Defesa da Fé


Roma é a mesma! Uma visão atual e bíblica sobre o maior império religioso do mundo


Por Paulo Cristiano Silva, do CACP

A suposta unidade da Igreja romana é tratada com triunfalismo pelos católicos, enquanto, segundo afirmam, as igrejas evangélicas são instáveis, dividindo-se constantemente em novas denominações, cada qual com suas doutrinas, disciplinas e costumes. Para seus fiéis, o catolicismo é visto como uma religião sólida e unificada, e partem do seguinte silogismo :


Proposição A: A verdade não pode se contradizer (lei da não-contradição)

Proposição B: As ramificações protestantes não concordam entre si

Conclusão: As igrejas evangélicas não podem ser a Igreja verdadeira de Cristo


Entretanto, como veremos, a tão festejada unidade católica simplesmente não existe na prática. A bem da verdade, a aparência de unidade entre os católicos é mal conduzida, pois existem diferenças importantes em sua teologia e práticas. E são esses elementos que pretendemos analisar nesta matéria.


A diversidade no catolicismo


Intensamente se tem falado do ultraconservadorismo de direita, contrário à ala liberal, do novo papa Bento XVI. O curioso é que muitos, até mesmo os católicos, ignoravam existir algo semelhante dentro do catolicismo. John Ankerberg e John Weldon distinguem várias categorias de grupos católicos romanos no mundo inteiro, entre os quais destacaremos os principais:


Tipos de grupos católicos / Definição/conceito

Nominal ou social / Catolicismo da maioria não comprometida, ou seja, daqueles que, talvez, tenha nascido ou casado na Igreja, mas têm pouco conhecimento da teologia. Na prática, são católicos somente de nome.

Sincretista ou eclético / Catolicismo misturado ou absorvido, em diferentes graus, pela religião pagã da cultura nativa em que ele existe (como, por exemplo, no Bahia, Brasil).

Tradicional ou ortodoxo / Ramo poderoso e conservador do catolicismo romano que sustenta as doutrinas históricas da Igreja, tais como as que foram reafirmadas no Concílio de Trento, no século XVI.

Moderado / Catolicismo romano do Vaticano II. Não é completamente tradicional nem inteiramente liberal.

Modernista ou liberal / Catolicismo “progressista”, posterior ao Vaticano II, que rejeita, até certo ponto, a doutrina tradicional.


Essa diversidade pode até ser negada, porém, não mais escondida. Em entrevista concedida à revista IstoÉ, o historiador católico, John Cornwell, autor do polêmico livro O papa de Hitler, deixou bem claro essa questão quando falou sobre a árdua tarefa que o próximo papa terá de enfrentar: “Ele terá de se esforçar para amolecer as facções em conflito até que a Igreja possa chegar a um novo concílio, ou pelo menos a uma reunião dos bispos do mundo, que decida as atuais disputas”.

Sublinhe-se ainda que esta confissão não é caso isolado, mas uma constante cada vez mais presente dentro do novo perfil católico. A diferença é que os protestantes que cultivam diferenças em suas crenças e práticas identificam-se por nomes diferentes, mas as reconhecem publicamente, enquanto os católicos continuam se chamando pelo mesmo nome (católicos romanos), afirmando que o papa é o seu líder, aparentando uma impressão de unidade.

Um grupo ultraconservador conhecido como True catholic (“Católicos verdadeiros”) apregoava que João Paulo II não era um papa legítimo, porque havia promovido "heresias". E, em razão disso, crêem que a cadeira papal ficou vaga. E, para sanar essa situação, elegeram outro papa.

Alguns padres e freiras católicos ensinam doutrinas totalmente contrárias ao catecismo católico. Contudo, ainda lhes é permitido ensinar em nome da igreja, mantendo posições de influência e autoridade.


Diversidade de ritos, regras e fórmulas


Muitos desconhecem que a diversidade de igrejas que o catolicismo romano comporta hoje é cada vez maior. Trata-se de igrejas cismáticas, ou até mesmo consideradas heréticas, que voltaram ao seio da Igreja romana, mas que, ainda, permanecem com seus ritos e fórmulas de fé variadas. Ao se submeterem à autoridade do papa, que é considerado a pedra de toque da verdadeira unidade, passam a fazer parte da Igreja Católica Romana. A título de ilustração, temos a Igreja nestoriana , a jacobita e a melquita , entre outras. Todas elas realizam seus cultos de modos diferentes, cerimônias diferentes e em línguas diferentes. A eucaristia, por exemplo, é celebrada numa diversidade assombrosa. Uma diversidade que nunca se viu entre as igrejas evangélicas.

Além dessas diferentes igrejas, temos as mais variadas ordens dentro do catolicismo romano, tais como: jesuítas, dominicanos, carmelitas, franciscanos, agostinianos, marianos e outras mais, com uma rica diversidade de regras de vida, ritos, fórmulas, festas, deveres religiosos, dias santos, práticas e pontos de vista diferentes. É notória a diferença dessas ordens entre si, muitas vezes com uma rivalidade vituperiosa, a ponto de perderem a comunhão por causa de questões periféricas de disciplina. Um exemplo histórico e prático do que estamos falando está relacionado às constantes disputas entre os jesuítas e os dominicanos e entre os dominicanos e os franciscanos.


Diferença aparente ou real?


Não há assunto divergente dentro das igrejas evangélicas que não seja também entre os romanistas. Pondere por um instante sobre a diferença que há entre o protestantismo tradicional e o pentecostal, porventura não seria a mesma que há entre o catolicismo tradicional e o carismático?

Outra diferença que os católicos gostam de lembrar são os empregos de artefatos religiosos, como o crucifixo, por exemplo, adotado nas igrejas luteranas e anglicanas, mas ausentes nas demais igrejas evangélicas. Mas não ocorre o mesmo entre as igrejas católicas dos países latinos que, geralmente, são repletas de imagens, as quais, praticamente, estão ausentes entre os católicos norte-americanos.

É digno de nota que enquanto os católicos brasileiros se dobram perante pedaços de ossos e panos antigos, qualificados como relíquias, os católicos ingleses repudiam tal prática. Perguntamos: Onde está a unidade apregoada pelo catolicismo? Na prática, simplesmente não existe!

Todavia, alguém poderia objetar dizendo que as diferenças se concentram apenas no campo das disciplinas, mas nunca no campo da fé ou doutrina. Mas o fato é que divergências doutrinárias sempre estiveram presentes dentro do catolicismo romano, ainda que de modo camuflado.

Diz certa obra católica que “o longo pontificado de Pio VI foi marcado por profundas divergências no campo doutrinal”. Ainda essa mesma obra afirma que o papa João Paulo II foi atacado por um padre de uma ordem rival ligado a uma corrente contrária à reforma do Concílio Vaticano II em uma de suas viagens a Fátima.

Consideremos alguns exemplos. Na época em que foi proposto o dogma da infalibilidade papal houve não pouca divergência entre os líderes católicos de diversos países. Sinal de que não havia nenhum consenso doutrinário entre eles. Assim também foi em relação aos livros apócrifos dogmatizados no Concílio de Trento e com o dogma da “Imaculada Conceição de Maria”. Sempre havia disputas teológicas sobre esses pontos, considerados essenciais para a fé católica atual. É sabido que quanto a este último houve uma acirrada disputa entre os franciscanos e os dominicanos.

Hoje em dia, existem os teólogos católicos que pregam a “teologia da libertação”, cujo evangelho difundido é contextualizado com ideais socialistas. Um dos representantes mais proeminentes dessa corrente aqui no Brasil é o frei Leonardo Boff (afastado por Ratzinger), que não poupa críticas quanto à postura da Igreja católica por sua omissão ao evangelho socialista.

E o que dizer dos polêmicos padres parapsicólogos que, além de ir contra a muitas doutrinas da Igreja católica, chegam até mesmo a desmentir a própria Bíblia Sagrada? O mais popular deles aqui no Brasil, o jesuíta Oscar G. Quevedo, foi proibido pelo Vaticano de pregar suas teorias, pois colidia com os ensinos da Igreja. Entretanto, outros permanecem atuando em nome da Igreja católica.

Enquanto algumas paróquias católicas realizam a festa de “santo reis”, perpetuando a crença nesse culto popular, tal festa é repudiada por tantos outros católicos. Aliás, essa festividade nunca foi oficializada pelo papa.

Enquanto a Igreja católica mexicana sanciona tradições de religiões “bárbaras”, como, por exemplo, as autoflagelações e as autocrucificações, com o fito de apagar os pecados dos fiéis, esses procedimentos são altamente repudiados pela Igreja católica brasileira.

Poderíamos aumentar esta lista com mais exemplos, contudo, pensamos que já foi possível aos leitores perceberem que o argumento baseado na suposta unidade católica não procede, rui por terra ante a verdade dos fatos. Simplesmente, porque essa unidade não funciona na prática.


Qual é a verdade dos fatos?


Depois de tudo o que foi exposto, devemos considerar que a Igreja romana não tem envergadura moral para acusar as outras igrejas da cristandade por suas diferenças e divisões. É hipocrisia apelar para a diversidade de outros grupos religiosos, acusando-os de falta de unidade, enquanto a Igreja católica tolera essas mesmas diferenças em seu próprio seio, sob eufemismos terminológicos.

A verdade é que o catolicismo possui suas divergências e diferenças, mas não admite, pois concorda em submetê-las à decisão da sede papal que, para os católicos, é o centro da unidade. Por outro lado, os evangélicos possuem também suas diferenças, mas procuram submetê-las ao seu único líder: Jesus, cuja autoridade exposta nas Escrituras compõe o centro dessa unidade. Não passam de meras distinções na forma de culto. São elementos que não afetam os principais artigos de fé de nossas igrejas. E, ainda, quando falamos em artigos de fé, reportamo-nos aos nossos credos. Assim, as igrejas evangélicas ou protestantes seguem na mesma linha reta em relação ao que crêem. É claro que pode haver diferença a respeito da aplicação de algumas palavras, mas todas estão de acordo com o principal. Basta comparar os credos das várias denominações protestantes entre si. Quanto aos pontos de disciplina, porém, é difícil determinar em qual das igrejas há maior divergência.


Notas:

1 Argumento que consiste em três proposições: a primeira, chamada premissa maior; a segunda, premissa menor; e a terceira, conclusão. Admitida a coerência das premissas, a conclusão se infere da maior por intermédio da menor.

2 ANKERBERG, John; WELDON, John. Os fatos sobre o catolicismo romano. Obra Missionária Chamada da Meia-Noite: Porto Alegre, 1997, p. 19-20.

3 Edição de09/08/2002, sob o título “É preciso uni a Igreja”.

4 Citado no livro O espírito do catolicismo, da ex-freira Mary Ann Collins, traduzido por Mary Schultze, versão on-line. Este livro está disponível no site www.cacp.org.br.

5 Os católicos costumam fazer distinção entre “heréticos” e “cismáticos”. Herético é aquele que ensina doutrinas errôneas, seria o apóstata. Já o cismático, é aquele que, apesar de estar no cisma com o catolicismo, não ensina, todavia, erros doutrinários. Observação: Enquanto o Concílio de Trento considerou os protestantes heréticos, o Vaticano II revogou esse termo para um menos ofensivo: “irmãos separados”.

6 Nestório (451 d.C.) foi condenado no Concílio de Éfeso (431 d.C.). Seus seguidores separaram-se da cristandade ortodoxa e fundaram uma igreja cismática, a Igreja Nestoriana. Espalharam-se pela Ásia Central até o extremo Leste da Ásia, traduzindo a Bíblia para várias línguas, à medida que se iam deslocando. O nestorianismo é deficiente, não em relação à doutrina das duas naturezas de Cristo, mas, sim, quanto à Pessoa de cada uma delas. Concorda com a autêntica e própria deidade e a autêntica e própria humanidade, mas não entende que são concebidas de forma que compõem uma verdadeira unidade, e muito menos que constituem uma única pessoa. As duas naturezas seriam igualmente duas pessoas. Ao invés de mesclar as duas naturezas em uma única autoconsciência, o nestorianismo as situa lado a lado, sem outra ligação além de mera união moral e simpática entre elas. Jesus seria um hospedeiro de Cristo.

7 Em 542, o patriarca oriental, Teodósio I, ainda na prisão, consagra bispo Jacó Baradai, que logo passa a ser perseguido e, por fim, é obrigado a fugir. Com trajes miseráveis, Baradai prega na Síria e no Egito, onde, segundo alguns relatos, em pouco tempo teria consagrado 27 bispos e um grande número de padres, criando uma hierarquia desvinculada daquela de Alexandria. Essa Igreja, denominada “jacobita”, é considerada herética por abraçar o monofisismo (doutrina que prega que a humanidade de Jesus foi absorvida em sua divindade). Doutrina difundida na Síria oriental e na Pérsia.

8 A definição “melquita” foi dada à Igreja depois do Concílio Ecumênico da Calcedônia, em 451. As definições cristológicas do Concílio foram aprovadas pelo papa Leão I, por seus delegados, sendo que, desde então, se firmou claramente o primado de Roma sobre as outras igrejas. Todavia, a aceitação das definições conciliares não foi tão simples, pois havia, nos bastidores, motivos políticos: alguns patriarcas apoiavam o imperador de Constantinopla, enquanto outros (siríacos, coptas e armênios), recusavam essa “colonização bizantina”, procurando se separar do império. Os que aceitaram as definições do Concílio, apoiado pelo imperador Marciano, foram chamados de melquitas (da palavra heb. melek = imperador); o papa foi apelidado de “chefe dos melquitas” e as igrejas, que permaneceram fiéis ao Concílio e a Roma, foram denominadas simplesmente melquitas.

9 PINTONELLO, Aquiles. Os papas. Edições Paulinas: São Paulo,1986, p. 140-98.

10 AQUINO, Felipe Rinaldo Queiros de. Falsas doutrinas: seitas & religiões. Ed. Cléofas: Lorena, 2002, p. 47.

11 Entre os anos 50 e 60, houve grandes disputas entre as facções católicas no Brasil, especialmente em Belo Horizonte. MG, como mostra a Revista de história regional, sob um enfoque sociológico. Uma opção para quem queira se aprofundar no assunto é o livro de Arnaldo Lemos Filho: Os catolicismos brasileiros, editora Alínea.

12 SEYMOUR, M.H. Noite com os romanistas – coleção Vaticano II. Edições Cristãs: Ourinhos, 1998.

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