Defesa da Fé


A lição da mulher que virou estátua de sal


Por J. C. Ryle

Existem poucas advertências nas Escrituras mais solenes do que esta que aparece no início deste artigo. O Senhor Jesus Cristo nos diz: “Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lc 17.32). A mulher de Ló professava ter uma religião. Seu marido era um “homem justo” (Gn 19.15). E, juntamente com ele, ela deixou Sodoma no dia em que a cidade foi destruída. Mas, ao sair de lá, olhou para trás, contrariando, dessa forma, o mandamento expresso de Deus. Assim, a mulher de Ló morreu no mesmo instante e foi transformada em uma estátua de sal. E o Senhor Jesus Cristo a destaca como um sinal de alerta para a Igreja, dizendo: “Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lc 17.32).

Devemos examinar as lições que a mulher de Ló pretende nos ensinar. Tenho certeza que sua história está cheia de instruções úteis para a Igreja. Os últimos dias foram colocados diante de nós. A segunda vinda de Jesus se aproxima. O perigo do mundanismo está crescendo a cada ano na Igreja. Que estejamos munidos de defesas e antídotos contra a doença que está ao nosso redor e, de algum modo, fiquemos familiarizados com a história da mulher de Ló.

Comparada às milhares de pessoas semelhantes a ela em sua época, a esposa de Ló era uma mulher favorecida. Tinha um marido piedoso. Por meio do seu casamento com Ló, Abraão, o pai da fé, passou a ser seu tio. A fé, o conhecimento e as orações desses dois homens justos não eram segredos para a mulher de Ló. É impossível que ela tenha habitado em tendas com eles por um longo período, sem saber quem eles eram e a quem serviam.

A religião não era apenas uma ocupação formal para eles. A fé era o princípio que regia a vida deles e a motivação principal de todas as suas ações. A mulher de Ló deve ter visto e conhecido tudo isso. Este não era um privilégio insignificante.

Quando Abraão recebeu as promessas pela primeira vez, a mulher de Ló, provavelmente, estava lá. Quando ele edificou um altar próximo à sua tenda, entre Betel e Ai, é provável que ela estivesse lá. Quando o seu marido foi levado cativo por Quedorlaomer e libertado pela intervenção de Deus, ela estava lá. Quando Melquisedeque, rei de Salém, veio ao encontro de Abraão, trazendo-lhe pão e vinho, ela estava lá. Quando os anjos chegaram a Sodoma e advertiram seu marido a fugir, ela os viu. Quando os anjos os tomaram pela mão e os guiaram para fora da cidade, ela estava entre os que os anjos ajudaram a escapar.

Digo, uma vez mais, esses privilégios não foram insignificantes. Ainda assim, que efeito produziram no coração da esposa de Ló? Praticamente, nenhum! A despeito de todas as suas oportunidades e recursos da graça, a despeito de todas as advertências especiais e mensagens recebidas do céu, ela viveu e morreu ímpia, impenitente, incrédula e sem a graça. Os olhos de seu entendimento nunca foram abertos. Sua consciência nunca foi despertada e vivificada. Sua vontade nunca foi trazida a um estado de obediência a Deus. Suas afeições nunca foram de fato colocadas nas coisas que são do alto.

Antes, ela mantinha aquela aparência de religião por causa do costume e não por causa do que sentia. Isso era um disfarce desgastado para agradar as pessoas com quem convivia, mas não provinha de nenhuma noção do seu real valor. Fazia o que os outros, ao seu redor, faziam na casa de Ló. Ela se amoldou aos costumes de seu marido. Ela não fez nenhuma oposição à religião dele. Ela se entregou passivamente para seguir os passos dele. Mas, em todo esse tempo, aos olhos de Deus, o seu coração estava em pecado. O mundo estava em seu coração e o seu coração estava no mundo. Foi justamente nessa condição que ela viveu e, também, morreu.

Em tudo isso, há muito a ser aprendido. Vejo uma lição nesse texto, que é da maior importância nos dias de hoje. Você vive em um tempo em que existem muitas pessoas semelhantes à mulher de Ló. Venha e ouça a lição que o seu caso quer nos ensinar.

Aprenda, então, que possuir privilégios religiosos não salva a alma de uma pessoa. Você pode ter vantagens espirituais de todos os tipos. Você pode viver em pleno fulgor das riquezas de oportunidades e dos recursos da graça. Você pode desfrutar do que há de melhor em termos de pregações e ensinamentos. Você pode habitar em meio à luz, ao conhecimento, à santidade e às boas companhias. Você pode conviver com tudo isso e permanecer sem conversão, mas, no final, estar perdido para sempre.

Será que estamos escondidos atrás dos privilégios religiosos de alguém ao nosso redor?

Será que a nossa religião é simplesmente uma prática de aparência?

Uma “fé” vivida assim jamais poderá ser defendida.

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