerei guias para o discernimento doutrinário.

Para fazer este artigo ser tão útil quanto possível, evitarei fazer referências a grupos heréticos específicos e sub-ortodoxos, suas doutrinas, e suas práticas. Isso é para que possa ser lido sem conflitos pelas pessoas em grupos religiosos que evitam a leitura que possa conter críticas a suas crenças. Ademais, evitarei citar ou mencionar fontes além da Bíblia, para que tudo que lhes diga possa ser sustentado em seu mérito tanto quanto possível. Uma bibliografia de leituras recomendadas será dada no final.

Minhas próprias convicções teológicas são as do evangelismo protestante. A maior parte do que tenho que dizer neste artigo, sem dúvida, é compatível com outras tradições cristãs também.


A necessidade da doutrina


As palavras “doutrina” e “doutrinária” têm chegado a ser termos pejorativos para muitos – como “doutrinar” e “dogma”. (Para as definições destas e de outras palavras, consulte o glossário que acompanha este artigo.) Muitos cristãos evangélicos, que não afirmam certas doutrinas, prestam pouca atenção à doutrina além de um certo mínimo.

Das muitas objeções à doutrina cristã, podem ser escolhidas cinco como especialmente influentes. A doutrina amiúde se diz ser (1) impertinente, (2) impraticável, (3) divisora, (4) não espiritual, e (5) não conhecida. A importância da doutrina pode-se mostrar melhor ao apresentar-se respostas positivas a estas acusações.


A pertinência da doutrina


No pensamento popular, a doutrina tem a ver com assuntos insignificantes que são impertinentes à maioria das pessoas. Embora a doutrina possa ser frívola, a doutrina cristã é extremamente pertinente a todas as pessoas. A doutrina cristã (i.e. os ensinamentos das Sagradas Escrituras) responde às perguntas fundamentais da vida – perguntas tais como quem é Deus, quem somos nós, e por que estamos aqui (Sl 8.3-8; Hb 11.6). Como se responde a estas perguntas, decisivamente forma a maneira na qual vivemos. Ignorá-las é passar a vida alegremente ignorante do que é importante na realidade.

A doutrina é particularmente importante porque uma proclamação sã do evangelho da Salvação depende de uma compreensão exata do que é o Evangelho, do que é a salvação, e como se recebe a salvação (Gl 1.6-9; 1 Tm 4.16). Nada menos que nosso futuro eterno depende disso. Não tenho a intenção de dar a entender que todos devemos ser teólogos e especialistas em todos os pontos mais refinados da doutrina para sermos salvos. Mas a Igreja em sua totalidade deve ter grande cuidado de proclamar fielmente o verdadeiro Evangelho, e que todos os cristãos tenham interesse no assunto. Tenho mais o que dizer sobre este ponto mais adiante.

É verdade que alguns assuntos doutrinários são menos importante que outros. Uma das funções mais decisivas da Teologia cristã, e uma das mais descuidadas, é a de separar o que é realmente importante – o essencial – do que é menos importante e mesmo o que é impertinente (cf. Rm 14).

Portanto, tratada devidamente, a doutrina é muito pertinente para a vida humana, e a busca da doutrina fundamental deveria ser, portanto, o interesse de todo o mundo, ao menos até certo ponto.


A praticabilidade da doutrina


É comum em nossos dias afirmar que a prática é mais importante do que a teoria – que a ortopraxis (fazer o bem) é mais importante do que a ortodoxia (crer no bem). Mas esta afirmação é teoria em si mesma – algo que as pessoas pensam e logo dizem, e logo tratam de colocar em prática. O fato é que o que pensamos determina o que fazemos. Portanto, a doutrina – como algo que pensamos – afeta o que fazemos, e tem significado prático.

Deveria reconhecer-se, dessa forma, que os efeitos práticos da doutrina têm seus limites. A doutrina nem sempre será o fator isolado que determinará nossas ações, já que as pessoas geralmente atuam movidas por desejos ou interesses contrários às doutrinas que mantêm. Por exemplo, alguém pode crer como doutrina que mentir é mau, mas pensamentos orgulhosos podem tomar posição superior sobre convicções doutrinárias e conduzir uma pessoa a mentir. A praticabilidade da doutrina se encontra não em determinar nossa prática, mas sim em comunicá-la, – em dar-nos o conhecimento com que, pela graça de Deus, podemos fazer o bem.

O ponto é que deveríamos considerar ambos, o conhecimento e a prática, como importantes. Ultimamente, o que é importante é que uma pessoa vive em obediente comunhão com Deus e que experimente Seu amor; nesse sentido, possivelmente a prática seja mais importante do que a doutrina. Mas Deus mesmo tem revelado que Ele usa a doutrina para adiantar essa meta prática em nossa vida (1 Tm 1.3-7; 2 Tm 3.15-17).

A importância prática da doutrina cristã, então, é grande na verdade. A doutrina nos permite desenvolver uma idéia realista do mundo e de nós mesmos, sem a qual estamos condenados a viver ineficazmente (Mt 22.23-33; Rm 12.3; 2 Tm 4.3-4). A doutrina pode proteger-nos de crer em falsidades que transtornam a fé das pessoas, o que conduz a uma conduta destruidora (1 Tm 4.1-6; 2 Tm 2.18; Tt 1.11). A doutrina também nos prepara para ajudar a outros (Ef 4.11-12).


A unidade da doutrina


Geralmente, a crítica mais comum que se expressa acerca da doutrina é que divide as pessoas. E realmente, a doutrina – na história do Cristianismo como em outras religiões – muitas vezes tem dividido a humanidade de maneira até repreensível. Mas, num sentido crucial, a doutrina tem a intenção de unir as pessoas.

Mesmo que seja certo que a doutrina inevitavelmente divide os indivíduos, isto não é algo que se possa evitar. As pessoas crêem em diferentes coisas, e fazem diferentes coisas com base em suas crenças diferentes. O que é impensável, sem dúvida, é que a doutrina divida as pessoas que deveriam estar unidas, ou que as divisões deveriam expressar-se de maneiras injustas. Quer dizer, a doutrina não deveria dividir os cristãos fiéis um ao outro, impedindo-os de ter comunhão cristã juntos. A doutrina tampouco deveria conduzir as pessoas a odiar ou a maltratar os que mantêm doutrinas diferentes das suas.

A Bíblia ordena aos cristãos que se afastem dos falsos mestres e dos heréticos com base nos fatores doutrinários (Rm 16.17; 2 Jo 9-11). Ao fazer assim, incentiva a resistir juntos à heresia (Ef 4.12-13). Portanto, o resistir à heresia pode fomentar uma unidade cristã genuína.

Conforme os cristãos amadurecem juntos em sua compreensão da doutrina bíblica, chegam a ser mais unidos à medida que seu pensamento se forma mais e mais da mesma maneira (1 Co 1.10). Ademais, uma compreensão equilibrada da doutrina pode ajudar os cristãos divididos por diferenças doutrinárias a estar reconciliando-se, conforme aprendem quais pontos são menores ou defeituosos e quais não o são (1 Tm 6.3-5; Tt 1.9-14). Supõe-se que uma compreensão pouco profunda da doutrina facilmente fomenta desunião entre os cristãos, enquanto que uma maior compreensão da doutrina tenda a criar maior unidade cristã.


A espiritualidade da doutrina


Embora algumas pessoas considerem a busca da exatidão doutrinária como um intelectualismo não espiritual, a sã doutrina atualmente é muito importante para a firmeza espiritual. A doutrina cristã nos instrui acerca de Deus, Seus propósitos e Sua vontade para nossa vida, por que estamos afastados da graça de Deus, como nos transformamos através da graça de Deus – em suma, tudo o que temos de saber para buscar a espiritualidade verdadeira (Rm 1.17-18; 1 Tm 1.5, 10; 2 Tm 3.16-17). A doutrina provê controles externos e objetivos para nossas experiências subjetivas interiores para poder discernir a espiritualidade genuína da espiritualidade fraudulenta, artificial, ou ainda a espiritualidade endemoniada (Cl 2.2,23; 1 Jo 4.1-3).

Ao buscar uma compreensão exata da doutrina cristã, estamos cumprindo um dos aspectos do sumo mandamento de Deus – que amemos a Deus com toda a nossa mente (Mt 22.37). Este mandamento seguramente supõe que deveríamos ter grande cuidado e fazer todo o esforço para conformar nossas crenças e convicções à verdade (cf. Rm 12.2) – e isto quer dizer a doutrina.

Algo também deveria ser dito aqui acerca da relação entre o discernimento doutrinário e o discernimento espiritual. Em 1 Coríntios, Paulo fala mais de uma vez sobre o discernimento espiritual. A pessoa espiritual discerne todas as coisas, inclusive as coisas do Espírito de Deus, o que somente se pode discernir espiritualmente (1 Co 2.14-15). Os membros da congregação haveriam de exercer discernimento com respeito às profecias que se entregavam à Igreja (1 Co 14.29). E alguns cristãos estão dotados especialmente para discernir os espíritos maus do Espírito Santo (1 Co 12.10). Com base nesta e em outras passagens, alguns cristãos têm pensado que o discernimento nunca tem nada a ver com o exercício da inteligência. Em sua opinião, se discerne entre o bem e o mal na doutrina também como em assuntos práticos simplesmente escutando a voz interna do Espírito Santo.

De nenhuma maneira desejo depreciar a obra do Espírito Santo em dar aos cristãos o discernimento. Certamente, todos os cristãos devem depender do fato de que o Espírito Santo lhes ilumine a mente para que possam ver claramente a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado. E muitos cristãos que estão mal equipados para estudar a doutrina a fundo são notavelmente capazes de discernir.

Seria equívoco, opor o discerni mento espiritual ao discernimento doutrinário. Em primeiro lugar, a idéia de que o discernimento é puramente espiritual é em si mesma uma doutrina. Além disso, essa separação definida da doutrina e da espiritualidade assume uma dicotomia entre a mente e o espírito humano. Posto que esta suposição é também doutrina, todo o argumento é contraproducente. Há também razões bíblicas para rechaçar uma dicotomia da mente e do espírito (algo que não vou elaborar aqui).

Outra coisa, a Bíblia também anima os cristãos a que usem seu conhecimento da doutrina cristã para discernir o certo e o errado, e o bem do mal. O exemplo clássico disto está em 1 Jo 4.1-3, onde João nos manda que não creiamos em todos que afirmem estar falando pelo Espírito Santo, sendo melhor aplicarmos uma prova doutrinária (a crença na plena humanidade de Jesus Cristo) aos que fazem essas afirmações. Semelhantemente, em 2 Jo 9, nos é dito que vigiemos e que não sejamos enganados por nenhum que “não está na doutrina de Cristo”. Em 1 Coríntios, Paulo não somente fala do discernimento espiritual, mas também apresenta argumentos doutrinários em resposta à crença herética que “não há ressurreição dos mortos” (1 Co 15.12-19).

Em vez de opor o discernimento espiritual e o doutrinário um contra o outro, deveríamos vê-los como dois lados ou aspectos da mesma atividade. A verdadeira espiritualidade inclui submissão da mente aos ensinos da Bíblia, e uma doutrina sã que inclui a crença de que nosso conhecimento da verdade depende da iluminação do Espírito Santo. Portanto, no verdadeiro discernimento e nos demais assuntos, o cristão completo usa de seu conhecimento da doutrina bíblica dada por Deus sendo sensível ao Espírito Santo.


Glossário de termos chaves


Aberração (doutrinária: Doutrina descentralizada ou erro de uma maneira muito forte, a tal ponto que a doutrina ou prática deveria rechaçar-se e os que a aceitam devem considerar-se estar em pecado, mesmo que possam muito bem ser cristãos. Também chamada de aberrante.

Apostasia: Ato de apostatar, ou desviar-se de uma posição ortodoxa previamente mantida (como em certas denominações que em outros tempos mantinham a ortodoxia mas que a têm rechaçado). (Adj.: apóstata).

Bíblico: De acordo ou fiel ao ensinamento da Bíblia. O que seja contrário a seus ensinos não é bíblico, embora esta expressão normalmente se use somente quando o ensino bíblico violado é claro e de importância vital.

Cisma: Uma divisão dentre um grupo religioso, especialmente a que divida os cristãos uns dos outros. (Adj.: cismático).

Seita: Um grupo religioso que tem sua origem como uma seita herética e mantém um compromisso fervente com a heresia. (Adj.: sectário – pode usar-se com referência às tendências como também a uma forma de culto completa).

Denominação: Um corpo religioso que tem sua origem como uma seita ou um movimento cristão, e geralmente se classifica como um corpo cristão sem fazer caso de sua ortodoxia doutrinária.

Discernir: É identificar a verdadeira natureza de um espírito, de uma doutrina, de uma prática, ou de um grupo; e distinguir a verdade do erro, o erro extremo do erro leve, o divino do humano e diabólico.

Doutrina: O conteúdo de um ensino destinado a aceitar-se e a crer-se como verdade. Dogma: Uma doutrina que uma igreja ou uma seita espera que seus membros aceitem para poder permanecer em comunhão; ou, uma doutrina que uma igreja ou uma seita espera que seus membros aceitem simplesmente pela autoridade da igreja ou da seita. (Adj.: dogmático).

Excomungar: Uma ação disciplinar da igreja pela qual uma pessoa que recuse arrepender-se de fomentar idéias heréticas ou de cometer grande pecado, já não se aceita como membro da igreja. Essa pessoa não irá mais participar dos ritos da igreja, não será ensinada nem auxiliada de nenhum modo e, em casos extremos, pede-se que deixe de assistir às reuniões da igreja.

Heresia: Uma doutrina que é errônea de tal maneira que os cristãos devem apartar-se como igreja de todos os que a ensinam ou a aceitam; os que aderirem à heresia assumem que estão perdidos embora os cristãos sejam incapazes de dar opiniões definitivas sobre o assunto. O contrário de ortodoxia. (Adj.: herege)

Heterodoxo: Difere do ensino ortodoxo de uma maneira significante; pode ocorrer em grandes variantes.

Ortodoxia: A compilação dos ensinos cristão essenciais. Os que a abraçam deveriam aceitar-se como cristãos. O contrário de heresia. (Adj.: ortodoxo)

Não-ortodoxo: Desvio da ortodoxia até certo ponto, embora não abrace necessariamente a heresia explícita.

Sub-ortodoxo: Menos que ortodoxo, mas ainda não explicitamente contrário à ortodoxia.

Ortopraxis: A prática correta que se requer de qualquer que se considere ser cristão.

Sã (doutrina): De acordo e fiel ao ensino bíblico e a ortodoxia além do mínimo necessário, a tal ponto que os cristãos possam animar-se a continuar desse modo.

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