Defesa da Fé

Edição 87

Teologia bíblica ou teologia sistemática


Unidade e diversidade no Novo Testamento

Autor: Donald Arthur Carson – Por Marcos Heraldo Paiva

Nascido em 12 de dezembro de 1946, Donald Arthur Carson é teólogo e leciona Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School e na Trinity Internacional University.

Autor de mais de quarenta títulos, é formado em química, mas conquistou seu Ph.D. em teologia na respeitada Universidade de Cambridge. Depois de atuar na direção de algumas comunidades batistas, reformou-se no ministério pastoral, sendo reconhecido como um dos mais respeitados exegetas da atualidade.

A obra de sua autoria em análise busca uma interpretação adequada do que venha a ser a teologia bíblica em comparação à teologia sistemática, definindo, de forma técnica e detalhada, esses ramos aparentemente similares, mas que, na observação crítica de Carson, cada qual expõe uma série de quesitos decisivos a uma elucidação apropriada.

A partir desse planejamento, Carson destaca duas importantes obras teológicas que exploram as questões inerentes a essas duas teologias, distintas por aspectos que identificam o cerne explorado pelos dois autores dissecados por ele, quais sejam: James D. G. Dunn e J. L. Houlden.

O livro de Dunn é tratado por Carson como um primoroso trabalho do comentarista, atual e com grande influência no campo das duas disciplinas. Todavia, peca ao apresentar propostas que não são cumpridas no desenvolvimento da obra, não garantindo o êxito que se espera. O título do livro do autor em questão é: Unity and Diversity in The New Testament [Unidade e diversidade no Novo Testamento].

O livro de Houlden, sob o mesmo crivo, fica relegado a segundo plano, dado o pequeno espaço dedicado pelo autor na obra batizada com o título Patterns of Faith [Padrões de fé].

Carson deixa claro que pretende atender a um público seleto e que já possua estrutura intelectual e teológica para discussões nesse nível, ou seja, alunos cursando disciplinas teológicas em seminários acadêmicos e que, independente do centro de interesse no Novo Testamento, busquem uma explicação mais conveniente para especificarem quais são os vínculos e as distinções concernentes a essas duas correntes teológicas.

Mesmo esse público, na visão do autor, precisa está amparado a um patamar de conhecimento que se amolde aos melhores cursos de especialização na área, pois esse grupo seria aquele que mais levaria em conta a relevância dessa discussão.

Para que haja um ponto de partida que justifique essa exploração — mais ideológica que teológica — Carson destaca questões polêmicas e de absoluta necessidade, que assombrariam as mentes cristãs mais despreparadas. Entre ela, o autor enfatizará:


A importância das “contradições” no Novo Testamento

As diferentes perspectivas que impediriam a elaboração de uma teologia sistemática aceitável

A diversidade lingüística e conceitual grafadas nas páginas do Novo Testamento


A introdução, elaborada por Luiz Sayão, discorre sobre a distinção entre a teologia, na acepção do termo, e a Bíblia, seja como fonte, seja como lastro. No primeiro caso, como se representasse uma oposição à teologia bíblica, no segundo, como se da própria Bíblia derivasse, o que Sayão considera um erro.

Suas considerações pressupõem que a Bíblia pode ser considerada um ponto de partida e de motivação para a compreensão das linhas de pensamento teológicas paralelas, mas não presas à teologia sistemática nem à dogmática. Sayão destaca, ainda, o discurso em que o autor esclarece os objetivos das duas teologias (bíblica e sistemática), para que, ao final, aponte o consenso entre as duas, por meio do qual surgirá uma interação. Então, encerra o prefácio passando confiança na qualidade e relevância do livro.

O debate proposto pela crítica de Carson cabe perfeitamente na necessidade de pontuar uma e outra linha teológica, na medida em que não se pode — e não se deve — reconhecer na expressão “teologia bíblica” qualquer sinônimo, perfeito ou aparente, com a “teologia sistemática”. Elas são diferentes! No caso da teologia bíblica, o cânon do Novo Testamento (e, talvez, do Antigo Testamento) oferece informações históricas e contextuais que habilitam a produção de pensamento nesta linha, mas impedem o uso simplista dessas mesmas informações quando o objetivo é sistematizar a teologia a partir da Bíblia.

O dr. Carson depõe a esse respeito ao considerar, por exemplo, o seguinte: se o estudo for impressionista, ou incoerente, dificilmente poderá ser classificado como teologia; e, se for teologia, será, forçosamente, sistemática em alguma medida (p. 26).

Isso se aplica à formação de todos aqueles que desejam alçar o mais alto vôo no espaço aberto pela crítica teológica de mestres como Donald Arthur Carson, especialmente aqueles que já adquiriram os conhecimentos oferecidos pelos seminários de nível inferior e que preferem priorizar os pontos mais complexos que os pontos mais comuns oferecidos à discussão nos cursos de pós-graduação, ao que o autor questiona, citando um grupo distinto: “... Por que um estudante, cujo foco primordial de interesse acadêmico seja os documentos do Novo Testamento, deveria se envolver com questões que dizem respeito aos alicerces da teologia sistemática...?” (p.12).

Por conta disso, percebe-se que o conteúdo se propõe a abranger, ao máximo possível, os pontos que compõem o cerne de toda e qualquer questão distintiva das duas teologias discutidas, e isso é sinalizado por meio da obra pela crítica amadurecida e autêntica do autor, que não rompe com a ética quando apresenta deficiências que seleciona, tanto na obra de Dunn quanto na de Houlden.

Carson organizou as páginas de sua crítica de forma a facilitar o cumprimento de seu objetivo, sendo prático na apreciação do argumento que emprega, dividindo o livro em cinco capítulos.

No primeiro, trata da definição da questão no geral, onde aponta seu público-alvo e destaca as questões mais difíceis que devem ser esclarecidas pelos professores teológicos.

No mesmo capítulo, aborda, ainda, a fé do aluno/leitor em relação ao que deve ser considerado acerca do Novo Testamento, ou seja, que o Novo Testamento é “nada menos que a Palavra de Deus” (p.13), mesmo que, segundo Carson, tenha de ser íntegro e “lutar com a diversidade” ali existente.

Ainda nesse ínterim, Carson aprecia uma terceira obra teológica. Dessa vez, de autoria de Walter Bauer, chamada Orthodoxy and Heresy Earliest Cristianity [Ortodoxia e heresia cristã primitiva], na qual se analisa o método da ortodoxia empregada pelos cristãos primitivos. A partir daí, Carson cita teólogos expressivos, como, por exemplo, Ernst Kasemann, George Eldon Ladd e sua Teologia do Novo Testamento (publicada também em português) e R. P. Martin.

No segundo capítulo, ele define o trabalho em si e começa a examinar o livro de James Dunn, sempre o fazendo de forma comparada ao pensamento de demais teólogos importantes nesta linha de discussão. É, ainda, nesse capítulo que Carson fala da importância da exegese e da crítica que também observa a história como meio de produção de um julgamento legítimo dos dois pontos, destacando pré-requisitos que admitem a elaboração de uma teologia bíblica, sem que eles autorizem a redação de uma teologia sistemática.

O terceiro capítulo é mais que uma crítica. É uma resenha proposta por Carson para comparar as obras de Dunn e de Bauer, onde ele tenta apontar a unidade que reconhece e na qual crê ser possível para o Antigo Testamento, mas sem que feche os olhos para uma patente diversidade já notificada anteriormente.

Também é nessa parte do livro que o autor revela que Dunn se limitou em sua exploração porque estava baseado na obra de Bauer, pois Dunn considerava correta em seu âmago, mas que, para o dr. Carson, Dunn peca ao tentar achar um denominador comum para as diversidades do Novo Testamento, mas sem se dedicar ao estudo do pecado, da encarnação, da expiação, entre outras noções imprescindíveis do cristianismo. O autor conclui sua crítica ao livro de Dunn esclarecendo que Dunn não deveria reclamar tamanho valor a uma obra tão superficial como a que Carson encontrou durante sua análise.

No quarto capítulo, Carson demonstra a unidade nos textos do Novo Testamento, mas repete que a diversidade notória nos seus escritos também deve ser levada a sério, oferecendo, ainda, uma saída para o texto de uma teologia sistemática, mesmo diante da diversidade citada.

Sete são os pontos que Carson enaltece e que julga positivos à defesa dessa unidade em meio diversidade. São eles:


UNIDADE E DIVERSIDADE NO NOVO TESTAMENTO


1. Primeiramente, é importante reconhecer que qualquer um que não seja ateu adota algum tipo de teologia sistemática.

2. O conjunto de dados a ser colocado diante dos teólogos sistemáticos é toda a Bíblia, os 66 livros canônicos, e a validade dessa escolha depende da adoção de quatro posições.

3. O progresso da revelação deve ser tratado com toda serenidade, mas o apelo à revelação progressiva para excluir componentes inconvenientes ao longo do trajeto dessa mesma revelação é um recurso que deve ser evitado.

4. Geralmente, a diversidade do Novo Testamento reflete cuidados pastorais diferentes, sem quaisquer implicações de uma estrutura doutrinária diferente.

5. A diversidade encontrada nos documentos do Novo Testamento reflete os diferentes interesses pessoais e estilos de cada um dos autores.

6. Com base nessas reflexões, deve-se insistir em que não há qualquer desgraça relacionada à harmonização teológica que seja da essência da teologia sistemática.

7. Teólogos sistemáticos deveriam ser cuidadosos em observar como diferentes verdades e argumentos funcionam nas Escrituras. Deveriam, ainda, ser cautelosos, a fim de não abandonarem essas funções em favor de outras.


Após discorrer sobre cada um dos tópicos enumerados, Carson nos conduz à sua conclusão, na qual critica os crentes que se acomodam em falar da moralidade cristã sem sequer conhecer as bases da teologia. Tais crentes, segundo Carson, atacam seus compatriotas cristãos por ignorarem verdades tão íntimas acerca das doutrinas do cristianismo. Por fim, Carson descarta os argumentos de Dunn e de Bauer que dizem que a Igreja primitiva estaria alicerçada em um pensamento morno e sem firmeza a respeito das exigências da ortodoxia cristã.

Para o dr. Donald Arthur Carson, todo esse enredo de discussão se mostra como um objetivo muito mais louvável aos estudiosos que querem ir além e provar novos horizontes que não se resumam a tudo o que as teologias sistemáticas já ofereceram em explicações sobre a essência do cristianismo.

Com um discurso difícil de ser assimilado, dirigido aos mais habilitados, e uma harmonia textual que contribui com o entendimento, o livro de Carson oferece, em suas 95 páginas, um tema coerente em seus dois pontos de abordagem, mas de moderada dificuldade, ainda que seu desenvolvimento demonstre uma compreensão prática e elucidativa.


TEOLOGIA BÍBLICA X TEOLOGIA SISTEMÁTICA


Teologia bíblica

Teologia bíblica é a sistematização dos ensinos teológicos de acordo com suas ocorrências nas diversas partes da Bíblia. Essa sistematização utiliza um critério fenomenal e não o de tópicos. Não tem como propósito reafirmar as expressões da Bíblia em uma moldura atual.


Teologia sistemática

Teologia sistemática é a disciplina que busca organizar o conteúdo doutrinal das Escrituras, de modo coerente, expressando-o de forma atual e relacionando-o com as questões referentes à prática do cristianismo.

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