Defesa da Fé


Como é possível professar, ao mesmo Tempo, uma fé católica e romana?


Por José Kennedy de Freitas Ph.D

Ministro Anglicano, reitor da Missão Anglicana de São Paulo, filósofo e doutor em Ciências da religião.


As Sagradas Escrituras nos ensinam que o Senhor Jesus Cristo fundou a sua Igreja. Estamos falando da Igreja cristã, que é o corpo de Cristo e sobre o qual ela repousa. E, além disso, Jesus é a cabeça desse corpo, ou seja, da sua própria Igreja. “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3. 11. V.tb. Ef 1.22,23; 2.20).

A Igreja de Jesus Cristo é composta por todos os verdadeiros cristãos — aqueles que “nasceram de novo” (Jo 3.1-3) — de todas as nações e denominações. “Igrejas de Cristo” (Rm 16.16) são congregações de cristãos que se reúnem para a adoração e atividades missionárias. E, embora sejam muitos, todos são membros de uma única Igreja de Cristo: “Porque, assim como num só corpo temos muitos membros [...], assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo” (Rm 12.4,5). Esta é a verdadeira Igreja do Senhor Jesus Cristo.

Uma definição realmente ampla e generosa de Igreja de Cristo é apresentada pelos irmãos presbiterianos em sua Confissão de Fé de Westminster, que declara: “A Igreja visível, que também é católica ou universal sob o evangelho (não reservada a uma só nação, como antes sob a lei), consiste de todos aqueles, em todo o mundo, que professam a verdadeira religião, junto com os seus filhos, e é o reino do Senhor Jesus Cristo, a casa e a família de Deus, fora da qual não há possibilidade normal de salvação”.

E o Catecismo Maior da Igreja Presbiteriana do Brasil, em resposta à pergunta “O que é a Igreja visível?” (Questão 62), diz: “A Igreja visível é uma sociedade formada por todos aqueles em todos os séculos e lugares do mundo que professam a verdadeira religião...”.


Os sinais da verdadeira Igreja Cristã


Os sinais da verdadeira Igreja Cristã são: verdadeira pregação da santa e gloriosa Palavra de Deus, verdadeira administração dos sacramentos (ordenanças) e exercício fiel da disciplina cristã. João Calvino insistia repetidamente no “ministério da Palavra e dos sacramentos” (ordenanças), como sinais que distinguiam uma verdadeira Igreja. A esse ministério, geralmente, acrescenta-se o exercício da devida disciplina, embora erros menores e irregulares de conduta em si mesmos não apresentem causa suficiente para negar o reconhecimento a uma verdadeira Igreja. Marcos Pereira de Mattos, sacerdote anglotradicional (RJ), declara, quanto ao exercício da fiel disciplina: “Isto é verdadeiramente essencial para a manutenção da pureza da doutrina e para o resguardo da santidade dos sacramentos (ordenanças). As igrejas que relaxam na disciplina acabam descobrindo, mais cedo ou mais tarde, dentro do seu círculo, um eclipse da luz da verdade e um abuso daquilo que é Santo”.

Ao estudarmos a Bíblia Sagrada, podemos observar que a palavra “igreja” jamais significou uma denominação. As Sagradas Escrituras nada têm a declarar sobre denominações religiosas. Se uma igreja particular prefere permanecer estritamente independente, ou entrar num acordo de cooperação com outras igrejas particulares, isso não se discute na Palavra de Deus, mas fica totalmente a critério da própria congregação. Geralmente, o termo “igreja”, conforme usado no Novo Testamento,significa uma congregação local de cristãos, como a “Igreja de Deus em Corinto”, “a Igreja em Jerusalém”, “as Igrejas da Galácia”, “a Igreja em tua casa”.

Em outras ocasiões, pode se referir à Igreja geral, como quando somos informados que “Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25). Ou, então, pode se referir a todo o corpo de Cristo Jesus em todos os séculos, como lemos nas expressões: “a universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus” (Hb 12.23).

Quando o Senhor Jesus Cristo orou a Deus pedindo unidade, “a fim de que todos fossem um” (Jo 17.21, com alteração no tempo verbal), foi principalmente uma unidade espiritual, uma unidade de coração e fé, de amor e obediência, de verdadeiros cristãos, da mesma maneira que Ele ilustrou essa unidade com o relacionamento que existe entre Ele e o Pai: “Como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti”. Apenas secundariamente poderíamos vislumbrar, nesse texto, uma unidade de organização eclesiástica.

A unidade na fé deve vir antes da unidade da organização religiosa. O ideal, naturalmente, seria que a Igreja fosse uma na fé e na organização, mas está claro que ela ainda não está preparada para isso. A unidade de doutrina sempre deve permanecer em primeiro lugar, pois se relaciona com o propósito exato para o qual a Igreja foi organizada. A alegada tragédia da desunidade da organização é mais do que anulada pela verdadeira tragédia da desunidade de doutrina, que resulta quando igrejas conservadoras e modernistas se combinam numa organização.

É exatamente nesse ponto que o catolicismo romano, que reivindica ser a única Igreja verdadeira, erra tentando trazer todas as igrejas cristãs para si, até mesmo forçando-as a adotar uma organização mecânica e invisível. Pode haver (e há realmente) verdadeira unidade espiritual entre os cristãos fora de qualquer unidade organizacional. A Igreja não é um mecanismo, mas um organismo vivo, cuja cabeça é o Senhor Jesus Cristo, e qualquer unidade mecânica, regrada por protocolos humanos, está sujeita a atrapalhar a própria coisa que pretende promover.

Quando ouvimos o papa e, ocasionalmente, outros líderes de igrejas falando sobre a união de todas as igrejas em uma superorganização, as palavras que empregam e o seu método de acesso tornam claro que o que eles têm em mente não é a unidade espiritual dos cristãos, mas uma unidade eclesiástica e mecânica dos cristãos e incrédulos, idealizada principalmente para o que eles acham que será de grande eficiência operacional. E, afinal, a diversidade das denominações cristãs, com um sadio espírito de rivalidade dentro dos devidos limites, talvez seja um dos modos de Deus evitar que a luz do cristianismo fique estacionária.

A história claramente demonstra que onde houve uniformidade forçada, a Igreja estacionou, fosse na Itália, na Inglaterra, na França, na Espanha ou na América Latina. O confinamento da vida religiosa a um nível morto de uniformidade não resolve os nossos problemas.


A placa católica


Precisamos entender o significado da palavra “católico”, do qual a Igreja Católica Apostólica Romana tenta se apropriar com exclusividade. Novamente, citando o reverendo Marcos Pereira de Mattos, professor de história do cristianismo, elucida: “A Igreja Católica: Universal Igreja de Deus, como entidade distinta de um ramo particular, congregação ou denominação dessa Igreja [...] A Igreja de Roma se apropriou erroneamente do termo ‘católica’, pois é contraditório chamar um corpo de ‘romano’ (que é particular) e, ao mesmo tempo, de ‘católico’ (que significa universal)”. Em geral, os dicionários católicos fornecem a seguinte definição: “Católico: a palavra vem do grego e significa simplesmente universal”.

Dom Lucas Macieira da Silva, bispo anglocatólico em Belo-Horizonte, MG, declarou o seguinte: “Rigorosamente falando, a expressão ‘católica romana’ é uma contradição de termos. Católico significa universal; romano significa particular. Somos nós anglicanos e protestantes e não romanistas, que crêem em uma una, santa, Igreja Católica. Nós, anglicanos, e nossos irmãos protestantes, acreditamos que a Igreja é universal, ou seja, católica. Roma não consegue encontrá-la além de sua própria comunhão. Nossa fórmula é: Ubi Spiritus ibi ecclesia, que quer dizer: ‘onde está o Espírito está a Igreja’. O lema da Igreja Católica Apostólica Romana é: Ubi ecclesia ibi Spiritus, que quer dizer: ‘onde está a Igreja (romana) está o Espírito’. É por causa do devido uso histórico da palavra ‘católica’ que nós, anglicanos, e os demais irmãos protestantes, não hesitamos em recitar o Credo dos Apóstolos. Apegamo-nos à palavra porque nós amamos o conceito. A Igreja Romana não tem o monopólio da palavra “católica”; na verdade, como já dissemos, é uma questão de direito”.

Todos aqueles que crêem no Senhor Jesus Cristo como único e suficiente Salvador, não obstante a denominação à qual pertença, são de fato membros de uma Igreja Católica Cristã. Nós, anglicanos e protestantes, somos os mais verdadeiros católicos, pois baseamos nossa fé no Novo Testamento, como os cristãos primitivos. A Igreja Romana acrescentou muitas “doutrinas” e “dogmas” que não se encontram no Novo Testamento, e qualquer pessoa que os aceite torna-se, por causa disso, um “católico romano”, e também deixa de ser um cristão católico. Uma vez que a palavra “católico” significa “universal”, a verdadeira Igreja Católica Cristã deve incluir todos os verdadeiros cristãos, todos os que pertencem ao corpo místico ou espiritual de Cristo (Ef 1.22,23).

Sempre houve e haverá milhares de cristãos que jamais tiveram alguma ligação com Roma. A Igreja Romana é, afinal, uma Igreja particular, com o seu quartel-general na cidade de Roma, Itália, e limita-se àqueles que reconhecem a autoridade papal. Mesmo em suas reivindicações mais extravagantes, a Igreja Romana é acolhida apenas por cerca de 1/8 da população mundial e ela se exclui do mundo cristão professo, e deixa de ter comunhão com mais da metade do cristianismo, de modo que há mais cristãos professos que rejeitam sua autoridade do que aqueles que a reconhecem. Além disso, geograficamente, ela fracassa totalmente em provar sua reivindicação de universalidade. Mesmo nos países católicos romanos nominais, como a própria Itália, a França, a Espanha e toda a América Latina, Roma provavelmente não tem hoje qualquer controle efetivo sobre mais de 15% da população.

Resumindo, em circunstância nenhuma a Igreja Romana é universal, pois não passa de uma entre numerosas outras e é sobrepujada em número pelos membros praticantes de várias igrejas, sejam anglicanas ou protestantes.

Paulo de Aragão Lins, ministro protestante e uma das maiores autoridades bíblicas do Brasil, declarou com prioridade: “Há muitas ‘igrejas’, mas o Novo Testamento reconhece apenas uma única verdadeira Igreja. Essa verdadeira Igreja é composta de todos os crentes no Senhor Jesus Cristo. É composta dos eleitos de Deus, de todos os homens e mulheres convertidos, nascidos de novo, de todos os verdadeiros cristãos. É uma Igreja na qual todos os membros nasceram da água e do Espírito. Todos eles possuem arrependimento para com Deus, fé para com nosso Senhor Jesus Cristo, santidade de vida e postura diante dos homens. Todos eles extraem sua religião de um único livro: a Bíblia Sagrada. É a Igreja cuja existência não depende de formas, templos, catedrais, vestes, órgãos, tradição ou qualquer ato de favor que seja proveniente da mão do ser humano. Geralmente, Ela vive e prossegue quando todas estas coisas lhe são tiradas. Está é a Igreja Universal (Católica) do Credo dos Apóstolos e do Credo Niceano. Esta é a única do mundo em que o santo evangelho é recebido, lido e crido. Ela é católica porque foi idealizada para todas as nações. A Igreja permaneceu pura e fiel ao santo evangelho por cerca de 300 anos a.D., período considerado a idade de ouro dos mártires e santos perseguidos pela Roma pagã. Depois da suposta “conversão do imperador Constantino” (310 a.D.), o cristianismo foi declarado religião do Estado e, por conta disso, multidões pagãs passaram a fazer parte da Igreja apenas pelo batismo, sem conversão. Então, com eles, trouxeram seus rituais pagãos, suas cerimônias e suas práticas que, gradualmente, foram sendo introduzidos na Igreja com nomes cristãos. Assim, corromperam a fé primitiva e a Igreja se tornou romanizada e paganizada.

“O que torna uma Igreja verdadeiramente católica é a sua aceitação do santo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo e do Credo dos Apóstolos. A Igreja Romana acrescentou o ‘papado’ e tantas outras ‘doutrinas’ e práticas pagãs que muitas pessoas, atualmente, não a consideram mais cristã ou católica. A Reforma Protestante do século 16 foi um protesto contra aquelas doutrinas pagãs, um completo afastamento da Igreja oficial e um retorno ao cristianismo católico primitivo do Novo Testamento. A Igreja Romana de hoje pode se tornar novamente uma verdadeira Igreja Católica se realmente renunciar ao ‘papado’ e a todos os dogmas e práticas completamente contrários à santa e gloriosa Palavra de Deus, apegando-se aos seus fundamentos primitivos, base em que se pode realizar a reunião de todas as igrejas cristãs.

“O nome ‘católico’, quando aplicado à Igreja de Roma exclusivamente, é um grande e fatal erro, pois se aplica melhor àquelas igrejas que literalmente se dedicam à Bíblia Sagrada e ao Credo dos Apóstolos, sem quaisquer adições ou subtrações. Diz a Palavra de Deus: ‘Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e se alguém tirar qualquer cousa das palavras e das cousas que se acham escritas neste livro’ (Ap 22.18,19).

“A verdadeira Igreja de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é invisível, formada de pessoas verdadeiramente convertidas, que se encontram em todas as igrejas visíveis e cujos nomes estão escritos no livro da vida, e as igrejas visíveis existem para treinar santos para o reino de nosso Senhor Jesus Cristo”.


i Todas as citações de autoridades eclesiásticas referidas neste artigo são provenientes de anotações homiléticas.

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