Defesa da Fé


O espiritismo e o sofrimento de Jesus


Por Natanael Rinaldi

Ministro do evangelho pela Igreja Evangélica da Paz e pioneiro da apologética cristã no Brasil


O espiritismo ensina que a encarnação é necessária aos espíritos como imposição de Deus “para fazê-los chegar à perfeição”. Mas, para isso, “devem passar por todas as vicissitudes da existência corpórea”. “Os sofrimentos da vida são, por vezes, conseqüência da imperfeição do espírito: quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos”.

Esse caminhar por vidas corpóreas seria necessário porque “Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes, isto é, sem ciência. A cada um deu uma missão, com o fim de esclarecê-los e fazê-los chegar, progressivamente, à perfeição, pelo conhecimento da verdade, e aproximá-los de si. Os espíritos adquirem esses conhecimentos passando por provas que Deus lhes impõe” (Livro dos Espíritos, questão 115).

Os “puros espíritos” fazem parte da classe mais elevada (ou seja, da primeira classe) e atingiram essa posição porque “percorreram todos os degraus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria, e, tendo atingido a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, não têm mais que passar por provas ou expiações. Não mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, vivem a vida eterna, que realizam no seio de Deus” (grifo do autor).

Kardec disse que a autoridade de Jesus originou-se da “natureza excepcional do seu Espírito e da sua missão divina”, e que a “lei do Novo Testamento teve sua personificação em Cristo”, na qualidade de segunda revelação de Deus. Jesus “foi o iniciador da mais pura, da mais sublime moral, da moral evangélico-cristã, que há de renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los irmãos [...] foi o iniciador de uma perfeita moral” (grifo do autor).

Conforme a visão kardecista, foi dura a caminhada de Jesus até chegar ao seu ponto máximo de perfeição. Até ser considerado um espírito puro, Jesus teria passado por inúmeras vidas corpóreas. Foi, quem sabe, escravo de um senhor rude e cruel; trabalhador braçal na construção de castelos reais; uma mulher desamparada ou uma viúva pobre em algum lugar da África. Vencidas essas provas indispensáveis ao seu aperfeiçoamento, e já na condição de espírito puro, achou graça diante de Deus, que o escolheu para uma missão divina da mais elevada importância. Então, Jesus não teria vindo para mais uma prova, porquanto não havia nele imperfeições a serem removidas, como bem disseram os desencarnados: “A autoridade lhe vinha da natureza excepcional do seu Espírito e da sua missão divina”. A pureza de Jesus seria de tal forma que Deus o escolhera dentre muitos outros espíritos puros, porque estaria ele no ponto mais elevado da hierarquia espiritual, tudo segundo a visão kardecista.

Ora, depois de tanto sofrimento, ou melhor, depois de sofrer tantas encarnações para aperfeiçoar-se, nada mais justo da parte de Deus do que premiar esse espírito puro, que em determinada etapa chamou-se Jesus, com a sublime missão de dar início a “mais pura e mais sublime moral, da moral evangélico-cristã”.


Defeitos da argumentação kardecista


Há alguns tropeços no percurso desse raciocínio espírita acerca da vida de Jesus.

O primeiro deles está relacionado à missão de Jesus, que não veio só para ensinar uma elevada moral. Vejamos o que Jesus diz no começo do seu ministério: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração; a pregar liberdade aos cativos; e restauração da vista aos cegos; pôr em liberdade os oprimidos; e anunciar o ano aceitável do Senhor [...] hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos” (Lc 4.18,19,21; Is 61.1).

O segundo diz respeito às boas-novas trazidas pelo Senhor Jesus, que não se resumiram nas questões de ordem moral, como foi soprado pelos espíritos desencarnados. O Senhor Jesus operou milagres sem conta. Ressuscitou mortos. Curou leprosos, cegos, surdos e paralíticos. Perdoou pecados. Expulsou demônios. Acalmou tempestade. Andou sobre o mar. Multiplicou pães e peixes para alimentar milhares de pessoas. E nenhum desses milagres pôde (passado) ou pode (presente) ser explicado pelo cientificismo do kardecismo. Leiamos: “E, onde quer que entrava, ou em cidade, ou em aldeias, ou no campo, apresentavam os enfermos nas praças e rogavam-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua veste, e todos os que lhe tocavam saravam” (Mc 6.56). “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem” (Jo 21.25).

A terceira pedra de tropeço são os ensinos de Jesus sobre os assuntos a seguir, para os quais o kardecismo tem ouvidos moucos ou apresenta interpretações equivocadas.

Vejamos:


Incompatibilidade com o ensino sobre a revelação

Ao dizer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6), o Senhor Jesus coloca por terra a intenção do espiritismo de ser, como dizem os espíritas, “a Terceira Revelação de Deus, não tendo a personificá-la nenhuma individualidade, porque é fruto do ensino dado, não por um homem, mas, sim, pelos espíritos, que são as vozes do céu”. O cristianismo rejeita os ensinos dos “espíritos” e reconhece que “toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Jesus ensinou que há dois tipos de homens: os salvos (Mt 25.31-34) e os perdidos (Mt 7.13,14; 25.46). Esse ensino refuta a afirmação kardecista de que “todos os espíritos tornar-se-ão perfeitos”.


Incompatibilidade com o ensino sobre o perdão dos pecados

Jesus ensinou que o perdão de Deus é necessário à salvação do homem (Mt 6.12; Lc 23.34). Os “mensageiros do céu”, todavia, ensinam que basta ao espírito aceitar as provas de múltiplas encarnações, porque somente “submetendo-se à prova de uma nova existência” a alma pode depurar-se. E as “vozes do além” arrematam: “Em cada nova existência, o espírito dá um passo na via do progresso. E quando se houver despojado de todas as impurezas, não mais necessitará das provas da vida corpórea”. E dizem, ainda, que somente depois da última encarnação o espírito se torna feliz e puro. Com essas afirmações, Kardec anulou a natureza do perdão de Cristo, além de desprezar a eficácia do seu sacrifício. Segundo esse raciocínio, o ladrão da cruz, perdoado por Jesus, teria ido para o paraíso levando impureza e infelicidade (Lc 23.43).


Incompatibilidade com o ensino sobre o juízo final

Jesus ensinou que irá retornar não mais para trazer boas-novas, mas para julgar. Como resultado desse julgamento, muitos irão para o “fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.31,32,41,46). Essas declarações atuam como um xeque-mate em algumas teses kardecistas. Jesus afirma que voltará. Mas, o que viria fazer aqui a “Segunda Revelação” já devidamente substituída pela “Terceira”? E mais! Jesus disse que virá para julgar, e que esse julgamento dar-se-á em determinado momento, esclarecendo que haverá um Juízo Final. Ora, tal ensino não faz parte da literatura kardecista, onde se lê que “todos os espíritos tendem à perfeição e Deus lhes fornece os meios pelas provas da vida corpórea, mas, na sua justiça, reserva-lhes, em novas existências, a tarefa de realizar aquilo que não puderam fazer ou acabar numa primeira prova”.

Se admitida a tese defendida pelos “espíritos”, o Senhor Jesus adiaria o Juízo para uma data indefinida, e ficaria aguardando o momento em que todos alcançassem a perfeição. Se fosse assim, não haveria necessidade do Juízo Final, porque, com Jesus ou sem Jesus, todos caminhariam para um mundo ditoso. Além disso, o Senhor Jesus também falou em “fogo eterno’, ou seja, em castigo eterno num lugar previamente preparado.

Ora, o kardecismo, como se sabe, não admite a existência de castigos eternos, pois a justiça da reencarnação estaria no fato de que todos terão oportunidades iguais para limpar suas imperfeições. Seguindo o raciocínio kardecista, quando o Senhor Jesus retornar para julgamento, muitos espíritos estarão no meio do caminho rumo à perfeição, fazendo parte da classe dos espíritos “levianos”, “perturbadores” e “impuros”. Como ficarão esses? Serão salvos assim mesmo? Não mais precisarão reencarnar para serem puros? Serão uma exceção à regra da reencarnação? Ou hão de admitir que o Senhor Jesus mentiu ao dizer que retornaria (Jo 14.3)? Pode mentir aquele que veio “ensinar aos homens uma elevada moral”, como afirmou Kardec?

Seriam esses os espíritos imperfeitos, impuros e levianos que ainda não se aperfeiçoaram, conforme declarou Kardec? O Senhor Jesus arremata: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18). Disse mais: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23.33). Como se vê, a Palavra fala em condenação, sinônimo de castigo eterno, inferno e Juízo Final, mas os “espíritos” de Kardec não querem nem ouvir falar nisso. Será porque “em casa de enforcado ninguém fala em corda?” Vejam o que dizem: “Os espíritos não ficam perpetuamente nas camadas inferiores; todos eles tornar-se-ão perfeitos. Mudam de classe, embora devagar”. Pelo visto, o Senhor Jesus, quando vier, vai ter de ficar esperando muito tempo. Quem está mentindo: Jesus, um espírito puro, segundo o kardecismo, ou os “desencarnados”?


A Bíblia e o perdão de pecados


O Senhor Jesus declarou que tem poder sobre o pecado. “Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados. E pensaram os escribas: Quem pode perdoar pecados, senão Deus? Então disse Jesus: Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados [disse ao paralítico]: A ti te digo, levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa” (Mc 2.5-12). Por esse relato, fica claro que o Senhor Jesus pode perdoar pecados. Então, diante disso, perguntamos: em que etapa da tese reencarnacionista entraria a necessidade de perdão? Para que serviria o perdão se a perfeição será alcançada, de qualquer modo, via novas encarnações, mediante as provas de novas vidas aqui na terra? Com seus pecados perdoados ou não aquele paralítico não iria ser aperfeiçoado? A expressão “espiritismo cristão” não estaria, portanto, mal colocada?


A Bíblia e o sofrimento de Jesus


Outra dificuldade de conciliar cristianismo e espiritismo diz respeito ao sofrimento de Jesus. Como vimos, a “natureza excepcional do seu espírito” e a sua divina missão de ensinar uma elevada moral à humanidade, como definiu Kardec, iriam lhe garantir, pelo menos, uma vida terrena livre de qualquer sofrimento. Não foi o que aconteceu. Ainda criança, Herodes tentou matá-lo (Mt 2.13); viveu uma vida sem descanso e sem bens materiais (Mt 8.20); seus irmãos não criam nele (Jo 7.5); foi duramente criticado e perseguido pelos fariseus, que desejavam tirar sua vida (Jo 11.53); foi traído por um de seus apóstolos (Mt 26.16); angustiou-se no Getsêmani “e o seu suor tornou-se grandes gotas de sangue que corriam até o chão” (Lc 22.44); sem justa causa, foi preso e condenado à morte (Lc 22.54; 23.25); não recebeu o apoio de seus discípulos quando foi preso (Mt 26.56,70, 72,74); foi escarnecido, humilhado, açoitado, cuspido e recebeu na cabeça uma coroa de espinhos (Mt 27.26-30); finalmente, foi crucificado. Seu sofrimento na cruz é indescritível (Mt 27.32-56).

Ora, levando em conta a crença espírita, Jesus teria passado por todos os estágios da escala espiritual até chegar à plena perfeição. Inicialmente “alma simples e sem ciência”, Jesus teria experimentado muitas lutas e vicissitudes em muitas vidas corpóreas, havendo subido de degrau em degrau na hierarquia espiritual. Já no topo da escada, recebe não mais uma prova, mas uma missão. Tal dissertação da vida espiritual de Jesus está acorde com a afirmação de um espírita cristão. Quando lhe perguntamos se, no entender do kardecismo, Jesus teria sido um homem como outro qualquer, que mediante muitas vidas corpóreas atingiu o mais alto grau de perfeição, ele nos respondeu afirmativamente.

Os “espíritos” disseram a Kardec que “para chegar a essa perfeição devem eles passar por todas as vicissitudes da existência corpórea”; que “todos são criados simples e ignorantes”; que “os sofrimentos da vida são, por vezes, conseqüência da imperfeição do espírito, porque quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. (grifo do autor) Disseram também que os espíritos puros, da primeira classe, já “percorreram todos os degraus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Tendo atingido a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, não têm mais que passar por provas ou expiações”.

Se correta essa tese, Jesus não mais precisaria passar por provas. Aliás, certo “espírito”, a quem Jesus chamou de Satanás, tentou interromper seus sofrimentos e até ofereceu-lhe riquezas (Mt 4.8-11). Nesse contexto, algumas indagações são necessárias:

(a) Se o carma de Jesus não estivesse completamente limpo, o que exigiria mais sofrimento? Tal hipótese não se harmoniza com a “natureza excepcional de seu espírito”, nem com a missão divina a ele confiada.

(b) Se Jesus era realmente um espírito puro, por que aceitou e buscou o sofrimento para purificar-se mais ainda? Tal hipótese colide com a declaração kardecista de que os puros estão no último degrau da escala e não mais necessitam de provas.


A verdade bíblica sobre o sofrimento de Jesus


A verdade é que Jesus não sofreu e não morreu crucificado para “expungir” suas próprias imperfeições. Perfeito como era, não precisou de sacrifícios para limpar seu carma ou para elevar-se na escala espiritual. “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; contudo, nós o consideramos como aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades” (Is 53.4,5). Jesus veio para “salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1.21). Jesus é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Jesus “morreu por nossos pecados”. Não morreu na cruz para sua própria evolução espiritual (1Co 15.3). Jesus “se deu a si mesmo por nossos pecados” (Gl 1.4). “Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós [...] o qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano [...] levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” (1Pe 2.21-24).

A encarnação do Verbo, seu sofrimento e morte fizeram parte do plano divino para a salvação dos homens. Esse plano começou a ser revelado a partir da queda de Adão, conforme predito em Gênesis 3.15, em que a “semente da mulher” ferirá a cabeça da serpente. Na revelação progressiva, o Messias se apresenta como homem de dores, servo sofredor, traspassado por nossas transgressões, até chegar à pessoa de Jesus, o Filho, que se entregou à morte expiatória da cruz. Jesus não precisava, e muito menos precisa, de infindas reencarnações para atingir plena perfeição, visto que, “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus, e se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1.1,14).

E, quanto à glorificação de Cristo, escreveu o apóstolo Paulo, em sua carta aos filipenses: “Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que Deus também o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (2.6-11).


Notas de referência:

1 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo: Federação Espírita Brasileira, questões 132 e 133,

2 Ibidem, questão 113.

3 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Fundação Espírita André Luiz, cap. I-4,6.

4 Ibidem, cap. I-9.

5 Ibidem, cap I-4.

6 Ibidem, cap I-9.

7 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Fundação Espírita André Luiz, cap. I-6.

8 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. São Paulo: Federação Espírita Brasileira, questão 116.

9 Ibidem, questão 166.

10 Ibidem, questão 168.

11 Ibidem, questão 170.

12 Ibidem, questão 171.

13 Ibidem, questões 102, 106.

14 Ibidem, questão, 116.

15 Ibidem, questões 132, 133.

16 Ibidem, questão 113.

17 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Fundação Espírita André Luiz, cap. I-4, 1996.

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