Defesa da Fé


Bruxaria moderna - Muito mais do que uma festa de Halloween


Pode ser muito mais do que você imagina


Por Richard G. Howe

Bacharel em teologia pela Universidade de Mississipi. Mestrado em filosofia pela mesma Universidade e doutorado em filosofia pela Universidade de Arkansas.

Tradução: Elvis Brassaroto Aleixo


Que tipo de imagens vem à sua mente quando se fala em bruxaria? Para muitos, esse fenômeno religioso traz pensamentos tenebrosos, como, por exemplo, rituais secretos com intenções macabras, trabalhos de maldição lançados sobre aqueles a quem se deseja o mal, etc. Outros, por sua vez, só lembram da bruxaria uma vez por ano, e as imagens mais comuns que têm desse fenômeno são as de crianças com chapéus pretos e pontudos, saboreando doces; papéis de decoração recortados em formas de vassouras voadoras; abóboras; morcegos e folhas secas. Esse tipo de coisa cria um problema quanto ao entendimento a respeito daquilo que a bruxaria realmente é. Em geral, as pessoas acham que o assunto ou é muito amedrontador ou é muito tolo para ser considerado. É bastante provável que a maioria dos cristãos seja surpreendida ao descobrir que a bruxaria, freqüentemente, é bem mais sofisticada e complexa do que imaginam. Uma análise cristã sobre o assunto tende a condenar contundentemente a bruxaria. Todavia, tal avaliação deve ser ponderada, justa, para que possamos refletir bem sobre a questão e, antes de qualquer coisa, lançarmos a seguinte pergunta: “De que tipo de bruxaria estamos tratando?”.


Por que se importar?


Alguns crentes podem requerer uma justificativa que explique o porquê da necessidade de se falar em bruxaria. Afinal, é muito difícil, pelo menos em tese, que um evangélico se enverede por um caminho tão excêntrico. A razão para um debate sobre o assunto merece exame precisamente porque a bruxaria está deixando de ser tão excêntrica e se tornando mais popular.

No verão de 2004, o Parlamento das Religiões Mundiais se reuniu em Barcelona, na Espanha. Na ocasião, representantes de muitas religiões do mundo estavam presentes com o intuito de “buscar a paz, a justiça, a sustentabilidade e o comprometimento de trabalhar em função de um mundo melhor”. Também almejavam “aprofundar suas espiritualidades e experiências de transformação pessoal”. Participaram da conferência (assim como nas de 1993 e 1999) alguns delegados da Sociedade da Deusa, “a maior organização religiosa do mundo voltada para as bruxas do neopaganismo” (qualificativo usado por um ancião da sociedade). Um tema comum debatido nas reuniões foi a ênfase crescente na “interfé”, ou seja, nos diálogos sobre vários tipos de fé.

Têm-se notado que o grupo mais freqüentemente omisso em tais conferências é o cristianismo evangélico. O que justificaria tal ausência? Cremos que a cosmovisão religiosa da maioria dos grupos que comparece a tais conferências repudiaria veementemente o exclusivismo religioso que caracteriza o cristianismo histórico e ortodoxo. Muitas religiões do mundo, inclusive a bruxaria, são contrárias ao cristianismo evangélico, e isso de maneira explícita ou implicitamente. Não obstante, Jesus nos ordenou a pregar o evangelho e a fazer discípulos de todas as nações, e os bruxos não ficam de fora. Mas para que isso seja possível, precisamos entender quem são os bruxos e no quê acreditam. Conhecer o “inimigo” que estamos combatendo é um dos elementos fundamentais para que possamos cumprir a ordem da Grande Comissão (Mc 16.15,16).


O que é a bruxaria?


As definições podem facilitar ou impedir a nossa compreensão. A definição útil é aquela que não é demasiadamente simplista e se refere às semelhanças e dessemelhanças que envolvem tanto o termo principal como os adjacentes. Em nossos dias de entusiasmo ecumênico, temos de tomar cuidado e evitar o perigo de fitar com olhos míopes as diferenças entre as várias religiões e a fé cristã que confessamos, porque isso pode custar a nossa alma.

Há semelhanças entre a farinha e a ricina (tóxico extraído da semente da mamona). Ambas são pó branco e oriundas de plantas. Todavia, as suas diferenças são mais interessantes e importantes do que as suas semelhanças. Farinha é comida. A ricina é veneno. Uma promove a vida. A outra causa a morte. Não se deixe enganar pela nossa metáfora, porque não estamos comparando a bruxaria ao veneno da ricina. Apenas estamos tentando mostrar que as diferenças podem ser tão importantes quanto as semelhanças. Pensando nisso, delinearemos as principais doutrinas da bruxaria moderna a fim de contrastá-las com as principais doutrinas do cristianismo evangélico.


Os muitos nomes da bruxaria


Quando começamos a investigar o fenômeno da bruxaria moderna, não demoramos a descobrir uma gama de termos associados à sua prática ao longo do tempo: a mágica, a wicca, o paganismo, o neopaganismo, e assim por diante. Alexander Brooks, pesquisador cristão, perito em ocultismo e contracultura, fornece-nos um resumo útil de certas distinções entre wicca, bruxaria e neopaganismo.

O neopaganismo é a categoria mais abrangente de todas, pois abraça um rol extensivo de grupos “que tentam reconstruir os antigos sistemas religiosos não-cristãos — como o escandinavo, o céltico, o grego, o romano e o egípcio — revigorando doutrinas esquecidas, ensinos ocultos e negligenciados ao redor do mundo”. Segundo Brooks, a marca distintiva da wicca (wicca é a categoria mais radical da bruxaria) é o fato de ela exigir de seus adeptos a observância rigorosa de ensinos e práticas específicos contidos na obra do inglês Gerald Brousseau Gardner, que foi quem, provavelmente, nomeou a prática de feitiçaria como wicca.

Pode haver distinções sutis entre wicca e bruxaria, por isso alguns preferem escolher um termo e mantê-lo, a despeito do outro. Mas, na maioria das vezes, as palavras são usadas de maneira intercambiável. A designação “bruxaria”, certamente, é a mais familiar entre os praticantes e os não-praticantes, além de ser o termo mais recriminado e rejeitado pelos leigos, que, freqüentemente, atribuem à palavra conotações sinistras, o que justifica a preferência de alguns pelo termo wicca, ao se referirem à prática, e wiccan, ao praticante. O prefixo “neo”, em neopaganismo, normalmente indica um destaque na prática da pessoa em sua manifestação contemporânea, além de apontar, ao mesmo tempo, uma revivificação e uma conexão com algo antigo.


Origem do termo Halloween


A palavra halloween tem origem no catolicismo. É uma contração da expressão ali halíows eve, que significa “véspera do dia de todos os santos”. Uma das lendas sobre essa festa é de procedência celta e conta que os espíritos das pessoas que morreram no ano precedente voltavam nessa data à procura de corpos vivos para possuí-los e usá-los no ano seguinte. Os celtas acreditavam que essa era a única chance de vida após a morte. Como os vivos não queriam ser possuídos, na noite de 31 de outubro apagavam as tochas e as fogueiras de suas casas para que ficassem frias e afugentassem os espíritos. Além disso, colocavam fantasias de monstros e saíam às ruas, para assustá-los.

As bruxas têm papel importantíssimo no halloween. Não é à toa que a data é conhecida como “o dia das bruxas”, em português. Segundo outra lenda, as bruxas se reuniam duas vezes por ano durante a mudança das estações, o que ocorria nos dias 30 de abril e 31 de outubro. Chegando em vassouras, elas participavam de uma festa, cujo anfitrião era o diabo, e jogavam maldições e feitiços nas pessoas.


A bruxaria é uma cosmovisão


Uma cosmovisão é o total da soma da visão de determinada pessoa sobre a natureza da realidade. Todos possuem cosmovisão, ainda que não tenham parado para refletir a respeito. Uma visão de mundo engloba as noções de como a realidade se compõe para determinada pessoa, como essa realidade se apresenta e como a pessoa se ajusta a esse princípio ou o relaciona com o seu universo. Assim, uma cosmovisão requer, necessariamente, as conclusões que uma pessoa possui a respeito do propósito da vida, da origem e do destino de todos nós. Vejamos, a seguir, as três principais cosmovisões adequadas à bruxaria:


Cosmovisão naturalista

É correto dizer que uma das cosmovisões da bruxaria é o naturalismo, corrente filosófica que prega que não existe qualquer realidade transcendente, como um Deus que pode intervir no mundo natural. O naturalismo defende que toda realidade se relaciona e opera de acordo com certas “leis”. Outras manifestações de naturalismo incluem também o materialismo, que, por sua vez, interpreta a realidade como sendo composta de fatores que operam de acordo com leis materiais.

Contudo, a bruxaria não é materialista, já que as bruxas reconhecem que a realidade se estende além do plano puramente material. Logo, isso nos leva a concluir que uma cosmovisão naturalista não muda de categoria apenas porque aceita a realidade de um plano imaterial, pois o fato de se reconhecer a existência de deuses e deusas não quer dizer que se deve atribuir a essas divindades a faculdade de criar e interferir na vida natural dos seres humanos. A cosmovisão que afirma que a existência de um reino natural (não importa se material ou imaterial) é criação de Deus é chamada de supernaturalismo. E é justamente isso que o cristianismo histórico e ortodoxo prega.


Cosmovisão ocultista

Estreitando o nosso foco, é possível afirmar que a bruxaria não só possui uma cosmovisão naturalista como também ocultista. O termo “oculto” vem do latim occultus, que significa “escondido” ou “segredo.” Esse conceito encerra um conjunto de crenças e práticas caracterizadas por dois pontos principais, ambos usualmente desconhecidos dos leigos.

Primeiro, o ocultismo ensina que existe uma força ou energia em cada um de nós que pode ser manipulada em nosso favor. O termo familiar “feitiço” é aplicado à “habilidade” de aproveitar e focalizar esse poder. O falecido bruxo Scott Cunningham explica: “O feitiço é [...] simplesmente um ritual no qual várias ferramentas são propositalmente empregadas, quando o objetivo é declarado (em palavras, figuras ou mentalmente) e a energia é movida para provocar o resultado esperado”. De acordo com o bruxo, a exata natureza dessa força ou energia e a melhor maneira de trabalhá-la são os fatores que determinam algumas das diferenças essenciais entre os principais grupos ocultistas, como, por exemplo, o xamanismo, a bruxaria, o satanismo e a nova era, entre outros.

Segundo, o ocultismo afirma que os seres humanos são divinos. A prática das artes ocultas é, portanto, um constante empenho em efetivar a própria divindade do adepto. Como disse outro bruxo, Margot Adler: “Um caminho espiritual que não seja inerte irá sempre conduzir a pessoa à compreensão de sua própria natureza divina. Tu és um deus. Tu és uma deusa. A divindade está imanente em toda a natureza”.


Cosmovisão humanista

A bruxaria define a si própria como uma “celebração da vida”. E essa celebração consiste na negação de que exista qualquer problema com a raça humana. Starhawk, praticante de bruxaria, alega que “podemos abrir nossos olhos e ver que não há nada que necessita de salvação, não há qualquer luta da vida contra o Universo, não há nenhum Deus a ser temido ou obedecido fora do mundo”. O mais reconhecido ancião da Sociedade da Deusa explica: “Como podemos alcançar a salvação, então? Não estamos sequer tentando ser salvos. Não entendemos que precisamos ser salvos de alguma coisa ou condição. A idéia de salvação pressupõe a queda de alguma coisa, uma falha fundamental da criação existente. As bruxas olham para o mundo ao nosso redor e vêem maravilha, nós vemos mistério”.


A bruxaria é pragmática


Notemos que o termo “prática” é comumente associado à bruxaria. O que isso quer dizer é que, para muitos, a wicca pode se referir tanto à prática como à crença. Apesar de ser óbvio que aquilo em quê uma pessoa crê é, invariavelmente, o que ela praticará, para a bruxaria o destaque está naquilo que a prática pode fazer para aumentar o próprio bem-estar do praticante e daqueles que vivem ao seu redor.

Os bruxos simplesmente não aderem a uma lista de dogmas. Na verdade, na maior parte dos casos, procuram se esquivar de qualquer fator que se aproxime de algo que possa ser definido como “dogma”. Adler descreve isso da seguinte maneira: “Se olharmos para trás o suficiente, veremos que todos os nossos antepassados praticaram religiões que não tinham nem credos nem dogmas, nem profetas nem livros sagrados. Essas religiões eram baseadas nas celebrações dos ciclos sazonais da natureza. Baseavam-se naquilo que as pessoas faziam e não naquilo que acreditavam. São essas religiões de politeísmo iminente que estão sendo reavivadas e recriadas pelos neopagãos de hoje”.

Uma simples busca por materiais que tratem sobre bruxaria na livraria local de sua cidade revelará como a grande parte das obras realmente aborda vários rituais e atividades que podem ser aperfeiçoados com o objetivo de manipular e utilizar uma suposta força cósmica ou psíquica em prol do que o praticante deseja. O adepto da bruxaria que se aventurar a seguir as orientações desses livros achará capítulos e mais capítulos dedicados a explicações sobre como usar trajes (roupões, vestidos, jóias, chapéus, etc.) e ferramentas (velas, ervas, cartas de tarô, talismãs, amuletos, etc.) e como executar rituais (feitiços, encantamentos, músicas, danças), além de outros ensinos que habilite o bruxo a se abrir a essas forças (caso sejam oriundas de fora) ou invocá-las (se elas se originarem de dentro). O adepto “aprenderá” a interpretar sonhos, meditar, ter experiências extracorporais, falar com os mortos, curar e ler áureas. O bruxo iniciante pode buscar desenvolver seus próprios poderes com o auxílio de outros bruxos (em uma convenção), ou sozinho (em prática solitária). Não há nenhuma obrigação de seguir qualquer método previamente estabelecido. Todas as atividades são projetadas para alcançar dois objetivos: aumentar o bem-estar do ego do praticante ou das pessoas ao seu redor e desenvolver sua própria divindade.


As várias tradições da bruxaria


• Tradição Gardneriana: fundada por Gerald Gardner, em 1950, na Inglaterra, foi a que mais contribuiu para que a bruxaria fosse difundida. Muitos rituais e trabalhos mágicos em numerosas tradições são originárias do trabalho de Gardner. O “gardnerianismo” é uma tradição hierárquica em que a sacerdotisa e o sacerdote governam.

• Tradição das fadas: teve origem entre os diversos povos europeus da idade do bronze que, ao migrarem para as colinas e para as altas montanhas, por causa das guerras e invasões, ficaram conhecidos como “duendes” ou “fadas”. Atualmente, existem várias facções deste grupo.

• Tradição familiar ou hereditária: neste caso, os bruxos são treinados por algum membro da família. Os bruxos “hereditários” ou “genéticos” são pessoas que descendem de quem já tenha origem pagã.

• Tradição céltica: é centrada nos elementos e símbolos da natureza. A maioria das bruxas verdes e os adeptos do druidismo seguem por esse caminho.

• Tradição britânica: baseia-se na hierarquia. Os rituais estão centrados na tradição céltica e gardneriana

• Tradição alexandrina: tradição popular que começou na Inglaterra, em 1960, sendo fundada por Alex Sanders. A maioria dos rituais é muito formal e baseada na magia cerimonial.

• Tradição caledoniana e picta: baseia-se em rituais escoceses.

• Tradição cerimonial: emprega a magia cerimonial para atingir os propósitos mais altos, algumas vezes, de cunho material. Segue os princípios da magia cabalística e da magia egípcia.

• Tradição diânica: algumas bruxas diânicas só cultuam a deusa, outras utilizam essa tradição para romper com os laços patriarcais “predominantes há muito tempo na terra”.

• Tradição georgina: criada por George Patterson, que se auto-intitulou “sumo sacerdote georgino”. É eclética, podendo empregar e misturar rituais de outras tradições.

• Tradição eclética: os bruxos dessa tradição realizam vários rituais, não se prendem a um único.

• Tradição hecatina: tradição dos bruxos que buscam inspiração em Hécate e tentam resgatar o culto a esta deusa.

• Tradição da cozinha: tradição cuja espiritualidade gira em torno do fogo e do lar.

• Tradição teutônica ou nórdica: é formada por pessoas que falam dialetos europeus. Para realizar rituais, inspiram-se em deuses das religiões em que se falam os dialetos germânicos.

• Tradição asatrú: facção das tradições teutônica e nórdica. É praticada por aqueles que se inspiram nos rituais e na religiosidade escandinava.

• Tradição algard: fundada pela americana Mary Nesnick, iniciada nas tradições gardneriana e alexandrina.


Bruxaria não é satanismo


Esta afirmação surpreende muitas pessoas, por isso vamos explicá-la melhor.

As duas ideologias não só possuem histórias diferentes, mas também, em certa medida, cosmovisões distintas. Afirmamos “em certa medida” porque há uma perspectiva encoberta compartilhada entre a bruxaria e o satanismo. Ambos são grupos religiosos ocultistas. Por causa disso, entendem a realidade como algo completamente natural. Não há nenhum Deus transcendente no mais concreto sentido do termo. Além disso, interpretam a realidade, seja material ou imaterial, como algo intrinsecamente relacionado e que trabalha de acordo com “leis” que podem ser dominadas e manipuladas segundo o desejo do praticante (do satanismo ou da bruxaria). Opõem-se plenamente ao cristianismo e repudiam não só a pessoa de Deus, mas também o papel de Jesus Cristo como redentor do gênero humano. Nesse sentido, há um senso comum, ou seja, que o satanismo e a bruxaria negam que o gênero humano possui necessidade de salvação, como já vimos.

Tais semelhanças não são banais, mas as diferenças também não. Uma das diferenças mais importantes remete ao fato de que qualquer atividade criminosa associada ao ocultismo é normalmente derivada de alguma forma de satanismo, enquanto, por outro lado, em questões de princípio e prática, a bruxaria é regida pelo credo: “Se não fará dano a ninguém, faça o que desejar”.

O satanismo é mais comumente associado a uma atitude de auto-exaltação, algo diametralmente díspar do senso de comunidade que caracteriza a bruxaria. Devemos acrescentar ainda que os satanistas diferem também no que concerne à compreensão do relacionamento da humanidade com a natureza. Os pesquisadores Shelley Rabinovitch e James Lewis observam o seguinte: “Para o bruxo neopagão, a natureza é vista como algo saudável, abertamente positiva e amigável à humanidade. O ideal da prática neopagã é se tornar ‘um’ com o mundo natural, é viver em harmonia com a natureza [...] Em contraste, os neo-satanistas vêem o mundo natural como algo necessariamente hostil aos seres humanos”.


Bruxaria não é cristianismo


Algumas bruxas acreditam que a prática da feitiçaria é compatível com o cristianismo. Mas, potencialmente, qualquer cristão é capaz de perceber, sem grande dificuldade, que isso é impossível. Poderíamos até mesmo ser censurados por afirmar algo tão óbvio: bruxaria não é cristianismo! Quem confundiria duas coisas tão desiguais? Contudo, ao sublinhar essa distinção, queremos mostrar duas coisas.

Primeiro, ressaltar o cuidado que devemos ter com vários aspectos sutis da prática da bruxaria, os quais não ferem a cosmovisão cristã, de modo a apresentar incompatibilidade. O que temos em mente aqui é como pode ser fácil para alguns cristãos assumirem que certas práticas que caracterizam o oculto em geral ou a bruxaria em particular são suficientemente neutras, a ponto de um crente fazer uso delas.

Para exemplificar, basta mencionar aqueles cristãos que não vêem qualquer problema em se submeter a sessões de cartas de tarô e não percebem que estão subvertendo a própria visão que possuem acerca da natureza da realidade (isso sem falar no perigo de envolvimento com atividades demoníacas). Mesmo que essas práticas funcionassem, devemos ponderar que o pragmatismo não é critério para a verdade. A Bíblia relata um caso em que aparentemente uma deusa estranha “ouvia” as preces de seus fiéis: “Mas certamente cumpriremos toda a palavra que saiu da nossa boca, queimando incenso à rainha dos céus, e oferecendo-lhe libações, como nós e nossos pais, nossos reis e nossos príncipes, temos feito, nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém; e então tínhamos fartura de pão, e andávamos alegres, e não víamos mal algum. Mas desde que cessamos de queimar incenso à rainha dos céus, e de lhe oferecer libações, tivemos falta de tudo, e fomos consumidos pela espada e pela fome” (Jr 44.17,18; grifo do autor).

O contexto em que esta referência bíblica está inserida mostra bem como a rainha dos céus “auxiliava” seus adoradores, mas como isso era reprovável aos olhos do Senhor: “Porque queimastes incenso [à “rainha dos céus”], e porque pecastes contra o Senhor, e não obedecestes à voz do Senhor, e na sua lei, e nos seus testemunhos não andastes, por isso vos sucedeu este mal, como se vê neste dia” (Jr 44.23).

A nossa segunda justificativa para tratar de uma distinção tão óbvia está relacionada ao fato de que o cristianismo e a bruxaria compartilham (por mais incrível que possa parecer) pontos comuns.

Primeiro: por causa de sua cosmovisão acerca da natureza do mundo, as bruxas têm um forte juízo de preocupação ambiental. Logicamente, as motivações das bruxas e dos cristãos são amplamente distintas. As bruxas possuem consciência ambiental porque crêem que a natureza é sagrada. Os cristãos a encaram como uma questão de mordomia, como algo que Deus nos entregou para zelarmos. Além disso, os cristãos concordam que somos responsáveis pela preservação do meio ambiente. Como essa responsabilidade ambiental se traduz em política pública e ações individuais, pode variar conforme a ideologia política e pessoal; não obstante, todos concordamos que existe uma responsabilidade ambiental a ser compartilhada.

Segundo: as bruxas possuem notável consciência em relação aos problemas globais (guerra, fome, doença, etc.). Novamente, a maneira exata como essas preocupações se traduzem em política pública e ações individuais, pode variar conforme a ideologia, mas o nosso campo de interesse é comum e decorre do fato de que somos todos seres humanos e vivemos no mesmo planeta.

Terceiro: as bruxas tendem a ser generosas com os seres humanos da mesma categoria delas. O estereótipo de bruxas que cultivam intenções macabras e efetuam feitiços de magia negra é, às vezes, inverídico e precisa ser avaliado com cuidado.

Em face disso, temos claro que, em certo sentido, é possível estabelecer alguma congruência entre a bruxaria e o cristianismo. Entretanto, a nossa insistência, nesse âmbito, não deve nos distanciar do fato de que a bruxaria e o cristianismo (diferente de bruxos e cristãos) são inimigos mortais. No final das contas, o que é realmente importante é a conclusão da verdade sobre a natureza de Deus e dos seres humanos. Vejamos, então, as características básicas do cristianismo:


O cristianismo é monoteísta

O cristianismo afirma que há um só Deus e que nenhum ser humano é esse deus. A bruxaria afirma o avesso: “Nós somos os deuses da natureza, e um homem ou uma mulher plenamente consciente é, em si, um canal de acesso à divindade, a manifestação de um deus ou de uma deusa”. Em atitude hostil, Adler cita (fora do contexto) as seguintes palavras do historiador James Breasted: “O monoteísmo é um imperialismo religioso”. “No lugar do rígido monoteísmo cristão, a bruxaria não apenas diviniza o “eu”, mas também venera ostensivamente os deuses e as deusas pagãos”.


O cristianismo é exclusivista

Devemos nos lembrar das palavras de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6). Em oposição, Adler declara: “A crença de que existe uma só palavra, uma só verdade e um só caminho para a luz é nociva e capaz de destruir idéias, instituições e os próprios seres humanos [...] A escolha espiritual de alguém não precisa ser necessariamente a minha”.


O cristianismo é autoritário

Normalmente, o termo “autoritário” se agrega a idéias negativas, mas se ser “autoritário” significa “reclamar autoridade”, então o cristianismo se encaixa nesse conceito. Deus não apenas se revelou pelas coisas que criou (Sl 19.1; Rm 1.20), mas também se revelou, finalmente e completamente, na pessoa de Jesus Cristo e nas linhas das Sagradas Escrituras. Ao contrário disso, Frew diz: “Conceder a um texto sagrado tanta autoridade redunda no ensinamento de que esta verdade foi e continua sendo verdade durante todo o tempo. Mas nós somos uma religião da natureza, e uma das verdades fundamentais da natureza é que tudo muda”.

Os cristãos reconhecem a autoridade da Palavra de Deus em todos os âmbitos, por isso têm de aceitar que a Bíblia condena a prática da bruxaria inequivocamente, assim como todas as demais formas de expressão do “oculto” (Dt 18.10-12; At 13.6-11; 16.16-18; Gl 5.19–21).


O cristianismo prega a necessidade de salvação

A mensagem mais importante que temos para dar ao mundo é o evangelho de Jesus Cristo. Sem o sacrifício de Jesus para nos purificar de nossos pecados e nos reconciliar com o nosso Criador (2Co 5.18,19), não há nenhuma esperança para o mundo. A bruxaria ensina que o nosso destino é retornar novamente a este mundo por meio da reencarnação, como Cunningham comenta: “Apesar de a reencarnação não ser um conceito exclusivo da bruxaria, é abraçado pela maioria dos bruxos, porque essa doutrina responde a muitas perguntas acerca da nossa vida e oferece explicações para fenômenos místicos, como a morte, o nascimento e o carma”. Frew acrescenta: “A despeito de muitos de nós acreditarmos em reencarnação, não buscamos escapar do ciclo do renascimento. Não podemos imaginar nada mais maravilhoso que voltar a esta terra tão generosa e bela”.

Contrastando essa ilusão fatalista, a Bíblia adverte: “Aos homens está ordenado morrer apenas uma vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27).


Qual é a responsabilidade cristã?


A obra que nos aguarda nunca se altera, pois não depende do tamanho do grupo-alvo. As táticas e as estratégias podem variar, caso sirvam a propósitos diferentes, como, por exemplo, apologéticos, evangelísticos ou discipulados, mas a comissão nunca varia. É necessário que nós, cristãos, sejamos mais diligentes na pregação do evangelho. Para que isso ocorra, além da presença, capacitação e atuação do Espírito Santo (Jo 16.8; premissas óbvias), pode ser de grande ajuda estudar as práticas do grupo que intentamos evangelizar. Informados e sensíveis às crenças alheias, estaremos mais preparados para assumirmos a nossa responsabilidade.


Notas de referência:

1 Parlamento das religiões mundiais: http://www.cpwr.org / 2004Parliament/welcome/index.htm.

2 FREW, Donald H. Pagãos em diálogo intereligioso: novas crenças, novos desafios. Na web: http://www.cog.org/pwr/don.htm. Sobre a importância da presença da bruxaria na conferência, Frew comentou: “O Parlamento de 2004 definitivamente solidificou a nossa posição como uma religião estabelecida no cenário mundial” (entrevista concedida em 31 de outubro de 2004).

3 BROOKS, Alexandre. O popularismo da bruxaria: revelando seu impacto em você e em sua família. Eugene, Ohio: Harvest House Publishers, 2004, p. 23.

4 Gardner afirmava ter sido iniciado em 1939 numa tradição de bruxaria religiosa que acreditava ser uma continuação do paganismo europeu. Doreen Valiente, mais tarde, identificou aquela que iniciou Gardner como sendo Dorothy Clutterbuck. Fez isso no livro A Bíblia da bruxaria, escrito por Janet Farrar e Stewart Farrar, em 2002. Essa identificação foi baseada em referências que Valiente se lembrava de Gardner fazer a uma mulher a quem ele chamava de “velha Dorothy”. Ronald Hutton diz, no entanto, em seu livro, que a tradição gardneriana era largamente inspirada em membros da Ordem Rosa-Cruz e, especialmente, em uma mulher conhecida pelo nome místico de “Dafo”. O dr. Leo Ruickbie, em seu livro, Bruxaria além das sombras (2004), analisou as evidências documentais e concluiu que Aleister Crowley teve um papel crucial ao inspirar Gardner a criar uma nova religião pagã. Ruickbie, Hutton e outros também discutem a hipótese de muito do que foi publicado sobre a bruxaria gardneriana ter sido escrito por Doreen Valiente e Aleister Crowley.

5 www.cacp.org.br/halloween.htm

6 CUNNINGHAM, Scott. A verdade sobre a bruxaria hoje. Minessota: Llewellyn Publications, 1988, p.17.

7 ADLER, Margot. Atração pela lua: bruxas, druidas, deusas e outros pagãos na América atual. Massachussets: Bacon Press, 1986, p. 9.

8 A dança espiral: o renascimento da religião antiga da grande deusa. São Francisco: Harper e Roe Publishers, 1979, p.14.

9 Parlamento das religiões mundiais: http://www.cpwr.org / 2004Parliament/welcome/index.htm.

10 ADLER, Margot. Atração pela lua: bruxas, druidas, deusas e outros pagãos na América atual. Massachussets: Bacon Press, 1986, p. 9.

11 http://www.alternativadevida.com

12 FARRAR, Janet e Stewart. A Bíblia da bruxaria: princípios, rituais e crenças da bruxaria moderna. Nova York: Magickal Childe, 1987, p.135.

13 RABINOVITCH, Shelley; LEWIS, James. Enciclopédia de bruxaria moderna e neopaganismo. Nova York: Citadel Press, 2002, p.185-6.

14 FROST, Gavin; FROST Yvonne. O poder oculto da bruxaria. Nova York: Parker Publishing, 1976, p.130.

15 FARRAR, Janet; FARRAR Stewart. A Bíblia da bruxaria: princípios, rituais e crenças da bruxaria moderna. Nova York: Magickal Childe, 1987, p. 33.

16 ADLER, Margot. Atração pela lua: bruxas, druidas, deusas, e outros pagãos na América atual. Massachussets: Bacon Press, 1986, p.7.

17 A ênfase nos deuses e deusas, segundo a cosmovisão da bruxaria, origina-se da interação dos opostos que buscam equilíbrio. O casal Farrar explica: “Toda atividade e toda manifestação surge da interação de pares e opostos que se complementam, e é inconcebível doutra maneira” (A Bíblia da bruxaria, p.107).

18 ADLER, Margot. Atração pela lua: bruxas, druidas, deusas, e outros pagãos na América atual. Massachussets: Bacon Press, 1986, p. 8I.

19 FREW, Donald H. Pagãos em diálogo intereligioso: novas crenças, novos desafios. Na web: http://www.cog.org/pwr/don.htm.

20 CUNNINGHAM, Scott. A verdade sobre a bruxaria hoje. Minessota: Llewellyn Publications, 1988, p. 65.

21 FREW, Donald H. Pagãos em diálogo intereligioso: novas crenças, novos desafios. Na web: http://www.cog.org/pwr/don.htm.

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