Defesa da Fé


Acaso versus planejado ou paganismo versus cristianismo?


Por Augustus Nicodemus Lopes

Pastor presbiteriano, mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em Interpretação Bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA)


Será que tudo que nos acontece é por acaso?

Os acontecimentos, sejam bons ou maus, ocorrem acidentalmente, de maneira aleatória, sem que haja uma finalidade neles?

Sim ou não?


Sim!


Os que pensam assim, julgam que Deus não determinou, decretou ou planejou absolutamente nada com relação aos seres humanos, seu futuro histórico ou eterno, e muito menos aos acontecimentos diários. Nada foi previsto ou determinado por Deus, inclusive os eventos naturais, como, por exemplo, terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, acidentes, quedas de aviões. Enfim, nada foi previsto ou determinado por Deus. Portanto, tudo é imprevisível como num jogo de futebol. Não se sabe o futuro, não se pode prever absolutamente nada quanto ao fim da história. Junto com seus seres morais, Deus constrói em parceria o futuro que, neste acaso, é aberto, indeterminado e incognoscível. Inclusive para Ele mesmo.


Não!


Os que pensam assim entendem que Deus criou o mundo conforme um plano, um propósito, um projeto elaborado em conformidade com sua sabedoria, justiça, santidade, misericórdia e poder. Nada que acontece, mesmo as mínimas coisas, ocorre ao acaso e de forma aleatória, contingencial e casual, mas segundo esse plano sábio. As decisões dos seres humanos são tomadas livremente por eles mesmos, mas, de uma forma que não compreendemos, tais decisões acabam contribuindo para a concretização do propósito divino sem que Deus seja o autor do pecado. Tudo que ocorre, coisas boas ou ruins, estão dentro desse propósito concebido antes da fundação do mundo.


A negação do acaso no Antigo Testamento


A melhor maneira de avaliarmos qual das duas é a visão correta é perguntarmos qual delas se aproxima mais da visão de Deus, do mundo e do homem que a Bíblia apresenta. Como os autores bíblicos concebiam o mundo, a história e os acontecimentos?

Ninguém que conheça a Bíblia poderá ter dúvidas quanto à resposta. Os judeus, ao contrário dos povos pagãos ao seu redor, não acreditavam em sorte, azar, acaso, acidente ou contingências. Eram os filisteus e não os israelitas que acreditavam que as coisas podiam acontecer ao acaso (1Sm 6.9). Os israelitas, ao contrário dos pagãos, não acreditavam no acaso.

Para eles, Deus tinha traçado planos para os homens e as nações, e os mesmos iriam se cumprir inevitavelmente. Esses planos não poderiam ser frustrados por homem algum (Jó 42.2; Pv 19.21; Is 14.27; Is 43.13; Is 46.10,11). Tais acontecimentos estavam tão inexoravelmente determinados que Deus os tornava conhecidos de antemão, por meio dos profetas. O fato de que os profetas de Israel eram capazes de predizer o futuro com exatidão era a prova de que o Deus de Israel era superior aos deuses pagãos (Is 46.9,10).

Os autores do Antigo Testamento sempre descrevem eventos que aconteceram aparentemente ao acaso como sendo o meio pelo qual Deus realizava seu propósito final. Assim, o arqueiro que atirou sua flecha “ao acaso” durante uma batalha acabou atingindo o rei de Israel e, dessa forma, cumpriu a profecia sobre sua morte (2Cr 18.33). A tempestade que atingiu o navio em que Jonas fugia para Társis não foi mera contingência, mas resultado da ação de Deus para levar o profeta a Nínive (Jn 1.4). O amalequita que vagueava “por acaso” nos montes de Gilboa foi o que encontrou Saul agonizante e o matou, cumprindo, assim, a determinação do Senhor de castigá-lo por ter consultado a pitonisa (2Sm 1.6-10; 1Cr 10.13). O encontro “casual” do profeta com um leão causou-lhe a morte e, assim, cumpriu-se a profecia contra ele (1Rs 13.21-24). A visita casual que Acazias foi fazer a Jorão e o encontro fortuito com Jeú era tudo “a vontade de Deus” conforme o autor do livro das Crônicas, para que Acazias fosse morto (2Cr 22.7-9). Dezenas de outras passagens poderiam ser citadas para mostrar que, na cosmovisão dos autores do Antigo Testamento, nada acontecia por acaso, nem mesmo as pequenas coisas.

Até mesmo ações pecaminosas dos homens são atribuídas a Deus pelos autores do Antigo Testamento. O endurecimento do coração de Faraó, para não deixar o povo de Israel sair, é atribuído a Deus, que queria mostrar sua glória e seu poder sobre os deuses do Egito (Êx 7.3; 9.12). O endurecimento dos filhos de Eli, para não se arrependerem do mal praticado, é atribuído a Deus, que os queria matar (1Sm 2.25). O endurecimento do rei Seom, para não deixar Israel passar por sua terra, é atribuído a Deus, que queria entregá-lo nas mãos de Israel (Dt 2.30), bem como o endurecimento de todas as nações cananitas (Js 11.20).

Ao mesmo tempo, é preciso acrescentar que os israelitas não consideravam Deus culpado pelo pecado humano. Ele era santo, justo, verdadeiro e não podia contemplar o mal (Hb 1.13). Todos esses personagens mencionados foram, portanto, responsabilizados por seus próprios pecados. Logo, a visão de um mundo onde as coisas acontecem ao acaso, acidentalmente, sem propósito, é completamente estranha ao mundo dos israelitas, conforme temos registrado na Bíblia.


A negação do acaso no Novo Testamento


Quando chegamos à pessoa de Jesus, encontramos exatamente a mesma visão de mundo, de Deus e da história, que é refletida no Antigo Testamento. Para Jesus, até mesmo coisas tão insignificantes, como o número de cabelos da nossa cabeça (Mt 10.30) e a morte de pardais (Mt 10.29), estavam sob o controle da vontade de Deus. Ele era capaz de profetizar acontecimentos futuros tão triviais quanto o local onde se encontrava uma jumenta e seu jumentinho (Mt 21.2); que Pedro iria achar moedas na boca de um peixe (Mt 17.27); e que um homem estaria em determinado momento entrando na cidade com um cântaro na cabeça (Lc 22.10-12). Obviamente, essas coisas não aconteceram por acaso.

Jesus se referiu à vontade de Deus e ao plano dele inúmeras vezes, como, por exemplo, ao ensinar aos seus discípulos que tinha vindo ao mundo para morrer na cruz para salvar os pecadores (Mt 17.22,23). As parábolas que Jesus contou sobre o futuro de Israel e sobre o dia do juízo deixavam pouca dúvida de que, para Ele, a história caminhava para um fim já traçado e determinado por Deus. Em seu sermão escatológico, Jesus predisse com exatidão a queda de Jerusalém, a fuga dos discípulos, o surgimento dos falsos profetas, as catástrofes, terremotos, secas, pestes e guerras que haveriam de suceder à raça humana e as perseguições que sobreviriam aos seus discípulos antes de sua vinda (Mt 24).

Os discípulos de Jesus, os autores do Novo Testamento, tinham exatamente a mesma visão de um mundo onde nada ocorre por acaso. Tudo o que havia acontecido com Jesus, como o local do seu nascimento (Mt 2.5-6), sua ida ao Egito (Mt 2.15), sua vinda a Nazaré (Mt 2.23), seus milagres (Mt 8.16-17), sua traição (Jo 17.12), seu sofrimento e sua morte na cruz (At 3.18) – inclusive detalhes como beber vinagre (Jo 19.28-29), ter sua túnica rasgada (Jo 19.24) e seu corpo furado por uma lança (Jo 19.34-36) – tudo isso havia sido determinado por Deus em detalhes, a ponto de Deus ter revelado esses fatos cerca de seiscentos anos antes dos mesmos terem acontecido por meio dos profetas de Israel. Pensemos na probabilidade de atos, decisões e eventos acidentais, aleatórios, ao acaso, contingenciais, acontecerem de tal forma que essas coisas se mostraram exatamente como os profetas tinham dito!

Mas, não apenas os fatos ocorridos com Jesus haviam sido planejados. Também, podemos dizer o mesmo daqueles que cercaram o nascimento da Igreja cristã. A substituição de Judas (At 1.16-26), o dia de Pentecoste (At 2.14-17), a rejeição de Israel (At 13.40), a inclusão dos gentios na Igreja (At 15.15-20) – tudo isso havia sido determinado por Deus e previsto nas Escrituras pelos profetas. Veja a quantidade de vezes que, no livro de Atos, se menciona que a história de Cristo e da Igreja havia sido determinada por Deus e anunciada pelos profetas: Atos 3.18,21-25; 10.43; 13.27,40; 18.28; 26.22!

Nas cartas que escreveram às igrejas, os autores do Novo Testamento jamais, em qualquer lugar, ensinaram os crentes que as coisas acontecem por acaso. Ao contrário, ensinaram os crentes que a conversão deles era resultado da vontade de Deus. Ou seja, que eles foram predestinados (Rm 8.29-30; Ef 1.5,11), escolhidos antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Os crentes são ensinados a buscar a vontade de Deus, a se submeter a ela e a entender que a vontade de Deus controla a história (Rm 8.27; 12.2; Ef 6.6; Cl 4.12; 1Ts 4.3; 5.18; Hb 10.36; 1Pe 2.15). Até o sofrimento por causa do evangelho era visto como sendo pela vontade de Deus (1Pe 3.17; 4.19). Eles foram ensinados a ver uma “santa conspiração divina” em tudo que acontece em favor do bem deles (Rm 8.28), a ponto de serem exortados a dar graças em tudo (1Ts 5.18). Eles são exortados a dizer sempre: “se Deus quiser”, farei isso ou aquilo (Tg 4.15). Paulo sempre dizia que: “se fosse a vontade de Deus”, ele iria a esse ou aquele local (Rm 1.10; 15.32). Ele sempre começa suas cartas dizendo que foi chamado “pela vontade de Deus” para ser apóstolo (1Co 1.1; Ef 1.1; Cl 1.1; 2Tm 1.1).

Os cristãos são encorajados a enfrentar firmes as provações e tentações, pois Deus não permitirá que eles sejam provados além de suas forças (1Co 10.31). Eles devem sofrer com paciência em plena confiança que o Deus que está no controle de todas as coisas lhes dá a vida eterna e que ninguém poderá arrancar seus filhos de suas mãos. Eles são consolados com a certeza de que Deus haverá de cumprir todas as suas promessas, e que há um final feliz para todos os que confiam nele e crêem em Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador. Eles são exortados a permanecer firmes, pois o bem haverá de triunfar sobre o mal, a justiça prevalecerá e a verdade haverá de vencer. E isso só é possível porque Deus está no controle, porque Deus conduz a história para o fim que Ele mesmo determinou, de uma maneira sábia e misteriosa, na qual os seres humanos e os anjos são responsáveis por seus atos, decidem fazer o que querem e tomam as escolhas que desejam.

À semelhança dos autores do Antigo Testamento, os escritores do Novo também atribuem a Deus o fato de que os ímpios e pecadores impenitentes se afundam cada vez mais no pecado. Paulo, por três vezes no primeiro capítulo de Romanos, declara que Deus entregou os incrédulos de sua geração à corrupção de seus próprios corações, para que eles se afundassem ainda mais no pecado e na iniqüidade (Rm 1.24,26,28). Aos tessalonicenses, ele declara que Deus mandou a “operação do erro” para que os que rejeitassem a verdade e cressem na mentira (2Ts 2.11). Igualmente, à semelhança do Antigo Testamento, o Novo responsabiliza os seres humanos por seus próprios pecados e condenação.


O acaso e o paganismo


É evidente que não será na Bíblia que encontraremos essa visão de um mundo onde as coisas acontecem por mero acaso, onde tudo é casual e contingencial. Mas, vamos encontrá-la na mentalidade pagã, nas religiões idólatras, de deuses pequenos, impotentes, egoístas. Vamos encontrar essa visão de um mundo onde as coisas ocorrem de maneira aleatória nas idéias dos maniqueístas e gnósticos, ateus e agnósticos, especialmente os evolucionistas, que defendem que tudo surgiu e acontece como resultado de uma combinação fortuita do tempo e do acaso. Os verdadeiros cristãos, todavia, cantam: “Acasos para mim não haverá!”.

Se tudo acontece por acaso, que combinação inimaginável de ações livres, aleatórias e catástrofes naturais fortuitas poderá unir-se a uma conspiração impessoal e totalmente ao acaso para produzir o final que Deus prometeu na Bíblia? Se Deus não é Deus, então o acaso se torna Deus e não temos qualquer garantia de que o final feliz prometido na Bíblia haverá de acontecer.

Não nos enganemos. A discussão entre “acaso” versus “planejado” não é uma disputa teológica entre cristãos arminianos e calvinistas, pois,os arminianos e os calvinistas concordam que Deus tem um plano, que Ele controla a história, que não existe acaso, porque Deus conhece o futuro. Ambos aceitam a Bíblia como Palavra de Deus e querem ser guiados por ela. O confronto, na verdade, é entre duas visões de mundo completamente antagônicas, a visão pagã e a visão bíblica, entre as religiões pagãs e a religião bíblica. Posso não entender tudo sobre este assunto, mas prefiro mil vezes ficar ao lado dos autores da Bíblia do que ao lado de filósofos, teólogos e poetas ateus, agnósticos e racionalistas.

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