Defesa da Fé

Edição 87

Como o abandono do cristianismo está levando a Europa ao desastre


Por Ed Vitagliano

Alguém sabe onde é que dá para encontrar alguns etruscos? Não se lembra de que os etruscos constituíam uma civilização que existia na antiga Itália, em uma época anterior ao surgimento de Roma?

O fato é que não adianta procurar, pois agora não existe mais ninguém dessa civilização. A civilização romana absorveu os etruscos, que deixaram de existir como um povo distinto.

Um fato assustador e preocupante: se um crescente número de especialistas e observadores culturais estiver certo, é inteiramente Apossível que se faça a mesma pergunta daqui a 100 anos, só que sobre os italianos, espanhóis ou russos.

O escritor Mark Steyn comentou o seguinte, no jornal The New Criterion: “Boa parte do que geralmente chamamos de mundo ocidental não sobreviverá neste século. Em verdade, boa parte do ocidente desaparecerá durante a nossa própria geração, inclusive muitos, ou até mesmo a maioria, dos países da Europa ocidental”.


Escassez de bebês


O que poderia possivelmente causar tal cataclismo? Outra guerra mundial? Um confronto nuclear? A devastação de uma praga, semelhante à “peste negra”, do século 14? Nada que seja assim tão dramático, dizem os especialistas. Em vez disso, a Europa está morrendo aos poucos simplesmente porque os europeus se recusam a ter filhos suficientes para substituir as pessoas que morrem anualmente na Europa. O estudioso George Weigel, membro sênior do Centro de Políticas Públicas e Ética, e autor do livro The Cube and The Cathedral [O cubo e a catedral], diz que a Europa está “cometendo suicídio demográfico, destruindo, sistematicamente, sua própria população”.

Para que consiga permanecer em um nível estável, uma população tem de manter um índice de nascimentos de 2.1 nascimentos por mulher. Esse índice supre uma substituição para a mãe e o pai, enquanto somente 1 nascimento cobre apenas a mortalidade infantil. Quando o índice de nascimentos cai abaixo desse número, uma população entra em fase de declínio — a não ser que convide grande número de imigrantes.

“A ‘escassez de bebês’ é o que os demógrafos chamam de índice de nascimentos em queda na maior parte do mundo industrializado”, diz o comentarista cultural Chuck Colson. “Em toda a Europa ocidental e no leste asiático, o índice de nascimentos está bem abaixo de 2.1 nascimentos por mulher…”.

O sociólogo Ben Wattenberg, autor do livro Fewer: How the New Demography of Depopulation Will Shape Our Future [Cada vez menos: como a nova demografia da diminuição populacional moldará o nosso futuro], observa essa escassez de bebês a partir de uma perspectiva histórica: “Jamais, nos últimos 650 anos, desde a época da peste negra, os índices de nascimento e fertilidade caíram tanto, tão rápido, em nível tão baixo, por tão longo tempo, em tantos lugares”.

Baseando-se em estatísticas da ONU e outras projeções, Patrick Buchanan declara no livro The Death of the West [A morte do ocidente] que, em 2050, a Europa (da Islândia à Rússia) verá sua população diminuir de 728 milhões (no ano 2000) para 600 milhões — e, talvez, 556 milhões. E se as tendências atuais continuarem, no fim do século a população da Europa permanecerá em 207 milhões.


Colapso dos valores familiares


Gene Edward Veith, da revista World, resume essa situação assim: “Qual é a razão da diminuição populacional? O colapso mundial da população se encontra, literalmente, nos valores familiares. Graças à tecnologia contraceptiva, o sexo foi separado da geração de uma nova vida. Com as mulheres se ocupando com suas próprias carreiras e os homens obtendo sexo sem a responsabilidade de um casamento, por que se incomodar com filhos? Para muitas mulheres e homens, uma gravidez se tornou um efeito colateral desagradável, algo para se impedir com anticoncepcionais ou para se tratar facilmente com uma ida à clínica de aborto”.

Na opinião de Veith, o aborto tem boa parte da culpa. “O segredinho sórdido da implosão populacional, que os demógrafos raras vezes mencionam, é que o mundo está abortando suas gerações futuras”, diz ele.

Os grupos pró-famílias, nos EUA, por exemplo, com todo acerto lamentam o índice de abortos naquele país, onde Veith diz que um terço ou um quinto de todas as gravidezes acaba em aborto. Contudo, algumas nações européias estão em situação bem pior. “Na Rússia, em média, as mulheres fazem até quatro abortos durante a vida”, afirma ele. “Para cada parto em que o bebê nasce vivo, há dois abortos. Isto é, os russos matam dois terços de seus filhos antes que nasçam”. Tudo isso é sintoma de que o amor aos prazeres carnais se espalhou e permeou o ocidente, “uma completa filosofia de prazer” (hedonismo), de acordo com Allan Carlson, presidente do Centro Howard para a Família, Religião e Sociedade.

“Em todos os lugares da Comunidade Européia, EUA e Canadá, todos só dão atenção ao consumo de alimentos (alternadamente fartos e sem gorduras), freqüente sexo e entretenimentos estridentes”, diz Carlson. “Relativamente, poucos têm a experiência de crianças por perto. Os adultos jovens, que são férteis, contam com dispositivos mecânicos e agentes químicos para frustrar os desígnios da natureza.

Em lugares tão culturalmente diferentes como Espanha, Itália, Dinamarca e Alemanha, as experiências sexuais começam cedo, mas raramente alguém dá à luz um filho”. Apesar dos esforços de algumas nações européias, que fazem de tudo para que os adultos sintam desejo de terem filhos, tais como: redução de impostos e incentivos financeiros, alguns especialistas acham que o que triunfará no fim é a busca da satisfação pessoal.

Joseph Chamie, diretor da Divisão Populacional da ONU, diz: “Nenhum demógrafo acredita que os índices de nascimento voltarão a crescer. Será fácil convencer uma mulher a ter quatro filhos? As pessoas estão simplesmente preocupadas com sua aparência, educação, carreiras, etc”.

O irônico, porém, é que essa busca de prazer e riqueza pessoal poderá terminar, como conseqüência, em ruína econômica.

“Quando o assunto é prever o futuro, o índice de nascimento é algo estatisticamente complicado”, Steyn argumenta. “Se apenas um milhão de bebês tivessem nascido em 2006, seria difícil ter dois milhões de adultos entrando no mercado de trabalho em 2026”.

Veith enumera apenas algumas conseqüências do declínio populacional. “Os cidadãos não são só consumidores, mas produtores”, diz ele. “Uma população cada vez menor pode acabar com a economia nacional, criando escassez de mão-de-obra e de compradores. Um governo com uma população cada vez menor enfrenta o problema de um exército menor e de menos contribuintes do imposto de renda. A diminuição das populações sempre é sinal de declínio cultural, com menos criatividade, energia e vitalidade em todos os níveis da sociedade”.


Abandonando o cristianismo


Essas explicações chegam bem perto do que vem dizendo o colunista cultural Don Feder, que vê como a verdadeira causa dos problemas populacionais europeus o fato de que a Europa abandonou sua herança cristã.

“Não é por coincidência que a nova Europa esteja decidida a não reconhecer as origens do continente”, afirma Feder, que é judeu. “A Constituição proposta para a União Européia (um documento de mais de 70 mil palavras) não contém uma única referência ao cristianismo. Assim, mais de mil anos de história européia foram totalmente apagados”.

Como vimos no artigo anterior, é fato bem-documentado que a maioria dos países europeus abandonou o cristianismo.

Conforme afirma Weigel, a Europa ocidental se tornou uma “sociedade pós-cristã”. Feder crê que há uma ligação clara entre uma falta de fé e a perda desse senso de dever para com o futuro que conduz as pessoas a conceber e criar filhos. “Tendo perdido sua fé e adotado uma ética de autonomia radical”, diz ele, “os europeus pararam de ir à igreja, pararam de levar a Bíblia a sério, pararam de crer no futuro e pararam de ter filhos”.

Maria Burani, presidente da Comissão Parlamentar para a Família e Infância, em Roma, contou à revista Citizen que a fé é o alicerce para o estilo de vida que requer o papel de pai e mãe.

“Se você não tem dentro da cabeça grandes princípios religiosose éticos”, ela insiste, “você simplesmente não vai querer ter filhos, pois tê-los e criá-los é um sacrifício”. Além disso, é claro, há o fato de que os princípios religiosos também inibem a conduta egocêntrica de uma “autonomia radical” que permeia a Europa. “Entre as conseqüências do abandono da Europa de suas raízes religiosas e de suas leis morais que têm origem cristã, está a queda em seus índices de nascimentos abaixo do nível de substituição”, diz Gannon. “O aborto, o controle da natalidade, a aceitação do casamento gay e o sexo casual estão conduzindo essa tendência”.


A “Islamificação” da Europa


No entanto, o prognóstico para a Europa fica ainda pior porque muitas nações européias escolheram uma solução perigosa para compensar a diminuição de suas populações: a imigração. Pelo fato de o Norte da África e o Oriente Médio representarem uma fonte relativamente conveniente de mão-de-obra barata, milhões de imigrantes muçulmanos estão inundando a Europa, desde a década de 1960.

“Há cinqüenta anos, a Europa ocidental tinha uma população de 250 mil muçulmanos. Hoje, são 20 milhões”, declara Feder.

Diferente dos ocidentais, os muçulmanos têm famílias grandes. De acordo com Robert S. Leiken, diretor do Programa de Imigração e Segurança Nacional, no Centro Nixon, os índices de nascimento mais elevados entre os muçulmanos, aliados à imigração, levaram o Conselho de Informação Nacional dos EUA a projetar que a população islâmica da Europa dobrará em 2025. Como conseqüência, Colson diz, sem rodeios: “A demografia poderá tornar realidade o que os mouros e o Império Otomano não conseguiram: uma Europa muçulmana”. E daí? Essas preocupações sobre os imigrantes muçulmanos não são apenas puro preconceito?

De forma alguma, dizem os ocidentais preocupados. A “islamificação” da Europa provocaria incríveis mudanças culturais. “Entre 50 e 100 anos, a Europa de Shakespeare e Victor Hugo, a Europa de Rembrandt e Bach, a Europa de Churchill e Karol Wojtyla, só existirá nos livros escolares e nos museus”, comenta Feder. “O que restar da Europa cristã estará sujeita ao destino das estátuas budistas do Afeganistão, demolidas pelo regime talibã”. As mudanças políticas também seriam inevitáveis, insiste Steyn. “Será que uma sociedade conseguiria se tornar mais e mais muçulmana em seu caráter demográfico sem se tornar mais e mais muçulmana em seu caráter político?”.

É claro, é uma pergunta retórica, e Steyn prediz que, em 2050, muitas nações européias serão forçadas a aplicar a xariá (a lei muçulmana) às comunidades muçulmanas. Ele nota os resultados de uma pesquisa de opinião pública de 2004 que constatou que mais de 60% dos muçulmanos britânicos querem viver debaixo da lei muçulmana — enquanto estão vivendo no Reino Unido.

De início, a maioria dos governos europeus provavelmente não iria querer atender às reivindicações de uma população muçulmana cada vez mais assertiva. Mas, em resposta, não seria surpreendente ver um agravamento do que já começou a ocorrer: ataques terroristas com bombas em Londres e Madri; o assassinato, em 2002, do político conservador holandês Pim Fortuyn, cuja plataforma política incluía o objetivo de limitar os imigrantes muçulmanos; o assassinato do diretor de cinema Theo van Gogh, em 2004, por supostamente insultar a religião muçulmana; tumultos de jovens muçulmanos em toda a França, em 2005; e agitações, neste ano, em resposta às charges políticas que foram consideradas ofensivas às sensibilidades dos muçulmanos.

Steyn acha que a Europa verá mais agitações — e logo. “Parece que é mais provável que, dentro dos próximos dois ciclos das eleições européias, as contradições internas da União Européia manifestar-se-ão do modo de sempre”, diz ele. E prossegue: “E que, em 2010, assistiremos, todas as noites nos noticiários, a prédios em chamas, tumultos nas ruas e assassinatos”.

Em qualquer caso, Carlson diz: “A ‘grande farra’ [busca de prazeres dos europeus] não durará muito. Há uma lei imutável na história: O futuro pertence aos férteis. Assim como as tribos bárbaras germânicas (centradas no clã e cheias de filhos) varreram do mapa o sensual e estéril Império Romano Ocidental, os novos ‘bárbaros’ também estão-se levantando”.

As Escrituras Sagradas ensinam que Deus governa sobre as nações. E o futuro da Europa se parece cada vez mais com o futuro de Israel, quando seus profetas avisavam sobre os castigos e juízos que estavam por vir. Será que, mesmo depois de um século de guerras e outras atrocidades que não conseguiram conduzir de volta o continente ao cristianismo, a Europa está para sofrer castigos divinos?

É irônico que a cultura européia, que sempre exigiu liberdade pessoal ilimitada, poderá, no fim, deixar os europeus vivendo debaixo de ditaduras muçulmanas. Uma civilização que, ao rejeitar sua herança cristã, corre o risco de se sujeitar ao fundamentalismo islâmico. No passado, outras civilizações já desapareceram. Basta perguntar aos etruscos. Se conseguir encontrar um.

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