Defesa da Fé

Edição 64

A salvação de um povo - O crescimento extraordinário da igreja evangélica no Brasil e seus desafios futuros


Por Lourenço Kraft e Eunice Zillner

Quem viveu nas décadas anteriores à década de 70, pode sentir hoje, no dia-a-dia, a diferença do trato quando alguém se declara evangélico no Brasil.

O Brasil foi colonizado por portugueses, mais especificamente pelos jesuítas que, a todo custo, queriam fazer do país a maior nação católica do mundo. Com a Reforma Protestante, iniciada por Lutero, no século XVI, e a crise na Europa, muitos vieram do Velho Mundo em busca de novas oportunidades de vida e, também, a fim de propagar um evangelho diferente daquele que a Igreja Católica impunha.

Por volta de 1824, o Brasil era visto como um país 100% católico. A partir de 1855, os primeiros missionários protestantes começaram a chegar e a residir permanentemente por aqui e, em três décadas, todas as denominações protestantes históricas se estabeleceram no país. Muitos missionários tinham especializações profissionais e contribuíram muito para a educação e as demais áreas sociais. Fundaram igrejas, escolas, universidades, clínicas, hospitais, jornais, editoras, etc. Trabalharam em favor da liberdade religiosa, promovendo o respeito à sua inerente diversidade. Apresentaram a “salvação pela graça, mediante a fé” e a visão responsável de que “a fé sem obras é morta”. A partir daí, pode-se dizer que a igreja evangélica brasileira tem contribuído para “mudar a cara” desta grande nação.

E nós, brasileiros do século XXI, vivemos nessa época de transformação do país e louvamos a Deus pelo o que Ele tem feito em nosso meio.

Lembro-me muito bem de que, quando criança, era difícil declarar publicamente a Igreja a qual pertencia sem receber um olhar indagador, como que dizendo: “Verdade? Como você pode? Você é um protestante?”.

Hoje, vivemos outra realidade: podemos nos declarar evangélicos com um certo orgulho e a responsabilidade de mostrar que a diferença está em viver pela fé, como diz o apóstolo Paulo:


“O justo viverá pela fé” (Rm 1.17).


A pesquisa é uma ferramenta eficiente e tem sido bem reconhecida nos últimos tempos. Pesquisam-se para abrir uma loja, lançar um produto, eleger nossos governantes, etc. A Igreja evangélica no Brasil também tem feito proveito dessa ferramenta e se conscientizado da sua grande utilidade. A partir de seus resultados, procuramos elaborar estratégias de implantação de novas igrejas onde ainda não existem, evitando desperdiçar energia e recursos ao abrirmos igrejas de denominações diferentes uma ao lado da outra, por exemplo, enquanto outros bairros são esquecidos.


“Sempre fiz questão de pregar o evangelho onde Cristo ainda não era conhecido, de forma que não estivesse edificando sobre alicerce de outro” (Rm 15.20)


Nada melhor do que os números e os gráficos para que saibamos o que tem acontecido durante estes últimos anos da nossa história. A seguir, partindo dos dados fornecidos pelo IBGE, “fotografamos” o crescimento dos evangélicos nas últimas décadas.


De 1970 a 1991


Segundo os censos realizados em 1970, 1980 e 1991, a Igreja evangélica no Brasil cresceu, no período, mais que o dobro do ritmo de crescimento da população.

Nos resultados do IBGE, publicados em 1980, constatamos que a população cresceu 2,48% ao ano na década de 70 e a igreja evangélica, 5,06%, o dobro do crescimento populacional. Logo, já significava um crescimento real da Igreja, motivo de muita alegria!

Mas o Senhor tinha mais bênçãos para derramar sobre esta grande nação.

Na década seguinte, 1980-1991, o censo do IBGE revelou que o crescimento da população do Brasil elevara-se menos do que na década anterior, 1,93% ao ano. Mas a Igreja evangélica continuou crescendo, quase no mesmo ritmo da década de 70 - 4,68%. A Igreja cresceu proporcionalmente nesse período 2,5 vezes mais do que a população.

De maneira geral, passamos de um país católico, em 1824, para um país com 12,1% de evangélicos, em 1991.

Muitos dirão que, na realidade, o Brasil não era 100% católico. Eu concordo. É impossível a unanimidade neste sentido. O fato é que o país se declarava totalmente católico e que não havia o testemunho evangélico. Os holandeses e os franceses, que por vezes tentaram se estabelecer no país, vinham com as “boas novas”, mas a guerra religiosa que encontravam os derrotou e os fez desistir.

Após 136 anos, desde que os primeiros missionários evangélicos começaram a se estabelecer definitivamente no Brasil, éramos, em 1991, 13,7 milhões.

No entanto, havia ainda o grande desafio do Nordeste, pois o censo de 1991 revelou algumas mesorregiões com menos de 3% de evangélicos no Estado de Minas Gerais e outras, em grande número, na região Nordeste do país (fig.1). As demais mesorregiões teriam índices superiores a 3% de evangélicos.


Panorama e análise dos evangélicos a partir do Censo 2000


Se com as informações das pesquisas do IBGE, até 1991 vivíamos conscientes dos grandes motivos que tínhamos para louvar a Deus pelo o que Ele já havia feito no Brasil, com os resultados do Censo 2000 pudemos reafirmar nossos motivos de louvor e constatar que Ele nos levara além das nossas expectativas.

As projeções feitas a partir dos dados de 1991 foram superadas. Obra maravilhosa do Senhor numa nação!

A Igreja evangélica no Brasil continuou crescendo mais rápido do que a população. Na última década, 1991-2000, a sua taxa de crescimento superou em quatro vezes o da população.

Devemos nos lembrar, no entanto, que tal crescimento varia de acordo com a região. Comparando as taxas anteriores, notamos que até 1991 a região Sul era a região que menos crescia no Brasil, com uma TCA (taxa de crescimento anual) inferior a 4%; em 2000, apresentou um crescimento de 4,3% ao ano. Mas continua sendo a região de menor crescimento dos evangélicos no país, merecendo, assim, toda a nossa atenção. O Estado de Roraima continua sendo o que tem a maior TCA.

Percebemos que as maiores taxas de crescimento estão nas regiões Norte e Nordeste ( fig. 2).


2003 — o Brasil tem 17% de evangélicos


No Censo de 1991, éramos 13,7 milhões de evangélicos, ou seja, 12,1% da população do país. Em 2000, passamos para cerca de 26 milhões, isto é, 15% da população. Isso equivale a cinco vezes a porcentagem de 1940 e quase o dobro da de 1980.

Em nove anos (1991 a 2000), o número de brasileiros que se declaravam evangélicos dobrou. Fazendo uma projeção a partir do Censo 2000, no início de 2003, devemos somar cerca de 30 milhões de evangélicos. Isso corresponde a aproximadamente 17% da população.

A figura 3 mostra o número total de evangélicos no Brasil, baseada nos dados dos Censos. A parte em verde é uma projeção do crescimento até 2010, se o mesmo ritmo de crescimento constatado na última década se repetir. Ousamos afirmar que, se a igreja continuar crescendo nesta taxa até 2022, o Brasil se tornará 50% evangélico.


Onde estão os evangélicos?


A presença evangélica varia muito conforme a região do país. Se por um lado encontramos Estados com baixos índices, inferiores a 10%, por outro encontramos alguns Estados com mais de 20% de evangélicos.

Quando mapeamos os Estados, detalhando a presença dos evangélicos com a ajuda das cores, verificamos, com alegra, que temos mais Estados com porcentagem maior de evangélicos. Mas não podemos deixar de voltar nossa atenção para os mais necessitados (fig 4). Embora a região Sul tenha um crescimento pequeno (TCA entre 3 e 6% nos diferentes Estados), a Nordeste, porém, é a única região do Brasil que ainda possui Estados com uma porcentagem menor que 10% de evangélicos (fig.4).

Como vimos anteriormente, na região Nordeste, em 1991, se concentravam as mesorregiões com menos de 3% de evangélicos (fig.1). Hoje, infelizmente, vemos essa concentração também nas regiões Sul e Sudeste.


A Igreja evangélica


Existem no Brasil cerca de 150 mil igrejas evangélicas de todos os tipos. Entretanto, pesquisas de campo mostram que um terço dos evangélicos, aproximadamente, estão nas igrejas num domingo típico.

Em 1993, durante o Congresso Brasileiro de Missões, realizado em Caxambu, MG, nasceu o Projeto Brasil 2010. Vários pastores, representando diversas igrejas, ficaram comovidos com relatos sobre o crescimento de igrejas em outros países e resolveram adotar e promover uma estratégia para uma persistente, contínua e marcante implantação de igrejas no Brasil. Tal Projeto envolve um trabalho de oração, pesquisa e mapeamento e tem encorajado pastores e líderes a plantar novas igrejas no Brasil, nas regiões onde o evangelho ainda não é bem conhecido. Visite o site www.brasil2010.org para conhecer o projeto e ver alguns exemplos de pesquisas de campo.

Seguem algumas observações gerais sobre a Igreja evangélica brasileira de hoje:

• As regiões urbanas têm experimentado maior crescimento que as áreas rurais.

Veja dois exemplos, um na região Nordeste e outro na região Norte, que ilustram essa realidade:

Em 2002, no sertão nordestino, numa microrregião que, em 1991, o IBGE apontava como tendo 1,13% de evangélicos, o Projeto Brasil 2010, em parceria com a Visão Mundial, fez uma pesquisa completa em onze municípios do sertão da Paraíba. Esses municípios compõem a microrregião chamada Itaporanga. A pesquisa retratou a realidade do sertão e se preocupou, ainda, em analisar como a população não-evangélica vê o “crente”. Na ocasião, foi feita também uma distinção de zona urbana e rural. A conclusão foi a seguinte: não obstante a relação habitantes/igreja nesses municípios ser parecida com a das grandes cidades, há, ainda, muitas comunidades sem igrejas nas zonas rurais. Neste caso, a microrregião de Itaporanga tem uma população de 83.000 habitantes e, considerando as comunidades com no mínimo quinze habitantes, existem 140 comunidades rurais sem igrejas (fig.5). Esta é uma população que não ouvirá o evangelho se alguém não for lá pregar e estabelecer uma igreja para que o novo convertido seja discipulado (você pode ler o relatório desta pesquisa no site: www.brasil2010.org/regioes/nordeste).

A região Norte do Brasil apresenta uma porcentagem de evangélicos bastante alta dentro do contexto nacional. Na cidade de Manaus, por exemplo, a relação habitantes/igreja foi a de melhor média até agora nas grandes cidades (796 habitantes/igreja local). No entanto, uma peculiaridade dessa região é a população ribeirinha. A região Norte possui mais de 40 mil comunidades ribeirinhas com uma população média de 130 habitantes por comunidade. Em 1999, foi estimado que 90%, aproximadamente (ou seja, 36 mil) destas comunidades ribeirinhas não tinham nenhuma igreja evangélica (fig. 6).

• A Igreja tem crescido mais entre os pobres do que entre os ricos

Uma pesquisa feita em Londrina, PR, em 2000, mostrou que as regiões mais ricas da cidade possuem menos igrejas evangélicas, resultado que tem se repetido em várias outras cidades ao redor do país.

• Vários grupos étnicos não foram ainda alcançados (tanto imigrantes quanto tribos indígenas)

Existem ainda 103, ou 40%, das 257 tribos indígenas do Brasil sem presença missionária (fig. 7). Outros grupos étnicos, tanto nas cidades quanto nas regiões rurais, também precisam ser focalizados, para que se implantem igrejas e todo o país, dessa forma, seja alcançado pelo evangelho de Jesus Cristo.

• As regiões Norte e Centro-Oeste têm a maior presença evangélica (fig. 4)

• As regiões Nordeste e Sul, de outro lado, têm a menor (fig. 4)

• O Sudeste tem os grandes desafios que vêm com a urbanização e grandes concentrações de população

Resumindo:

1. Cada região do país tem seus próprios desafios. Está comprovado que pelo menos 80% das pessoas em cada região não têm nenhuma participação na Igreja.

2. A Igreja evangélica do Brasil não é bem distribuída. Em todas as cidades e áreas rurais pesquisadas, foram encontrados lugares com muitas igrejas enquanto outros lugares com poucas.

No segundo semestre de 2001 e início do ano 2002, foi realizada uma pesquisa completa sobre a presença evangélica na cidade de Marília, SP. As ruas da cidade foram percorridas e igrejas localizadas e situadas em um mapa digital, que mostrou claramente que as igrejas não estão distribuídas igualmente entre todos os bairros (fig. 8). Este mesmo tipo de pesquisa foi feito em mais sete cidades ao redor do Brasil, em 2002. Resultados iniciais mostram que todas as cidades apresentam uma situação parecida.

3. O Brasil possui mais ou menos uma igreja para cada 1.200 habitantes (em 2002, a média das cidades pesquisadas foi de 1.011)

Nas cidades pesquisadas em 2002, em um domingo típico, cerca de 6,5% da população do Brasil estavam presentes em uma igreja evangélica (a freqüência média das igrejas evangélicas no Brasil é de 70 pessoas). Podemos perceber que esta porcentagem é muito menor que o número de pessoas que se identificam como evangélicas no Censo e indica um número alto de evangélicos inativos nas igrejas.

4. Na década de 80, o grupo religioso que cresceu mais rapidamente foi o das pessoas sem religião ou sem declaração de religião. Nos anos 90, foram os evangélicos. Isto pode indicar que ser evangélico está-se tornando uma opção mais aceitável dentro da sociedade brasileira (fig. 9). Entretanto, de acordo com o Censo 2000 do IBGE, existem três Estados na região Nordeste, onde a porcentagem dos “sem religião” supera a porcentagem dos evangélicos (fig. 10).


O que falta para que o Brasil seja alcançado?


Deus está trabalhando muito no Brasil e a Igreja está crescendo. A Igreja ainda tem muito por fazer; foi abençoada por Deus e tem muito para oferecer como bênção. Isto indica a necessidade de uma responsabilidade missionária para alcançar as partes do Brasil que não estão sendo alcançadas naturalmente (áreas rurais, grupos étnicos, bairros esquecidos, etc.), bem como os confins da terra.

No último Censo, encontramos 56 municípios com menos de 1% de evangélicos, o que atinge uma população de 310.884, e onze municípios sem nenhum evangélico, sendo que nove deles se encontram no Estado do Rio Grande do Sul. Vale lembrar que esses dados, muitas vezes, são colhidos por amostragem, o que não invalida a pesquisa, mas em se tratando de um número “0” na categoria “religião” valeria a pena visitar esses municípios e confirmar essa informação.

Precisamos:

1. Identificar os lugares que ainda não foram alcançados

2. Treinar líderes para as igrejas já existentes e para as que vão surgir

3. Motivar as igrejas a plantar novas igrejas em lugares estratégicos

4. Implantar 100 mil igrejas novas

5. Mobilizar missões para os grupos que não serão atingidos naturalmente


Alguns aspectos sociais como conseqüência do crescimento da Igreja


A revista Veja (edição de julho/2002), publicou uma reportagem intitulada “A força do Senhor”. Essa reportagem chamava a atenção para o crescimento dos evangélicos e sua atuação na área social do país. Dizia:

“O crescimento da fé evangélica está mudando o Brasil dos esportes

à política, das favelas aos bairros chiques, dos presídios à televisão”

A reportagem menciona que as conseqüências do aumento do número de evangélicos, de uma maneira geral, têm sido boas:

• Os evangélicos têm menos filhos

• Os evangélicos buscam uma boa moral sexual

• Levam a prática da fé a sério

• O ambiente esportivo melhorou, segundo os Atletas de Cristo, quando os evangélicos entraram e se manifestaram nesse meio

• Conversões na Casa de Detenção

• Adolescentes deixam as drogas

• Ética e valores morais na política

• Educação e cultura. Incentivo à leitura. Os evangélicos têm 934 instituições de ensino em vários níveis com 740.000 alunos.

• Motivou a Renovação Carismática da Igreja Católica

O texto da Veja veio confirmar a pesquisa feita em Itaporanga, onde foi constatado que 57% da população vê com simpatia a presença dos “crentes” na sua região.

Isso muito nos alegra, mas aumenta a nossa responsabilidade diante de Deus.


Conclusão


Como vimos, Deus tem abençoado muito o nosso país. Tem nos dado um crescimento em quantidade e a sociedade já vê algumas conseqüências disso. Precisamos nos conscientizar da importância de sermos numericamente expressivos e daquilo que o Senhor pode fazer por nosso intermédio, desde que nos coloquemos em suas mãos.

Seria muito bom se todas as denominações evangélicas se unissem no amor de Cristo, deixando de lado questões insignificantes, e mirassem o alvo mais nobre: realizar a tarefa de ganhar esta nação para Cristo.

Precisamos crescer na graça e no conhecimento do nosso Deus para transformar esta nação. Se em 2002, ano em que a reportagem da Veja foi publicada, já se constatava que a fé evangélica estava mudando a sociedade (e em 2002 éramos 17% de evangélicos), o que Deus não poderá fazer quando seu exército no Brasil corresponder a 50% de evangélicos?

Sabemos que a nossa fé pode mover montanhas:

“Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu lhes asseguro que se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: Vá daqui para lá, e ele irá. Nada lhes será impossível” (Mt 17.20).

Simultaneamente, e até como conseqüência da dedicação ao compromisso de ganhar esta nação, devemos nos lembrar do que a Palavra de Deus nos diz no Salmo 67.1,2:

“Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, para que sejam conhecidos na terra os teus caminhos, a tua salvação entre todas as nações”

As pesquisas nos mostram o quanto temos sido abençoados por Deus como nação e o texto bíblico acima nos revela que o Senhor faz isso com um propósito: para que abençoemos também os outros povos.

Hoje, o Brasil tem acesso livre em muitas nações. E isso não deixa de ser um privilégio. Em qualquer lugar do mundo o brasileiro é sempre bem recebido e dispõe de certa liberdade para levar o evangelho. Além disso, muitos brasileiros têm origens em algumas dessas nações, o que pode facilitar o trabalho, tanto indo ao estrangeiro quanto alcançando essas “colônias” (grupos étnicos) dentro do nosso próprio país.

Que o Senhor nos ajude a permanecer fiéis a esse compromisso.

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