Defesa da Fé

Edição 54

Monoteísmo Primitivo - Um debate sobre sua origem


Por L. Norman Geisler

Tradução: Elvis Brassaroto Aleixo


A Bíblia ensina que o monoteísmo foi a concepção mais remota de Deus. O primeiro versículo do livro de Gênesis é monoteísta: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Todos o patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, apresentaram uma fé monoteísta. (Gn 12-50). Isto revela um Deus que criou o mundo e que, portanto, é diferente do mundo. Esses são os conceitos essenciais do teísmo ou monoteísmo.

Igualmente, bem antes de Moisés, José acreditou declaradamente em um monoteísmo moral. Sua recusa em cometer adultério é justificada pelo seu conhecimento de que seria um pecado contra Deus. Enquanto estava resistindo à tentação da esposa de Potifar, ele declarou: “Como, pois, posso cometer este tão grande mal, e pecar contra Deus?” (Gn 39.9).

Jó, outro livro bíblico contextualizado em um período remoto da antiguidade, revela claramente uma visão monoteísta de Deus. Existem grandes evidências de que o livro de Jó desenvolveu-se em tempos patriarcais pré-mosaicos. O livro vislumbra um Deus todo-poderoso (Jó 5.17; 6.14; 8.3), um Deus pessoal (Jó 1.7-8) que criou o mundo (Jó 38.4) e é soberano sobre sua criação (Jó 42.1-2).

Encontramos na epístola de Paulo aos Romanos, no seu primeiro capítulo, a afirmação de que o monoteísmo precedeu o animismo e o politeísmo . O texto declara: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém” (Rm 1.19-25).


A tese de James Frazer sobre o monoteísmo recente


A tese de um monoteísmo recente foi divulgada por W. Schmidt na sua obra High Gods in North América . Mas é a obra de James Frazer, The Golden Bough , que tem alcançado proeminência sobre o assunto. Sua tese não se baseia em uma confiável procura histórica e cronológica para as origens do monoteísmo, antes, advoga que as religiões evoluíram do animismo para o politeísmo, e deste para o henoteísmo e, finalmente, chegando ao monoteísmo. Apesar de seu uso seletivo e anedótico de fontes antiquadas, as idéias do livro ainda são acreditadas amplamente. A resistência à tese de Frazer de que a concepção monoteísta de Deus evoluiu recentemente não tem fundamento por muitas razões:


Argumentos para a crença do monoteísmo primitivo

Há muitos argumentos a favor do monoteísmo primitivo. E muitos desses argumentos vêm dos registros e tradições que temos das civilizações antigas, que incluem os livros de Gênesis e Jó e o estudo das tribos pré-alfabetizadas.


A historicidade de Gênesis


Não há nenhuma dúvida de que Gênesis apresenta uma concepção monoteísta de Deus. De igual modo, é claro, esse livro é o instrumento mais confiável que dispomos de um registro histórico da raça humana, desde os primeiros seres humanos. Conseqüentemente, os argumentos que atestem a historicidade dos primeiros capítulos de Gênesis favorecerão o monoteísmo primitivo.

O notável arqueólogo William F. Albright demonstrou que o registro patriarcal de Gênesis (Gn 12-50) é histórico. Ele declara: “graças à pesquisa moderna, reconhecemos agora sua significativa historicidade [da Bíblia]. As narrativas dos patriarcas, Moisés e o êxodo, a conquista de Canaã, os juízes, a monarquia, o exílio e a restauração de Israel, tudo tem sido confirmado e evidenciado em uma extensão que eu julgava impossível há quarenta anos”. E acrescenta: “não há um único historiador bíblico que não tenha se impressionado pela acumulação rápida de dados que apóiam a historicidade significativa da tradição patriarcal”.

Entretanto, o livro de Gênesis é uma unidade literária e genealógica, tendo constituído listas de descendentes familiares (Gn 5,10) acompanhadas da relevante frase literária “esta é a história de” ou “estas são as origens dos” (Gn 2.4). A frase é usada largamente em outros trechos do livro de Gênesis (2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10,27; 25.12,19; 36.1,9; 37.2).

Além disso, a importante narrativa sobre a torre de Babel, capítulo 11, é referida por Jesus e pelos escritores do Novo Testamento como histórica. Também são citados por Cristo e pelos escritores do Novo Testamento: Adão e Eva (Mt 19.4,5), a tentação que sofreram (1Tm 2.14), sua posterior queda (Rm 5.12), o sacrifício de Caim e Abel (Hb 11.4), o assassinato de Abel por Caim (1Jo 3.12), o nascimento de Sete (Lc 3.38), a trasladação de Enoque (Hb 11.5), a menção do matrimônio antes dos tempos do dilúvio (Lc 17.27), a inundação e destruição do homem (Mt 24.39), a preservação de Noé e sua família (2Pe 2.5), a genealogia de Sem (Lc 3.35,36) e o nascimento de Abraão (Lc 3.34). Assim, a pessoa que questionar a historicidade de Gênesis, conseqüentemente terá de questionar também a autoridade das palavras de Cristo e de muitos outros escritores bíblicos que recorreram ao livro de Gênesis.

Em particular, existem fortes evidências para a historicidade dos registros bíblicos sobre Adão e Eva. Esses registros revelam que os pais da raça humana foram monoteístas desde o princípio (veja Gn 1.1,27; 2.16,17; 4.26; 5.1,2).

1) Gênesis 1-2 os apresenta como pessoas literais e narra os eventos importantes de suas vidas (entenda-se: de suas histórias, registros).

2) Eles geraram crianças reais, e não fictícias (Gn 4.1,25; 5.1).

3) A mesma frase, “estas são as gerações de”, empregada para registrar histórias posteriores (Gn 6.9; 9.12; 10.1,32; 11.10,27; 17.7,9), é usada também no relato da criação (Gn 2.4) e na formação de Adão e Eva e seus descendentes (Gn 5.1).

4) As cronologias posteriores do Velho Testamento posicionam Adão no topo da lista genealógica (1Cr 1.1).

5) O Novo Testamento cita Adão como o primeiro antepassado literal de Jesus (Lc 3.38).

6) Jesus recorreu à historicidade de Adão e Eva, o primeiro casal “macho e fêmea”, constituindo, como base para a união física, o primeiro matrimônio (Mt 19.4).

7) O livro de Romanos declara que a morte literal foi trazida ao mundo por um “Adão” literal (Rm 5.14).

8) A comparação de Adão (“o primeiro Adão”) com Cristo (“o último Adão”), em 1 Coríntios 15.45, atrela a historicidade de Adão com a de Jesus, e autentica explicitamente a compreensão histórica de Adão como uma pessoa literal.

9) A declaração do apóstolo Paulo, de que “primeiro foi formado Adão, depois Eva” (1Tm 2.13,14), revela que ele fala de uma pessoa real.

10) Logicamente, houve entre eles o primeiro relacionamento conjugal, “macho e fêmea”, do contrário, a raça humana não teria continuidade. A Bíblia chama este casal de “Adão e Eva”, e não há quaisquer razões para duvidar da existência real deles. E aqueles que argumentam a favor de sua historicidade conseqüentemente apóiam a posição bíblica de um monoteísmo primitivo.


A evidência do livro de Jó


Semelhante a Gênesis, Jó é possivelmente um dos livros mais antigos do Velho Testamento. Ao menos há um consenso entre os estudiosos de que sua história originou-se em tempos patriarcais, sendo, portanto, pré-mosaica. De igual modo, o livro de Jó também confirma o monoteísmo e a pessoalidade de Deus. Revela um Deus pessoal (1.6,21), moral (1.1; 8.3,4), soberano (42.1,2), Todo-Poderoso (5.17; 6.14; 8.3; 13.3 etc) e Criador (4.17; 9.8,9; 26.7; 38.6,7). O posicionamento da história de Jó como primitiva possui vários fundamentos.

1) Sua organização familiar em clãs, adotada no período pré-mosaico e abolida posteriormente entre os hebreus.

2) A ausência total de qualquer referência à lei de Moisés.

3) O emprego patriarcal peculiar para o nome de Deus: Todo-Poderoso (5.17; 6.4; 8.3 cf. Gn 17.1; 28.3 etc).

4) A comparativa raridade com que é empregado o nome SENHOR (Yahweh) (cf. Êx 6.3).

5) O oferecimento de sacrifícios pelo chefe da família em oposição ao sacerdócio levítico.

6) A menção da cunhagem primitiva de moedas, implícita na expressão “peças de dinheiro” (42.11 cf. Gn 33.19).

7) O uso da expressão “os filhos de Deus” (1.6; 2.1; 38.7), encontrada apenas em Gênesis 6.2-4.

8) A longevidade de Jó, que viveu 140 anos depois que sua família foi restabelecida (42.16), ajusta-se ao período patriarcal.

Jó fala de um Deus que criou o mundo (Jó 38.4), que é soberano sobre todas as coisas (42.2), inclusive sobre Satanás (1.1,6,21 etc). Todas essas coisas são características de uma concepção monoteísta de Deus. Assim, os tempos primitivos de Jó revelam que o monoteísmo não teve um desenvolvimento recente.


As religiões primitivas são monoteístas


Ao contrário da convicção popular, as religiões primitivas da África revelam por unanimidade um explícito monoteísmo. Uma das maiores autoridades em religiões africanas, John S. Mbiti que, em sua carreira, já pesquisou mais de 300 religiões tradicionais, declarou: “Em todas estas sociedades, sem uma única exceção, as pessoas têm uma noção de Deus como o Ser Supremo”. Isto é uma verdade compartilhada por outras religiões primitivas, muitas das quais crêem em um Deus Altíssimo ou em um Deus celestial, assinando mais uma vez o monoteísmo primitivo.


A influência de evolução


A idéia de que o monoteísmo evoluiu recentemente ganhou popularidade após a teoria da evolução biológica de Charles Darwin, em sua obra A origem das espécies, de 1859. Em outra de suas obras, Darwin escreveu: “Não há nenhuma evidência de que o homem tenha originalmente adotado a crença na existência de um Deus onipotente”. Pelo contrário, Darwin acreditava que “as faculdades mentais humanas [...] conduziram o homem à crença em entidades espirituais e, desta, para o fetichismo , o politeísmo e, por fim, o monoteísmo...”.

A tese evolutiva de Frazer sobre a religião está baseada em várias suposições sem provas.

Primeiro: seu apoio na evolução biológica mostra, na realidade, sua ausência de fundamentos sérios. A teoria da evolução já foi satisfatoriamente contestada por autoridades cientificas.

Segundo: ainda que considerássemos a evolução biológica como uma verdade científica, não há nenhuma razão para acreditar que tal evolução tenha sido considerada no âmbito religioso. É um engano de categoria metodológica classificar que o que é verdade em uma disciplina seja também verdade em outra.

O darwinismo social é outro caso em questão. Poucos darwinistas concordariam com Hitler em sua obra Mein Kampf , que diz que deveríamos destruir as raças inferiores, já que a evolução tem feito isto durante séculos! Ele escreveu: “Se a natureza não deseja que os indivíduos mais fracos devam se unir (misturar) com o mais forte, ela deseja menos ainda que uma raça superior venha se misturar com uma inferior; até mesmo porque, em tal caso, todos os seus esforços, ao longo de centenas de milhares de anos, para estabelecer uma fase evolutiva mais alta, pode ser resultado em futilidade”.

Assim, se muitos darwinistas concordam que a evolução não deve ser aplicada ao desenvolvimento social humano, então não há nenhuma razão para aplicá-la à religião. Dessa forma, nem a suposta prova científica de Darwin serve como base para a evolução do monoteísmo recente.


A melhor explicação


As origens do politeísmo podem ser explicadas como uma degeneração do monoteísmo original, como vimos na declaração anterior de Romanos 1.19. Quer dizer, o paganismo originou-se do monoteísmo primitivo, e não o contrário. Isso é evidenciado no fato de que a maioria das religiões pré-alfabetizadas possuía uma visão monoteísta de Deus. William F. Albright reconhece, igualmente, que os respectivos deuses dessas religiões “eram considerados todo-poderosos e cridos como criadores do mundo; eram, geralmente, deidades cósmicas e seus adeptos, freqüentemente, acreditavam que tais deuses residiam no céu”.

Essa concepção é claramente contra as concepções politeístas e animistas de deidade.

Não há nenhuma razão concreta para negar o monoteísmo primitivo apresentado pela Bíblia. Pelo contrário, há toda evidência para acreditar que o monoteísmo foi a primeira concepção religiosa que algumas religiões deturparam. De fato, essa é a posição que melhor se ajusta à forte evidência de que o monoteísmo revelado na Bíblia foi distorcido pelas tendências humanas.

Em resumo, a concepção correta de Deus, o monoteísmo primitivo, foi resgatada, e não evoluída durante séculos. Deus fez o Homem conforme a sua imagem, mas os homens corromperam esta verdade (Rm 1.23).


Notas:

1 Monoteísmo: crença na existência de um único Deus.

2 Animismo: idéia de que todas as coisas no universo são investidas de uma força de vida, alma ou mente. Um animismo filosófico, por exemplo, considera que uma pedra ou uma árvore não é meramente um aglomerado de átomos e moléculas, mas, pelo contrário, possui um a “conscientização” das forças ou dos outros corpos que estão ao redor.

3 Politeísmo: crença na existência de vários deuses.

4 High Gods in North of América. W. Schmidt. Oxford: Claredon Press, 1933.

5 The Golden Bough. James G. Frazer. London: Mcmillan, 1890.

6 Henoteísmo ou Enoteísmo: deriva seu nome dos termos gregos henos, um, e theos, deus. A idéia é que só existe um único Deus. Mas, no uso comum que se faz da palavra, a idéia transmitida é que existe uma divindade suprema, que tem contato com um certo mundo ou um certo grupo de seres, ao mesmo tempo em que podem existir outros deuses com outros campos de atividade. Pelo menos em algumas culturas, como na dos hebreus, o henoteísmo pode ser um passo intermediário entre o politeísmo e o monoteísmo.

7 From Stone Age to Christianity. Willian F. Albright. Garden City, NY: Doubleday, 1957, p. 1329.

8 The Biblical Period. Willian F. Albright. New York: Harper, 1955.

9 African Religions and Philosophy. John S. Mbiti. New York: Praeger Publishers, 1969.

10 Fetichismo: crença mantida particularmente nas religiões da África ocidental de que os espíritos são capazes de possuir objetos. Existe também a crença de que certos objetos ou “talismãs” podem afastar os espíritos maus.

11 The Descent of Man and selection in relation to Sex. Charles Darwin. New York: Appleton and Company, 1896, p. 302,303.

12 Evolution: a Theory in Crisis. Bethesda, MD: Adler and Adler, 1985.

13 Mein Kampft. Adolph Hitler. London: Grust and Blackett Ltds, Publishers, 1939, p. 239-242.

14 From Stone Age to Christianity. Willian F. Albright. Garden City, NY: Doubleday, 1957, p. 170.

15 The Kalam Cosmological Argument. Willian Lane Craig. London: The McMillan Press, 1979.

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