Defesa da Fé


Opus Dei ou Opus Hominis?


Obra de Deus ou obra de homens?


Por Eguinaldo Hélio de Souza


Tudo começou com Dawn Brown e seu polêmico Código de Da Vinci. Nessa ficção, o Opus Dei, uma das muitas “facções” do catolicismo, aparece como uma organização obscura que tenta ocultar a verdade sobre fatos do cristianismo primitivo, apelando até mesmo para o homicídio.

Claro que o livro mereceu a crítica do cristianismo em geral por ser uma evidente distorção histórica, mas o fato de envolver o nome dessa organização gerou um efeito dominó que culminou em uma série de outras obras, criticando essa organização de todos os modos. Agora, no entanto, não se tratava mais de ficção de alguma mente fértil, mas de ex-membros da instituição que, após uma convivência dolorosa dentro da mesma, resolveram romper com o silêncio e revelar o que havia por trás das cortinas e feridas de suas almas.

Entre os títulos surgidos, um dos mais recentes, o Opus Dei: os bastidores, foi um verdadeiro tsuname para a organização. É um “livro-denúncia”, por meio do qual ex-membros declaram guerra ao Opus. Um dos autores, Jean Lauand, é professor da Faculdade de Educação da USP e foi numerário da “obra” por 35 anos.

Outro livro que também merece ser citado é Opus Dei: a falsa obra de Deus, que traz o seguinte o subtítulo: “Alerta às famílias católicas”. Nessa obra, a mãe de um numerário fala em resgatar seu filho das garras da seita. Sua estrutura foi copiada de um manual para pais que tiveram seus filhos seqüestrados pelas drogas. Um de seus capítulos tem o sugestivo título: “Alerta! Meu filho foi capturado por eles. Que posso fazer?”. É fácil perceber o tom de revolta da autora, Elizabeth Silberstein, que publicou a obra à sua própria custa.

O site opus livre também causou grande impacto, pois foi criado por e para ex-numerários, para que possam contar suas dolorosas experiências e expor suas críticas ao Opus Dei. No referido site, a obra tem sido dissecada completamente e seus aspectos negativos têm sido revelados por vários prismas.

Dada a ausência de material sobre esse grupo religioso em literatura evangélica, Defesa da Fé não poderia deixar passar em branco essa oportunidade. O que segue é fruto da leitura de todas essas obras, entre outras que o leitor poderá consultar no final do artigo, na bibliografia.


O que é o Opus Dei?


Na Wikipédia, enciclopédia livre da Internet, temos a seguinte explicação: “O Opus Dei [‘Obra de Deus’, em latim] é uma instituição da Igreja Católica — uma Prelatura pessoal, assim declarada pelo papa João Paulo II —, conforme o Código de Direito Canônico — que diz ter como finalidade contribuir para a missão evangelizadora da Igreja [Católica]. O Opus Dei foi fundado por Josemaría Escrivá, em 2 de outubro de 1928. A sede da Prelatura do Opus Dei encontra-se em Roma, junto à Igreja do Prelado, atualmente sob a direção do bispo D. Javier Echevarría.

“O Opus Dei tem como lema encontrar Deus no trabalho e na vida cotidiana. Procura a santificação de cada cristão no trabalho cotidiano, nas tarefas de cada dia. Uma profunda tomada de consciência da chamada universal à santidade e do valor santificador do trabalho diário. Para essa finalidade, a Prelatura proporciona os meios de formação espiritual e atendimento pastoral aos próprios fiéis e também a muitas outras pessoas.

“Por esse atendimento pastoral, as pessoas são estimuladas a levar à prática os ensinamentos do evangelho, mediante o exercício das virtudes cristãs e a santificação do trabalho. Santificar o trabalho significa, para os fiéis da Prelatura, trabalhar segundo o espírito de Jesus Cristo: realizar as suas tarefas com perfeição, para dar glória a Deus e servir os outros, e, desse modo, contribuir para santificar o mundo, tornando presente o espírito do evangelho em todas as atividades e realidades temporais.

“Os fiéis da Prelatura realizam pessoalmente a sua tarefa evangelizadora nos vários âmbitos da sociedade em que estão inseridos. Por conseguinte, o trabalho que levam a cabo não se limita a um campo específico, como a educação, o cuidado de doentes ou a ajuda a deficientes. A Prelatura propõe-se a recordar que todos os cristãos, independente das atividades secular a que se dediquem, devem cooperar na solução cristã dos problemas da sociedade e dar testemunho constantes de sua fé”.

Como se pode notar, estamos diante de uma descrição positiva, provavelmente escrita por alguém ligado à Obra. Mas, atualmente, certos aspectos extremamente lesivos têm sido expostos e demonstram que esses propósitos nobres apresentam uma face obscura que tem valido a crítica de muitos, tanto dentro como fora do Opus Dei. Aliás, a própria descrição explicativa do método de trabalho do Opus, aspirada por seu fundador, José Maria Escrivá, era “influenciar por trás dos bastidores”.

Esses “bastidores”, agora, estão focados por seus ex-membros.


Opus Dei em ação


Seu objetivo principal é infiltrar-se no mundo do trabalho, especialmente nos centros de poder político e nas grandes empresas públicas e privadas, com indivíduos totalmente fiéis ao Opus Dei, e comungar a ideologia ultraconservadora do grupo. Conta com três tipos de membros: numerários, supranumerários e agregados.


• Numerários

São aqueles que se comprometeram a manter uma vida de pobreza, castidade e obediência. Geralmente, têm uma sólida formação universitária ou, alternativamente, podem ser herdeiros de grandes fortunas. Vivem em casas da “Obra”, são celibatários e contribuem, com a totalidade do seu ordenado, para o grupo. A “Obra” atribui-lhes algum dinheiro de bolso para as despesas diárias mínimas, notadamente a alimentação.


• Agregados

São pessoas sem formação universitária. Ou, mais raramente, licenciadas. Não vivem alojadas nas casas da “Obra”, mas assumem os mesmos compromissos que os membros numerários. Realizam, também, o mesmo trabalho apostólico. Algumas de suas funções é efetuar reparações, gratuitas, nas casas do Opus Dei.


• Supranumerários

São pessoas casadas que constituem a face, socialmente falando, mais visível da organização. Apesar de terem menor disponibilidade para o trabalho apostólico, participam, semanalmente, de encontros com responsáveis religiosos, a quem são fiéis, por diversos meios, mas especialmente pela confissão. Também contribuem com importantes quantias monetárias. Todos os membros são obrigados a freqüentar a missa diariamente, a rezar o rosário e a efetuar leituras religiosas.


• Cooperadores

Os simpatizantes do Opus que não queiram ou não possam ser membros têm o estatuto de cooperadores. E, como tais, os católicos podem participar das ações de formação, nomeadamente nos retiros.

O Opus Dei atua captando adolescentes em colégios católicos. Esses adolescentes são, inicialmente, aliciados para participar de atividades nos clubes católicos de tempos livres, onde jamais se menciona o Opus Dei. Mais tarde, os mais brilhantes entre esses jovens são convidados para participar dos retiros de fim de semana, onde a doutrinação é mais severa. Então, são levados a acreditar que só há felicidade no serviço de Deus e que a única maneira correta de servir a Deus é dentro do Opus Dei.

O papel da família é rapidamente suprido pelo “diretor espiritual”, que, sendo também o confessor, controla a vida privada dos jovens. Aos dezoito anos, o jovem, futuro tecnocrata, está condicionado e pronto para se comprometer com a “Obra”. O seu futuro será “servir”. Uma parte muito importante da estratégia da “Obra” passa, portanto, pelo ensino. A Universidade de Navarra, em Pamplona, já foi reconhecida pelo Estado espanhol. Em Portugal, o Opus Dei controla, por meio da Cooperativa Fomento, os colégios Horizonte (Porto), Cedros (Gaia), Mira-Rio e Planalto (ambos em Lisboa),

A “Obra” vangloria-se de contar com cerca de 80 mil membros, oriundos de noventa países. Desses 80 mil, apenas 1.600 são sacerdotes. Apesar da sua enganadora (por ser discreta) boa imagem nos países latinos, sofreu, em 1997, uma humilhação pública ao ser considerado, pelo Parlamento belga, uma organização sectária, tal como a Igreja de Cientologia, Testemunhas de Jeová, entre outras seitas.

Na Espanha, o Opus Dei desfrutou de enorme influência durante o período final do franquismo . Efetivamente, um dos últimos governos de Franco contava, entre os seus dezenove ministros, com doze membros do Opus Dei.


Rede de influência


É considerado um órgão de grande influência dentro do catolicismo e, constantemente, é acusado de manipular a política do Vaticano. Os jesuítas espanhóis culparam seu fundador de estar criando uma espécie de “maçonaria dentro da Igreja”. Alegam ter milhões de cooperadores diretos e indiretos e seu patrimônio é avaliado em 2,8 bilhões de dólares.

O Opus Dei possui, também, uma editora, a Quadrante, fundada em 1966, cuja finalidade é difundir o pensamento da obra. Todo membro é, de alguma forma, envolvido na expansão da editora, e isso, muitas vezes, de forma opressiva. A venda de assinaturas anuais de livros funcionou, durante muito tempo, de forma semelhante à venda da literatura da Sociedade Torre de Vigia (das testemunhas de Jeová); ou seja, com cotas e pressão, quando as vendas não eram atingidas, o que dava a esse trabalho um caráter espiritual.

A Universidade de Navarra pertence ao Opus Dei e dá muita ênfase à formação jornalística. Uma das frases de Escrivá era: “Vamos embrulhar o mundo em papel jornal”. No Brasil, a influência de Navarra pode ser vista na vida de Carlos Alberto Di Franco, membro numerário da “Obra”, representante da Escola de Comunicação e diretor-master de Jornalismo. Sua coluna no jornal Estado de São Paulo é bem conhecida. E ele passou a ser muito abordado desde que a sua ligação com o Opus Dei foi revelada

Não podemos deixar de citar, ainda, o Colégio Catamarã, escola administrada por pessoas ligadas ao Opus Dei. Os supranumerários são incentivados a matricular seus filhos nesse colégio e, caso não façam isso, sua fidelidade à “Obra” é questionada. Lá, a organização busca recrutar novos adeptos, o que é feito de maneira muito discreta, por isso a ligação entre o Colégio e o Opus é difícil de ser apontada. De qualquer forma, esse é um de seus pontos de influência no Brasil, exercida por quatro elementos principais. Vejamos:


Recrutamento

Ao “recrutar” alguém, ao incitá-lo a participar do Opus Dei, o indivíduo não é informado de tudo imediatamente. A “Obra” se apresenta como uma entidade com finalidades científicas, um clube de jovens. O processo que envolve o aspecto religioso é muito lento. A pessoa, aos poucos, participa de palestras, proferidas por um padre da organização, até ser definitivamente envolvida. Quando chega o momento, então ela é chamada a “apitar”, designação usada quando a pessoa se submete aos votos de pobreza, castidade e obediência da ordem.

Para isso, alguém devidamente preparado fala que a vocação de tal pessoa foi percebida e que, agora, não pode fugir do chamado, antes, que tem de aceitar sua vocação, etc. Depois que assume o “chamado”, a pessoa é instruída a não falar nada aos pais sobre sua decisão, porque, segundo afirmam, os pais não compreenderiam. Com o tempo, o indivíduo muda-se para um dos alojamentos da “Obra” e começa a conhecer realmente as implicações pertinentes à sua decisão.


Programação

As seitas, em geral, praticam um tipo de isolamento intelectual, acompanhado de doutrinação intensiva. A literatura do Opus ganha papel central e a citação da Bíblia é apenas fora de contexto ou de passagens isoladas. No Opus Dei, a literatura do fundador, José Maria Escrivã, é, certamente, colocada acima do valor das Escrituras.

O bombardeio contínuo dos seus conceitos, a disciplina rigorosa, a constante atividade e as mortificações impedem o novato de refletir sobre tudo aquilo que está ouvindo. Todo senso crítico é abafado. O pensamento independente é condenado. O indivíduo vai sendo programado e moldado conforme as intenções do grupo.

Levando em conta que boa parte daqueles que ingressam no Opus Dei é constituída de jovens em plena adolescência, cuja personalidade está em formação, a programação do Opus adquire uma eficácia ainda maior.


Retenção

Não é incomum o membro de uma seita, em dado momento, sentir-se incomodado com certos aspectos doutrinários. No Opus Dei, quando um membro questiona seu superior sobre algum ponto discordante, a conversa é desviada para outros pontos controversos. Ou seja, o questionamento fica sem uma resposta clara e definitiva.

Devido ao controle daquilo que um membro pode ou não ouvir, pode ou não ler, as informações que possam questionar a autenticidade do conteúdo da “Obra”, o indivíduo fica isolado, com falta de argumentos favoráveis. Como os ex-membros são “demonizados”, e o contato com eles é proibido, os internos acabam ficando sem parâmetros de comparação.

Um medo de tudo e de todos que se oponha à “Obra” é aplicado constantemente aos numerários. Qualquer palavra contrária é continuamente repreendida e a menor desobediência é seriamente reprimida. A ameaça de expulsão é sempre um espectro que ronda os internos. E o pior: à expulsão é conferido um caráter de danação eterna.


Resultados

Tal como acontece em outros grupos religiosos, o membro do Opus Dei torna-se dependente dele; ou seja, o indivíduo fica tão preso ao Opus Dei que um desligamento passa a ser a pior coisa que poderia lhe acontecer. Isso porque a pessoa doa seus bens para a obra, fica isolada da família e dos amigos, além de ter todas as suas decisões atreladas à “Obra”. Assim, apesar de permanecer na “Obra” possa ser algo dolorido, a idéia que a pessoa concebe, no entanto, é que sair é muitas vezes pior, o que comprova que ela está presa física e psicologicamente.

O resultado é desorientação, depressão, ansiedade e estresse e, por conta disso, muitos começam a viver à custa de remédios, receitados por um médico da “Obra”. Outros adquirem um comportamento neurótico e psicótico, podendo chegar a tendências suicidas.

No Opus Dei, há uma exploração mental e psicológica. E essa constatação não é uma crítica externa de algum inimigo da “Obra”, e muito menos produto da ficção de Dawn Brown. Ao contrário, trata-se da afirmação de pessoas que dizem ter sido exploradas e manipuladas pelo Opus Dei, o que, sem sombra de dúvida, confere um peso importante às colocações diante do número de testemunhos.


Opus Dei à luz da Bíblia


Além dos erros bíblicos e teológicos decorrentes do próprio catolicismo no qual se encontra inserido, o Opus Dei foi somando desvios que levaram muitos dos seus próprios ex-membros a classificá-lo de “seita”. A crítica a este movimento nasceu em seu próprio seio, o que já indica sérias distorções. Quando um cristianismo corrompido aponta distorções em um de seus subgrupos, ou esse segmento está corrigindo seus erros ou enveredando por outros ainda mais grosseiros. No caso do Opus Dei, a segunda opção é que prevalece.


Ascetismo e celibatarismo

O Opus Dei instituiu um comportamento ascético para os seus membros. Enquanto a santificação neotestamentária é o resultado da salvação provida por Deus pelo Espírito Santo, o ascetismo é a tentativa de santificação por meios humanos. É a carne tentando aperfeiçoar a carne. É produto do paganismo e não do cristianismo. É fruto do neoplatonismo.

Mas a “Obra de Deus” foi mais longe do que o catolicismo em geral. Isso porque, enquanto o catolicismo exigia certas coisas apenas dos seus clérigos ou de uma classe monástica que vivia isolada do mundo, essa organização católica luta por nivelar seus membros por esse padrão. O lema de “propagar a santidade no meio do mundo” é, na verdade, uma exigência do ascetismo para com os seus membros, e essa exigência, longe de levá-los a uma santidade cristã, os torna indivíduos desajustados e psiquicamente doentes.

O celibato clerical, imposto dogmaticamente pela Igreja Católica ao seu clero a partir da reforma de Cluny, dá um passo a mais no Opus Dei. Não se limita aos clérigos, mas a toda a classe dos numerários que, além disso, fazem votos de pobreza, obediência e castidade. É o ideal ascético dos monges, só que, ao invés de voluntários isolados dentro de um mosteiro, envolve pessoas ativas em uma sociedade fortemente sexualizada e, por isso, essas pessoas vivem sob fortes pressões em suas inclinações naturais.

O livro Memórias sexuais no Opus Dei é o resultado de alguém que viveu numa condição esmagadora, contrária à natureza humana. O numerário é proibido de se casar e as mulheres são proibidas até mesmo de participar de cerimônias de casamento, ainda que de membros da própria família. Um ex-membro, inclusive, afirma que teve de usar um macacão antimasturbação para tentar refrear a prática.

O celibato não é uma exigência bíblica. Paulo classifica a proibição do casamento como doutrina de demônios: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” (1Tm 4.1-3).

O apóstolo disse claramente que, devido às tentações que cercam o ser humano, as pessoas devem ter seu próprio marido e esposa, e que os casais casados não devem privar-se fisicamente um do outro, a não ser por consentimento mútuo. Embora elogie o estado de solteiro, Paulo prega que cada um deve ficar com o dom que recebeu de Deus (Cf. 1Co 7.1-40).

Por sua vez, Jesus fala em eunucos por escolha, isto é, pessoas que abraçam o celibato por opção. Todavia, o enfatiza que nem todos podem receber esse conceito, somente àqueles que fosse concedido (Mt 19.10,11).

É importante dizer que a identificação do sexo com o pecado não é bíblica. A relação sexual foi criada e abençoada por Deus para ser desfrutada dentro do casamento (Gn 1.28-31). Celibato e santidade não são sinônimos. Os que fizeram votos de celibato, muitas vezes, acabam cometendo inúmeros pecados nessa área, porque são impedidos pelo voto de cumprir a orientação de Deus. Mas, por outro lado, aqueles que não são celibatários escapam desse perigo, porque desfrutam da bênção do matrimônio.


Imperativos humanos

No livro Caminho, a principal obra escrita por Escrivá, constam declarações arrebatadoras a respeito da entrega total à obediência: “No apostolado, estás para te submeteres, para te aniquilares; não para impor o teu critério pessoal” (936).

O voto de obediência a que estão sujeitos os numerários e os supranumerários lhes criou uma verdadeira camisa-de-força. Ou seja, ao tentar criar um catolicismo praticante, criou um cristianismo farisaico. O “sujeitai-vos uns aos outros no temor do Senhor” (Ef 5.21) transformou-se em uma sujeição mecânica e anulante, em uma despersonalização. E muitos ex-numerários comentam a respeito depois que saem da organização e conseguem se restabelecer fora dela.

O Opus Dei procura produzir uma santidade por meios artificiais, cercando seus membros de inúmeros rituais e cerimônias diárias, inclusive borrifar “água benta” na cama antes de dormir, a fim de evitar a excitação sexual, o que evidentemente não funciona.

Um numerário não pode ir a lugar algum sem a prévia autorização do seu diretor espiritual, inclusive visitar familiares. Muitos numerários e seus respectivos parentes guardavam mágoas profundas porque foram separados de seus entes queridos em momentos muito importantes, como, por exemplo, casamento, nascimento de filhos, reuniões familiares, etc.

Um numerário não pode fazer o curso que bem entender. Tem de ter o aval de seu superior. Não pode ler qualquer livro. Escrivá lamentou quando a Igreja Romana aboliu o Index (lista de livros proibidos). Então, disse que criaria o seu próprio. E criou. No Opus Dei existe uma classificação que vai de 1 a 6. Os classificados como 5 e 6 são terminantemente proibidos.

Os casos de violação de privacidade são muitos na organização. Cartas e e-mails, tanto os enviados quanto os recebidos, são, primeiramente, lidos pelos superiores. Somente depois disso seguem o seu próprio rumo. Muitos ex-numerários analisaram se deveriam ou não entrar com um processo contra o Opus por violação de correspondência.

Como todos os membros têm a obrigação de dizer ao seu confessor os mínimos pensamentos, são rigidamente monitorados e exortados a uma obediência plena. Qualquer palavra contra a “Obra”, qualquer manifestação de crítica, é classificada como rebeldia e, por conta disso, o indivíduo fica “na mira”.

Isso não é tudo. Ocorre outra coação relacionada às vendas de publicações. Os membros da “Obra” enfrentam constantes pressões para que possam vender assinaturas da Editora Quadrante. Embora o tom de obrigatoriedade tenha sido amenizado em tempos recentes, em períodos anteriores a fidelidade de um membro era medida pela quantidade de vendas que fazia para a editora. Quando um membro não atinge determinada cota, é veementemente censurado por isso.

Sem sombra de dúvida, essa forma de religiosidade se encontra minuciosamente descrita no texto bíblico que segue: “Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus. Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Cl 2.18-23).

Sob o pretexto de humildade, muitos são dominados ao bel-prazer dos seus ditos superiores, instruídos numa compreensão carnal do que seja a santidade cristã. Enchendo seus membros de preceitos humanos, do tipo: “não tocar, não usar, não manusear”, conquistam uma aparência de sabedoria, de devoção, de verdade, de disciplina do corpo, ineficazes contra os desejos da carne.


Autoflagelação


Uma prática da Igreja Católica, a autoflagelação surgiu de influências pagãs, por volta dos séculos 4o e 5o. Ao invés de “pelo Espírito mortificar as obras da carne”, como ensina a Palavra de Deus (Rm 8.13), aqueles que se autoflagelam tentam mortificar a carne por meio da dor física, dos castigos corporais. Não se trata do “Espírito contra a carne (Gl 5.18-25), mas da “carne contra a carne”, e o resultado jamais poderia ser a santificação bíblica.

A idéia de que o homem precisa impor dor física para se tornar mais santo não provém das Escrituras, mas das tentativas humanas de buscar o auto-aperfeiçoamento. Ao dizer que subjugava o seu corpo e o reduzia à servidão, Paulo falava de autodisciplina e não de autocastigo, auto-sofrimento. Seu posicionamento, aliás, é totalmente diferente: “Afinal de contas, nunca ninguém odiou a sua própria carne, antes a alimenta e sustenta...” (Ef 5.29).

Essa prática se espalhou amplamente dentro do cristianismo medieval e monástico. As mortificações faziam parte da devoção de inúmeros monges e clérigos, apesar do seu caráter antibíblico e destruidor. Tornou-se um meio de auto-salvação, bem parecido com aqueles encontrados nas religiões pagãs: “E eles clamavam a grandes vozes e se retalhavam com facas e com lancetas, conforme o seu costume, até derramarem sangue sobre si” (1Re 18.28).

O auto-sofrimento purificador também faz parte da santificação do carma, praticada pelos hindus. Essa prática chegou a tal popularidade no final da Idade Média que alguns grupos começaram a afirmar que era esse o único caminho de salvação, mas a Inquisição começou a perseguir esse ensinamento.

No século 16, os jesuítas reacenderam a prática, especialmente no Sul da Europa. Provavelmente, essa foi a inspiração de José Maria Escrivã. Embora tenha dito que “onde não há mortificação, não há virtude” (Caminho, 180), e que considera a dor bendita, amada, glorificada e santificada, (Caminho, 208), isso não passa de raciocínio humano enganoso. Santificado e glorificado deve ser o nome do Senhor e não a dor física auto-infligida em rituais “medievais”.

Os numerários da instituição usam diariamente, por pelo menos duas horas, um cinto de ferro com pontas chamado “cilício”. E fazem isso para “infligir dor à sua carne e mortificar-se”. Outra disciplina usada pelo Opus Dei é um chicote, para flagelar as nádegas nuas uma vez por semana, enquanto são recitadas rezas. Embora estejamos acostumados a ouvir coisas desse tipo em certas seitas islâmicas, e até façam parte de alguns rituais do catolicismo popular filipino, jamais pensamos que encontraríamos doutrinas e práticas desse tipo em uma organização católica do mundo ocidental, respeitada e influente como o Opus Dei. Somente alguém “inchado em sua carnal compreensão” poderia produzir um desvio tão grave, tentando produzir santidade por meios antibíblicos e funestos. As Escrituras declaram: “O homem bom cuida bem de si mesmo, mas o cruel prejudica o seu corpo” (Pv 11.17). Flagelar-se não é cuidar bem de si mesmo, antes, é crueldade.

Ao ser questionado por tal prática, Carlos Alberto Di Franco respondeu que “o cilício é uma mortificação corporal ‘ultratradicional na Igreja’”. Só podia realmente apelar para o desgastado argumento da tradição, uma vez que não existe qualquer base neotestamentária ou bíblica para ela. Mais uma vez, ressoa a condenação de Jesus sobre esse desvio da verdadeira vida com Deus para se andar em preceitos criados por homens: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Mt 15.9). E: “Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens [...] E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição” (Mc 7.8,9).


Opus Dei ou Opus hominis?


A capacidade do catolicismo de se esquivar de acusações e de formular defesas malabarísticas é extremamente conhecida. O poder e a influência do Opus Dei são grandes, e é improvável que sejam extinguidos por alguma ação do Vaticano, até porque as práticas do Opus Dei tiveram a conivência do próprio papado que, com certeza, estava ciente de tais descalabros.

A manifestação pública e voluntária dos ex-membros da “Obra” auxiliou-nos a tecer uma comparação contrastante entre o catolicismo do Opus Dei e o cristianismo bíblico. Esperamos que, mediante esse choque, os membros do Opus Dei possam reconhecer que essa organização tem muito mais de homens do que de Deus. Oremos para que seus membros sinceros conheçam o Jesus do Novo Testamento e sejam libertos do jugo que carregam.

Finalizamos com o maravilho convite do Mestre: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30).

Leia, na íntegra, a entrevista que Jean Lauand concedeu à revista Época. É só acessar o site: http://revistaepoca.globo.com/epoca/0,6993,EPT1062513-1655-1,00.html


O Index do Opus Dei


Em entrevista à revista Época, quando questionado sobre quais seriam os livros proibidos pelo Opus Dei, Lauand, co-autor da obra Opus Dei: os bastidores, respondeu:

“Todos os filósofos, desde Descartes. Grandes nomes da literatura como José Saramago, James Joyce, Umberto Eco, Sartre. Há níveis de restrição. Por exemplo, O alienista, de Machado de Assis, está no nível três. Havia numerários que estavam na Obra há cinco anos e não tinham autorização para ler livros no nível três. Para ver a que ponto se chega, uma vez recebi um e-mail de uma supernumerária. Ela queria que eu indicasse uma leitura crítica do Ensaio sobre a cegueira, de Saramago. Dizia o seguinte: ‘Não li o Ensaio porque acredito que sairia ferida com essa leitura. Gostaria, justamente, de ler uma crítica feita por um católico de cultura geral inquestionável (penso que de conduta também!) e por isso pensei no senhor’. Era professora universitária não se atrevia a ler Saramago”.

Como não poderia deixar de ser, podemos acrescentar à resposta do autor que o seu livro, provavelmente, também abrilhantará a quilométrica lista do Index.


Para saber mais sobre o Opus Dei:

BROLEZZI, Antonio Carlos. Memórias sexuais no Opus Dei. Panda Books.

FERREIRA, Dario Fortes; SILVA, Marcio Fernandes, LAUAND, Jean. Opus Dei: os bastidores. Versus.

JR, John L. Allen. Os mitos e as verdades sobre a mais misteriosa organização da Igreja Católica. Campus.

SILBERSTEIN, Elisabeth Castejón; Opus Dei: a falsa obra de Deus — Alerta às famílias católicas.


Notas:

1 Dan Brown (Exeter, New Hampshire, 22 de junho de 1964) é um autor americano que fez sucesso após escrever o polêmico best seller O Código da Vinci, em 1998. Atualmente, é um dos escritores mais famosos do mundo. Seus livros foram traduzidos e vendidos em grande escala em diversos lugares do mundo. Entre seus grandes feitos, está o de conseguir colocar seus quatro primeiros livros simultaneamente na lista dos mais vendidos do The New York Times. Encontra-se, atualmente, desenvolvendo um novo projeto, um livro ainda sem prazo para lançamento, cujo título, ainda sem tradução, é The Solomon key.

2 Para saber mais sobre outras facções, indicamos a leitura da matéria “Facções católicas – A falaz unidade da Igreja de Roma”, escrita por Paulo Cristiano Silva e publicada na edição 77 desta revista.

3 O franquismo é uma forma de fascismo aplicado na Espanha entre 1939 e 1975, durante a ditadura de Francisco Franco.

4 Corrente doutrinária fundada por Amônio Sacas (séc. 2), em Alexandria, e cujos representantes principais são Plotino, filósofo romano (204-270), em Roma; Jâmblico, filósofo grego (c. 250-330), na Síria; e Proclo, filósofo grego (410-485), em Atenas. Caracterizava-se pelas teses da absoluta transcendência do ser divino, da emanação (q. v.) e do retorno do mundo a Deus pela interiorização progressiva do homem.

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