Defesa da Fé


A apologética entre os pais da Igreja


Por Ken Boa e Robert Bowman,

Tradução de Elvis Brassaroto Aleixo


Na era apostólica, os novos desafios que surgiram para a Igreja primitiva, espalhada por todo o Império Romano, requereram uma apologética incisiva. O judaísmo, o gnosticismo, o paganismo e a cultura e filosofia helenísticas se opuseram fortemente à Igreja. Os apologistas tiveram de defender o cristianismo contra todos esses ataques, buscando conduzir novas pessoas a Cristo e, ao mesmo tempo, mostrando a superioridade da posição cristã.


Justino Mártir (século 2o)


Os apologistas do século 2o desenvolveram seus argumentos, conforme refutações filosóficas, em resposta ao politeísmo e, segundo as críticas, contra a filosofia pagã, ambos artifícios sustentados pelos judeus helenísticos. Entre os apologistas desse período, o mais importante foi Justino Mártir (100-165), um discípulo convertido do platonismo ao cristianismo. Em seu diálogo com Trifão, o judeu, Justino usou as profecias messiânicas do Antigo Testamento para provar que Jesus é o Messias. Em suas duas Apologias, ele apelou para a tolerância civil ao cristianismo e o defendeu como verdadeira filosofia. Para mostrar que o cristianismo deveria ser tolerado, refutou erros comuns e boatos da época (por exemplo: que os cristãos eram ateus e comiam carne e sangue humanos) e apresentou o cristianismo como uma religião moralmente superior às demais. Para fundamentar seu argumento, de que o cristianismo era a verdadeira filosofia, Justino fez a primeira tentativa da história pós-bíblica de correlacionar as doutrinas do evangelho de João sobre o Logos com a filosofia grega, defendendo que o cristianismo era superior ao platonismo e que todas as verdades de Platão não eram mais que cópias de Moisés. No âmbito da argumentação, o posicionamento de Justino era biblicamente consistente e totalmente subordinado à visão cristã. Seus esforços concederam-lhe um lugar na história do cristianismo e ele tem sido considerado um pioneiro no tocante à produção da teologia e apologética cristã pós-bíblica.


Justino Mártir: biografia


O lugar do seu nascimento foi na cidade de Flávia Neápolis (atual Nablus), na Síria, Palestina ou Samaria. Na infância, sua educação incluiu retórica, poesia e história. Como jovem adulto, mostrou interesse por filosofia e estudou primeiro estoicismo e platonismo. Justino foi introduzido na fé diretamente por um velho homem que o envolveu numa discussão sobre problemas filosóficos e, então, lhe falou sobre Jesus. Ou seja, falou a Justino sobre os profetas que vieram antes dos filósofos, ensinando que esses servos de Deus profetizaram a vinda de Cristo e que suas profecias se cumpriram em Jesus. Depois, Justino disse o seguinte: “Meu espírito foi imediatamente posto no fogo e uma afeição pelos profetas e por aqueles que são amigos de Cristo tomou conta de mim; enquanto ponderava nessas palavras, descobri que o cristianismo era a única filosofia segura e útil”. A convicção de Justino de que a verdade em Cristo era tão completa que ele morreu como mártir, sendo decapitado em 165 d.C..


Clemente de Alexandria e Orígenes (século 3o)


O século 3º alexandrino continuou a fomentar as idéias filosóficas do platonismo e do estoicismo, assim como as controvérsias judaicas. Clemente de Alexandria escreveu vários discursos teológicos e apologéticos intitulados “Protrepticus”, um tratado bem mais sofisticado e persuasivo do que aqueles produzidos pelos apologistas do século 2o. Apesar disso, o apologista mais importante do século 3o foi o grego Orígenes (184-254), autor do extenso tratado “Contra Celsum”, uma refutação à filosofia, à ética e ao criticismo histórico de Celsus em oposição ao cristianismo. Nessa obra, Orígenes defende, por exemplo, que Jesus não operou milagres por meio de feitiçaria, oferecendo uma defesa história impressionante da ressurreição de Jesus em resposta à teoria da alucinação supostamente sofrida pelos discípulos cristãos e outras objeções, além de mostrar que os relatos de milagres contidos nas narrativas pagãs eram incomparavelmente inverossímeis quando confrontados com aqueles constantes nos evangelhos. Tudo isso tornou a obra de Orígenes um clássico da apologética cristã através dos séculos.


Clemente de Alexandria: biografia


Nascido provavelmente em Atenas, de pais pagãos, foi instruído profundamente na filosofia neoplatônica. Já adulto, decidiu voltar-se ao cristianismo. No período pré-nicênico de formação da patrística, combateu os hereges gnósticos e teve um papel importantíssimo na história da hermenêutica entre os judeus e os cristãos no período patrístico. Em Alexandria, no período helenístico, a religião judaica e a filosofia grega se encontraram e se influenciaram mutuamente, surgindo, ali, a escola que, influenciada pela filosofia platônica, encontrou um método natural de harmonizar religião e filosofia na interpretação alegórica da Bíblia.

Clemente de Alexandria foi o primeiro a aplicar essa abordagem à interpretação do Antigo Testamento, em substituição à interpretação literal. Durante a perseguição aos cristãos (201-202), pelo imperador romano Sétimo Severo, Clemente transferiu um cargo que possuía na escola catequética ao discípulo Orígenes e refugiou-se na Palestina, junto a um antigo aluno, Alexandre, bispo de Jerusalém, lá permanecendo até sua morte.


Orígenes: biografia


O maior erudito da Igreja antiga, segundo J. Quasten, nasceu de uma família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria. No decurso de uma viagem à Grécia, em 230, foi ordenado sacerdote na Palestina pelos bispos Alexandre de Jerusalém e Teoctisto de Cesaréia. Em 231, Orígenes foi forçado a abandonar Alexandria devido à animosidade que o bispo Demétrio lhe devotava pelo fato de ele se ter castrado. Também, contribui para isso o fato de Orígenes ter levado ao extremo a apropriação da filosofia platônica, tendo sido considerado herético. Orígenes, então, passou a morar num lugar onde Jesus havia, muitas vezes, permanecido: Cesaréia, na Palestina, onde suas atividades prosseguiram com grande sucesso, abrindo a chamada Escola de Cesaréia. Na sequência da onda de perseguição aos cristãos, ordenada por Décio, Orígenes foi preso e torturado, o que lhe causou a morte, por volta de 253.


Aurelius Augustinus (séculos 4o e 5o)


No quarto e quinto séculos, as religiões pagãs se encontravam em declínio e o cristianismo predominava em todo o Império Romano, particularmente após o edito de Constantino, em 313. Os apologistas cristãos, romanos e gregos escreveram, orgulhosamente, sobre o propósito dos efeitos do cristianismo na transformação da vida dos convertidos. Eles também começaram a desenvolver apresentações mais sistemáticas sobre a cosmovisão cristã em contraste com as filosofias concorrentes, notadamente o neoplatonismo.

O maior apologista desse período e de todo o primeiro milênio depois de Cristo foi Aurelius Augustinus, chamado Agostinho (354-420), bispo de Hipona, cujas obras apologéticas e teológicas variaram amplamente em seus assuntos, contemplando desde a cultura humana até a filosofia e a história. Agostinho foi reconhecido vencedor em seu combate pessoal contra o maniqueísmo, uma filosofia dualística que ensinava que tanto o bem quanto o mal eram realidades últimas, valendo-se do auxílio do platonismo, que o convenceu de que o maniqueísmo era falacioso. Assim, não é de nos surpreender que seus primeiros trabalhos tenham se dedicado a refutar a filosofia maniqueísta.

Conforme Agostinho foi-se envolvendo com o cotidiano da Igreja, seus tratados apologéticos se diversificaram. Escreveu numerosas páginas sobre a vitória do cristianismo contra o paganismo, refutando as heresias que infestavam a Igreja, expondo a verdade cristã de maneira muito positiva em seus sermões e manuais de ensino voltados à edificação dos cristãos. Pesquisador, estudante e pensador notável, Agostinho foi capaz de desenvolver uma apologética baseada em uma cosmovisão metafísica mais sólida que seus predecessores. Apesar de sua visão de mundo ter-se mostrado densamente platônica em seus escritos iniciais, com maturidade espiritual, sua teologia e filosofia tornaram-se significativamente menos platônicas e mais bíblicas.

Especificamente, Agostinho tornou-se o primeiro teólogo e apologista cristão a abraçar, sem reservas, o posicionamento paulino acerca da fé e da soberania de Deus na salvação do homem. Esse pensamento paulino o habilitou a desenvolver uma visão de mundo e da história humana compreensiva e, ao mesmo tempo, sofisticada e filosófica. Tal filosofia era necessária para enfrentar as idéias pagãs, incluindo-se, entre elas, o platonismo, filosofia que Agostinho considerava muito próxima do cristianismo. Todas as correntes filosóficas contemporâneas de Agostinho eram corruptas e incapazes de aproximar o homem de Deus. A filosofia agostiniana foi exposta mais completamente em um de seus últimos trabalhos, A cidade de Deus, incontestavelmente reconhecido como um entre os cinco ou dez livros mais importantes da história do pensamento ocidental.

Na abordagem agostiniana, fé e razão interagem e culminam com o verdadeiro conhecimento de Deus, em Cristo. A razão precede a fé, ao menos para assegurar que esta é útil. Mas, para a fé, ainda que principiante, não basta crer. Antes, busca, também, compreender e, nesse movimento, é ultrapassada pela inteligência que subsiste eternamente. A fé, embora purificante, é transitória, pois aquele que sabe já não precisa crer. A fé precede a razão naquilo que é espiritual e invisível aos olhos carnais, não apenas no tocante à invisibilidade de Deus, mas, principalmente, em relação aos atos redentores de Deus em Cristo, ocorridos no passado e não podem ser diretamente testemunhado pelos fiéis. Por causa dessas verdades não testemunhadas pelos crentes, todo cristão precisa aceitar a autoridade da revelação divina, tal como expressa nas Sagradas Escrituras e testemunhada pela Igreja. Tais verdades passam, então, a ser entendidas assim que os cristãos começam a apreciar o significado delas de dentro para fora (fé-razão) e não de fora para dentro (razão-fé), pois a compreensão (razão) é a recompensa da fé. Por isso, segundo Agostinho, o cristão não deveria tentar compreender para crer, mas, antes, crer para compreender.

Agostinho foi o primeiro apologista a proclamar o princípio da fé em busca da compreensão (fides quaerens intellectum). Mas, para ele, essa questão era apenas “um lado da moeda”. Ele, freqüentemente, expressou essa interação e interdependência entre a fé e a razão em suas declarações, como lemos: “A fé é um passo dado em direção à compreensão; e a compreensão é uma conquista da fé”. Além disso, enfatizou em seus escritos que tanto a fé quanto a razão nos são concedidas mediante a graça divina dispensada a cada um de nós. Agostinho escreveu: “Ninguém é suficiente em si mesmo quanto à fé, seja ela incipiente ou perfeita, mas nossa suficiência está em Deus”. Com isso, Agostinho não queria dizer que os não-cristãos eram completamente ignorantes a respeito de Deus, pois cita Romanos 1.20 para mostrar que alguns filósofos de sua época, especialmente os platonistas, foram capazes de reconhecer a Deus por meio de sua criação. A linha de raciocínio segundo a qual até mesmo os pagãos são capazes de admitir o Criador é essencialmente o que os filósofos chamariam posteriormente de argumento cosmológico. Esse foi apenas um dentre muitos argumentos que Agostinho empregou para defender que o conhecimento de Deus foi acessível aos pagãos. Contudo, esse conhecimento não é eficaz para impedir a idolatria e o politeísmo. A verdadeira adoração a Deus só é possível por meio da fé em Cristo e essa fé não é uma fé infundada. “Eles estão equivocados se pensam que acreditamos em Cristo sem qualquer evidência”, afirmou Agostinho, que reuniu as provas que encontrou, formando um compilado apologético consistente para a defesa da fé em muitas áreas. Essas provas incluem as profecias cumpridas, a adoração da Igreja e a consistência do monoteísmo, os milagres da Bíblia e, especialmente, o milagre da conversão em massa da sociedade romana em um Deus que fora crucificado mesmo sabendo que essa fé os levaria ao martírio.


Aurelius Augustinus: biografia


Agostinho ensinou retórica nas cidades italianas de Roma e Milão. Nesta última, teve contato com o neoplatonismo cristão. Viveu num monastério por um tempo. Em 395, passou a ser bispo, atuando em Hipona (cidade da região Norte do continente africano). Escreveu diversos sermões importantes. Agostinho analisava a vida levando em consideração a psicologia e o conhecimento da natureza. Mas, o conhecimento e as idéias eram de origem divina. Para o bispo, nada era mais importante do que a fé em Jesus e em Deus. A Bíblia, por exemplo, deveria ser analisada, levando-se em conta os conhecimentos naturais de cada época.

Defendia, também, a predestinação, conceito teológico que afirma que a vida de todas as pessoas é traçada anteriormente por Deus. As obras de Santo Agostinho influenciaram muito o pensamento teológico da Igreja Católica na Idade Média.

Morreu em 28 de agosto (dia suposto) de 420, durante um ataque dos vândalos (povo bárbaro germânico) ao Norte da África.

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