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Defesa da Fé


O ladrão que rouba casas com hora marcada


“Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa” (Mt 24.43)


Por Luiz Lopes

Colaborador do CACP e membro da IEPAZ


Já se passaram quase três décadas desde 1975. Havia pouco menos de 2,3 milhões de testemunhas de Jeová ao final daquele ano fatídico. Hoje, somam cerca de seis milhões em todo o mundo. Sem levar em consideração aqueles que eram testemunhas na ocasião e, agora, já não são mais ou já faleceram, usando aritmética simples, conclui-se que pelo menos algo em torno de três milhões de pessoas (talvez, muito mais) conhecidas hoje como testemunhas de Jeová não eram ainda adeptos dessa seita naquela data e, por conta disso, muito provavelmente, pouco ou nada sabem sobre os acontecimentos que marcaram o ano de 1975.

Justiça seja feita, a culpa desta ignorância sobre o assunto não lhes pode ser atribuída, simplesmente porque, em primeiro lugar, os dirigentes da Sociedade Torre de Vigia sepultaram o assunto em suas publicações. Segundo, porque, no meio das testemunhas, mesmo entre aquelas que já eram testemunhas em 1975, este assunto é evitado o máximo possível, comportamento estimulado pela Sociedade por meio da ameaça velada de apostasia a quem insistir em apontar o seu erro.

Nas publicações posteriores, a Sociedade trata do assunto de forma evasiva, sem muitos esclarecimentos dos motivos que levaram seus dirigentes a tomar as atitudes que tomaram e sem reconhecer que houve erro ou, como é mais politicamente correto dizer, especulação profética de datas, por parte da própria Sociedade Torre de Vigia, para a esperada destruição deste sistema de coisas.

Não é difícil colocar a culpa na ansiedade e na expectativa exagerada de algumas testemunhas de Jeová da época, pois muitas delas deixaram a organização depois disso e suas vozes são consideradas manifestações apóstatas. Não usufruem do direito de expressar a sua posição e de defender-se das acusações. Geralmente, o que se ouve (e os que se tornaram testemunhas nos últimos vinte anos fatalmente ouviram isso) é que alguns especularam que 1975 seria o ano da vinda do Armagedom, mas não em publicações da Sociedade, isto é, não oficialmente.

As testemunhas são levadas a acreditar que se tratou apenas de boatos repetidos boca a boca, a partir de especulações pessoais feitas, talvez, por um membro do Corpo Governante em discursos e repetidas por anciãos, superintendentes viajantes e publicadores pelo mundo. O que praticamente todas as testemunhas de Jeová têm conhecimento hoje em dia é que o Corpo Governante e a Sociedade Torre de Vigia nada tiveram a ver como as especulações.

Será que isto é verdadeiro? Será que houve apenas boatos entre as testemunhas sobre a data de 1975? Será que os dirigentes da Sociedade na época nada fizeram? Seria justo, mais do que isto, seria honesto que todas as testemunhas soubessem a verdade e pudessem tirar as suas próprias conclusões. Seria também honesto permitir que as testemunhas mais recentes pudessem pesquisar e perguntar sobre o assunto, sem serem logo tratadas como suspeitas.

Pensando nisso, preparamos um cronograma dos acontecimentos que levaram ao clímax de 1975. Isso foi possível devido ao grande trabalho de pesquisa de William do Valle Gadelha, ex-ancião, que preparou um dossiê sobre o assunto.


Contagem regressiva para o Armagedom


Tudo começou nove anos antes, em 1966, quando foi lançado, pela Sociedade Torre de Vigia, o livro Vida eterna: na liberdade dos filhos de Deus. Na página 27, o início do parágrafo 40 dizia: “Podemos assim relacionar a contagem do tempo pela Bíblia com a contagem do tempo pelo mundo até a presente data. Ao fazermos isso, torna-se evidente que o homem se aproxima do fim de seis mil anos de sua existência”.

Logo depois, no parágrafo 41, é dito: “Neste século vinte, realizou-se um estudo independente que não acompanha cegamente certos cálculos cronológicos tradicionais da cristandade, e a tabela de tempo publicada, resultante deste estudo independente, fornece a data da criação do homem como sendo 4026 AEC. Segundo esta cronologia bíblica fidedigna, os seis mil anos desde a criação do homem terminarão em 1975, e o sétimo período de mil anos da história humana começará no outono (segundo o hemisfério setentrional) de 1975 EC”.

Até aqui, tudo bem, apenas foi publicado outro ponto de vista sobre a cronologia bíblica em relação à contagem de tempo secular. Importante observar que é dito que tal “estudo independente” é fidedigno e aponta para um ano específico: 1975. Mas não ficou só nisso. A Sociedade queria dizer mais, como mostra a última frase do parágrafo 42 e o parágrafo 43 inteiro:

“Assim, dentro de poucos anos em nossa própria geração atingiremos o que Jeová Deus poderia considerar como o sétimo dia da existência do homem [...] Quão apropriado seria se Jeová Deus fizesse deste vindouro sétimo período de mil anos um período sabático de descanso e livramento, um grandioso sábado de jubileu para se proclamar liberdade na terra a todos os seus habitantes! Isto seria muito oportuno para a humanidade. Seria bem apropriado da parte de Deus, pois, lembre-se de que a humanidade ainda tem na sua frente o que o último livro da Bíblia Sagrada chama de reinado de Jesus Cristo sobre a terra por mil anos, o reinado milenar de Cristo. Jesus Cristo, quando na terra há dezenove séculos, disse profeticamente a respeito de si mesmo: ‘Porque Senhor do sábado é o Filho do homem’ (Mt 12.8). Não seria por mero acaso ou acidente, mas seria segundo o propósito amoroso de Jeová Deus que o reinado de Jesus Cristo, o ‘Senhor do sábado’, correspondesse ao sétimo milênio da história do homem”.

Portanto, inicia-se, aqui, a especulação profética sobre 1975. Expressões como “quão apropriado seria”, “muito oportuno” e “segundo o propósito amoroso de Jeová”, são ditas em conexão com uma data firmemente apontada: o ano em referência. É claro que este livro foi o ponto inicial de um frenesi pelo final deste sistema de coisas em meados da década de 1970. Não se tratou de especulações pessoais oriundas de “irmãos ansiosos”, mas, sim, de uma publicação da própria Sociedade Torre de Vigia, conseqüentemente, com a anuência de seus dirigentes, o Corpo Governante. Ou algum livro poderia ser publicado sem que os responsáveis pela provisão do alimento espiritual no tempo apropriado tivessem conhecimento de seu conteúdo?

Não é provável. Pois, nos anos seguintes, as especulações ganharam força à medida que as testemunhas de Jeová, impulsionadas pela mola propulsora da visão de um paraíso ao alcance das mãos, passaram a trabalhar com ânimo redobrado, engrossando as fileiras de publicadores com mais e mais pessoas que passavam a compartilhar a esperança comum. Na publicação “Ministério do Reino”, de maio de 1968, uma parte chamava a atenção para o trabalho de pioneiro de férias, uma espécie de pioneiro auxiliar: “Em vista do curto período de tempo que resta, desejamos fazer isso tão amiúde quanto as circunstâncias o permitam. Apenas pensem, irmãos, restam menos de noventa meses até que se completem os seis mil anos da existência do homem na terra. Lembram-se do que aprendemos nas assembléias no verão passado? A maioria das pessoas que vivem atualmente estará viva provavelmente quando irromper o Armagedom, e não há esperança de ressurreição para os que forem destruídos então”.

Mais uma vez, aponta-se para a data em que pretensamente se completariam os seis mil anos de existência do homem. Aplica-se o tempo faltante “menos de noventa meses” como um chamamento à urgência, vinculado à palavra Armagedom, uma associação bem explícita.

A revista A Sentinela, de novembro de 1968, consegue ser ainda mais explícita ao vincular 1975, quando seriam completados os seis mil anos, com o final do sofrimento da humanidade, sendo o ponto cronológico em que o reinado milenar de Cristo teria seu início. Conforme indicam partes dos parágrafos 5,6 e 7, nas páginas 659 e 660:

“Assim, restam sete anos para se chegar aos inteiros seis mil anos do sétimo dia. Sete anos a contar do outono setentrional de 1968 nos levariam ao outono setentrional de 1975, seis mil anos completos do sétimo dia de Deus, seu dia de descanso.

“Depois de seis mil anos de miséria, labuta, dificuldades, doença e morte, sob a regência de Satanás, a humanidade sente deveras a premente necessidade de alívio, de descanso. O sétimo dia da semana judaica, o sábado, bem prefiguraria o reinado final de mil anos do reino de Deus sob Cristo, quando a humanidade será soerguida dos seis mil anos de pecado e de morte (Rev. 20:6).

“Por isso, quando os cristãos notam, pela tabela cronológica de Deus, o fim aproximador dos seis mil anos da história humana, isso os enche de expectativas [...] O futuro imediato, com certeza, estará repleto de eventos climáticos, pois este velho sistema se aproxima de seu fim completo. Dentro de alguns anos, no máximo, as partes finais da profecia bíblica relativas a estes ‘últimos dias’ terão cumprimento, resultando na libertação da humanidade sobrevivente para o glorioso reino milenar de Cristo”.

Estas linhas transcritas não permitem a menor sombra de dúvida sobre a origem da especulação profética sobre 1975: tudo foi divulgado a partir das próprias publicações da Sociedade Torre de Vigia, em artigos cuidadosamente preparados pelo Corpo Governante para provocar expectativa e esperança entre as testemunhas de Jeová. Conforme o tempo passava, mais matérias instilavam o sentimento de que 1975 era realmente um ano marcado. O parágrafo que segue é o primeiro de um artigo publicado na revista A Sentinela, de 15 de fevereiro de 1969, página 110, com o sugestivo título “Por que está aguardando 1975?”: “O que há com toda esta conversa sobre o ano de 1975? Nos meses recentes, surgiram repentinamente animadas palestras, algumas baseadas em especulação, entre sérios estudantes da Bíblia. Seu interesse foi suscitado pela crença de que 1975 marcará o fim de seis mil anos da história humana desde a criação de Adão. A proximidade de tal data importante deveras estimula a imaginação e apresenta ilimitadas possibilidades para palestras”.

A mesma revista, na página 115, diz o seguinte, nas primeiras linhas do parágrafo 30: “Devemos presumir, à base deste estudo, que a batalha do Armagedom já terá acabado até o outono de 1975, e que o reinado milenar de Cristo, há muito aguardado, começará então? Possivelmente. Mas, nós esperamos para ver quão de perto o sétimo período de mil anos da existência do homem coincide com o reinado milenar de Cristo, que é com um sábado. Se este dois períodos decorrerem paralelamente no ano calendar, não será por mero acaso ou acidente, mas, sim, segundo os propósitos amorosos e oportunos de Jeová”.

Mais uma vez, a ênfase em 1975. Mais uma vez, esta data é associada com as expressões “Armagedom”, “reinado milenar de Cristo” e “propósito de Jeová”. A especulação continua na revista A Sentinela, de 15 de abril de 1970, página 239, nas frases finais dos parágrafos 39 e 42:

“Os seis mil anos da vida da humanidade na terra terminariam nos meados da década de 1970. Portanto, o sétimo milênio a partir da criação do homem por Jeová Deus começaria em menos de dez anos.

“Não seria, então, o término dos seis milênios da escravização laboriosa da humanidade, sob Satanás, o diabo, o tempo apropriado para Jeová Deus introduzir um milênio sabático para todas as suas criaturas humanas? Deveras seria! E seu Rei Jesus Cristo será o Senhor daquele sábado”.

A expectativa sobre o fim deste sistema de coisas em 1975 era constantemente alimentada. A revista Despertai!, de 22 de abril de 1972, nas páginas 26,27, trata do assunto dentro do mesmo padrão adotado nos artigos da revista A Sentinela:

“Se aplicarmos a declaração bíblica de que, para Jeová, ‘mil anos são como um dia’, isto significaria que os seis mil anos da existência do homem são como apenas seis dias à vista de Deus. (Sl 90; 2Pe 3.8) O vindouro reinado milenar de seu Filho seria então um sétimo ‘dia’ após aqueles seis. Seria perfeitamente apropriado ao padrão profético de um período sabático de descanso seguirem seis períodos de trabalho e labuta. Assim, ao nos aproximarmos do término de seis mil anos de existência humana, durante esta década, há emocionante esperança de que um grandioso Sábado de descanso e alívio se acha deveras às portas”.

Se o leitor é uma das testemunhas de Jeová, provavelmente já deve ter ouvido falar sobre irmãos precipitados, que venderam suas propriedades e se desfizeram de seus recursos financeiros, muitas vezes, doando-os à “obra do Reino”. Esses irmãos, normalmente, são acusados de terem se deixado levar pela ansiedade e, se deixaram a organização após 1975, também, de falta de fé. Vale a pena observar o que a Sociedade Torre de Vigia e seus dirigentes incentivaram na obra “Ministério do Reino”, de julho de 1974, nas páginas 3, 4: “Receberam-se notícias de irmãos que venderam sua casa e propriedade e planejam passar o resto dos seus dias neste velho sistema de coisas empenhados no serviço de pioneiro. Este é, certamente, um modo excelente de passar o pouco tempo que resta antes de findar o mundo iníquo”.

Com 1975 já em curso, mas ainda no início, A Sentinela, de 15 de março, na página 189, reforça a “data especial”. Diz o texto: “E, agora, neste ano crítico de 1975, pode-se perguntar: Será que o Deus Altíssimo fez para si um nome? A resposta é óbvia: Sim! Por meio de quem? Não pela cristandade, nem pelo judaísmo, mas pelas testemunhas cristãs de Jeová”.

Alguns meses depois, aquele ano (1975) chegou ao fim e, com ele, a falsa expectativa criada pela Sociedade Torre de Vigia. A espera ainda se prolongou por mais alguns meses. Afinal, quem sabe a cronologia estivesse errada em algumas semanas ou meses. Mas não havia jeito, a especulação profética incitada pelos líderes das testemunhas de Jeová demonstrava ser apenas isso: especulação.

Ainda assim, apesar de um erro monumental como este, os membros do Corpo Governante não se curvaram humildemente, como homens pecadores comuns que são, e reconheceram o engano. Em vez disso, as publicações posteriores a 1975 encontraram nas próprias testemunhas, ou em algumas delas, os culpados pela desilusão, conforme mostrava A Sentinela, de 15 de janeiro de 1977, página 56, parágrafo 11: “Pode ser que alguns daqueles que têm servido a Deus planejaram sua vida de acordo com um conceito errôneo do que é que deveria acontecer em determinada data ou em certo ano. Por este motivo, eles, talvez, tenham adiado ou negligenciado coisas de que, de outro modo, teriam cuidado. Mas, eles desperceberam o ponto das advertências bíblicas a respeito do fim deste sistema de coisas, pensando que a cronologia bíblica revelasse uma data específica”.

Dois fatores são dignos de nota nas palavras acima e, de modo geral, em todas as publicações posteriores que trataram do assunto. Primeiro, os dirigentes da Sociedade esquivam-se de assumir a responsabilidade do erro, que é somente deles, jogando a culpa nos “irmãos”.

Segundo, a menção do ano 1975 parece trazer algum tipo de transtorno, pois sempre é dito “determinado ano” ou “certo ano” e não mais o ano exato, ou seja, 1975.

Jogou-se uma pá de cal no assunto. Responsabilizou-se alguns irmãos afoitos pelo ocorrido, como se eles tivessem sido guiados pelo seu próprio entendimento pessoal, devendo, portanto, reajustar o seu ponto de vista, porém, mantendo o Corpo Governante como o instrumento usado por Jeová para fornecer o alimento espiritual no tempo apropriado, como mostra a revista A Sentinela, de 15 de setembro de 1980, páginas 17,18, parágrafo 6: “Caso alguém tenha ficado desapontado, por não seguir este raciocínio, deve agora concentrar-se em reajustar seu ponto de vista, por não ter sido a Palavra de Deus que falhou ou o enganou e lhe causou desapontamento, mas, sim, seu próprio entendimento baseado em premissas erradas”.

Para finalizar esta análise dos acontecimentos que envolveram uma das mais importantes especulações proféticas da Sociedade Torre de Vigia no século 20, resta dizer que, apesar de ter produzido alguns milhares de decepcionados, foi altamente lucrativa para a Sociedade Torre de Vigia.

Seria leviano duvidar de um erro sincero, mesmo que não admitido, por parte dos dirigentes da Sociedade, mas não é engano dizer que a especulação sobre 1975 foi uma gigantesca catapulta, impulsionando, como nunca antes, as atividades das testemunhas. No período de nove anos decorridos entre a publicação do livro Vida eterna: na liberdade dos filhos de Deus, em 1966, e o clímax, em 1975, mais que dobrou o número de testemunhas de Jeová em todo o mundo, período em que mais de um milhão de pessoas aderiram aos ensinamentos providos pelo Corpo Governante.

Como pouco menos de setenta mil desiludidos saíram, conforme o crescimento negativo publicado do anuário de 1979, o efeito da especulação, em termos de ampliação do número de testemunhas, foi, definitivamente, positivo.

A Bíblia nos adverte de que os verdadeiros seguidores de Jesus, e não de uma organização falível e falsa, precisam vigiar, porque não sabem a hora em que há de vir o nosso Senhor.

Você, leitor, pode ter toda a certeza de que o chefe da casa ficaria acordado se soubesse quando o ladrão haveria de vir para arrombar a casa. Essa importante informação é o sonho de consumo das testemunhas de Jeová.

Mas, os crentes, diferentemente, devem estar apercebidos e cientes, “porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis” (Mt 24.44).

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