Defesa da Fé


A religião das relíquias idolatradas


Trajetórias de uma lança venerada e muitos outros objetos


Por Paulo Cristiano Silva

Graduado em ciências sociais e vice-presidente do CACP


C. G. Spurgeon concluiu um dos seus grandes sermões da seguinte maneira: “Não encontro palavras por demais severas. Se cada frase minha fosse um trovão e cada palavra, um relâmpago, mesmo assim não seriam fortes demais para protestar contra o sistema que tem degradado a terra inteira, levando-a a beijar os pés do papa, e que, ainda, continua rebaixando a nossa nação, e isso por meio de uma igreja dita protestante. Ó, Deus Todo-Poderoso, tu que és o Deus dos mártires, cujas cinzas ainda se encontram entre nós, será que vais tolerar que este povo volte aos falsos deuses, aos santos e às santas, às virgens e aos crucifixos, às relíquias e às baforadas de fumaça, e ao domínio tenebroso? Pois a isso ele vai chegar, se a tua graça não prevalecer. Ó, meu ouvintes, Jesus é o único Salvador dos filhos dos homens. Creiam nele e vivam. Este é o único evangelho e vocês estarão correndo perigo se não o receberem, por amor a Cristo”

Cada vez mais, a Igreja Católica Romana tem-se voltado às relíquias e às trevas da Idade Média, antes da Reforma. A linguagem de Roma é controlada, mas suas relíquias não são condenadas nem rejeitadas. Muito pelo contrário, têm sido honradas e veneradas.

Se a Igreja Católica Romana rejeita as relíquias, como é que ela gasta tanto tempo expondo sua história e credibilidade? À guisa de exemplo, a Tradição católica, pretensiosamente, nos conta o nome do soldado que usou a lança para perfurar o lado de Jesus na crucificação e ainda ostenta o entusiasmo dos líderes mundiais, de Constantino até Hitler, que estiveram de posse desta relíquia sagrada.

Em João 19, lemos que, com a aproximação do sábado, foi sugerido a Pilatos que a morte de Jesus e dos dois ladrões crucificados com Ele seria mais rápida se as suas pernas fossem quebradas. O governador lhes deu o consentimento e a ordem brutal foi executada nos dois homens condenados com Cristo. Mas, quando se aproximaram de Jesus, Ele já estava morto. Então, para que tivessem certeza, um dos soldados furou o lado de Jesus com uma lança, tendo escorrido do ferimento sangue e água.

Esse incidente foi registrado por João como prova de que a morte de Cristo havia cumprido as profecias do Antigo Testamento: “Nenhum dos seus ossos será quebrado”. E: “Verão aquele a quem traspassaram”.

O soldado que usou a lança não é nomeado no evangelho. Mas, conforme o “Evangelho de Nicodemos” (literatura apócrifa), antes chamado “Atos de Pôncio Pilatos”, o soldado era um centurião meio cego, chamado Longuinho, o qual se ajoelhou depois e teve a sua visão miraculosamente restaurada. Logo em seguida, ele abandonou o exército romano e passou a levar uma vida de oração, tendo sido torturado pela sua fé e se tornado santo.

Contudo, em sua obra Vida dos santos, Sabino Baring Gould lança algumas dúvidas sobre a veracidade dessa história, declarando que o nome do soldado pode ter resultado simplesmente de um erro na tradução da palavra grega longenhe, que significa “lança”.

Mesmo assim, as supostas relíquias do soldado desconhecido têm sido conservadas por toda a cristandade, inclusive a “lança” rival, para a qual nenhuma exigência de autenticidade tem sido feita pelo Vaticano.

A lenda diz que, no século 4o da Era Cristã, Constantino, o Grande, invocou o poder da referida lança para cristianizar o Império Romano e que Carlos Magno (nascido, aproximadamente, em 742 d.C.) também recebeu o poder por meio da posse da mesma. Duzentos anos mais tarde, L. de Cremona deixou a primeira narrativa escrita sobre a relíquia sagrada, ligando-a ao primeiro sacro imperador romano, Constantino. Enquanto isso, em 1084, o seu sucessor, Henrique IV, afirmou, em sua coroação, que a lança continha também um dos cravos usados na crucificação.

Em meados do século 14, o valor dessa propaganda era tal que Carlos IV, da Boêmia e Alemanha, reclamou a lança ao trono, afirmando que a relíquia era a “Lança do Senhor”. Contudo, ainda em 1424, Sigismundo, de Luxemburgo, vendeu a lança à cidade conhecida como Nuremberg, onde ela teria permanecido até 1800, quando foi contrabandeada para Viena, a fim de livrá-la de ser capturada por Napoleão. Teria sido ali que o jovem Adolfo Hitler viu a lança e ambicionou-a, pelo poder que ele acreditava que a mesma proporcionava a quem a possuísse.

Historiadores mais moderados afirmam que a lança foi roubada, do meio das “jóias da coroa”, da Casa de Hasburgo, o que é mais consistente com a narrativa da devastação de outros museus, e que Hitler a considerava uma relíquia, simplesmente como fazia com outros espólios de guerra. E que, no final do conflito, a lança (ou, talvez, uma réplica da mesma) foi recapturada pelos soldados americanos e conduzida de volta ao Museu Kunsthistorishes, de Viena, Áustria.


As relíquias e a Bíblia


A veneração a essas relíquias é uma supersticiosa idolatria. Mesmo que a lança fosse genuína, ela não poderia conter qualquer valor espiritual. Na história de Israel, a serpente de bronze, erguida sobre uma haste, trouxe cura a milhares de israelitas. Contudo, o rei Ezequias, ao constatar que ela estava sendo adorada, mandou que fosse destruída. Leiamos Números 21.7-9 em contraste com 2Reis 18.1-4:

“Por isso o povo veio a Moisés, e disse: Havemos pecado, porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo povo. E disse o Senhor a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia” (Nm 21.7-9).

“E sucedeu que, no terceiro ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e vinte e nove anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Abi, filha de Zacarias. E fez o que era reto aos olhos do Senhor, conforme tudo o que fizera Davi, seu pai. Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até aquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã” (2Rs 18.1-4).

Ora, Ezequias procedeu corretamente, pois a Bíblia é muito clara ao proibir a adoração de objetos confeccionados pelas mãos dos homens: “Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia aos milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20.1-6).


O relicário católico romano


Deus proíbe a adoração e o culto dedicado às imagens. Então, como é que a Igreja Católica Romana ultrapassa a Palavra de Deus, a qual declara que o homem não deve fabricar imagens nem se curvar diante delas? O fato é que o catolicismo sempre omite o mandamento contra a idolatria em seus catecismos.

Para a Igreja Católica Romana, os cadáveres ou ossos dos santos, e qualquer outra coisa que lhes tenha pertencido durante sua vida terrena, são relíquias dignas de adoração. Assim, a Igreja Romana classifica suas relíquias mais valorizadas:

Classe 1: partes do corpo de um santo Partículas de crânios, ossos, pele, dentes, cabelos, unhas e gotas de sangue dos santos.

Classe 2: objetos pessoais de um santo Roupa, cajado, os pregos da cruz e todos os instrumentos de tortura por meio dos quais os santos tenham perecido.

Classe 3: objetos de menor importância Pedaços de tecido que não pertenciam ao santo, mas tocaram em seu corpo, ou no relicário onde uma porção do seu corpo está conservada.

É proibido, sob pena de excomunhão, vender, trocar ou exibir, para fins lucrativos, relíquias de primeira e de segunda classes. Como exemplo, além da lança de que já tratamos, são algumas outras relíquias expostas e veneradas pela Igreja Católica Romana: coroa de espinhos, madeira da cruz, manto de Jesus, pregos da cruz, prepúcio sagrado, Santo Graal, sudário de Turim, além de várias cabeças de São Pedro!

Mas, seria oficialmente a veneração devida às relíquias? O Concílio de Trento não definiu. As autoridades modernas declaram que as relíquias são “valiosas promessas que animam a confiança dos fiéis e a comunhão na intercessão dos santos”. Dizem, ainda, que a essas deveriam ser dadas “honras relativas e inferior, visto como se relacionam a Cristo e aos santos, sendo memoriais destes”. E, também, que, na exibição formal das relíquias na Catedral de São Pedro, em Roma, adoração formal e pública lhes é oferecida sempre que o papa e os cardeais se ajoelham diante delas, do mesmo modo como o fazem diante da hóstia e do altar.


A importância das cruzadas para o relicário católico


As invasões e os saques dos cruzados no Oriente Médio ajudaram a difundir peças religiosas até hoje consideradas preciosíssimas — ou simplesmente lendas inesquecíveis.

Primeiro, os cruzados queriam ocupar Jerusalém e retomar as peregrinações cristãs ao Santo Sepulcro, o suposto túmulo de Jesus. Depois, iniciaram uma onda de saques a lugares sagrados. E uma das conseqüências das Cruzadas não poderia ser outra: a difusão de diversos objetos religiosos, que viraram relíquias de valor infinito. Venerados pela crença em seus supostos poderes milagrosos, eles se destacam durante o conflito promovido pelos cristãos. “As Cruzadas reavivaram as lendas em torno das relíquias”, diz Marcus Cruz, doutor em história social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Desde a primeira ofensiva, os cruzados estiveram ligados a esses objetos. É durante o ataque a Constantinopla — o maior saque da Idade Média, que muitos deles aparecem. Os templários, um grupo militar criado no período das Cruzadas, tiveram, por exemplo, em suas mãos, alguns dos mais importantes instrumentos sagrados. Segundo Maria Filomena Nascimento, medievalista da Universidade de Brasília, os invasores cristãos realmente acreditavam no poder e na proteção dessas relíquias, mesmo que fossem falsas.


Fatos que contestam a genuinidade das relíquias


Existem muitas relíquias de cada apóstolo e santo e tantas outras duplicatas de cada uma. Os apóstolos devem ter tido várias cabeças cada um, bem como um número de dezena de costelas. Só assim poderíamos confirmar a existência de tantos ossos de uma mesma pessoa! Helena, mãe de Constantino, que supostamente descobriu a cruz (o madeiro), deve ter possuído nada menos de três corpos, pois existe um na Igreja de Arascelli, Roma (Itália), outro perto de Rheims (França) e um terceiro em Constantinopla (antiga Bizâncio, atual Istambul).

A cruz de Cristo deve ter sido monumental, talvez maior do que a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, a fim de poder suprir todos os pedaços que têm sido exibidos dela. Mas tudo isso, é lógico, não passa de um grande absurdo.

Para os leitores terem uma idéia, a Igreja Católica Romana alega existir até mesmo relíquias de anjos, como, por exemplo, uma pena da asa do arcanjo Miguel!

A Igreja Católica Romana afirma que o poder lhe foi transmitido, que as suas relíquias, imagens e santos, todos eles, têm operado milagres e que, ainda, continuam operando. O cardeal Neuman falou, certa feita: “Certamente, a Igreja Católica Romana, de Leste a Oeste e de Norte a Sul, está apoiada em milagres”. Mas, será que o teor das doutrinas nas quais se “sustenta” e o apoio aos milagres da Igreja Romana não nos levam a rejeitá-los? Deus declara que qualquer sinal ou maravilha operado como suporte a qualquer doutrina contrária à sua Palavra que não tenham passado por um exame rigoroso deve ser considerado falso. Segundo Francis Schaff, esses milagres não têm sido tão sobrenaturais e acima do racional.

Eles têm sido antinaturais e irracionais. É dito, por exemplo, que São Bernardo, quando se dirigia à França, pensando que havia esquecido alguma coisa, voltou caminhando a pé enxuto sobre o mar; que São Dionísio, após ter sido decapitado, andou duas milhas segurando a própria cabeça; que Santo Antônio fez o cavalo de um herege venerar a hóstia, inclinando a cabeça e ajoelhando-se diante da mesma; que Santo Hilário, atendendo ao apelo de um dos fiéis (que patrocinava um hipódromo, mas era invariavelmente derrotado pelos seus opositores) deu-lhe uma jarra com água para ser aspergida sobre seu cavalo e sobre o curso da corrida, o que resultou na vitória de seu jóquei. Entre muitas, mas muitas outras invenções.

Em contraste com todos esses “milagres” católicos, os de Cristo foram operados com a dignidade e o poder correspondentes ao objetivo de sua missão. Foram uma belíssima ilustração das bênçãos que Ele veio nos prodigalizar. Sempre que Jesus operava um milagre, havia um propósito maior: “Estava, porém, enfermo certo Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta. E Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com ungüento, e lhe tinha enxugado os pés com os seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava enfermo. Mandaram-lhe, pois, suas irmãs dizer: Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas. E Jesus, ouvindo isto, disse: Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (Jo 11.1-4; grifo do autor).

A verdade é que o Cardeal Neuman, antes de se converter à Igreja Católica Romana, acreditava que tais milagres eram “indignos de qualquer autor sábio”, acrescentando que: “a notória falta de sinceridade e as fraudes da Igreja Católica Romana em outros assuntos eram suficientes para observar com forte suspeita o seu testemunho de milagres”. Entretanto, logo depois de passar para o “lado romano”, o cardeal começou a aceitar os milagres que tanto contestou, passando a se ajoelhar diante dos seus crucifixos, passou a acreditar no choro de suas “madonas” e até mesmo na liquidificação do sangue de São Genaro.


Cardeal Newman


John Henry Cardeal Newman, (Londres, 21 de fevereiro de 1801 — Edgbaston, 11 de agosto de 1890) foi um sacerdote anglicano inglês convertido ao catolicismo, posteriormente nomeado cardeal pelo papa Leão XIII em 1879. Foi beatificado no dia 19 de setembro de 2010 pelo Papa Bento XVI. Estudou no Trinity College de Oxford (1816) e no Oriel College (1822) e foi ordenado sacerdote da Igreja Anglicana. Naquela época, ele considerava o anglicanismo de seu tempo excessivamente protestante e laicizado e considerava o catolicismo corrompido em relação às origens do cristianismo. Buscou uma “via média” entre os dois, e, pesquisando sobre os primórdios da Igreja Católica e do cristianismo em geral, terminou por converter-se ao catolicismo.


Os milagres e suas origens


Mas alguém poderia objetar: E se alguns desses milagres não fossem fraudes? E se houvessem mesmo ocorrido? Segundo o apóstolo Paulo, em sua segunda epístola escritas aos tessalonicenses, nem todo prodígio tem sua fonte em Deus: “Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; e então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniqüidade.” (2Ts. 2.7-12).

Durante pouco mais quinze séculos a Igreja Católica Romana tem se abarrotado de falsos dogmas e de milagres espúrios, o que demonstra claramente o caráter de sua enorme apostasia. Isso é mais que suficiente para descrermos nas origens de suas relíquias e, conforme ordena a Bíblia, rejeitarmo-nos a adorá-las.

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