Defesa da Fé


A Bíblia proíbe a celebração de aniversários?


As testemunhas de Jeová e a celebração de aniversários


Por Marcos Heraldo Paiva


“Será que as menções feitas pela Bíblia de celebrações de aniversários natalícios as colocam em luz favorável?”

É com esta indagação que o livreto Raciocínios à base das Escrituras, publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados (STV), em sua página 37, inicia uma argumentação contrária à celebração deste evento tão tradicional e familiar.

A tese russelita se fundamenta, como sempre, em argumentos infantis e pobres, que não resistem a uma análise mais acurada feita com base na ortodoxia bíblica.

A STV afirma em sua literatura que os únicos aniversários que a Bíblia cita foram marcados pela violência, como no caso da morte do padeiro de Faraó, revelada pelo sonho de José no Egito (Gn 40.16-20) e da decapitação de João Batista, no aniversário de Herodes (Mt 14.1-12).

Com base nesse pensamento, as testemunhas de Jeová declaram que esse tipo de comemoração é um erro, em especial, porque acreditam que o seu objetivo é idolatrar o aniversariante. Os membros da STV só podem comparecer a festas nupciais e comemorar aniversário de casamento, já que, nesse caso, ensinam que a honra é dada a um “arranjo de Jeová”.

Mas os argumentos contrários às festividades natalícias não param por aí. Há, ainda, outra tese que defendem, relacionando esse costume ao exercício de magia e religiosidade, em virtude do emprego de atos como dar parabéns, entregar presentes e, obviamente, a celebração como um todo.

Citando a obra The Lore of Birthdays, de Ralph e Adelin Linton (N.Y., 1952), em Raciocínios à base das Escrituras, lançam, ainda, mais negatividade e desdouro à promoção da data de nascimento de quem quer que seja.

Servindo-se das afirmações da obra, ensinam que os gregos criam que cada pessoa possuía um “espírito protetor” ou um “gênio inspirador”, que assistia a pessoa, alvo de sua guarida desde o nascimento e em cada dia de sua vida até a morte.

Justificam que esse espírito, segundo a mesma crença, teria uma ligação especial com o deus que estava relacionado ao dia natalício da criança, idéia adotada também pelos romanos.

A partir daí, os membros da STV, súditos fiéis das heresias advindas do Corpo Governante estabelecido no bairro do Brooklin, em Nova York, associam esse pensamento e essa personalidade espiritual ao anjo da guarda, às fadas madrinhas e aos padroeiros evocados em determinadas festas litúrgicas do catolicismo romano.

Outra negatividade dessa solenidade familiar é verificada por eles no acendimento de velas, cujo uso, na antiguidade, teria o propósito de proteger o aniversariante dos demônios, garantindo-lhe segurança no ano vindouro. Segundo resgatam da história, as velas também estavam presentes no adorno de “bolos de mel redondos como a lua” oferecidos nos altares consagrados à deusa Ártemis em seu templo, na Grécia.

Mas será que as testemunhas de Jeová têm razão, ainda que contando com tanta argumentação, em censurar essa comemoração? Num primeiro momento, a contestação ao pensamento russelita paira exatamente sobre o ponto que alicerça seu equivocado entendimento. Ou seja, o fato de líderes como Faraó e Herodes (notórios por suas arbitrariedades e violência) lançarem mão dessas festas para que pudessem realizar seus intentos não desmerece as demais, que em nada se assemelham aos episódios narrados nas oportunidades bíblicas citadas.

Extraindo a morte do padeiro de Faraó e do decepamento de João Batista, nota-se, pela clareza do texto sagrado, que todo o restante dos eventos promovidos por esses governantes incluía confraternização de pessoas, alegria e danças.

Assim, prova-se, por esses mesmos textos, que a comemoração era um costume comum, talvez pouco praticado entre os hebreus, mas tradicional entre as demais nações.

Quanto à menção infeliz sobre anjo da guarda, como se a comemoração se prestasse a cultuá-lo, é necessário lembrar que a tese da existência de um ser angelical que cuida da segurança de alguém a mando de Deus pode achar seu respaldo na Bíblia (At 12.15), o que de fato era uma crença propalada entre os hebreus, que a consideravam salutar, não tendo esse ser em conta negativa.

No caso do bar mitzvah , por exemplo, o jovem que completasse treze anos assumia a responsabilidade religiosa e civil dos seus atos, em cerimônia religiosa, e isso, por si só, sagrava-se como comemoração natalícia entre os judeus, realizada com alegria e pompa.

A cura de um cego, ocorrida em João 9.21, mostra-nos que, em determinado tempo, havia certo cuidado em se guardar o tempo do nascimento de alguém. E esse tipo de cuidado seria para controlar a demografia e habilitar alguém à participação das festas e ritos judaicos, já que esses eventos exigiam uma faixa etária específica para a assunção de postos na sinagoga.

Lucas 2.42 descreve a ocasião em que Jesus Cristo esteve no templo e sua idade, doze anos, foi registrada, o que prova, mais uma vez, que havia meios de se comemorar a passagem de cada ano de vida.

Voltando ao Antigo Testamento, temos mais casos em que a idade era fator preponderante para que fosse atribuída ao homem qualquer responsabilidade religiosa ou civil, notadamente nos ofícios do templo. Na tribo dos levitas, era estatuído que os jovens só estariam qualificados para exercer funções no tempo quando completassem trinta anos de idade.

Os filhos de Coate, por exemplo, trabalhariam na congregação dos trinta aos cinqüenta anos. Caso não houvesse interesse ou importância quanto à guarda do dia de aniversário natalício, por certo os hebreus teriam sido castigados severamente no tocante ao cumprimento da lei divina.

Além de tudo isso, a Bíblia relata alguns aniversá¬rios. Jó, por exemplo, era um homem justo e celebrava os aniversários de seus filhos: “E iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez”, o que indica a comemoração do aniversário de cada um deles (Jó 1.4). Jó, referindo-se ao seu dia de nascimento, afirmou: “Pereça o dia em que nasci...”, (Jó 3.2,3). No versículo 1, lemos: “Depois disto abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia”. Tanto Faraó quanto Herodes, pelo fato de serem reis ímpios, estavam acostumados a executar as pessoas em qualquer ocasião e não somente no dia de seu aniversário.

Atualmente, em todas as culturas mundiais, existem maneiras variadas de se comemorar a data do nascimento de alguém, em cerimônias que misturam fé, alegria e confraternização entre as pessoas, que não se consomem em culpa por causa das atrocidades cometidas em dois exemplos bíblicos isolados, embora fáticos.

Fiquemos, pois, com a orientação de Paulo, que enaltecia a necessidade de os cristãos poderem desfrutar de momentos de alegria (Rm 12.15), notadamente pela passagem, para cada um de nós, de um mais ano de vida e de vitórias em Cristo Jesus.


Referências bibliográficas:

Raciocínio aa base das Escrituras. STV, 1985/89, p. 37-9.

Estudo Perspicaz das Escrituras. STV, 1990, p.140-1.

Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. R.N. Champlin, 2004, p.170-1.


Nota:

1 O menino que completa seu décimo terceiro aniversário é um Bar Mitzvá — literalmente, um homem do dever. Desse dia em diante, conforme a tradição judaica, passa a ser responsável por seus próprios atos e por todos os deveres religiosos de um homem. No sábado posterior ao décimo terceiro aniversário de um menino judeu, ele é chamado ao altar da sinagoga para ler a Torá. O jovem repete a bênção, depois que um trecho da Torá é lido, e recita a lição dos profetas, denominada Haftará.

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