Instituto Cristão de Pesquisas

Promoção! Cursos com 50% de desconto. Até 25/12/2017. (Clique aqui e matricule-se)

Defesa da Fé


A apologética no Novo Testamento


Por Ken Boa e Robert Bowman

Tradução de Elvis Brassaroto Aleixo


Enquanto os apologistas e demais defensores da fé cristã se concentram majoritariamente no século 1o , a apologética, como ciência formal, possui um desenvolvimento muito mais recente. Na seqüência de artigos que inauguramos esta edição, pretendemos, inicialmente, comentar a expressão do ministério apologético no Novo Testamento.

O plano de publicação para as edições futuras contemplará uma atenção minuciosa à apologética de Agostinho, Anselmo e Tomás de Aquino, tomada como base pelos reformadores, e, após, uma apresentação panorâmica da apologética cristã, partindo da Reforma Protestante até os nossos dias.


A apologética no Novo Testamento


Embora, talvez, nenhum dos escritos do Novo Testamento possa ser classificado como um tratado formal de apologética, a maioria deles exibe notáveis comentários apologéticos. Os escritores do Novo Testamento se anteciparam e responderam a muitas objeções que surgiriam após a difusão escrita dos evangelhos. Buscaram demonstrar a credibilidade das reivindicações que credenciaram Jesus como o Cristo, dando especial enfoque à sua ressurreição como a evidência histórica sobre a qual o cristianismo foi edificado. Vários escritores do Novo Testamento se ocuparam com polêmicas contra os falsos mestres, com a finalidade de defender o evangelho contra a perversão doutrinária que poderia grassar na igreja.


A expressão apologética nos escritos de Lucas

Entre todos os escritos do Novo Testamento, os dois volumes de autoria de Lucas (seu evangelho e Atos dos apóstolos) são os que possuem propósito apologético mais explícito.

No prólogo de seu evangelho, Lucas anuncia que o seu trabalho seria baseado numa pesquisa histórica muito cuidadosa e, por conta disso, apresentaria um registro acurado das origens do cristianismo. Vejamos:

“Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio; para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (1.1-4).

A estrutura desse trabalho, também refletida em Atos, sugere que o mesmo teria sido escrito, ao menos em parte, em defesa do apóstolo Paulo. Basta considerar que a narrativa de Atos encerra-se com o ministério de Paulo, sendo exercido a partir de sua própria casa, onde o apóstolo podia receber todos aqueles que o procuravam, sem impedimentos à pregação, em Roma (At 28.30,31).

Além disso, ambos os livros (Lucas e Atos) enfatizam que Jesus e os apóstolos, especialmente Paulo (em Atos), eram pessoas obedientes às leis. Em Atos, a ressurreição de Jesus, o cumprimento das profecias messiânicas do Antigo Testamento e o fenômeno carismático “no” e “após” o dia de Pentecostes foram empregados como verdades inquestionáveis do messianismo de Jesus e, ao mesmo tempo, como reivindicações das verdades apostólicas: “Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel, que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36).

Ao longo de sua narrativa, Lucas utiliza os discursos dos apóstolos para apresentar argumentos apologéticos a uma variedade muito ampla de opositores, tanto judeus quanto gentios. Um desses discursos, a pregação de Paulo aos atenienses em Atos 17, tem sido extraordinariamente importante para a reflexão cristã ao longo da história da Igreja; é o exemplo mais eloqüente e significativo de uma apologética dirigida a uma audiência gentílica no Novo Testamento (além de Atos 14.15-17). Por isso, esse discurso tem sido tradicionalmente considerado como paradigma ou modelo de apologia cristã.

De acordo com Lucas, a mensagem de Paulo acerca de Jesus e da ressurreição foi mal-interpretada pelos ouvintes como um ensino sobre uma nova divindade: “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição” (Lc 17.18).

Lucas redige esta acusação em termos idênticos àqueles descritos no desafio dos atenienses contra Sócrates na obra Apologia de Platão, o que sugere claramente que Lucas enxergava o discurso de Paulo como a contraparte cristã para a apologia socrática.

Desafiado por filósofos estóicos e epicureus para explicar seu posicionamento, Paulo inicia sua mensagem numa dicção racional, cujo conteúdo faria sentido a qualquer platéia com as tendências filosóficas defendidas por aqueles pensadores.

O discurso foi bastante contrário àquele que Paulo costuma dirigir aos judeus, cuja ênfase era o cumprimento fiel das profecias messiânicas do Antigo Testamento em Jesus Cristo. Na verdade, Paulo até mesmo se vale de uma citação comumente conhecida pelos estóicos e epicureus de sua época. Ao longo de sua fala, Paulo explora as verdades bíblicas, mas usa algumas expressões estóicas ao aludir a determinado poeta em favor de seus argumentos (At 17.24-29).

Essencialmente, o primeiro e mais longo ponto de seu discurso foi mostrar que a idolatria era algo condenável e que os próprios estóicos admitiam isso, de alguma maneira, apesar de não terem abandonado essa prática. Paulo usa a inconsistência filosófica estóica para ilustrar aos atenienses a ignorância deles acerca de Deus: “Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: Ao Deus desconhecido. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio” (At 17.23).

Havendo exposto sua primeira premissa, Paulo anuncia então que Deus tinha declarado aos atenienses um fim à ignorância deles sobre a natureza divina, porquanto Deus revelaria a si mesmo. Paulo conclui sua fala afirmando que a ressurreição era uma prova da intenção de Deus em julgar o mundo por meio de Jesus Cristo (At 17.30,31), pregação que escandalizou os atenienses (At 17.32), em parte porque os gregos pensavam que a idéia de uma ressurreição física era uma tolice e em parte porque a idéia de um julgamento final era ofensiva para eles.

O resultado da apologia de Paulo foi que alguns acreditaram, alguns zombaram e outros demonstraram certo interesse (At 17.32-34). O pequeno número daqueles que acreditaram não deve ser tomado como indício de que o discurso paulino foi um fracasso. Nem se pode dizer que 1 Coríntios 2.2 (“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”.) seja uma demonstração de que Paulo teria abandonado o raciocínio filosófico em suas pregações, como querem alguns. Até porque, Paulo explorou a lógica e a retórica gregas, em 1Coríntios 15, ao comentar vários aspectos relacionados à ressurreição. Por isso, os apologistas cristãos podem e devem tomar o discurso de Paulo aos atenienses com o um modelo de apologética cristã.


A expressão apologética nos escritos de Paulo

As palavras de Paulo, no primeiro capítulo de Romanos, são muito parecidas com o discurso de Atos 17. Paulo censura a idolatria e a depravação dos homens na cultura gentílica e, então, argumenta que os judeus não são melhores que os gentios em seus pecados. Ao longo de seu discurso, Paulo compartilha algumas noções — que tem sido grandemente importante para a apologética cristã — sobre o conhecimento de Deus. De acordo com Paulo, a existência de Deus e sua divindade estão claramente reveladas na natureza. Todos os seres humanos, diz ele, “conheceram a Deus”, mas eles suprimiram essa verdade e “se tornaram nulos seus próprios raciocínios, preferindo a idolatria” (Rm 1.18-25).

A declaração de que as pessoas “conheceram a Deus” (v. 21) tem sido entendida de duas maneiras. Pode significar que todos conheceram a Deus, mas não profundamente. O emprego do verbo no pretérito perfeito certamente permite esta interpretação, o que também pode ser notado quando Paulo, constantemente e em vários lugares, afirma que os gentios não conhecem a Deus (1Co 1.21; Gl 4.8; 1Ts 4.5; 2Ts 1.8; Tt 1.16). Mas, também, pode significar que todas as pessoas conhecem a Deus num sentido limitado, mas se recusam a adorá-lo corretamente. Para corroborar esta idéia, tem sido apontado que as pessoas irreligiosas necessitam saber previamente algo sobre Deus para serem capazes de “suprimir” a verdade sobre ele e recusá-lo (Rm 1.18-28). Em outras palavras, desde que a supressão da verdade continua, igualmente o conhecimento permanece sendo suprimido.

Estas duas interpretações podem, obviamente, ser conciliadas. O verdadeiro conhecimento de Deus (a partir do qual alguém conhece a Deus e não meramente reconhece que existe algum tipo de deus) foi uma vez dado para todas as pessoas, mas não profundamente. Todo ser humano continua sabendo que existe um Deus e permanece sendo confrontado com uma evidência interna e externa dessa divindade, mas, em geral, as pessoas suprimem ou subvertem este conhecimento em idolatria religiosa de vários tipos.

Repetidamente, as cartas de Paulo lidam com questões apologéticas voltadas aos judeus e aos gentios, associadas às igrejas fundadas por Paulo e que alteraram radicalmente aquilo que ele tinha ensinado sobre Cristo.

Em 1Coríntios 1–2, Paulo advertiu os crentes de Corinto de uma reprovável adaptação do evangelho de acordo com a visão grega. Paulo não advoga qualquer tipo de antiintelecutalismo. O cristianismo promove a verdadeira sabedoria que conduz os cristãos a um encontro intelectualmente superior a qualquer coisa que o mundo pode proporcionar, baseado na revelação de Deus muito mais do que em qualquer tipo de especulação humana (1Co 1.18-21; 2.6-16).

Em 1Coríntios 15, Paulo refuta os erros relacionados à ressurreição dos mortos, recordando os coríntios que a ressurreição de Cristo era um fato histórico (1Co 15.3-11). Paulo argumenta que os hereges, isto é, aqueles que negavam a ressurreição futura dos crentes, seriam inconsistentes se afirmassem a ressurreição de Jesus, pois, se ele ressuscitou, os crentes também ressuscitariam. Eles também seriam inconsistentes se negassem a ressurreição de Jesus, pois, se ele não ressuscitou, não haveria razões para nele crer (1Co 15.12-19). Este é um modelo de argumentação apologética clássico, que encerrou os oponentes do evangelho num dilema lógico.

Na sua epístola aos colossenses, Paulo responde aos erros sobre a pessoa de Cristo, surgidos, aparentemente, em um contexto religioso no qual idéias antibíblicas de judeus e gregos se misturaram com um conhecimento inadequado sobre a pessoa de Jesus. Nesse contexto, Paulo não condena a filosofia de per si, mas as “tradições dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não conforme Cristo” (Cl 2.8). Paulo, ousadamente, correlaciona termos religiosos do contexto grego, como pleroma (p????µa) — palavra usada entre os gregos para denotar a totalidade dos poderes divinos — às idéias cristãs, neste caso, a noção de que toda a plenitude da divindade habita em Cristo (Cl 2.9).


A expressão apologética nos escritos de João

O apóstolo João seguiu uma estratégia similar àquela adotada por Paulo em relação aos termos filosóficos e religiosos empregados em seu evangelho, onde o Cristo preencarnado é chamado de Logos (“palavra” ou “verbo” – Jo 1.1,14; cf. Jo 1.1). A noção da preexistência da “Palavra” na criação divina do Universo guarda associações com o Antigo Testamento (ex.: Gn 1.3; Sl 33.6,9). Ainda assim, para qualquer leitor gentio ou judeu helenizado, o termo logos evoca imediatamente as idéias platônicas e estóicas da chamada “razão universal”, que os filósofos acreditavam governar o cosmo e estar presente na mente racional de todo ser humano (Jo 1.9). Contudo, a narrativa de João, ao apresentar o logos como uma pessoa — que é o Filho de Deus (v. 1, 14, 18; cf. 20.31) e que se encarnou (Jo 1.14) — foi chocante, tanto para os judeus quanto para os gregos. A fé num logos encarnado exigiu um olhar completamente novo sobre Deus e sobre a própria humanidade.


A expressão apologética nos escritos de Pedro

Nossa exposição sobre a apologética no Novo Testamento não poderia estar completa sem mencionar 1Pedro 3.15, texto freqüentemente tomado como uma declaração bíblica clássica sobre a ordenança para que os cristãos se engajem na apologética.

Pedro instrui os fiéis a “santificarem ao Senhor Deus nos corações; e a estarem sempre preparados para responder [apologia] com mansidão e temor a qualquer que lhes pedissem a razão [logos] da esperança que havia neles”. Três observações importantes merecem atenção nesse texto.

Primeiro, Pedro está definitivamente instruindo os crentes a fazerem uma defesa racional da fé cristã. O termo logos (o mesmo empregado em João 1.1 em referência à preexistência de Cristo) é uma palavra muito ampla e flexível. Mas, nesse contexto, está claramente se referindo a uma explanação racional. A palavra apologia não quer dizer “apologética” no sentido técnico moderno, antes, indica que os cristãos precisam fazer o melhor que podem para confessar sua fé em Jesus Cristo como Senhor.

Segundo, esta ordenança apologética é direcionada a todos os cristãos, reivindicando que eles apresentem as razões de sua fé em Cristo para qualquer que indagá-los. No contexto, Pedro está especificamente instando os fiéis a estarem prontos para fazê-lo quando enfrentarem adversidades por causa de sua fé (V. 1Pe 3.13,14,16,17), mas não há base para limitarmos a ordenança a essa situação específica. A linguagem usada é bastante geral (“estai sempre preparados para responder”) e torna a apologética uma missão conferida a toda a igreja.

Terceiro, Pedro instrui-nos ao engajamento apologético com atitudes apropriadas ao diálogo com os não-cristãos com quem estamos falando, e também considerando o Senhor sobre quem estamos falando: “com mansidão e temor”.

O termo “mansidão” relaciona-se à maneira com a qual responderemos àqueles que desafiarem a nossa fé. A palavra “temor” (phobos, cuja tradução, quase sempre, é “medo”) é traduzida para “respeito” em algumas versões bíblicas e é freqüentemente entendida como um respeito alusivo à pessoa “com quem” estamos falando. Entretanto, Pedro, no versículo anterior, insta os crentes a não terem medo dos não-crentes (“E não temais com medo deles, nem vos turbeis”, v.14). Em outros versículos, afirma que devemos mostrar temor a Deus (1.17, 2.17). Então, provavelmente, Pedro está nos dizendo que devemos conduzir a defesa da nossa fé com uma atitude de temor santo ou reverência “para com” Cristo, a quem devemos honrar como Senhor (3.15), algo que podemos fazer sendo fiéis a Deus pelo que dizemos e pela nossa maneira de viver (3.16).

Na próxima edição, começaremos a falar da apologética praticada pelos pais da Igreja primitiva.

Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Básico de Teologia Curso Básico de Grego Bíblico Curso Médio de Teologia Série Apologética Curso Bacharel de Teologia Curso Teologia Online

ICP - Instituto Cristão de Pesquisas © Todos os direitos reservados. 2017