Defesa da Fé

Edição 25

Um guia bíblico sobre ortodoxia e heresia


Parte II – Robert M. Bowman, Jr. (tradução Josué Giamarco)

A cognoscibilidade da doutrina


Algumas pessoas evitam o estudo da doutrina cristã porque estão convictas de que é muito difícil ou complexa para ser entendida. Todas as pessoas são responsáveis por adquirir conhecimentos doutrinários segundo permitem suas faculdades mentais e seu nível cultural. As Escrituras mandam que todos os cristãos aprendam a doutrina. Geralmente, os obstáculos espirituais, passíveis de ser removidos – e não os intelectuais irremovíveis – impedem os cristãos de avançar na compreensão doutrinária (Hb 5.11-14). Cristo tem dado mestres à Igreja a fim de que ajudem os crentes a compreender a doutrina (Ef 4.11).

Fica claro que esses mestres devem dominar a doutrina num nível mais alto do que a maioria dos demais cristãos, mas assim fazem com o propósito de transmitir tanta verdade quanto possível ao restante dos membros do Corpo de Cristo.

A doutrina ortodoxa é bastante difícil, pois requer honestidade e disciplina, porém é bastante fácil para que – com as exceções mencionadas acima – todos quantos procuram a graça de Deus e que façam o esforço necessário possam aprendê-la (2 Pe 3.16-18).


A doutrina e a salvação


Ao considerar a pertinência da doutrina, mencionei que a salvação de uma pessoa pode depender, até certo ponto, da compreensão da doutrina. Posto que essa questão é tão freqüentemente disputada em nossos dias, merece ser examinada mais de perto.

Quase todos os que reconhecem Jesus Cristo de alguma maneira estão de acordo que os que completa e explicitamente O repudiam estão perdidos. Muitos, porém, acham difícil crer que alguns podem pensar sinceramente que estão seguindo a Cristo e ainda estar perdidos devido as suas crenças heréticas. O próprio Jesus prometeu: “Buscai, e achareis” (Mt 7.7); Os que buscam a Cristo não vão achá-lo, portanto? E não existem muitos membros sinceros de grupos que os evangélicos designam como hereges que realmente desejam encontrar a Cristo? Podem até mesmo ler a Bíblia com mais aplicação do que muitos membros evangélicos da Igreja; podem expressar um desejo ardente de conhecer a Deus e de obedecer a Ele; podem procurar com todo o zelo proclamar a mensagem de Cristo conforme foram ensinados a fazer. Eles, portanto, não estão buscando a Cristo, e não o encontrarão em seguida, de conformidade com a Sua promessa? E se for assim, como a salvação poderá depender das crenças doutrinárias?

Estas perguntas podem ser respondidas à luz dos seguintes princípios bíblicos:

(1) Nem todos os que reconhecem a Jesus como Senhor serão salvos. Essa é a conclusão direta das palavras de Jesus em Mateus 7.21. O simples reconhecimento de que Jesus é Senhor não garante a salvação de uma pessoa. Essa confissão pode ser somente da boca para fora, conforme demonstra a recusa de obedecer-lhe como Senhor (Lc 6.46). Ou alguém pode chamá-lo de “Senhor” sem querer significar o mínimo daquilo que a Bíblia quer dizer. E isso me leva ao segundo princípio.

(2) Muitos daqueles que alegam que confessam Cristo estão crendo “noutro Jesus”, e ou estão enganados ou são engana dores. Conclui-se, assim, direta men te de 2 Co rín- tios 11.4. Muitos daqueles que falam da fé em “Jesus” têm uma compreensão de quem e o que Jesus é, tão diferente da realidade, que não têm absolutamente nenhuma fé real no Jesus verdadeiro. Se uma pessoa pensasse que Buda era outro nome para Moisés, não a consideraríamos normalmente “budista”, não importa quão piedosa e moralmente tenha posto em prática a sua crença em Buda. Da mesma forma, quem nega o conceito bíblico de Cristo não deve ser identificado como cristão, não importa quão religiosamente siga a sua crença.

Algumas pessoas que crêem “noutro Jesus” são, sem dúvida, insinceras, e Paulo nos adverte contra os “obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo” (2 Co 11.13). Gosto de pensar o melhor a respeito das pessoas, mesmo daquelas com as quais tenho discordado. Tenho conhecido, no entanto, algumas pessoas a respeito das quais tenho concluído, despra ze rosamente, que são simplesmente mentirosas. Essas pessoas sabem de modo bem consciente que a mensagem que propagam é falsa.

Por outro lado, algumas pessoas, mesmo sendo membros das igrejas cristãs, podem “ser desviadas” (2 Co 11.3b) por esses enganadores. É possível, portanto, que pessoas sinceras, mesmo aquelas que faziam parte da comunidade de cristãos verdadeiros, sejam enganadas a ponto de seguir “outro Jesus”. Não que essas pessoas sejam perfeitamente inocentes – são mais como Eva que, embora enganada pela serpente (2 Co 11.3a), era culpada do seu pecado e foi considerada responsável por Deus (Gn 3.1-6, 13-16).

(3) Os que são zelosos nos assuntos religiosos não são necessariamente salvos. Em Romanos 10.2 Paulo disse a respeito dos seus irmãos judeus que repudiam Jesus: “Têm zelo de Deus, mas não com entendimento”. Pressupõe-se que o fervor implica sinceridade, ou seja: o estado mental de crer que alguém está fomentando baseia-se na verdade. Os judeus que rejeitavam Jesus eram, na sua maior parte, zelosos e, portanto, sinceros nesse sentido – mas mesmo assim estavam perdidos (Rm 10.1-3). Seu fervor visava, em especial, à justificação diante de Deus – mas a procuravam na base das suas próprias obras, como se a salvação fosse por obras, em vez de receberem a justificação que pode ser recebida de Cristo mediante a fé (Rm 9.30-10.4).

Mateus 23.15 refere-se a um fervor de outra índole – fervor este que procura converter os outros. Os fari seus estavam extremamente zelosos na obra missionária, mas tudo quanto conseguiram fazer era levar as pessoas a doutrinas falsas. O fervor no testemunhar ou no proselitizar não indica que um grupo religioso é o povo de Deus.

(4) Nenhum ser humano pode realmente buscar a Deus a não ser que o Espírito de Deus tenha atraído essa pessoa; portanto, os que parecem estar buscando a Deus, mas que não vêem segundo a maneira de Deus, não estão buscando a Deus de modo nenhum. Em Romanos 3.11 Paulo cita Salmos 14.2, dizendo: “não há ninguém que busque a Deus”. O pecado tem pervertido de tal maneira os seres humanos que ninguém entre nós busca a Deus por nossas próprias inclinações naturais. Isto porque “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8.7). Fica claro que algumas pessoas realmente buscam a Deus, pois doutra forma Deus não nos chamaria para buscá-lo (Isaías 55.6 etc.). Mas quando as pessoas buscam a Deus, é somente porque Deus primeiramente as “buscara” e as atraíra para Si mediante a Sua graça (Lc 19.10; Jo 6.44; 15.16).

Quando as pessoas, portanto, parecem estar “buscando a Deus” – quando estudam a Bíblia (2 Pe 3.16), comparecem às reuniões, oram, mudam sua maneira de viver, procuram obedecer aos mandamentos, e falam do seu amor por Deus e Cristo – mas persistem em adorar a um Deus falso, ou honram a um Cristo falso, ou seguem um evangelho falso (Gl 1.7-9; 2 Co 11.4), devemos concluir que não estão realmente buscando a Deus. É mais provável que tenham estado buscando poder espiritual, segurança, paz mental, relacionamentos calorosos, conhecimentos, emoções, ou qualquer coisa que não seja simplesmente Deus. E a dizer isto, não estou alegando que todos os cristãos genuínos, por sua vez, têm buscado pura e simplesmente a Deus. Ao contrário, nosso testemunho como cristãos deve ser que estávamos caminhando pelo caminho errado quando Deus nos buscou e nos fez parar, e então nos conduziu a um novo caminho, estreito, que conduz à salvação em Jesus Cristo (Mt 7.13).

(5) Qualquer pessoa que realmente deseja saber a verdade a respeito de Deus e do Seu caminho da salvação, acima de todas as demais coisas, pode ser salva e será salva. Esse é o outro lado da moeda, por contraste com o tema anterior. Jesus prometeu que “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37). Sem dúvida alguma, teremos de chegar até ao Jesus verdadeiro segundo as Suas próprias condições. Judas chegou-se até ao Jesus verdadeiro, pelo menos exteriormente (Judas não sabia, na verdade, quem Jesus realmente era), mas não o seguiu segundo as próprias condições impostas por Jesus e, como conseqüência, estava perdido (Jo 7.12).

Para muita gente, o preço de abandonar a heresia é alto demais – a perda de amigos, a vergonha de ter de se confessar errado, as ameaças dos mestres da heresia no sentido de que todos os que deixam os seus ensinos estão perdidos. Mas a salvação está à disposição de qualquer pessoa que, mediante a graça de Deus, coloque a verdade (e Aquele que É a Verdade) acima de todas as demais coisas.


O cristianismo aberrante


Talvez pareça que o discerni mento doutrinário deve ser um procedimento bastante fixo nos mínimos detalhes para determinar se uma doutrina é ortodoxa ou herética. Afinal de contas, temos distinguido a ortodoxia da heresia de um modo tal que todas as possibilidades foram abrangidas. Ou uma doutrina é tal que os que a sustentam devem ser recebidos como cristãos (neste caso, é doutrina ortodoxa), ou não é (neste caso, é herética). Isso talvez parece implicar um ponto de vista “branco ou preto”, segundo o qual toda a doutrina fica sendo ou completamente ortodoxa ou completamente herética.

Embora o discernimento doutrinário seria muito mais organizado e simples, se este fosse o caso, as coisas são lastimavelmente mais complicadas – de duas formas distintas, no mínimo.

Primeiramente, uma só doutrina nunca se mantém em isolamento de outras doutrinas, ao contrário, sempre faz parte de um sistema ou corrente de crenças mantidas por certa pessoa ou grupo. Algumas vezes esse sistema de crenças inclui muitas doutrinas que são ortodoxas, bem como algumas que são heréticas. Por exemplo: certo grupo religioso poderá sustentar que a Bíblia é a Palavra de Deus, que há um só Deus, que Jesus nasceu da virgem e ressuscitou dentre os mortos, e ainda negar a divindade de Jesus Cristo.

Esse sistema de crenças do grupo é herético, embora contenha muitas crenças verdadeiras. Além disso, as crenças heréticas do grupo geralmente o levam a entender mal ou a aplicar mal as próprias crenças verdadeiras que confessam, posto que as crenças tendem a ser interdependentes e, portanto, afetam-se mutuamente. Por isso, uma das tarefas do discernimento doutrinário é separar quais das crenças no sistema herético são realmente heréticas, quais não o são, e como as crenças não-heréticas são mal aplicadas por causa do sistema herético dentro do qual são afirmadas.

A segunda classe de complicações a serem notadas é que as pessoas freqüentemente sustentam crenças contrárias. Isso porque as pessoas são freqüentemente inconsistentes, e em alguns casos, podem manter crenças ortodoxas, mas também mantêm crenças que abalam ou contradizem suas crenças ortodoxas. A dificuldade que se apresenta em tais casos é a de determinar se o sistema é basicamente ortodoxo, ou não.

Por exemplo: muitos grupos que professam ser cristãos hoje em dia confessam a crença num só Deus, mas também falam que os seres humanos (normalmente cristãos em particular) são “deuses” em certo sentido. Essa contradição verbal pode ou não mostrar uma verdadeira contradição no modo de sustentar as suas crenças. Tornando ainda mais difíceis as coisas, há o fato de que esses grupos diferentes querem dizer coisas totalmente diferentes ao chamarem os crentes de “deuses”.

Em alguns casos, fica evidente que realmente não crêem num único Deus, de modo nenhum. Em outros casos, fica claro que empregam a palavra “deuses” aos crentes de uma maneira tão figurada que sua confissão em um só Deus não sofre nenhuma contradição. Em outros casos, ainda, existe uma tensão real, e é difícil evitar a conclusão de que o grupo está mantendo conscientemente idéias contraditórias.

Para definir melhor esse fenômeno, é proveitoso chamar de aberrantes as doutrinas religiosas que ou subvertem as crenças ortodoxas do grupo ou estão em tensão com elas. Manter essas idéias aberrantes – um problema grave, e os que as mantêm devem considerar- se em pecado, e devem procurar colocar-se na conformidade. Especificamente, os que defendem tais erros não devem ter licença para ensinar ou oficiar na Igreja, e os que se recusam a abster-se de tais idéias aberrantes devem ser excomungados.

A acusação de que as crenças de uma pessoa ou de um grupo são aberrantes e graves não deve ser feita levianamente. Podemos sustentar que, em certo nível, qualquer crença incorreta está em tensão com as crenças ortodoxas, ou as subverte. Mas realmente me refiro, com a palavra “aberrante”, somente às crenças falsas que danificam seriamente a integridade de uma confissão ortodoxa da fé.

Resumindo o assunto: o discer nimento doutrinário é uma tarefa difícil – que exige sensibilidade, um senso de proporção e de equilíbrio, e uma compreensão profunda daquilo que é essencial e daquilo que não o é. Heresias e erros novos sempre estão aparecendo, com novas percepções da verdade bíblica, e é necessário discernimento para perceber a diferença. Portanto, a tarefa do discernimento doutrinário é uma necessidade sempre real na Igreja Cristã.

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