Defesa da Fé

Edição 87

O apagão da Fé na Europa


Por que esse continente está se distanciando de Deus?

Por Oziel Alves

O continente que um dia foi luz para o mundo vive, hoje, na escuridão da fé. Todavia, manterá para sempre o título de honra de ter sido o “maior propagador do evangelho no mundo”, ou seja, o centro institucional de onde, por mais de mil anos, espalharam-se as boas-novas do Messias. A cada espaço de terra conquistado ou descoberto, prosseguia a bandeira do cristianismo. Eram guerras, batalhas sangrentas, bárbaros conflitos, em nome de um “deus triúno”, denominado “igreja-estado-poder”, talvez muito mais temido que o verdadeiro Deus do cristianismo hoje. Época de fanatismo religioso, de atrocidades em nome de um Deus bondoso. Um paradoxo, até. Como exemplo, a história das sete cruzadas, por meio da qual a fé foi manchada de sangue por mais de duzentos anos. A luta desenfreada do imperador cristão Constantino que, com uma espada em uma das mãos e a cruz na outra, aniquilava quem ousasse discordar do cristianismo. O derramamento de sangue de protestantes indefesos, em Paris, século 15, época em que dez mil inocentes foram massacrados por serem cristãos e seguidores de um manso e humilde Jesus. Nos vales de Piedmont, o cenário de uma das chacinas mais desumanas, centenas de mulheres foram sufocadas, prensadas dentro de cavernas. Há, ainda, a história da Inquisição. Segundo o pesquisador Justine Glass, cerca de nove milhões de vidas foram sacrificadas de diferentes formas em apenas um século. Mas poderíamos citar outras e outras e outras.

Assim se estabeleceu o cristianismo no mundo, por meio de uma evangelização imposta pela força e pela violência. Mas, com o passar dos anos, tanto o cristianismo quanto as pessoas evoluíram. As atrocidades, ao menos da fé cristã, cessaram. O cristianismo, então, tornou-se nobre, dividiu, progrediu, reformou, multiplicou e, com o passar das gerações, uma nova marca de bondade foi lapidada, contribuindo para sua boa imagem. Segundo a Enciclopédia Cristã Mundial, até 2005, do caule dessa grande religião, cujos galhos são católicos, independentes, protestantes, ortodoxos, anglicanos e marginais, surgiram mais de 39 mil tipos de denominações, totalizando, em todo o mundo, 2 bilhões e 256 milhões de“fiéis”. De acordo com estudiosos, foi a adoção dos princípios cristãos que elevou a Europa ao alto estado de civilização e à posição de destaque que ocupa, ainda hoje, na sociedade contemporânea. Contudo, as pesquisas mostram que esse tempo está no fi m. A Europa passa por um processo de secularização extremamente signifi cativo e está excluindo Deus da vida das pessoas. O islamismo cresce sobremaneira e o cristianismo está em declínio. O dr. Russel Shedd, renomado teólogo cristão, afirma:

“Vai-se viver como se Deus não existisse. Não quer dizer que todo mundo está se tornando ateu. Mas há uma modernização. Registram-se influências como o pensamento de Darwin, entre outros. Isso se dá, também, porque as pessoas têm o que desejam: emprego, família bem cuidada, plano médico, quer dizer, não precisam de nada”.

A Europa de John Wesley, C. H. Spurgeon, Martyn Lloyd Jones, já não existe mais. A evolução do conhecimento e o conforto típico da infra-estrutura de um país de Primeiro Mundo têm cegado aqueles que ousam se aproveitar dele sem uma base sólida na fé. A maioria dos europeus, atualmente, age como se Deus fosse uma lenda, um ícone mitológico, apenas mais um no panteão de deuses gregos.

As igrejas se esvaziam rapidamente e muitas fecham suas portas. Citado em uma reportagem da CBN News, Richard Miniter, correspondente do jornal inglês The London Sunday Times, em Bruxelas, Bélgica, declara: “Quando você diz aos europeus que você vai à igreja no domingo, as pessoas olham para você como se você fosse uma peça de museu”. Menos de 5% da população européia vai à igreja e, dentro desse porcentual, incluem-se os católicos. Apenas 3% do público freqüentam cultos regularmente e desses 3% metade é constituída de negros, sendo que somente 5% da população européia é negra.

O pastor Paul Devos, do Centro Cristão das Assembléias de Deus na Bélgica, afirma: “Aqui na Europa, as pessoas não esperam nada da religião. Acreditam que para esta vida não há nenhuma esperança a ser encontrada na igreja. A pregação é feita para uma cultura que não acredita mais na fé do cristianismo. Na Espanha, a religião é opressão cruel; na Escócia, ela é um triste pesadelo; na Itália, especialmente em Roma, ela é o domínio sacerdotal; enquanto na Inglaterra, ela é simplesmente um passatempo emocional”.

O reverendo americano Alan Baker, líder no mesmo Centro Cristão, diz: “Uma coisa que eu sinto muito é um antigo espírito de falta de esperança”. E diz mais: “As pessoas me falam que quando descem do avião, chegando à Bélgica, sentem mãos espirituais ao redor de suas gargantas lhes trancando a respiração. Há um espírito muito forte de desesperança”.

De acordo com a reportagem intitulada Dark Continent [“Continente sombrio”], do jornalista Dale Hurd, em uma pesquisa realizada em 2002 com americanos, ingleses, franceses e alemães, 61% dos americanos declaram ter esperança para o futuro contra 42% dos ingleses, 29% dos franceses e apenas 15% dos alemães. Diante dessa descrença em massa, Richard Miniter declara: “A perda da fé (em Deus) na Europa é como uma estrela negra invisível que ainda tem uma tremenda força gravitacional. Eles não entendem porque a sua própria cultura está falindo. Eles não entendem porque os índices de divórcio e suicídio estão tão elevados. Não entendem porque poucas mulheres européias têm mais que um filho e porque, na maioria das ruas, você vê mais cachorros que crianças. Este é o impacto da morte do cristianismo na Europa”. Ao questionar um britânico sobre quem ele considera uma figura “inspirativa”, apenas 1% deles dirá Jesus Cristo. Até Britney Spears ocupa posição de maior popularidade. Felizmente, há, ainda, pessoas que empenham suas forças e acreditam em um possível reavivamento da Europa. Peter Kerridge, diretor-geral da Premier Rádio no Reino Unido, faz parte desse seleto grupo. Ele diz: “Não importa quantas manchetes saiam dizendo que a igreja está morta. A verdade é: a igreja nunca morrerá. Estamos passando por um declínio em algumas áreas, mas enorme crescimento em outras”. Em Londres, por exemplo, igrejas pentecostais cristãs para negros estão explodindo. Nos últimos cinco anos, houve um crescimento de aproximadamente 18% da população cristã entre as classes minoritárias. Na capital inglesa, um terço de todos os cristãos é de negros. Segundo a Enciclopédia Britânica Mundial, em 1900, 81% da população cristã no mundo era branca; esse número caiu para 43%, em 2005.

O bispo Joe Aldred, porta-voz da igreja dos negros na Grã-Bretanha e Irlanda, enfatiza: “Há evidências muito fortes de racismo em todas as denominações, algo que os americanos chamam de ‘luta contra os brancos’. Na igreja onde eu era pastor, em Birmingham, se você voltar 25 anos atrás, vai ver que era uma Igreja Batista com sua maioria de cor branca. Hoje, 98% de sua membresia é negra.

Uma das esperanças para restabelecer o cristianismo na Inglaterra é por meio da reevangelização das minorias étnicas. O trabalho em células é a nova arma que possivelmente será utilizada para atrair novos convertidos. O pastor Devos diz: “Não podemos sair tocando a campainha da casa das pessoas, indo de porta em porta, tentando alcançá-las. Elas não acreditam mais em nós. É necessário se estabelecer um contato pessoal, direto, feito pelos próprios membros”.

A Europa continua sendo o centro cultural e intelectual do mundo. Para alguns, pode ser uma realidade muito distante, para outros, mais familiarizados com a globalização, algo muito próximo. As idéias do velho continente viajam o mundo como um vírus de computador. Fato é que os tentáculos da secularização européia chegarão ao Brasil e invadirão nossas igrejas, provocando efeitos semelhantes. Mais cedo ou mais tarde, isso acontecerá, é só uma questão de tempo. Por isso, é bom que estejamos com nossos sistemas bem protegidos. Por enquanto, estamos no lucro. As pesquisas indicam um crescimento exponencial do cristianismo no Brasil durante os próximos vinte anos. O número previsto chega à casa dos 47 milhões de pessoas até 2025. Nos Estados Unidos, serão 43 milhões de novos convertidos. No México, Índia, Filipinas, Rússia, Etiópia e Uganda os índices são expressivos também. Na Nigéria, o crescimento chegará aos 72 milhões de pessoas. E mais surpreendente ainda será a Ásia, onde crescimento, de acordo com as estimativas, chegará perto de 124 milhões de pessoas. Esses países farão parte das dez grandes nações cristãs no mundo, nos próximos vinte anos, se as probabilidades e estatísticas não falharem.

A Europa esteve no topo das grandes nações cristãs por 19 séculos e hoje tende ao desaparecimento. Vinte anos passam muito depressa e o que será da América Latina depois disso? Ao Brasil, especificamente, um alerta: na medida em que o país evolui sua posição sócioeconômica, de subdesenvolvido para “em desenvolvimento”, a fé tende ao esfriamento. O crescimento do evangelho na América Latina é realmente de impressionar: 64% nos últimos 100 anos. No entanto, hoje já se faz necessário buscar diversos artifícios “teológicos” de entretenimento para atingir as massas.

A conclusão pode ser infeliz, mas se um dia chegarmos ao posto de nação de Primeiro Mundo, nossos crentes talvez sejam lembrados apenas como estrelas que perderam sua luz, mas que ainda a emanam,mesmo que de forma fictícia.

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