Defesa da Fé


Serpentário


O signo deserdado pelos astrólogos


Por Paulo Araújo Duarte

Professor de astronomia do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina


Nos últimos tempos, temos visto alguma polêmica e alguns mal-entendidos sobre os signos do zodíaco e suas constelações. Na verdade, não devemos fazer confusão entre signo e constelação zodiacal. Os signos, em número de doze, correspondem, cada um deles, à divisão de 30 graus do círculo zodiacal (360/12 = 30), os quais recebem o nome da constelação mais significativa daquela região do céu, conforme os povos antigos, pois foram eles que criaram tal concepção de organização estelar, o qual a astrologia adotou e ajudou a popularizar.

As constelações sempre tiveram, desde a época das civilizações mais antigas, a importante função de dar uma organização ao céu, facilitando sua leitura e ajudando na identificação dos astros. Sempre representaram uma verdadeira cartografia do céu. Contudo, até o início deste século, a delimitação das constelações não respeitava um critério padrão, existindo cartas celestes com limites irregulares, arbitrários e com algumas linhas curvas. Além disso, havia mapas e globos celestes com configurações artisticamente elaboradas, sem a precisão do rigor científico, e constelações identificadas por linhas arbitrárias que interligavam suas estrelas.

A partir de 1922, quando foi criada a União Astronômica Internacional (UAI), o conceito de constelação começou a mudar e surgiu Ofiúco (Ophiucus) como a 13ª constelação zodiacal. Durante a assembléia geral da UAI, em 1925, em Cambridge, foi criado um grupo de trabalho para estudar a questão das delimitações das constelações, surgindo daí a proposta de criação de regiões na esfera celeste, tal como um país dividido em estados. Assim, a esfera celeste foi separada em 88 regiões, também chamadas constelações, com tamanhos variados e delimitações bem definidas e retilíneas. Cada região recebeu o nome da principal constelação nela predominante e todas aquelas cortadas pela linha da eclíptica (linha que no céu, vista da terra, representa o caminho percorrido pelo sol durante o ano) passaram a ser consideradas zodiacais.

Convém explicar que o zodíaco é um círculo ou faixa de 17 graus no céu, que abrange toda a esfera celeste e tem no centro a linha da eclíptica. Foi dessa forma, então, que o zodíaco acabou por ser “premiado” com treze regiões ou constelações, que são: Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Ofiúco, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes.

É importante salientar que, para ser considerada zodiacal, a constelação deve ser atravessada pela linha da eclíptica, ou seja, o sol deve cruzá-la ao longo do ano. Ocorre que, depois de passar por Libra e Escorpião, o sol cruza Ofiúco de 30 de novembro a 17 de dezembro, antes de entrar em Sagitário. Mas essa passagem do sol por Ofiúco não é considerada pela astrologia.

Do modo como foi organizado o céu pela UAI, todas as treze constelações ocupam espaços diferentes ao longo da linha da eclíptica, o que significa dizer que a divisão do zodíaco em doze signos de trinta graus cada um é puramente arbitrária e segue apenas a tradição dos povos antigos. Ofiúco é uma constelação um tanto extensa, sendo conhecida também por “Serpentário”.

Na mitologia grega, esse agrupamento de estrelas estava associado a Esculápio, deus da medicina. Segundo a lenda, Esculápio passou a dedicar-se à arte da cura após ver uma serpente ressuscitar outra com algumas ervas que trazia em sua boca. Esta é, inclusive, a origem do símbolo das ciências médicas: duas serpentes enroladas num bastão. Ainda sobre essa constelação, diz-nos o saudoso professor Amaro Seixas Netto: “Em realidade, o zodíaco atual tem treze constelações. Desde 1952, temos adotado essa constelação zodiacal em nossos estudos, criando, assim, o zodíaco perfeito e exato sobre a eclíptica. Essa descoberta decorreu de uma análise profunda do curso do sol zodiacal e, desse modo, propusemos a sua notação na faixa zodiacal, bem como criamos o seu signo, publicado na imprensa para registro. Pode se observar que o sol, no zodíaco, percorre pequena parte do Escorpião e logo entra no Ofiúco, para depois ingressar em Sagitário”.

Para alguns astrólogos, a polêmica a respeito da existência de um 13° signo não faz sentido, haja vista que não são as constelações lá no céu que influenciam os seres aqui na terra, mas, sim, energias cósmicas que tomam como referência os signos tradicionais. Há, também, opiniões que procuram justificar que tanto a cobra (Ofiúco) como o escorpião são animais que trocam de pele, indicando uma personalidade sujeita a grandes flutuações e, neste caso, Ofiúco possui o mesmo significado astrológico de Escorpião. Portanto, apesar de existirem treze constelações zodiacais (com a inclusão de Ofiúco), a divisão do zodíaco em doze signos, para efeito da astrologia, segue a antiga tradição e não precisa levar em consideração as mudanças estabelecidas pela UAI, o que muitos astrônomos consideram uma imperfeição.

Como a divisão do zodíaco em signos não apresenta nenhum interesse prático maior para a astronomia, o surgimento de Ofiúco como região zodiacal, infelizmente, em nada deverá abalar as crenças e os estudos astrológicos, pois os astrólogos sabem que suas concepções não partem das constelações, mas dos signos, que são meras convenções.


Para refletir


Se o horóscopo sempre esteve errado, se sempre faltou o signo de Serpentário e, conseqüentemente, todas as descrições sobre as personalidades atribuídas a cada signo sempre estiveram “fora de ordem” (uma pessoa de Touro virou Áries, por exemplo), por que muitas pessoas ainda pensam que o horóscopo funciona e que muito revela sobre o seu dia-a-dia e sua personalidade? A Bíblia é clara ao censurar a astrologia. Assim diz o Senhor: “Que não levantes os teus olhos aos céus e vejas o sol, e a lua, e as estrelas, todo o exército dos céus; e sejas impelido a que te inclines perante eles, e sirvas àqueles que o Senhor teu Deus repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus”.


1 SEIXAS NETTO, A. O zodíaco. São Paulo. Editora do Escritor, p. 60.

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