Defesa da Fé

Edição 90

Fé e ciência: uma dicotomia enganadora


“Onde estavas tu quando eu criei a terra? Diz-me, se tens entendimento!” (Jó 38.4)


Por Jonatas E. M. Machado

Pesquisador da Revista do Centro Acadêmico de Democracia Cristã, da Universidade de Coimbra, Portugal.


O pensamento moderno sublinha a dicotomia epistemológica entre a Bíblia (do domínio da subjetividade, da fé e da moralidade) e a ciência (com autoridade no plano da realidade objetiva). Para este entendimento, a ciência se preocupa, acima de tudo, com os fatos, ao passo que a fé permanece no domínio simbólico da interpretação subjetiva desses fatos. Em outras palavras, a ciência seria o domínio por excelência das afirmações de fato, ao passo que a fé seria um campo reservado à interpretação e à formulação de juízos de valor. Repare que esta divisão de tarefas é manifestamente assimétrica, na medida em que remete à ciência a definição do que seja o conhecimento daquilo que objetivamente existe, deixando para a religião uma função meramente especulativa e interpretativa, subjetiva, em torno do significado das coisas.

A ciência tem, assim, uma preponderância natural sobre a religião. Aquela é objetiva e sólida, ao passo que esta é subjetiva e precária. A primeira se preocupa com a realidade e a segunda, com sentimentos e crenças. No mundo real, elas nunca se encontram, porque estão em esferas diferentes. De acordo com este entendimento, todos teriam racionalmente que aceitar os dados objetivos da ciência, ficando a religião reservada às mentes mais débeis e carentes ou voltadas às emoções subjetivas. Assim, todos teriam de acreditar na evolução (fato científico objetivo obrigatório), mas os crentes sempre poderiam dizer, à margem de qualquer evidência empírica, que Deus conduziu o processo de evolução, ou até que Deus é a evolução (crença religiosa subjetiva facultativa).

O criacionismo bíblico rejeita liminarmente esta divisão epistêmica de tarefas entre a ciência e a fé por ser manifestamente improcedente e falaciosa, particularmente no que diz respeito à questão das origens. Ela dá como demonstrado o que ainda é preciso demonstrar. Com efeito, longe de se esgotar na produção de afirmações de fato, a ciência se assenta largamente na interpretação e na especulação (tudo começou com um big-bang; a vida surgiu por acaso de uma sopa pré-biótica; as aves evoluíram de dinossauros ou de pequenos répteis, etc.). Por sua vez, a religião também pretende fazer afirmações de fato (Deus é o autor da vida; Deus criou as plantas, os animais e o ser humano, praticamente ao mesmo tempo e segundo a sua espécie, etc.). Vejamos mais de perto esta questão, pensando especificamente no cristianismo e no darwinismo.

Quanto ao primeiro, a Bíblia, desde Gênesis até o Apocalipse, afirma que é a Palavra de Deus verbalmente inspirada, tendo sido sempre considerada como tal pelos judeus (quanto ao Antigo Testamento) e pelos cristãos. Jesus afirmou que as suas palavras são mais sólidas e duradouras do que os próprios céus e a terra. A palavra do criador é digna de toda confiança. Porque assim é, a Bíblia nunca se coloca no domínio da pura interpretação subjetiva de fatos. Bem pelo contrário, a validade das mais importantes doutrinas bíblicas se apóia em fatos objetivos (criação; queda; dilúvio global; dispersão; aliança; êxodo; nascimento, morte e ressurreição de Jesus), cujas explicações só podem ser encontradas, não na regularidade das leis naturais, mas na ação extraordinária de Deus, o qual também criou essas leis. Na Bíblia, os fatos são importantes porque mostram a ação providencial de Deus na história humana e as doutrinas são dignas de crédito precisamente porque se apóiam em fatos objetivos e não em mitos ou “fábulas engenhosas”: “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” (2Pe 1.16).

Na Bíblia, é claro que os milagres de Jesus são autênticos e testemunham a sua qualidade de criador. A ressurreição física de Cristo é igualmente um fato histórico concreto, sem o qual a fé não tem sentido. Tentar desmitificar ou encontrar explicações científicas para esses e outros milagres que a Bíblia relata é passar totalmente ao lado da verdade fundamental que a Bíblia visa transmitir: o Universo foi criado por um Deus pessoal que intervém ativamente na história do homem — criado à sua imagem e semelhança — que, por causa do pecado da humanidade, encarnou na pessoa de Jesus Cristo para redimir o mundo mediante sua morte e ressurreição! (Jo 3.16). Se os fatos mencionados pelo relato bíblico não são verdadeiros, a história da salvação deixa de ter sentido. E foi isso que o apóstolo Paulo sustentou, quando disse: “Se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Co 15.14).

Por sua vez, o darwinismo, longe de se apoiar numa análise neutra e objetiva dos fatos, é fundamentalmente interpretação. Os registros históricos mais antigos que se conhecem têm quatro mil e quinhentos anos, aproximadamente. São dessa era as civilizações mais antigas. Para além desse limite, a reconstituição historiográfica dos acontecimentos é feita com base em extrapolações, alicerçadas em pressupostos e modelos teóricos preconcebidos, hoje predominantemente de matriz evolucionista. Sucede que nunca ninguém viu a sopa pré-biótica, tampouco um dinossauro a se transformar em ave há cerca de 100 milhões de anos. Do mesmo modo, nem os fósseis nem as rochas sedimentares trazem inscrita a sua idade, sendo datados com base nas premissas (evolucionistas) adotadas desde o início. Ora, não existe uma máquina que nos permita viajar no tempo e assim confirmar, de forma absolutamente correta, as conclusões que aqui, e agora, tiramos acerca do passado distante. Mesmo as tentativas de observar o passado a partir das investigações astronômicas supõem a aceitação de premissas sobre a velocidade da luz.

Do mesmo modo, as “provas” da evolução, deduzidas pela Teoria da Evolução da homologia genética ou estrutural e funcional que se observa entre as diferentes espécies de animais, não passam de uma interpretação, sendo certo que o criacionismo bíblico utiliza os mesmos fatos para corroborar a sua crença num Criador comum. Muitos dos “fatos” a que o darwinismo faz referência não passam de construções intelectuais feitas a partir de modelos, ou resultantes da assunção de premissas, preconcebidos. Uma coisa é certa: os fatos com que os evolucionistas e os criacionistas se defrontam são exatamente os mesmos. A interpretação desses fatos é que difere, em função das premissas e dos modelos explicativos e preditivos de que ambos partem.

Assim, a idéia de que a religião e a ciência constituem dois “magistérios não-sobreponíveis” (Stephen Jay Gold) , na sua aparente plausibilidade, peca, numa avaliação condescendente, por ser demasiado ingênua e simplista. Em rigor, a mesma está longe de ser inocente. Acresce que a referida oposição epistêmica entre fé e ciência, além de ser má para a religião, tem efeitos nefastos para a própria ciência.

Ao remeter para a religião o domínio exclusivo da reflexão em torno da origem sobrenatural do Universo, essa “delimitação de tarefas” vincula a ciência, de forma inexorável, a premissas teóricas e metodológicas de base estritamente naturalista e materialista, as quais se revelam insuficientes para explicar o mundo tal como existe. Se o Universo tiver sido o resultado de um design inteligente, hipótese que a ciência não pode descartar, a priori, então uma metodologia estritamente naturalista, no pior sentido da palavra, estará impedida de explicar todas as suas características.

A ciência das origens não pretende responder apenas à questão de saber “como é que o Universo surgiu por acaso?”, mas, sim, “como é que o Universo surgiu?”. Diante dessa questão, o acaso é apenas uma das respostas teoréticas e cientificamente possíveis. A necessidade e o design inteligente são outras. Não há qualquer razão para excluir, a priori, qualquer dessas respostas. Se isso acontecer, a evolução aleatória será estabelecida como verdade estipulativa, por definição, tornando-se imune a qualquer crítica.

A teoria da evolução e o criacionismo bíblico pretendem responder à mesma questão a partir da análise dos mesmos fatos, mas com base em postulados diferentes. O que está em causa, em última análise, não é um conflito entre ciência e fé, como muitos defendem (até mesmo nas igrejas), mas, sim, entre duas visões de mundo substancialmente diferentes: a visão naturalista e a visão bíblica. Esta última fornece um quadro explicativo e preditivo muito mais consistente com os dados empíricos observáveis.


Referências:

1 JOHNSON, Philip. Objections Sustained, Subversive Essays on Evolution, Law and Culture. Interevarsity Press, 1998, 67ss.

2 SARFATI. Jonathan. Refuting Evolution. Master Books, 2003, 15ss.

3 MORRIS, Henry. The Genesis. Baker Book House, Grand Rapids, Michigan, 1976, 22ss.

4 RYRIE, Charles C. A Survey of Bible Doctrine. Chicago, Moody, 1972, 38; MORRIS, Henry. Biblical Creationism: What Each Book of the Bible Teaches About Creation and the Flood. Master Books, 2000, 3ss.

5 SARFATI. Jonathan. Refuting Evolution. Master Books, 2003, 35ss.

6 GISH, Duane T. Evolution: The Fossils Still Say No!, ICR, 1995, 1ss.

7 SARFATI. Jonathan. Refuting Evolution. Master Books, 2003, 65ss.

8 GOULD, Stephen Jay. Rocks of Ages: Science and Religion in the Fullness of Life. Ballantine, 1999, 49ss.

Promoção Curso
Contato
Siga

© 2017 - 2019 ICP - Instituto Cristão de Pesquisas. Todos os direitos reservados