Defesa da Fé


A apologética na Reforma Protestante e a ascensão do ceticismo


Por Kean Boa e Robert Bowman

Tradução de Elvis Brassaroto Aleixo


A preocupação primária dos reformadores do século 16 foi pela soteriologia (doutrina da salvação). Na visão deles, o aristotelismo escolástico (teologia medieval na qual estava baseado o sistema romano católico do século 16) tinha conduzido os cristãos a uma confusão e perversão do evangelho da salvação por meio da fé em Jesus Cristo. Além disso, o Renascimento (período cultural) foi marcado por uma absorção muito forte do neoplatonismo e o resultado disso foi a corrupção da mensagem cristã, que acabou redundando no humanismo. Originalmente, o humanismo foi, em sua essência, uma abordagem intelectual que enfatizava, entre outras coisas, o estudo das obras literárias clássicas (e da Bíblia) diretamente, em vez de fazer isso por meio de comentários medievais. Entretanto, em meados do século 16, o humanismo católico (representado, por exemplo, por Erasmo) foi caracterizado pelo antropocentrismo filosófico (o homem no centro), enfatizando a dignidade humana e a liberdade, sem considerar os ensinamentos bíblicos sobre o pecado e a graça.

A doutrina da justificação pela fé somente por Jesus Cristo foi a principal pregação do ministério de Martinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano responsável pelo estopim da Reforma Protestante, com suas novas teses (95, ao todo), cujo conteúdo censurava os abusos legalistas da Igreja Católica Romana, a qual ele próprio pertencia.

Segundo Lutero, o emprego da teologia medieval havia obscurecido o evangelho da justificação. Lutero sublinhou as limitações da razão humana e rejeitou o tradicional projeto teológico que empregava a lógica e a filosofia para explicar e defender a fé cristã. Lutero admitiu que os não-cristãos poderiam até ganhar alguma coisa com o conhecimento acerca de Deus pela razão, concluindo que existe um Deus, bondoso e poderoso. Contudo, a razão seria incapaz de ajudar os homens a conhecer o verdadeiro Deus ou levá-los ao caminho da justificação planejado por esse Deus. Tal conhecimento específico estaria disponível apenas nos evangelhos e somente poderia ser apropriado por meio da fé. Assim, além de a razão ser ineficaz e limitada ao conhecimento de Deus, segundo Lutero, ela poderia se tornar uma inimiga da fé.

Se Lutero foi o pai e o grande líder da Reforma Protestante, João Calvino (1509-1564) foi considerado o líder teológico do movimento. Suas Institutas da religião cristã (principal obra de Calvino) e seus vários comentários bíblicos exegéticos ainda continuam sendo lidos e discutidos atualmente, até mesmo por não-teólogos.

Assim como Lutero, o principal trabalho apologético de Calvino foi dirigido contra a oposição católica romana ao evangelho reformado. Diferentemente de Lutero, Calvino defendia que a fé é sempre razoável e racional. Contudo, Calvino também insistiu que a fé freqüentemente parece irracional para nós, devido ao fato de a nossa razão estar cega pelo pecado e pela nossa queda espiritual. Tal cegueira era evidente nas filosofias pagãs que, naqueles tempos, aproximou-se do reconhecimento da verdade, mas, no final, acabou substituindo a verdade da revelação de Deus em si mesma pela revelação da natureza.

Para corrigir a nossa cegueira espiritual, Deus nos deu sua Palavra escrita, que é incomparavelmente mais clara e objetiva em sua revelação, e, mediante o trabalho redentor de Jesus Cristo, Deus também nos enviou seu Espírito Santo, que nos capacita a entender sua Palavra. Porque a Bíblia é originada do próprio Deus, a autoridade absoluta de toda revelação, essa Palavra não pode se sujeitar aos nossos raciocínios. A fé não precisa da justificação racional e é mais segura do que a racionalidade justificada pelo conhecimento, porque se baseia na mais pura revelação de Deus — as Sagradas Escrituras.


O embate entre a apologética cristã e o ceticismo


No período imediatamente posterior à Reforma Protestante, a maioria dos europeus subestimava o cristianismo e grande parte dos debates religiosos era primordialmente disputas entre os próprios cristãos sobre o significado das doutrinas fundamentais da fé. Mas, o século 17 assistiu à ascensão do ceticismo religioso que desafiou a verdade da fé cristã. Esse ceticismo conduziu os cristãos a novos olhares na área apologética. Alguns apologistas responderam às críticas racionalistas à doutrina cristã expressando o ceticismo deles próprios — resgatando a confiança na razão humana — e propondo uma abordagem à religião que enfatizasse a fé como uma resposta do coração. Outros apologistas aceitaram os desafios racionalistas de um modo diferente e buscaram respondê-los provando que o cristianismo era tão racional quanto as conclusões da ciência moderna daquela época.

Ambas as abordagens foram tipificadas em Blaise Pascal, no século 17, e em Joseph Butler, no século 18. Em seu clássico trabalho, Pensamentos, o católico francês, matemático e apologista, Blaise Pascal (1623-1662), rejeitou os tradicionais argumentos racionais sobre a existência de Deus e enfatizou aspectos relacionados à descrença dos homens em Jesus Cristo. Pascal declarava que alguns elementos muito claros para um grupo de pessoas poderiam ser motivos de dúvidas para outro grupo. Pascal foi um dos primeiros apologistas a defender que a apologética deveria levar em consideração as diferenças entre as pessoas. Os cristãos defensores da fé precisavam mostrar que não eram irracionais e que o evangelho poderia ser provado como verdadeiro.

Pascal buscou equilibrar seus posicionamentos entre dois extremos. Não queria abandonar a razão completamente, mas, também, não queria valorizar demais a razão no processo de conhecimento de Cristo. Entendia que Deus disponibilizou as evidências da verdade do cristianismo para aqueles que querem conhecer a verdade, mas Deus não se revelaria a si mesmo de uma maneira que pudesse constranger à fé aqueles que não se importassem ou não quisessem acreditar. Pascal sempre esteve especialmente preocupado com aqueles que não consideravam seriamente as questões espirituais. Para Pascal, era urgente fazer que tais pessoas reconhecessem quão sério era o desdém à verdade pregada pelo cristianismo.

A despeito de toda eloqüência e profundidade dos Pensamentos de Pascal, sua abordagem sobre defesa da fé foi apenas um aspecto em toda a sua produção intelectual. A ciência natural, por meio de nomes proeminentes, como Galileu e Newton, deu conta de assumir o centro das atenções durante o século 17 e revolucionou a nossa visão de mundo. Após as descobertas científicas desse tempo, a maioria dos apologistas, dos próximos três séculos, passou a conceber a apologética como uma ferramenta para mostrar a credibilidade científica da fé cristã. A apologética ficou restrita a proporcionar evidências empíricas, fossem científicas ou históricas, para fundamentar o cristianismo. Um dos principais responsáveis por esse tipo de abordagem foi John Locke (1632-1704), filósofo britânico que desenvolveu umas das primeiras formulações acadêmicas sobre o empirismo.

O trabalho apologético mais clássico baseado nos pressupostos empíricos foi o livro de Joseph Butler, publicado em 1736, The analogy of religion, natural and revealed, to the constitution and course of nature [A analogia da religião, natural e revelada, com a constituição e o curso da natureza]. Butler foi um arcebispo anglicano dedicado a desfazer as objeções apresentadas pelos deístas contra a fé dos cristãos ortodoxos. Esses deístas pregavam uma religião puramente natural, acessível a todas as pessoas de todos os tempos e lugares e que poderia ser provada pela razão. Segundo esse ponto de vista, a noção de uma religião revelada, que não poderia ser provada e conhecida apenas por aqueles que acreditavam em suas revelações, deveria ser rejeitada.

Butler compreendia que os desafios intelectuais, enfrentados pelos deístas, para tentar crer na revelação cristã, guardavam analogias com o nosso conhecimento do mundo natural. Butler partia do princípio da existência de Deus, desde que os deístas concordavam, pelo menos, com essa assertiva. Contudo, seu uso de analogias não foi tomado para provar a existência de Deus e muito menos para provar a verdade do cristianismo, antes, serviu meramente para mostrar que não era irracional acreditar na revelação cristã. Esse foi o propósito de praticamente toda a sua obra. Apenas no último capítulo de seu livro, Butler explora as evidências positivas em favor do cristianismo.

Ao longo de toda a sua obra, a abordagem de Butler é empírica, enfocando os fatos e as evidências, e as conclusões são expressas em termos de probabilidade. Com essa estratégia, Bulter buscou confrontar os deístas com seus próprios pressupostos teóricos apenas para demovê-los de seus posicionamentos, mas, ao mesmo tempo, Butler negava que a fé cristã precisasse estar amparada pelos argumentos probabilísticos que ele próprio estava apresentando.


Vocabulário:

Aristotelismo. Escola filosófica adepta das doutrinas de Aristóteles (384-322 a.C.) e de seus seguidores. São temas centrais do aristotelismo a teoria da abstração e do silogismo, os conceitos de ato e potência, forma e matéria e substância e acidente. São, todas elas, doutrinas que serviram à criação da lógica formal e da ética, que exerceram, e ainda exercem, enorme influência sobre o pensamento ocidental.


Ceticismo. Doutrina que afirma que não se pode obter qualquer certeza a respeito da verdade, o que implica em uma condição intelectual de questionamento permanente e em inadmissão da existência de fenômenos metafísicos, religiosos e dogmas.


Deísmo. Postura filosófica que admite a existência de um Deus criador, mas questiona a idéia de revelação divina. Considera a razão como uma via capaz de nos assegurar a existência de Deus, desconsiderando, para tal fim, a prática de alguma religião denominacional.


Empirismo. Movimento que acredita nas experiências como únicas (ou principais) formadoras das idéias, discordando, portanto, da noção de idéias inatas.


Neoplatonismo. Corrente de pensamento iniciada no século 3o que se baseava nos ensinamentos de Platão e dos platônicos, mas interpretando-os de formas bastante diversificadas. O neoplatonismo era muito diferente da doutrina platônica. O prefixo neo, inclusive, só foi adicionado pelos estudiosos modernos para distinguir entre os dois, mas, na época, eles se autodenominavam platônicos.


Renascimento. Período assim chamado em virtude da redescoberta e revalorização das referências culturais da antiguidade clássica, que nortearam as mudanças dessa época em direção a um ideal humanista e naturalista. Assinalou o final da Idade Média e o início da Idade Moderna.

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