Defesa da Fé


A mitologia como aspecto da religiosidade


A antropologia na pregação do evangelho


Por Ronaldo Lidório

Missionário, pastor, teólogo e escritor, atuou quase dez anos na África em implantação de igrejas e tradução da Bíblia para a língua Limonkpeln, de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia


Um aspecto muito valorizado na fenomenologia é o mito. Numa breve conceituação, devemos dizer que o mesmo se distingue da história não por critérios de veracidade, mas, sim, pela forma. Não se refere, portanto, a uma história contada, mas a uma história vivida. Nas palavras de Malinowski, “o mito é uma realidade viva, que se crê ter acontecido em tempos recuados e que continua influenciando o mundo e o destino humano”. Vemos, portanto, que o mito é, de fato, uma força cultural de implicações sociais. Mas, não é um elemento estático em sua cultura. Malinowski, mais uma vez, pontua que “o mito [...] é constantemente recriado; cada mudança histórica gera a sua mitologia que, no entanto, apenas se relaciona indiretamente com o fato histórico. O mito é um constante derivado da fé viva, que carece de milagres; de estudo sociológico, que exige antecedentes; de norma moral, que requer sanção”.

Malinowski, assim, nos apresenta uma tese provável. Observo que a religiosidade de um povo, especialmente animista, é dinâmica e baseada, sobretudo, em sua mitologia. Mas, perguntamo-nos, algumas vezes, se os mitos fundamentam a religiosidade ou se a religiosidade gerou os mitos. De certa forma, mito e magia compartilham o mesmo valor utilitário. Enquanto a magia se propõe a ser uma prática de manipulação da vida, o mito fundamenta as idéias, conceitos e crenças, para que a vida faça sentido, sobretudo, a religiosidade. As explicações da vida, da existência, dos poderes que regem o mundo, das enfermidades, certezas e incertezas, a dubialidade do Universo, seus valores, tudo pode ser encontrado na mitologia de um grupo quando a mesma é preservada e transmitida.


Um exemplo em Gana


Nossa observação, sobretudo dos konkombas de Gana, leva-nos a pensar que há uma modulação entre o perfil étnico e a mitologia presente. Ou seja, a forma tradicional ou progressista, ética ou aética, mágica ou espiritualista, teófana ou naturalista, de um grupo coincide com os elementos em sua mitologia, que fundamentam não apenas suas crenças, mas, também, seu perfil etno-social, desde o agrupamento até a solução para os conflitos da vida.

Sendo a mitologia dinâmica, possivelmente os representantes de um grupo, com clara fundamentação em sua mitologia, não apenas se utilizaram dos mitos existentes, como, também, criaram e recriaram esses e novos mitos, a fim de que se encaixassem no perfil do povo e suprissem sua expectativa.

Dessa forma, a mitologia não é apenas fundante, mas, também, manipulada. Não ocorre de forma intencional, coletiva, mas fragmentada e individualizada. Logo, os mitos não guardam apenas as explicações da vida. Ou seja, em alguns casos, os mitos são um resultado fabricado da própria vida.

Entre os Konkombas de Gana, a mitologia que contorna o personagem Uwumbor é enigmática ao falar de um ser que criou e se distanciou, que observou o pecado do ukpakpalja (homem ganancioso) e se revoltou, levando consigo o paacham (paraíso). Mas, essa mitologia também afirma que Uwumbor, desde os tempos remotos, desceu à terra mais duas vezes para punir o povo, por causa do crescimento do seu mal.

Essa crença mitológica coincide, porém, com uma epidemia que teria devastado boa parte da etnia konkomba-bimonkpeln, em 1870, e com a guerra contra os senhores da terra (gonjas e dagombas), em 1942, que se repetiu em 1993 e 1997.

Naquele ano, mais precisamente em 1942, muitos konkombas foram mortos, especialmente os representantes dos principais clãs. Se por um lado percebemos que a mitologia de Uwumbor e ukpakpalja, que remonta a um tempo antigo, a um passado recuado, patrocinou crenças e convicções por meio de um deus distante e espíritos presentes, levando-os a toda sorte de atos de invocação, adoração e temor, por outro, percebemos que o elemento utilitário (produzido de forma intencional) do retorno de Uwumbor serve para explicar os fatos da vida, no caso: a epidemia e a guerra perdida. Assim, os mitos funcionam como interlocutores entre os grupos com enraizada tradição oral e interagem com a vida, explicando-a e sendo moldados, a fim de explicá-la.


A categorização dos mitos


Mitos, então, são narrativas de idéias mais antigas. Se os novos mitos podem ser criados, os mais antigos influenciam mais a comunidade.

A seguir, algumas categorias de mito. Vejamos:


Mitos de cosmogonias

Relatam sistemas e momentos de origem do Universo e do homem pelo deus, deuses ou força geradora de vida. Esses mitos nos ajudam na teologia da criação. Os mitos de cosmogonias são presentes, sobretudo, em culturas tradicionais, históricas, teófanas e espiritualistas, apesar de também serem encontrados em agrupamentos mágicos. Normalmente, agrupamentos totêmicos possuem vasta preservação dos mitos de cosmogonias, visto que, ali, estão enraizadas parte da lógica totêmica que compõe um grupo ou clã.


Mitos de antropogonias

Relatam a criação do ambiente de vida do homem, como, por exemplo, animais, plantas e ar. Também nos ajudariam nas teologias da criação.


Mitos antigos

Relatam períodos marcantes após a criação. Entre os aborígines da Austrália, é chamado de “tempo dos sonhos”. Entre os bassaris do Togo, são “as árvores que contam a história”. Trata-se, aqui, de mitos e lendas que falam do tempo em que deus e homem conversavam, os primeiros traidores, os primeiros heróis, o crime mais hediondo, os famosos ancestrais, o início dos clãs e grupos, a divisão de línguas, a dispersão social e outros aspectos que nos ajudam na teologia da queda.


Mitos de metamorfose

Relatam eventos marcantes, responsáveis pelas mudanças da forma “antiga” do mundo que o tornaram como é hoje. Devemos lembrar que, entre os konkombas, há aquele mito que relatei sobre o “homem ganancioso”, primeiro criado por Uwumbor, que subia na copa da árvore a cada fim de dia para cortar um bom pedaço de carne do céu azul, que é cheio de carne e era baixo o suficiente. Sua ordem era retirar apenas o necessário para o dia. Entretanto, desconfiando de Uwumbor, certo dia, o ukpakpalja (“homem ganancioso”) cortou carne para muitos e muitos dias e a escondeu. No dia seguinte, a carne colhida apodreceu, causando grande desilusão a Uwumbor, que se distanciou e levou consigo o céu, pacham, para bem longe, para o alto, tornando-o inatingível. Esse tipo de mito nos ajuda na teologia da união com Deus e na expectativa da proximidade com Deus, como temos na teologia da reconciliação.


Mitos de seres espirituais

Relatam os personagens invisíveis, seus nomes, feitos, origem e história. Ajudam-nos a definir o mundo do além e o mundo do aquém.


Mitos naturais

Relatam e explicam, muitas vezes, fatos naturais, como, por exemplo, a chuva, os raios, os trovões, o curso dos rios e os sistemas afins. Podem nos ajudar, a partir do extrato de suas explicações, a explicar o evangelho.


Mitos messiânicos

Relatam personagens ou forças que trazem salvação ao povo. Antropólogos tendem a crer que são raros, porém, tais mitos ocorrem, não objetivamente, em diversas culturas. Para os tarianas, por exemplo, o mito de Keeteh pode representar o messianismo quando relata a luz que, ao fim, brilhará e jogará longe a tristeza do povo Tária.

Para os konkombas de Gana, o mantotiib (“pacto de amizade entre famílias outrora inimigas”) poderia ser empregado para apontar um que faria o mantotiib (“pacto”) entre Deus e os homens.

Para os chakalis, quebrar uma cabaça significa perdão. Cantigas louvam “aquele” que quebrará a grande cabeça, onde se encontram todas as maldades dos chakalis. São mitos messiânicos e ajudam na teologia da redenção.

Independentemente das divergências antropológicas, se os mitos geram idéias ou se as idéias geram os mitos, são as idéias que nos interessam, não importa tanto a sua gênese.

A história é uma narrativa verídica comprovada e o mito necessita de fé, pois é uma narrativa experimentada.


Referências:

1 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. Lisboa: Edições 70, 1988.

2 Idem.

3 Crença em que todas as formas identificáveis da natureza possuem uma alma e agem intencionalmente.

4 Conjunto de idéias e práticas baseado na crença num parentesco místico entre os homens e os animais, as plantas, os objetos e/ou os fenômenos naturais, que constituem o totem. Este, por sua vez, poderia ser um animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social (clã, tribo) e é considerado seu ancestral ou divindade protetora.

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