Defesa da Fé


Terrorismo - Como a teologia islâmica influência os grupos radicais muçalmanos


Por Jorge Pinheiro

É comum, no Ocidente, o pensamento de que somente o cristianismo produziu teologia, enquanto o islamismo esteve desprovido de tais reflexões em seus quase 1400 anos de história. Acrescenta-se a esse equívoco o fato de os cristãos, raramente, associarem o pensamento teológico islâmico à expansão de seus movimentos revolucionários.

Não é nem um pouco razoável desconsiderar o postulado de que influências formadoras de opiniões tenham delineado o comportamento fundamentalista islâmico que tem sido noticiado nos meios de comunicação do Ocidente, os quais, aliás, façamos justiça, muitas vezes, distorcem os fatos.

Na verdade, o islamismo sempre produziu teologia, fruto de reflexões apoiadas em seu livro sagrado, o Alcorão, e na tradição islâmica posterior. Entre os vários expoentes representantes dessa teologia, apropriamo-nos (não segundo a nossa conveniência, mas segundo o reconhecimento que possuem junto ao mundo muçulmano) de dois pensadores religiosos que revolucionaram a teologia islâmica. São eles: Hassan al-Banna e Sayyd Qutb, ambos tendo produzido suas obras no século 20.

Almejamos, nesse caminho, proporcionar aos leitores de Defesa da Fé ferramentas para interpretação e compreensão do comportamento hostil que se vê entre grupos fundamentalistas islâmicos. E faremos isso a partir da análise das idéias e propostas desses intelectuais religiosos muçulmanos.

Antes, porém, e com a finalidade de desmistificarmos o mito de que cultura árabe e islamismo são sinônimos (isto é, são a mesma coisa), gostaríamos de convidar o leitor para que ponderasse conosco sobre um pouco de nossa dívida intelectual e histórica para com o mundo árabe.


Cultura e teologia


O Oriente Médio é uma das regiões que observou as civilizações nascerem. Povos diferentes ocuparam seus desertos e vales férteis. Levas de invasores e nações dominadas se alternaram ao longo da história a tal ponto que se tornou difícil separar os laços culturais construídos nos últimos séculos.

A partir do século de nossa Era, os árabes ocuparam os espaços da cultura cristã helênica (grega) nas regiões da Síria, Palestina, Mesopotâmia, Pérsia, Egito e norte da África. Absorveram essas culturas e o helenismo (herança cultural grega) e desenvolveram áreas da ciência e da filosofia.

Foram grandes as contribuições dos árabes na matemática, na química, na medicina, na agronomia e na filosofia para a cultura ocidental. Para mencionar somente um exemplo dessa assertiva, recorremos às traduções do grego para o siríaco e para o árabe das obras dos filósofos Platão e Aristóteles.

Em 711, sob a liderança de Tariq ibn-Ziyad , os árabes invadiram a Península Ibérica , derrotando os visigodos . Criaram o Emirado de Córdoba, em 756, que, posteriormente, passou a ser Califado , tornando-se independente de Bagdá, dando origem ao reino árabe da Espanha, El Andaluz.

É importante destacar que, naquela época (século 9), Bagdá (na Mesopotâmia), capital do império árabe, era a cidade mais desenvolvida do mundo, sem rivais no Ocidente. E Córdoba, por sua vez, a cidade mais importante da Europa.

Na Espanha, os árabes desenvolveram uma cultura helenística de leitura árabe, cuja tendência criou as bases teóricas e metodológicas para o desenvolvimento da escolástica do século 13.

Para vislumbrar a riqueza daquela civilização, é válido citar três vultos do pensamento medieval que exemplificam esse florescimento do pensamento árabe:

• Hunayn ibn Ishaq (808-873), árabe cristão, que viveu em Bagdá e traduziu e comentou as obras de Aristóteles.

• Averróes (1126-1198), viveu em Córdoba e se tornou o maior comentador de Aristóteles no Ocidente. Aliás, foi por meio dele que Aristóteles ficou conhecido no mundo cristão latino.

• Moisés Maimônides (1135-1204), também nascido em Córdoba, é o maior pensador judeu da Idade Média. Contemporâneo de Averróes, foi profundo conhecedor de Aristóteles e da cultura muçulmana. Escreveu, inclusive, sua principal obra, Guia perplexos, em árabe.

Dentro desse contexto, era de se esperar que os árabes cristãos desenvolvessem uma exegese e uma teologia bíblica peculiar e profunda, principalmente do Novo Testamento.

Ibn Al-Salibi, Ibn-Tayyb e Ibn Al-Assãl foram eruditos cristãos de primeira grandeza. Al-Salibi redigiu uma belíssima obra de exegese, O livro das pérolas inusitadas de interpretação do Novo Testamento, em 1050. Tayyb, admirável teólogo árabe cristão, escreveu um extenso comentário dos quatro evangelhos, publicado no Cairo (Egito), em 1908.

Evocamos, aqui, todos esses nomes para ambientar o leitor, a fim de que não percamos de vista que o mundo árabe também foi muito fértil em seu legado intelectual, não obstante isso ser, muitas vezes, marginalizado.

A partir disso, passaremos a uma explanação mais direta e objetiva do nosso tema, conciliando-o com as declarações das autoridades muçulmanas já apresentadas.


Os dois significados de jihad


Geralmente, quando um leigo pensa em fundamentalismo islâmico, quase que imediatamente lhe vem à mente a ação terrorista e as guerras. Em certo sentido, especialmente em nossos dias, isso é totalmente justificável e, para entendermos um pouco melhor a questão, recorreremos à gênese doutrinária do comportamento islâmico fundamentalista.

A “guerra santa”, como é qualificada pelos muçulmanos, tem seu conceito derivado da palavra jihad, que significa “esforço”. No islamismo clássico, o verdadeiro esforço é aquele voltado à causa religiosa, e uma das modalidades desse esforço pode, de fato, ser a guerra, pois, como consta no Alcorão, o termo autoriza duas leituras, uma associada à guerra interior e espiritual e outra à exterior e militar.

No islamismo, tal guerra tem como finalidade a conquista da paz, para que o mundo não seja tomado por aquilo que eles entendem ser o caos. Nesse sistema de crença, existem limites bem estabelecidos para a guerra. O combate não pode envolver civis, crianças, mulheres e idosos. Essa seria a forma de jihad mais conhecida no mundo ocidental.

Todavia, há, ainda, o esforço no sentido espiritual, que seria a batalha do sufismo , a dimensão mística do Islã. Para o Islã tradicional, a guerra exterior, bélica, é secundária, exatamente o contrário do que pensa o Islã fundamentalista. A guerra interior é mais importante. É a verdadeira guerra que deve ser enfrentada pelo fiel muçulmano.

Há uma história de Maomé que nos demonstra um pouco dessa perspectiva islâmica em relação à guerra. Conta-se que Maomé voltou de uma batalha e chegou a Meca. Ali, aclamado pelo povo, por sua vitória, alguém o congratulou: “Voltaste vencedor do Jihad”. Ao que ele respondeu: “Voltei do pequeno Jihad contra os inimigos do Islã. Mas o essencial é o jihad al-akbar, aquele que todo homem deve travar dentro de sua própria alma, a batalha contra as paixões”.

A morte no islamismo clássico só é justificada quando o seu objetivo é a defesa da própria vida. Ao muçulmano, segundo este ditame, não é autorizado iniciar o ataque fora dessas premissas, pois, como já vimos, do ponto de vista místico, as guerras são lutas interiores.

Essa compreensão tem como ponto de partida o entendimento islâmico sobre o problema do mal, que é visto não como “ser” ou realidade objetiva, mas como questão metafísica. O mal, para o islamismo, é a sombra do bem. Não possui existência autônoma. Para o muçulmano, o mal é como a sombra que incide sobre uma pessoa ou objeto quando estes recebem a luz.

Não obstante estes contrapontos encerrados nos dois conceitos de jihad, o alvo dos noticiários, inegavelmente, são sempre as lutas exteriores, até porque, apesar de ser representado por um grupo menor, este tipo de guerra é fomentada por muçulmanos radicais e militantes. Na verdade, a predisposição do homem para fazer uma entrega total de si próprio sempre foi peculiaridade da cultura árabe, o que foi potencializado com o advento do Islã. Agora, nos dois últimos séculos, o conceito de jihad deu origem a uma teologia que deixa a vida à mercê de convicções religiosas nem sempre consensuais.

Vejamos como esta nova roupagem vestida pelo jihad se desenvolveu por intermédio de formadores de opiniões islâmicos.


Hassan al-Banna


No século 20, as idéias e conceitos se radicalizaram. Em 1928, com apenas 22 anos, professor graduado pela universidade de Al-Azhar, no Egito, Hassan al-Banna deu início à Irmandade Muçulmana. “O Islã é fé e devoção, é um país e é cidadania, é uma religião e um Estado, é espiritualidade e trabalho duro, é o Alcorão e a espada”, disse ele.

Em seu livro mais conhecido, Carta a um estudante muçulmano, datado de 1935, sobre como o muçulmano deveria se comportar no exterior, afirmou: “Todos os prazeres trazidos pela civilização contemporânea não resultaram em nada, a não ser em dor. Uma dor que vai superar seus atrativos e remover a sua doçura. Portanto, evite os aspectos mundanos deste povo [mundo ocidental]: não deixe que eles tenham poder sobre você e o enganem”.

Mas o grande aporte de Al-Banna foi a definição do conceito de jihad, que antes dele era visto como guerra interna do crente muçulmano em busca do caminho reto e guerra defensiva em caso de ataque dos infiéis. A partir deste pensador, o jihad passa a ser conceituado como uma obrigação para “converter” o mundo muçulmano àquilo que Al Banna considerava ser o “islamismo puro”.

Em seu livro, A mensagem dos ensinamentos, Al-Banna diz: “Por sacrifício eu entendo dar-se totalmente: sua riqueza, seu tempo, sua energia e tudo o mais pela causa do Islã. Não há jihad sem sacrifício. E não há sacrifício sem uma recompensa generosa por parte de Deus. Quem evita o sacrifício é pecador. Por isso, queridos irmãos, vocês entendem o nosso tema: a morte na luta por Deus é a nossa grande esperança”.

E, no mesmo livro, Al-Banna definiu os cincos objetivos da Irmandade Muçulmana. A saber:


1. Deus é nosso objetivo

2. O Mensageiro é o nosso exemplo

3. O Alcorão é a nossa constituição

4. O Jihad é o nosso método

5. O martírio é o nosso desejo


Aos 43 anos, Al-Banna foi assassinado, mas seus ensinamentos só têm crescido entre a jovem intelectualidade sunita . No seu livro, A indústria da morte (perceba o leitor como já no título o livro é sintomático), há uma frase que se tornou definitiva para a vida do crente revolucionário sunita: “Para uma nação que aperfeiçoa a indústria da morte e sabe morrer de forma nobre, Deus dá uma vida de orgulho neste mundo e terna graça no mundo que está por vir”.

Hoje, a Irmandade Muçulmana está presente no Egito, Síria, Arábia Saudita, Jordânia e Líbano. E, na Arábia Saudita, possui até uma universidade em Medina. O lema de Al-Banna, cunhado em 1928, continua seduzindo corações e mentes muçulmanas: “Preparem-se para o jihad e sejam amantes da morte”.


Sayyd Qutb


Na década de 50, outro teórico vai marcar e aprofundar os conceitos definidos por Al-Banna. Estamos falando de Sayyd Qtub, que publicou mais de trinta volumes, os quais ficaram conhecidos como À sombra do Alcorão.

Para Sayyd Otub, “a rebelião contra Deus transferiu ao homem o maior atributo de Deus, a soberania sobre todas as coisas. E fez alguns homens senhores de outros. Somente num sistema islâmico de vida, todos os homens se tornam livres da servidão de alguns homens a outros homens e se devotam à submissão do Deus único, recebendo dele orientação e se curvando diante dele”.

Em seu livro, Sinalizações da estrada, Qtub afirma: “Essa religião [islamismo] é realmente uma declaração universal para libertar o homem da servidão a outros homens e da servidão aos seus próprios desejos. É uma declaração de que a soberania pertence apenas a Deus e que Ele é o Senhor dos mundos. É um desafio a todos os tipos e formas de sistemas baseados na soberania do homem [...] Em resumo, é preciso proclamar a autoridade e a soberania de Deus para eliminar toda forma humana de governo e anunciar o mando daquele que sustenta o Universo sobre a Terra inteira”.

E, para que isso se torne uma realidade, adverte: “O estabelecimento do domínio de Deus na terra não pode ser atingido apenas com a pregação. Aqueles que usurpam o poder de Deus sobre a terra não desistirão de seu poder meramente por meio da pregação. Se assim fosse, a tarefa de estabelecer a religião de Deus no mundo teria sido fácil para os profetas de Deus. E isso é contrário a toda evidência da história dos profetas e da história das lutas da verdadeira religião em todas as gerações”.

Assim, Qtub sugere que o Islã crie um Estado muçulmano exemplar que sirva de modelo para o mundo islâmico e se lance no jihad global, a fim de eliminar toda e qualquer forma de governo que tenha por base a soberania humana.

Em 1996, Qtub foi condenado à morte por enforcamento pelo governo de Nasser, no Egito. Hoje, ele é considerado, pelos revolucionários sunitas, um mártir da causa islâmica.


Conseqüências ideológicas


A solução proposta por Hassan al-Banna e Sayyd Qtub é o retorno aos fundamentos criados na antiga Arábia por Maomé e seus primeiros sucessores. Essa teologia de negação da vida deu base religiosa aos movimentos que, a partir dos anos 70, transformaram-se na principal força de contestação no Oriente Médio. E, diante do desgaste dos nacionalistas árabes, como o nasserismo, no Egito, A Frente da Libertação Nacional, na Argélia, e o kemalismo, na Turquia, todos de tradição sunita, a teologia de negação da vida grassou pelo mundo islâmico.

A introdução da leitura teológica no cenário islâmico (que aconteceu em 1979, com a revolução de Khomeini, no Irã, que se opunha, como os demais teóricos citados, tanto ao capitalismo como ao comunismo) aumentou a radicalização e a aversão ao mundo ocidental. Assim, a partir daquele ano, nasceram os movimentos xiitas, que se construíram sobre o exemplo dos aiatolás iranianos.

Não podemos nos esquecer de que, para Sayyd Qtub, a principal ação teológica do Islã não é mais a “islamização” que, no início, alcançaria as bases da população, como propunha Al-Banna, mas a eliminação dos regimes dos infiéis, por meio do jihad global. Assim, foi com Qtub que a teologia de negação da vida se transforma numa teologia de morte e, infelizmente, muitas vezes, de assassínio, que condena qualquer muçulmano que não se torne um combatente contra os infiéis.

Nos Estados islâmicos, acontece, então, uma polarização e uma divisão entre os agrupamentos religiosos que assumem essa teologia de negação da vida e os movimentos que ainda acreditam num possível nacionalismo islâmico.

Foi, porém, com a guerra no Afeganistão, que se produziu um salto qualitativo na ação político-militar desses agrupamentos religiosos. Osama Bin Laden, discípulo declarado de Qtub, dá início à unificação de movimentos e grupos religiosos que, até então, estavam separados entre si. A participação dos mulás e dos voluntários do jihad na guerra contra os soviéticos no Afeganistão e a vitória que conquistaram deu consistência à teologia de negação da vida e deslanchou a luta pela formação da Umma, ou Nação Islâmica, em oposição à teoria das revoluções nacionais.

Al Qaed (o Movimento Islâmico do Usbequistão, também conhecido como MIL), de Juma Namangani, e Hizb ut-Tahrir al-Islami (Partido da Libertação Islâmica) são exemplos trágicos dessa teologia islâmica levada à prática.

Assim, o jihad na Palestina, na Chechênia, na Caxemira e nas Filipinas, tanto quanto os atentados contra as torres de Nova York e nos meios de transporte na Espanha e, mais recentemente, na Inglaterra, são as diferentes faces de uma mesma teologia de negação da vida que prega a formação de uma única nação islâmica que declare guerra global ao Ocidente infiel (são também, é claro, uma atitude de retaliação contra os árbitros norte-americanos).


Ressalvas e conclusões


Não podemos concluir esta matéria sem antes enfatizar que a maioria dos muçulmanos não rege sua vida por meio de uma teologia que a negue. Não visamos, aqui, solucionar ou, simplesmente, incriminar o fundamentalismo muçulmano. Se fosse essa a nossa intenção, este artigo teria sido reducionista, pois elementos variados e importantes conectados à tensão causada pelo terrorismo não foram sequer mencionados.

Em verdade, o nosso objetivo, tão-somente, é conferir ao leitor de Defesa da Fé um panorama que lhe permitisse considerar que os movimentos revolucionários islâmicos não surgiram num vácuo intelectual, e também propor um posicionamento cristão diante do assunto.

No cristianismo, a aceitação de Cristo à morte de cruz nos legou, como seus discípulos, a teologia da vida, tanto neste mundo quanto no mundo vindouro. O apóstolo Paulo declara que, em Cristo, Deus reconciliou consigo o Universo, estabelecendo a paz pelo sangue de seu Filho, Jesus, derramado na cruz (2Co 5.18).

A cristologia paulina transpõe o momento de morte da paixão e da cruz de Cristo. Se Jesus, como explicou Lutero, veio até nós e sofreu uma morte real “envolto em nossos pecados”, se Ele morreu sentindo em si mesmo e em sua consciência a agonia da separação, se o Pai se fez oculto no momento de sua morte, é fundamental não esquecer que esse Pai, que tem o poder da própria vida, é quem resgata Jesus da morte. E essa cruz sem rosas traz algo novo: vence a morte, ressuscita! (1Co 15.55).

Cristo foi levado à morte para que a morte fosse banida de nossas vidas. Se as teologias de Al-Banna e Sayyd Qtub definem como pecadora e merecedora de morte toda a herança iluminista e reformada que caracteriza o mundo Ocidental e o protestantismo, dizemos, contrariando tais teologias, que o mundo não necessita de morte, mas de vida. E é justamente essa a nossa tarefa: levar vida, levar Cristo, porque Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. E foi o próprio Cristo que nos confiou tão honroso ministério!


Os “cristãos” também guerrearam em nome da fé


Em 638 d.C., os árabes, de fé islâmica, tomaram a Palestina, inclusive Jerusalém. Durante séculos, aquela ocupação não chegou a criar problemas. Mas, em 1071, a Terra Santa foi capturada pelos turcos-otomanos, que também eram muçulmanos, mas diferente dos anteriores, eram intolerantes para com os cristãos e passaram a criar todo o tipo de dificuldades aos peregrinos de fé cristã que visitavam Jerusalém.

Por motivos políticos (principalmente), e para atender os fiéis desejosos de retomarem as peregrinações, o papa Urbano II declarou guerra aos “infiéis” muçulmanos conclamando as multidões sob o brado de “Deus o quer! Deus o quer!”. O fervor religioso espalhou-se por toda a Europa. As pessoas acreditavam firmemente que o cristianismo estava em perigo e, por conta disso, deveriam defendê-lo, porque assim estariam cumprindo a vontade de Deus. O papa Urbano II prometeu a todos os que partissem para a guerra contra os infiéis muçulmanos teriam seus pecados perdoados e iriam para o céu após a morte.

Os cavaleiros que, a partir de 1095, atenderam ao chamado do papa para fazer parte de uma expedição à Terra Santa, escolheram, como símbolo, uma cruz pintada na armadura ou bordada nas vestes. Por isso foram chamados “cruzados”. Seriam, então, os guerreiros da cruz, os defensores do cristianismo.


Notas de referência:

1 Foi um general Omíada e muçulmano berbere que comandou a conquista da Península Ibérica, ocupada, até então, pelos visigodos, em 711. Musa ibn-Nusair, governador do Norte de África (Magrebe), incumbiu-o de defender a posição de um grupo de herdeiros do rei Vitisa, facção inimiga do reino visigodo. Em 30 de Abril de 711, o exército de Tárique desembarcou no rochedo que, posteriormente, foi chamado de Djebel el-Tarik ou Jabal tariq. Ou seja, o monte de Tárique, que hoje é conhecido como Gibraltar.

2 A Península Ibérica é uma península européia localizada no Sudoeste desse continente. É ocupada por três Estados: Portugal, Espanha e Andorra, e um território britânico: Gibraltar.

3 O reino visigodo, na Espanha, estava, inicialmente, sob o domínio dos ostrogodos, da Itália, mas logo tornou-se independente. Para conquistar o domínio da Península Ibérica, os visigodos enfrentaram os Suevos, os Alanos e os Vândalos, povos bárbaros que tinham ocupado o país antes de sua chegada. A unificação quase se concretizou durante o reinado de Leovigildo, mas ficou comprometida pelo problema religioso: os visigodos professavam o arianismo e os hispano-romanos eram católicos. O próprio filho de Leovigildo, Hermenegildo, chegou a sublevar-se contra o pai depois de converter-se à religião católica. Mas esse obstáculo para a fusão com os hispano-romanos resolveu-se em 589, ano em que o rei Recaredo proclamou o Catolicismo religião oficial da Espanha visigótica. A Monarquia visigoda foi destruída em 711, pela invasão muçulmana procedente do norte de África.

4 Califa foi o título tomado por Abu Bakr, sogro de Maomé, quando ele (Abu Bakr) o sucedeu como líder da Ummah (ou comunidade do Islão), em 632. O detentor deste título clama a soberania sobre todos os muçulmanos. A palavra califa vem do árabe latinizado em (calipha), uma adaptação da palavra árabe Khalifa, que significa, literalmente: “sucessor do profeta”. Khalifa vem do verbo khalafa, que quer dizer: “suceder” ou “vir atrás”.

5 A escolástica é uma linha dentro da filosofia medieval, de acentos notadamente cristãos, surgida da necessidade de responder às exigências de fé, ensinada pela Igreja, considerada, então, a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a cristandade. Por assim dizer, era responsável pela unidade de toda a Europa que comungava da mesma fé.

6 Seu verdadeiro nome era Abu al-Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn Ruchd.

7 O sufismo é uma corrente mística do Islã em que rituais, santos e irmandades são correntes. Embora muitas escolas ou tekkes/tariquas possam ser classificadas como xiitas ou sunitas, ou ambas, há algumas formas de sufismo que não são claramente nem xiitas nem sunitas e constituem, dessa forma, uma esfera separada da fé islâmica.

8 A corrente sunita é a maior seita do Islã, com 85% dos muçulmanos. A maioria deles acredita que o nome sunita deriva da palavra suna, que é a forma de conduta do profeta Maomé. Alguns afirmam, porém, que o termo deriva de uma palavra que significa “um caminho moderado”, referindo-se à idéia de que o sunismo toma uma posição mais neutral do que aquela que tem sido levada ao extremo pelos xiitas e pelos caridjitas.

9 Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito, entrou para a História como um dos líderes carismáticos do movimento terceiro-mundista, que se esboçou com mais força desde a Conferência Afro-Asiática de Bandung, em 1955.

10 Mustafa Kemal Atatürk (12 de março de 1881— 10 de novembro de 1938), foi soldado e estadista, fundador e primeiro presidente da República da Turquia. Nasceu na cidade otomana de Selânik (hoje Tessalônica, na Grécia). De acordo com uma tradição turca, ele recebeu o nome único de Mustafa. Seu pai, Ali Rizá, era inspetor alfandegário e morreu quando Mustafa era ainda criança.

11 Khomeini regressou ao Irã em 1 de fevereiro de 1979, a convite dos revolucionários. Tomou o poder em 11 de fevereiro de 1979. Quando, então, foi criada uma República Islâmica, na qual o próprio Khomeini tornou-se chefe de Estado vitalício, como líder da Revolução, e, mais tarde, líder espiritual supremo. Seu regime, em breve, terminou a ocidentalização (ou modernização) da sociedade que tinha tido lugar durante o governo do Xá. Khomeini tornou-se a figura central do culto de personalidade. Com isso, a oposição ao regime religioso foi, com freqüência, punida duramente. No seguimento imediato da revolução, houve alegações de abusos sistemáticos dos direitos humanos, incluindo até mesmo torturas.


Bibliografia recomendada:

COLLEY, J.K., Una guerra ímpia. Milano, 2000.

CHIELSA, G., Vauro, Afghanistan anno zero. Milano 2001.

FULLER, E.G.; LESSER, I.O, Geopolitica dell’Islam. Roma, 1996.

HOURANI, A., L’Islam nel pensiero europeo. Roma, 1991.

KEPEL, G., Jihad ascesa e declino dell’islamismo. Roma, 2001.

MERVIN, S., L’Islam fondamenti e dottrine. Milano, 2001.

RASHID, A., Jihad. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

SCHULZE, R., Il mondo islâmico nel XX secolo: política e società civile. Milano, 1998.

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