Defesa da Fé


As mulheres no islamismo e no cristianismo


Por Salim Almahdy

Pesquisador especialidade em islamismo e autor da série “Uma olhada por trás do véu”


O papel da mulher no cristianismo é um dos assuntos mais críticos que os muçulmanos tentam esconder dos ocidentais, pois as pessoas de matriz cultural judaico-cristã têm dificuldades em entender que possa existir uma religião que confesse ter um tratamento tão rígido para com as mulheres. Neste artigo, em lembrança à celebração do dia nacional da mulher em nosso país, mencionaremos o que o Alcorão e o Hadith (ensinos, palavras e atos de Maomé) dizem sobre as mulheres no islamismo, assim como a opinião de Maomé e dos Califas.


A mulher no islamismo


No islamismo, a mulher é considerada muito inferior ao homem, em todas as esferas imagináveis. Tanto é assim que nas traduções das obras árabes em língua portuguesa (assim como no próprio árabe) não é raro constatarmos o emprego do pronome “que” em vez de “quem”, num expresso rebaixamento da mulher à condição de objeto.

Abu Bakr Ahmed Ibn Abd Allah, um dos sábios muçulmanos, em seu livro, intitulado Al-Musanaf, escreveu: “Umar (o Justo Califa) estava, certa vez, falando e foi interrompido por sua mulher, ao que ele lhe disse: ‘Você é um brinquedo, se precisar de você, eu a chamo.’” Na obra Kans-el-Ummal, Amru Bin Al Aas, também um califa, afirmou: “Mulheres são brinquedos; escolha uma”.

A Sura 4.34, do Alcorão, declara: “Os homens têm autoridade sobre as mulheres porque Alá fez eles superiores a elas”. No livro A mulher e o islamismo, Ahmed Zaki Tuffaha, renomado muçulmano, declarou: “Deus estabeleceu a superioridade do homem sobre a mulher pelo verso acima (Sura 4.34), o que não permite a igualdade entre o homem e a mulher. Porque aqui o homem está sobre a mulher devido à sua superioridade intelectual...”.

A religião islâmica apregoa a inferioridade da mulher em todos os aspectos e aponta muitas deficiências no sexo feminino para justificar essa posição. No Sahih Al Bukhari, uma das seis coleções canônicas dos ensinamentos muçulmanos (Hadith), considerada por muitos muçulmanos como o livro mais autêntico depois do Alcorão, lemos: “Certa vez, o apóstolo de Alá disse a um grupo de mulheres: ‘Não conheço ninguém mais deficiente em inteligência e religião do que vocês. Um homem prudente, sensível, pode ser desencaminhado por qualquer uma de vocês’. As mulheres perguntaram: ‘Ó apóstolo de Alá, qual a deficiência da nossa inteligência e da nossa religião?’. Ele disse: ‘Não é a evidência de duas mulheres igual ao testemunho de um homem?’. Elas responderam que sim. Ele disse: ‘Essa é a deficiência da sua inteligência...’. ‘Não é verdade que as mulheres não podem orar nem jejuar durante a menstruação?’. As mulheres responderam que sim. Ele disse: ‘Essa é a deficiência da sua religião’”.

Esse Hadith é inteiramente aceito, o que lhe dá um alto grau de autenticidade no islamismo. Por isso, é ensinado por eminentes estudiosos islâmicos, como, por exemplo, Ghazali, Ibn Al Arabi e Razi, entre muitos outros. A mesma obra ainda prossegue: “A mulher é como uma costela, se você tentar endireitá-la, ela se quebra. Portanto, se você quer tirar proveito dela, faça-o mesmo sendo ela defeituosa”.


O contrato de casamento


Além disso, a mulher sofre uma série de enfrentamentos com o ato matrimonial. Em seu livro, As mulheres no islamismo, Rafiqul Haqq resumiu a importância do contrato de casamento de acordo por meio de três diferentes escolas islâmicas. Citando o livro Al-Fiqh ala al-Mazahib al-Arba’a, de Abd Ar Rahman Al Gaziri, ele diz: “O entendimento aceito nas diferentes escolas de jurisprudência islâmica é que aquilo que foi contratado no casamento é para o benefício que o homem possa ter da mulher e não o contrário”. A mesma obra mostra que os seguidores de Imã Malik, autoridade religiosa islâmica, declararam que o contrato de casamento é um contrato de propriedade do benefício do órgão sexual da mulher e do resto do seu corpo. O mesmo livro ainda declara que os seguidores de outro Imã, Shaffi, disseram: “A visão mais aceita é que o que foi contratado é a mulher, isto é, o benefício derivado do seu órgão sexual”. Outros afirmam: “O que foi contratado é tanto o homem quanto a mulher”.

Segundo a primeira opinião, a esposa não pode exigir sexo de seu marido, porque o direito é dele, não dela. Segundo a última opinião, ela pode exigir ter sexo com ele.

Os seguidores do Imã Abu Hanifa entendem dessa maneira: “O direito ao prazer sexual pertence ao homem, não à mulher; isto quer dizer que o homem tem o direito de forçar a mulher a gratificá-lo sexualmente. Ela, por sua vez, não tem o direito de forçá-lo a fazer sexo com ela, a não ser uma vez (na vida). Mas, ele precisa, do ponto de vista da religião, fazer sexo com ela para protegê-la de ser moralmente corrompida”.


O número de esposas


O homem pode se casar com até quatro mulheres livres ao mesmo tempo, e pode divorciar-se de uma delas e casar-se com uma quinta, desde que não mantenha mais do que quatro esposas ao mesmo tempo. Ele pode ter sexo com um número ilimitado de moças escravas e concubinas. A Sura 4.3 diz: “Se você tem medo de não poder tratar com justiça os órfãos, case-se com as mulheres que você escolher, duas ou três ou quatro, mas se você tem medo de não poder agir com justiça (com elas), então somente uma, ou aquela que a sua mão direita possui que seja mais apropriada, para evitar que você cometa injustiça”.

Em seu livro, Al-Fiqh ala al-Mazahib al-Arba’a, Abd Ar Rahman Al Gaziri escreveu: “Pois se um homem comprar uma moça escrava, o contrato de compra inclui o seu direito de ter sexo com ela”. Este contrato visa, em primeiro lugar, a posse dela e, em segundo, desfrutar dela sexualmente.

Na obra Ihy’a ‘Uloum ed-Din, de Ghazali, um sábio muito famoso entre os muçulmanos, há citação de uma das justificativas para um homem se casar com mais de uma mulher: “Alguns homens têm um desejo sexual compulsivo tão grande que uma mulher não é suficiente para protegê-los (do adultério). Tais homens, portanto, devem se casar com mais de uma mulher e podem ter até quatro esposas”. Ghazali deu um exemplo para esse desejo sexual excessivo no mesmo livro, assim dizendo: “Ali [que os xiitas consideram o profeta de Alá], que foi o mais ascético de todos os companheiros, teve quatro esposas e dezessete escravas como concubinas”. No Sahih Bukhari, Hadith nº142, parte 7, lemos: “O Profeta costumava passar (ter relações sexuais com) todas as esposas numa só noite e, naquele tempo, ele tinha nove esposas [...] Certa vez, ele falou, acerca de si mesmo, que tinha recebido a potência sexual de quarenta homens”, conforme escrito no Al Tabakat Al Kobra, de Mohammed Ibn Saad, outra autoridade religiosa islâmica.


A mulher no cristianismo


Apresentamos este tópico por meio da excelente pesquisa do reverendo presbiteriano André Álvares, pela sua lucidez e abrangência. Segundo ele, “o único líder da antiguidade que concedeu dignidade e voz às mulheres foi, sem dúvida alguma, Jesus Cristo. A situação da mulher no contexto cultural palestino era de completa submissão ao homem. No ambiente urbano, a mulher, de forma alguma, estabelecia contato direto com os homens. Em Jesus Cristo, notamos uma completa subversão desse quadro. Cristo falava publicamente com mulheres, possuindo inúmeras discípulas. Nutria uma relação de verdadeira amizade com as irmãs Marta e Maria, como fica claro no texto de Lucas 10.38-42. Sua elevada consideração para com as mulheres foi motivo de escândalo entre os discípulos homens.

“No evangelho de João, encontramos os seguintes dizeres: ‘Naquele instante, chegaram seus discípulos e admiravam-se de que falasse com uma mulher; nenhum deles, porém, lhe perguntou: Que procuras? Que falas com ela?’ (Jo 4.27). Sua mensagem de salvação, seus ensinamentos e seus milagres eram direcionados a todos, homens e mulheres. Não é de se estranhar que justamente o sexo feminino, tão desprezado e oprimido pelo homem, tenha sido escolhido por Deus para testemunhar o maior evento da história da salvação da humanidade: a ressurreição de Cristo!”.


A mulher nos textos paulinos


No entanto, certa interpretação literalista de determinados textos paulinos, principalmente em ambientes reacionários e fundamentalistas, tem passado a falsa impressão de que a mulher não possuía uma participação ativa na jovem comunidade cristã.

Essa idéia é completamente errônea. No Novo Testamento, encontramos as quatro filhas de Felipe que “profetizavam”, isto é, falavam em público. Em Romanos 16.7, encontramos, entre os apóstolos, uma pessoa com o nome Júnia, com certeza uma mulher. No mesmo texto, temos o exemplo de Febe, diaconisa da igreja de Cencréia. Convém lembrar que o termo “diaconisa”, empregado no texto citado, vem do grego diakonos, que denota o título de ministra e não de uma mera auxiliadora assistencial. A mesma palavra, porém, não aparece em Atos 6, onde o serviço diaconal, como conhecemos nos dias atuais, era predominantemente assistencialista. O título diakonos era exatamente o mesmo concedido a Paulo, a Apolo e a tantos outros homens.


A mulher segundo os pais da Igreja primitiva


Não bastassem as fortes evidências bíblicas que nos mostram a autoridade concedida à mulher na Igreja primitiva, temos o testemunho de muitos pais da Igreja. Irineu de Lião, Orígenes e João Crisóstomo testemunharam sobre a efetiva participação feminina na vida eclesial. Confirmando essa posição de destaque, a teóloga metodista mexicana Elsa Tamez transmite as seguintes informações: “No século 3o d.C., o bispo de Cesaréia, Firmiliano, menciona uma mulher da Capadócia que celebrara a Ceia do Senhor. Eram tempos de perseguição, e ela, corajosamente, reuniu os cristãos e incluiu a Eucaristia ou Ceia do Senhor na celebração. O bispo, assombrado, disse que ela o fez excelentemente”.

Fontes pagãs também atestam a importância feminina nos primórdios do cristianismo. Plínio, o Jovem, governador da província romana da Bitínia, informa ao imperador Trajano que duas ministras da Igreja Cristã foram torturadas.

Infelizmente, após a oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano, a estrutura patriarcal e machista desse governo foi incorporada na Igreja. Desse período em diante, o papel da mulher na Igreja foi-se restringindo à vida monástica. Mesmo assim, encontramos mulheres de grande influência e labor teológico, como Macrina, responsável direta pela formação espiritual de seus dois irmãos, Basílio, o Grande, bispo de Cesaréia, e Gregório de Nissa, conhecidos como “grandes capadócios”, verdadeiros gigantes da Igreja oriental de fala grega.


A mulher segundo os reformadores


Durante o período medieval, noviças de inúmeras ordens eclesiásticas desempenhavam um importante papel na Igreja, mas em situação de completa submissão ao clero masculino. Nesse mesmo período, um grupo dissidente, que, posteriormente, iria abraçar, de forma oficial, o protestantismo calvinista, concedia um elevado status às mulheres. Estamos falando dos valdenses, que possuíam inúmeras pregadoras no interior de seu movimento. Essas mulheres ministravam a Palavra com autoridade para ambos os sexos. Com o início do movimento protestante do século 16, essa situação, mesmo que timidamente, foi gradativamente alterada.

Em seu programa de Reforma, Martinho Lutero aconselhou que os príncipes alemães organizassem escolas públicas para meninos e meninas. Nunca a educação formal de jovens garotas foi alvo de um programa sugerido por um líder religioso. Martin Bucer, reformador da cidade-estado de Estrasburgo, elaborou um ousado plano eclesiástico em 1532, no qual estava prevista a ordenação de mulheres ao diaconato.

João Calvino trocou correspondência com várias mulheres e, entre vários assuntos de natureza pastoral, houve debates até mesmo sobre pontos teológicos. O mesmo Calvino escreveu, na edição francesa de sua obra magna, as “Institutas”, datada de 1541, livro IV, capítulo XV, o seguinte pensamento: “E, alguma vez, chegará a hora em que seria melhor que a mulher falasse do que se calasse”. Para o reformador de Genebra, a restrição paulina — encontrada em apenas um texto das Escrituras — para a ordenação de mulheres ao oficialato não deveria ser vista como um dogma de fé, mas, sim, como uma convenção cultural de determinada época.

Essa postura de Calvino acabou influenciando inúmeras mulheres a desempenharem uma função prática de pastoras, mesmo que não fossem ordenadas para tal. É bastante interessante o relato da historiadora estadunidense Natalle Daves a respeito da participação feminina: “Algumas mulheres prisioneiras nas cadeias da França pregavam para grande consolo de ambos os ouvintes, homens e mulheres. O nosso jurista, ex-calvinista, Florimond de Raemond, deu vários exemplos, tanto de conventículos protestantes quanto de serviços reformados regulares — até o fim de 1572 — de mulheres que, enquanto esperavam a chegada de um pregador, subiam ao púlpito e liam a Bíblia. Finalmente, em algumas igrejas reformadas no sudoeste de Paris, numa área em que tecelões e mulheres tinham sido convertidos anteriormente, irrompeu um movimento para que leigos pregassem. Isso permitiria que ambos, mulheres e homens sem instrução, se levantassem na igreja e falassem sobre as coisas santas”.


A mulher nos dias atuais


Com o passar do tempo, principalmente no cristianismo protestante, a mulher, mesmo sob uma cerrada cruzada fundamentalista, tem conquistado seu espaço. Em nosso país, denominações irmãs, como, por exemplo, Exército da Salvação, Igreja do Evangelho Quadrangular, Episcopal Anglicana, Metodista do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana, Presbiteriana Unida e uma infinidade de comunidades pentecostais livres, ordenaram mulheres aos diferentes níveis de oficialato.

Rogamos a Deus que a mulher não seja reconhecida apenas em uma data, mas que seu valor seja notado diariamente, assim como nos ensina o apóstolo Paulo: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).


Notas de referências:

1 Sucessores do profeta Maomé, na qualidade de guias ou líderes temporais e espirituais da comunidade islâmica.

2 ABD ALLAH, Abu Bakr Ahmed Ibn. Al-Musanaf. (Vol.1), p. 263.

3 AL AAS. Amru Bin. Kans-el-Ummal. Hadith nº 919.

4 TUFFAHA, Ahmed Zaki. A mulher e o islamismo, p. 36.

5 AL AAS. Amru Bin. Kans-el-Ummal. Hadith nº 113.

6 AL GAZIRI, Abd Ar Rahman. Al-Fiqh ala al-Mazahib al-Arba’a, vol. 4, p. 488.

7 Idem.

8 Idem.

9 Idem, p. 89.

10 AL-NIKAH, Kitab Adab. Ihy’a ‘Uloum ed-Din, de Ghazali, vol. 2, p. 34.

11 Idem, p. 27.

12 IBN SAAD, Mohammed. Al Tabakat Al Kobra, vol. 8, p. 139.

13 http://andrealvares.blogspot.com/2009/09/mulher-e-o-cristianismo-um-passeio-pela.html

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