Defesa da Fé


O Novo Testamento foi influenciado pelas religiões pagãs?


Uma exposição das narrativas das religiões de mistério


Por Ronald Nash

Tradução de Elvis Brassaroto Aleixo


Resumo da parte I


Na primeira parte desta matéria, o autor colocou os leitores no mundo primitivo das religiões de mistério. E fez isso da seguinte forma: apresentou uma definição sobre os grupos que compõem esse tipo arcaico de manifestação religiosa, expôs suas quatro características básicas e falou dos cultos dedicados às divindades Ísis e Osíris (egípcias), Cibele e Átis (frígias) e Mitra (indo-ariana). Todos esses cultos são apontados por alguns acadêmicos como fontes que influenciaram a composição dos escritos do Novo Testamento. Mas, assim como na primeira, a refutação prossegue nesta segunda parte da matéria. Vejamos:


Rituais pagãos e sacramentos cristãos


O fato de o cristianismo observar uma “refeição sagrada” (a Santa Ceia) e o ritual de banhar o corpo (o batismo) é indicado, pelas religiões de mistério, como sendo uma provável evidência de que tenha adquirido esses sacramentos de outros rituais pagãos similares. No entanto, os rituais, em si mesmos, não provam nada, pois é claro que tais cerimônias religiosas podem assumir um número limitado de formas. E essas formas, invariavelmente, podem se relacionar, de maneira natural, com os aspectos importantes ou comuns da vida cotidiana (como, por exemplo, o ato de comer e de se banhar). Então, a pergunta mais importante, neste caso, é sobre o significado das práticas pagãs.

O banho ritualístico que antecedeu o Novo Testamento tinha um significado diferente do batismo cristão. As refeições sagradas, realizadas pelas religiões de mistério gregas e pré-cristãs, não provam qualquer coisa, pois sua cronologia é totalmente errada. Tais cerimônias tinham desaparecido completamente na época de Jesus e de Paulo. As refeições sagradas observadas em anos posteriores, como as que ocorriam no mitraísmo, também são anacrônicas, uma vez que eram muito recentes para que pudessem exercer tamanha influência.

Ao contrário dos ritos de iniciação das religiões de mistério, o batismo cristão direciona seu olhar para uma realidade, uma pessoa histórica: Jesus Cristo. Os defensores dessas religiões acreditavam que os “sacramentos” em seus cultos tinham o poder de conceder ao indivíduo os benefícios da imortalidade de um modo mecânico ou mágico, sem que o adepto sofresse antes ou depois qualquer transformação moral ou espiritual relacionada ao ato. Certamente, essa não era a visão de Paulo sobre a salvação ou a observância dos sacramentos cristãos. Muito pelo contrário, o batismo cristão não é uma cerimônia mecânica ou mágica. Sua fonte de influência não advém nem do taurobolium , que foi uma prática notadamente posterior ao século 1o depois de Cristo, nem dos banhos ritualísticos pagãos. A fonte do batismo cristão vem do Antigo Testamento, da prática judaica de batizar prosélitos, provável fonte para o exercício do batismo realizado por João Batista.

Entre todas as religiões de mistério, somente o mitraísmo observou um ritual que se assemelhou à Ceia do Senhor. Um pedaço de pão e uma xícara de água eram colocados perante os iniciados, enquanto o sacerdote de Mitra recitava algumas palavras cerimoniais. Mas, mesmo assim, a história tardia desse ritual impede as possibilidades de que tenha exercido qualquer influência no cristianismo do século 1o.

Enfim, as reivindicações de que a Ceia do Senhor teve sua origem nas refeições sagradas pagãs são exageros e fruto de estudos reducionistas, pois o suposto paralelismo é completamente falho. Qualquer argüição que tenha em vista os antecedentes históricos da Ceia do Senhor terá mais sentido se considerar a herança que os fundamentos judaicos legaram à fé cristã. A Ceia do Senhor remete a uma outra realidade, a uma pessoa histórica e ao que essa pessoa fez na história. A ocasião que levou Jesus a adotar Ceia foi o banquete de páscoa, observado entre os judeus. Não foram, absolutamente, as invenções ritualísticas pagãs.

“E, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, chegaram os discípulos junto de Jesus, dizendo: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa? E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos. E os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara, e prepararam a páscoa. E, chegada a tarde, assentou-se à mesa com os doze [...] E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba de novo convosco no reino de meu Pai. E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mt 26.17-30).


A morte dos deuses pagãos e a morte de Jesus


O melhor modo de avaliar a alegada dependência que o cristianismo deve aos mitos pagãos que pregavam a existência de deuses que “morreram” e “ressuscitaram” é examinando cuidadosamente os casos. A morte de Jesus difere da morte dos deuses pagãos em pelo menos seis pontos:

1) Nenhum dos denominados “deuses salvadores” morreu por outra pessoa. A noção do Filho de Deus, que morre no lugar das criaturas que ele próprio criou, não tem paralelos na mitologia pagã.

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

2) Apenas Jesus morreu por causa do pecado. Como observa Günter Wagner: “Nenhum dos deuses pagãos jamais teve a intenção de ajudar os homens em sua decadência. O tipo de morte que eles sofreram sempre era justificada de maneira bastante diferente”.

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Ef 1.7).

3) Jesus morreu de uma vez por todas, enquanto os deuses de mistério eram divindades relacionadas à vegetação e suas repetidas mortes e ressurreições descreviam e se conformavam ao ciclo anual da natureza.

“Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas. E assim todo o sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados; mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10.10-14).

4) A morte de Jesus foi um evento real, enquanto a morte dos deuses de mistério somente consta em dramas míticos, sem vínculos históricos. Suas continuadas encenações celebram a recorrente morte e nascimento da natureza. O fato incontestável de que a Igreja primitiva acreditou que a proclamação da morte e ressurreição de Jesus tinha fundamento histórico, torna absurda qualquer tentativa de comparação que vise apresentar o relato bíblico como produto dos mitos pagãos.

5) Diferentemente dos deuses de mistério, Jesus morreu voluntariamente. Nada semelhante a isso é mencionado, nem mesmo implicitamente, nas religiões de mistério.

“E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Ef 5.2).

6) A morte de Jesus não foi uma derrota, mas um triunfo. Até mesmo quando Jesus estava sofrendo a dor e a humilhação da cruz, seu comportamento e mensagem eram o comportamento e a mensagem de um vencedor. Nisso também há um contraste nítido, já que, nas religiões de mistério, os seguidores pranteavam e lamentavam pelo destino terrível que acometia seus deuses. Diametralmente oposto a isso, o evangelho nos diz que Jesus venceu a morte e ressuscitou!

“E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (1Co 15.54-55).


A ressurreição dos deuses pagãos e a ressurreição de Jesus


Quais foram os deuses de mistério que, segundo os próprios relatos míticos, ressuscitaram? Certamente nenhum texto primitivo menciona a ressurreição de Átis. Nem é o caso de uma ressurreição de Osíris. Os estudiosos só podem pensar em uma “ressurreição” de Osíris, Átis ou Adonis no sentido mais amplo e subjetivo. Como vimos na primeira parte desta matéria, somente para citar um exemplo, diz o mito egípcio que Ísis reuniu os pedaços do corpo desmembrado de Osíris, que depois se tornou o deus dos mortos. Esse é um caso paupérrimo para ser comparado com a ressurreição de Jesus Cristo. De igual modo, nenhuma afirmação de que Mitra passou pela experiência da morte e da ressurreição pode ser sustentada, nem mesmo nos relatos mitraícos. Uma grande maré de opinião acadêmica procurou assinalar, com perspicácia, que o cristianismo primitivo derivou suas crenças de morte e ressurreição dos deuses pagãos do mundo helenístico, mas qualquer exame imparcial demonstra que tais reivindicações devem ser rejeitadas.


O culto de iniciação pagão e o renascimento cristão


Os textos dos teólogos liberais estão repletos de generalizações que defendem que o cristianismo primitivo tomou emprestada sua noção de renascimento das religiões de mistério. Mas as evidências são explícitas quando apontam que nunca houve nenhuma doutrina pré-cristã que aludisse ao conceito de renascimento. O que há, na verdade, são pouquíssimas referências à noção de renascimento nos documentos que sobreviveram ao tempo, e até mesmo esses documentos ou são muito tardios ou muito ambíguos. Portanto, não fornecem nenhum auxílio que possa colaborar com as fontes neotestamentárias. A vindicação de que as religiões de mistério pré-cristãs consideravam seus rituais de iniciação como uma espécie de renascimento não usufrui de qualquer aprovação dos documentos antigos. O máximo que se observa são achados interpretados por eruditos de maneira altamente especulativa.

A maioria dos estudantes contemporâneos sustenta que o emprego do conceito de renascimento pelas religiões de mistério (e todos são posteriores ao ano 300 d.C.) difere tão significativamente de seu uso no Novo Testamento que qualquer possibilidade de ligação íntima está fora de cogitação. Na melhor das hipóteses, os estudantes estão dispostos a concordar que existe uma remota possibilidade de se conceber que alguns cristãos tomaram emprestada a metáfora e a reformularam, para que pudessem ajustar suas convicções teológicas, que eram bastante distintas do paganismo. Tanto é assim que, se a metáfora de renascimento fosse helenística, seu conteúdo, no cristianismo, seria único.


Sete argumentos contra a influência das religiões de mistério no cristianismo


Concluiremos esta matéria com sete pontos que suplantam os esforços dos teólogos liberais em manipular essa suposta influência:

1) Os argumentos usados para “provar” a dependência cristã das religiões pagãs são, muitas vezes, baseados naquilo que a filosofia classifica como falácia lógica de causa falsa. Essa falácia ocorre sempre que alguém acredita que só porque duas coisas existem lado a lado uma delas deve ter causado a outra. Como deveríamos saber, a mera coincidência não prova conexão causal, nem a semelhança prova dependência.

2) Muitas das alegadas semelhanças entre o cristianismo e as religiões de mistério ou são grandemente exageradas ou são fabricadas. Os estudiosos, freqüentemente, descrevem os rituais pagãos em uma linguagem que eles mesmos tomaram emprestado do cristianismo. O uso descuidado dessa “linguagem” levou alguns deles a falar de uma “santa ceia” no mitraísmo ou de um “batismo” no culto de Ísis, quando estes próprios mitos nunca empregaram tal linguagem. A bem da verdade, é uma tolice indesculpável tomar a palavra “salvador”, com toda a sua conotação no Novo Testamento, e aplicá-la a Osíris ou a Átis, como se houvesse semelhança entre eles.

3) A cronologia que se esforça para emparelhar o cristianismo às religiões de mistério é toda errada. Quase todas as nossas fontes de informação sobre as religiões pagãs são tardias, isto é, são vigentes de uma época posterior ao século 1o depois de Cristo. Em algumas pesquisas, podem ser encontrados escritores que citam documentos escritos até 300 anos depois que o apóstolo Paulo produziu suas epístolas. Temos de rejeitar a suposição de que só porque uma religião teve certa crença ou prática no século 3o ou no 4o depois de Cristo, isso significa que teve a mesma crença ou prática no século 1o.

4) O apóstolo Paulo jamais teria, conscientemente, tomado emprestado os conceitos das religiões pagãs. Todas as informações que temos sobre Paulo tornam isso altamente improvável. O apóstolo sempre fez questão de afirmar sua rígida formação no judaísmo: “Se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu” (Fl 3.4,5). Paulo advertiu os colossenses contra toda sorte de influência que pudesse conduzir o cristianismo ao sincretismo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

5) Diferentemente das religiões de mistério, o cristianismo primitivo tinha uma fé exclusivista. Como explica J. Machen: “Um homem poderia ser iniciado nos mistérios de Ísis ou Mitra sem que isso afetasse suas crenças anteriores; mas se esse mesmo homem fosse recebido pela Igreja cristã, de acordo com os escritos de Paulo, teria de abandonar todos os outros salvadores, a fim de servir somente Jesus Cristo [...] No sincretismo prevalecente do mundo greco-romano, a religião de Paulo e a religião de Israel estavam absolutamente sós”. Esse exclusivismo cristão deveria ser um ponto de partida para toda reflexão sobre as possíveis relações entre o cristianismo e os seus oponentes pagãos. Qualquer sugestão de sincretismo no Novo Testamento teria causado controvérsia imediata.

6) Outro ponto distinto entre o paganismo e o cristianismo é que os eventos do cristianismo aconteceram historicamente. O misticismo dos cultos de mistério, não. Seus mitos não passavam de histórias dramatizadas pelo iniciado a respeito daquilo que experimentava. Seus eventos não eram reais, como Paulo considerou a morte e a ressurreição de Cristo. Essa afirmação histórica do cristianismo não encontra paralelo em qualquer religião de mistério pagã.

7) Depois de tudo isso, poucos motivos de comparação podem permanecer em pé. Como asseverou Bruce Metzger: “Não se deve assumir, sem postura crítica, que as religiões de mistério influenciaram o cristianismo, pois isso não só não era possível como também é mais provável que, em certos casos, a influência ocorreu na direção oposta”. Não deveríamos nos surpreender com o fato de que os líderes das religiões pagãs, que estavam sendo desafiadas pelo cristianismo, devessem fazer algo para se oporem a esse desafio? Haveria modo melhor de fazer isso do que oferecendo um substituto pagão? O paganismo tentou se opor ao cristianismo, imitando-o. E essa atitude pode ser vista de forma clara e evidente pelas medidas instituídas por Juliano, o apóstata, que foi o imperador romano de 361 a 363 d.C.


Notas:

1 Também conhecido como “o sacrifício do touro”, rito mais conhecido do culto da “Grande Mãe”, Cibele. Durante essa cerimônia, os iniciados ficavam em pé ou deitados em uma cova, enquanto um touro era sacrificado em uma plataforma acima deles. Os devotos, então, tomavam um banho de sangue morno do animal agonizante.

2 HERMAN, Ridderbos. Um sumário de sua teologia. Grand Rapids: Eerdmans, 1975, p. 24.

3 HEGEL, Martin. O Filho de Deus. Philadelphia: Fortess Press, 1976, p. 26.

4 WAGNER, Gunter. O batismo paulino e as religiões de mistério. Edinburgh: Oliver and Boyd, 1967, p. 260.

5 GUTHRIE, W. K. C. Orfeu e a religião grega. London: Methuen, 1952, p. 268.

6 NOCK, A. D. O cristianismo gentílico primitivo e seu contexto helenístico. In: “Questões sobre a Trindade e a encarnação”. London: Longmans, Green, 1928, p.106.

7 MACHEN, J. Gresham. A origem da religião de Paulo. New York: Macmillan, 1925, p. 234-5.

8 NASH, Ronald. O evangelho e os gregos. Richardson, TX: Probe Books, 1992, p.161-99.

9 Ibid., p.173-8.

10 FLEMINGTON, W. F. O Novo Testamento e a doutrina do batismo. London: SPCK, 1948, p.76-81.

11 MACHEN, J. Gresham. A origem da religião de Paulo. New York: Macmillan, 1925, p. 9.

12 METZGER, Bruce M. Estudos históricos e literários: paganismo, judaísmo e cristianismo. Grand Rapids: Eerdmans, 1968, p.11.

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