Defesa da Fé


A teologia da antimissão


Por Rubens Muzio

Mestre em teologia pastoral pelo Calvin Thelogical Seminary e doutor em teologia pastoral pelo Westminster Theological Seminary


Ao olhar para a igreja atual, parece haver algo errado. De alguma forma, ela conseguiu mudar seu propósito e sua natureza. Conseguiu desviar-se do que, a princípio, foi estabelecido pelo próprio Jesus.

A Igreja brasileira, nos últimos anos, foi invadida por aquilo que denominamos de “teologias de antimissão”. E uma delas é a teologia da prosperidade, que levou a Igreja evangélica brasileira a uma mudança de paradigma. As igrejas, bem como seus ministérios, suas pregações e suas ações, deixaram de servir para serem servidas. Nesse processo, as nossas igrejas buscam somente satisfazer seus próprios interesses.

Nos últimos anos, a igreja deixou de ser agente missionário para se tornar uma instituição mercadológica, por meio da qual o evangelho é vendido sem escrúpulos e o melhor vendedor é aquele que possui uma megaigreja, ou uma igreja de destaque na sociedade. Não que a construção de grandes tempos seja algo errado em si mesmo ou um critério absoluto para se determinar “igrejas mercadológicas”. Mas, tenho uma séria preocupação com a maneira como a Igreja brasileira absorve modelos pré-prontos, tornando-os mais importantes que os princípios teológicos da missão. Quando olhamos atentamente para a Igreja brasileira, percebemos que ela sofre de uma síndrome que a distancia, a cada instante, da sua natureza missionária. Nossas igrejas não conseguem desenvolver uma ação prática que possa transformar a nossa comunidade.

Sobre a realidade da Igreja brasileira, Ariovaldo Ramos a descreve dessa forma: “A face mais visível da Igreja brasileira e, aparentemente, a que mais cresce, em vez de denunciar a injustiça social e propor e viver uma economia solidária, passou a pregar uma teologia que sustenta a desigualdade ao afirmar que a riqueza deveria ser o alvo do crente, e que o caminho é a fé atestada pelo nível de contribuição e pela capacidade de arbitrar, por decreto, sobre o que Deus deve fazer [...] Em vez de viver, sinalizar e anunciar o reino, a Igreja brasileira passou a caçar os principados e potestades nas regiões celestiais, ora localizando e derrubando os seus postes-ídolos, ora ungindo, de alguma forma criativa, a cidade, inaugurando o que James Houston chamou de evangelização cósmica. Outro houve que assumiu a igreja como uma empresa, sonhando também com impérios, e passou a importar modelos de gerenciamento que a organizasse, desenvolvesse excelência ministerial e produzisse crescimento, usando, muitas vezes, o princípio do apartheid, por meio do qual as ovelhas foram transformadas em mão-de-obra e os pastores, em gerentes de programa”.

Diante desse quadro tão preocupante em que se encontra a Igreja brasileira, para que possamos retomar aos princípios neotestamentários sobre sua missão, é necessário redescobrir na igreja de que forma a missão cristã pode exercer mudanças em nossa geração, buscar, à luz de uma pesquisa teológica e bíblica, os princípios e valores inerentes à função da igreja cristã em nossa sociedade.

David Bosh, ao falar sobre esta natureza da igreja, diz: “Na eclesiologia emergente, a igreja é vista como essencialmente missionária. O modelo bíblico que está por trás dessa convicção e que tem sua expressão clássica em AG2 (‘A igreja peregrina é missionária por sua natureza’), é aquele que encontramos em 1Pedro 2.9. Nesse texto, a igreja não é a remetente, mas a remetida. Sua missão (o fato de “ser enviada”) não é secundário em relação à sua existência; a igreja existe ao ser enviada e edifica-se visando a sua missão. A eclesiologia, portanto, não constitui uma atividade periférica de uma igreja firmemente estabelecida, que está queimando fulgurantemente [...] A atividade missionária não é tanto uma ação da igreja, mas, sim, a igreja em ação”.

Por intermédio de um estudo aprimorado sobre a identidade da igreja e sua ação missionária, queremos propor um novo pensamento a respeito da nossa caminhada e uma ação mais efetiva que possa trazer mudanças palpáveis em nossa sociedade, principalmente entre aqueles que necessitam de uma transformação integral, além de mostrar apontamentos sobre como podemos reverter essa realidade.

Precisamos retomar nossas idéias, parar com tudo e entrar num processo de reavaliação de nossos conceitos e paradigmas. Para tanto, precisamos deixar de lado a nossa ansiedade em “evangelizar” o mundo e começar a pensar em missão como um processo de transformação integral da vida de todos aqueles que são atingidos por ela.

Nosso primeiro passo deve consistir em buscar, de forma bíblica e teológica, os conceitos da missão que Cristo nos deixou e em identificar as verdades bíblicas a respeito desse tema e os modismos que devemos abandonar, pois os nossos modismos nos levam a servir muito mais a nós mesmos do que aos que ainda não conhecem o evangelho.

Sem uma visão clara sobre essa missão, corremos o risco de nos tornarmos uma simples instituição mercadológica preocupada só com o número de almas ou com as metas numéricas que devemos alcançar.

A igreja deve deixar seus programas gerenciais e voltar-se à vida das pessoas, trazendo um evangelho integral que atenda às necessidades espirituais do homem. Precisamos tornar nossas igrejas úteis aos necessitados e os nossos cultos acessíveis a todos, sem exceção. Assim, poderemos vivenciar e demonstrar o amor de Deus pelos povos. Um dos grandes passos para a igreja atual é romper com o evangelho apenas falado e começar a viver um evangelho prático, que caminha em direção às pessoas.

Usando Cristo como exemplo, podemos encontrar os parâmetros necessários para o cumprimento dessa missão. Olhar para Cristo nos levará a abandonar nosso orgulho e hipocrisia, que geram um muro que nos separa da missão autêntica.

Quando deixarmos de lado nosso próprio eu, daremos espaço para que o Espírito Santo aja por nosso intermédio. A missão começa quando experimentamos uma intimidade autêntica com Deus, que nos leva a compreender seu amor, sua graça e sua bondade. Mesmo que isso não seja uma atitude fácil, precisamos caminhar em direção a um processo de busca neotestamentária, seguindo o exemplo dos cristãos do século 1o.

De forma prática, a busca, para responder ao chamado da missão, deve ser uma só. Ou seja, a nossa atitude deve ser a mesma de Cristo Jesus, que, embora fosse Deus, não considerou que ser igual a Deus era algo ao qual deveria apegar-se, antes, esvaziou-se a si mesmo, fazendo-se servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! (NVI, p. 941)


Referências:

1 RAMOS, Ariovaldo. A ética e a igreja. In: Congresso brasileiro de evangelização II. Missão Integral: proclamar o reino de Deus, vivendo o evangelho de Cristo. Viçosa: Ultimato; Belo Horizonte: Visão Mundial, 2004, p. 201-3.

2 BOSH, D. Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p. 447.

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