Defesa da Fé


As gêneses do primeiro livro da Bíblia


Por Antonio Lazarini Neto,

Bacharel em teologia e mestre em Ciências da Religião. E, também, coordenador da Faculdade Teológica Batista de Campinas, SP


Gênesis, palavra grega que significa “origem”, é o nome dado pelos tradutores da Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento, conhecida como LXX) ao primeiro livro da Bíblia. Na Bíblia hebraica, o texto de Gênesis recebe como título a primeira palavra do livro: “No princípio” (heb. bereshith). Nele, temos o relato da origem do Universo e do ser humano, da obra criativa de Deus, da drástica queda do homem, contendo biografias que tecem a origem do povo de Deus.

Gênesis possui uma extensão histórica que começa com a criação do Universo e do homem e termina com a morte de José, filho de Jacó. Geograficamente, o livro abrange desde o vale da Mesopotâmia, o “berço” da raça humana, até o vale do Nilo, no Egito, o “berço” da raça hebraica. Essa área, com uma configuração crescente, é conhecida e chamada de “Crescente fértil”.


A estrutura de Gênesis


O material literário de Gênesis está acomodado em dez partes ou seções, introduzidas pela palavra hebraica tôledôt, traduzida para “história das origens” ou “descendentes” ou “gênese” ou “genealogia”, etc. Com exceção do primeiro relato, que é o das “origens do céu e da terra”, os outros nove levam o nome das pessoas, contando suas histórias subseqüentes, mas sem se preocupar necessariamente com a origem das mesmas. Derek Kidner diz que essa expressão em Gênesis sempre visa o futuro, introduzindo um novo estágio do livro. Contudo, P. J. Wiseman argumenta que é sempre uma conclusão. Não se deve ser tão rígido nesta questão, pois tôledôt pode ser aplicável, em Gênesis, tanto ao passado (parece ser o caso de 2.4) quanto ao futuro (parece provocar menos anomalia nos outros nove casos).

Trata-se de pequenas histórias que, às vezes, se estendem por conta dos detalhes, como no caso da história de Jacó, expressa em José, que ocupa desde o capítulo 37 até o capítulo 50. Essas histórias são de pessoas que fazem parte de famílias que, em dado momento histórico, obtiveram a atenção do relato, revestindo-se de importância no meio em que estão vivendo por estarem, também, inseridas no programa histórico da aliança divina. No entanto, essa diversidade de relatos não deve ofuscar a nossa visão sobre a unidade do livro. Observar essa estrutura com base no tôledôt é útil para a correta interpretação de Gênesis, pois revela o “desenho do texto”, mas não se deve desprezar o todo composto por essas partes. Portanto, vamos a elas:


1. A gênese dos céus e da terra

A expressão aparece na referência 2.4, sendo que o relato vai até o capítulo 4.26. Se partirmos do pressuposto de que o termo tôledôt pode ser flexível, tanto na introdução como na conclusão, essa parte começa no capítulo 1.1. Essa porção narrativa descreve a criação do Universo em seis dias, a formação do homem e, posteriormente, da mulher. O capítulo 3 revela como o mal, na figura da serpente sagaz, entrou na criação de Deus e tentou o homem a se rebelar contra a vontade do Criador. O capítulo 4 demonstra como a maldade se espalhou rapidamente, a ponto de Caim e Abel, os dois irmãos, filhos de Adão e Eva, travarem um conflito que culminou com o assassinato de Abel. Não se deve deixar de notar que essa parte termina informando que “nessa época começou-se a invocar o nome do Senhor” (4.26 – conforme tradução da NVI).


2. A gênese de Adão

O relato sobre essa parte da criação de Adão vai desde o capítulo 5.1 (introduzido com a expressão tôledôt) até o capítulo 6.8, traçando as gerações desde Adão até Noé. Um tema notável desse relato é a “morte”, pois todos os homens aqui nomeados morreram, com exceção de um que “andou com Deus”. Estamos nos referindo a Enoque (5.22-24). O desfecho do relato traz a corrupção na qual os descendentes de Sete, gradativamente, se envolveram. É a maldade inicial que continua a se expandir. O mal incipiente foi encontrando recipiente favorável para se proliferar. Todavia, na referência 6.8, Noé é apontado como um que achou graça diante de Deus.


3. A gênese de Noé

Começando no capítulo 6.9 (tôledôt) indo até a referência 9.29, esse relato nos dá uma dupla e surpreendente mensagem sobre a justiça e a graça de Deus. Fora da Arca, o dilúvio destruía toda vida. Mas, dentro da Arca, uma família era preservada, porque “Noé andava com Deus” (6.9). O mesmo dilúvio, que trouxe o juízo divino sobre o pecado e a dura incredulidade, revelou também a graça de Deus ao salvar da morte e da destruição a Arca com sua carga preciosa: um homem, acompanhado de sua família, que alcançou graça diante de Deus.


4. A gênese dos filhos de Noé

Com início no capítulo 10.1 (tôledôt) e se estendendo até o capítulo11.19, descreve a distribuição dos três filhos de Noé entre várias nações e idiomas. Esse quadro examina o mundo das nações conhecidas do antigo Israel. Aquelas nações, com as quais o povo escolhido de Deus teve maior contato, são descritas em detalhes. Concluindo esse relato, surge a dispersão em Babel, demonstrando que aqueles que buscaram sua própria glória em lugar de glorificar o nome de Iahweh (Javé) caíram outra vez no juízo de Deus.


5. A gênese de Sem

Esse curto relato, que vai do capítulo 11.10 (tôledôt) até o versículo 26, traz a genealogia de Sem a Terá, pai de Abrão. Sua importância é externa, não está relacionada ao próprio Abrão, além de apontar para a origem do pai de Abrão e fazer a ligação do próprio Abrão com Sem e, conseqüentemente, com Noé e sua ascendência. Abrão será uma figura importante no relato seguinte de Gênesis e colocá-lo em “cena” sem revelar seu “berço” seria a criação de um hiato na história dos patriarcas.


6. A gênese de Terá

Constitui um dos maiores relatos, ocupando espaço entre o capítulo 11.27 (tôledôt) e o capítulo 25.11, cobrindo quase um quarto do livro de Gênesis. Registra a história da escolha de Abrão e da promessa que lhe foi feita, de que seria uma grande nação. Abrão é desafiado a confiar completamente na promessa de Deus, mas concorda com Sara, sua esposa, e tem um filho com Hagar — a quem chama de Ismael — por causa da aparente demora de Deus em cumprir sua promessa. Dentro desse relato, há a descrição do nascimento de Isaque e da prova divina a que Abraão foi submetido, quando Deus pediu a Abrão que lhe oferecesse seu filho em sacrifício (Cap. 22). O relato se encerra com a morte do agora chamado “Abraão”, demonstrando que, após sua morte, a promessa da bênção seria passada ao seu filho Isaque (25.11).


7. A gênese de Ismael

Um curto relato do capítulo 25.12 (tôledôt) ao capítulo 25.18. Em verdade, é o mais curto dos dez relatos. O verso 12 deixa claro que esse filho de Abraão seria com Hagar, a serva egípcia de Sara. Trata-se de uma linha secundária na história da graça salvadora de Iahweh. Esses sete versículos documentam como Deus cumpriu a sua promessa de que multiplicaria a descendência de Ismael (cf. 16.10).


8. A gênese de Isaque

Razoavelmente extenso, esse relato, que se inicia no capítulo 25.19 (tôledôt) e se estende até o capítulo 35.19, apresenta as gerações que se seguiram após Abraão, por meio da família de Isaque. Diferente de seu ilustre pai, Isaque foi de uma natureza tranqüila e introvertida, e sua esposa, Rebeca, ainda que estéril, fora agraciada com filhos gêmeos: Esaú e Jacó. Desde antes do nascimento, o relato aponta para um conflito existente entre eles. No desenrolar da história (de uma forma intrigante e atraente), Jacó — que seria o mais novo, pois nascera minutos após Esaú — obtém o direito de primogenitura e a bênção de Isaque, tendo seu nome trocado para Israel.


9. A gênese de Esaú

Esse relato, que começa no capítulo 36.1 (tôledôt) e se encerra no capítulo 37.1, concentra sua atenção nos descendentes de Esaú e, aparentemente, quer justificar a existência de Edom, ao revelar a origem desse povo vizinho de Israel, que reaparecerá em outras partes da literatura do Antigo Testamento.


10. A gênese de Jacó

Este é o último e o maior de todos os relatos. Começa no capítulo 37.2 (tôledôt) e vai até o último versículo do livro, ou seja, Gênesis 50.26. A história é de Jacó, mas quem ocupa boa parte da cena (quase toda!) é José, um de seus doze filhos. É o registro da forma misteriosa como Deus usou a maldade dos irmãos de José para levar adiante seu plano para a nação que havia escolhido e que, paulatinamente, vai surgindo no cenário da história. Aqui se tem a explicação de como o povo de Deus se estabeleceu no Egito e arma o cenário para o livro do Êxodo.


A teologia de Gênesis


Nesse livro, encontramos material suficiente para discorrer sobre vários pontos da teologia sistematizada. No entanto, analisaremos aqui as contribuições de Gênesis para a teologia própria: Deus, para a antropologia: o homem e para a soteriologia: a salvação.


Teologia própria: Deus

O livro do Gênesis começa apresentando Deus sem, contudo, justificar sua origem ou existência. Em Gênesis, Deus existe e o que não existe Ele vai criar! O livro não se propõe a responder todas as perguntas humanas a respeito do Criador, mas revela o Criador como um ser pessoal, enfatizando o persistente interesse de Deus por relações pessoais com os seus servos. Deus é único, Criador e Senhor soberano sobre tudo o que existe. Em todo o livro de Gênesis, a questão de outras divindades não aparece, exceto no episódio de Labão (31.19,30,34; 35.4), onde há breves menções aos ídolos ou deuses. Ele é responsável pelas “macroações”, como a criação de todas as coisas e o surgimento dos povos, mas, também, pelas “microações”, como a concepção de uma criança ou a chamada de um seguidor.

Deus é o regente capaz de pôr em ordem as situações mais intratáveis (cf. 45.5-8), sendo Juiz amoroso, cujos juízos são suavizados pela misericórdia (hesed) (cf. 3.21; 4.15; 6.8; 18.32, 19.16,21) e, às vezes, tardam a sobrevir (cf. 15.16). Sua justiça contém amor e seu amor inclui exigência e excelência morais. Em Gênesis, Deus é sempre “aquele que se dá”, em alguma medida. Nesse livro, o Senhor Deus é conhecido por muitos nomes: Iahweh; Elohim; El. Alguns são títulos que exprimem facetas de seu ser, como, por exemplo, Altíssimo (14.18-22) e Todo-Poderoso (17.1), entre outros. Alguns outros nomes comemoram um momento especial de encontro, como, por exemplo, o “Deus que vê” (16.13), o “Deus de Israel” (33.20), o “Deus de Betel” (35.7). Ainda outros declaram uma idéia de relação, como, por exemplo, “Deus de Abraão” (28.13); “Temor de Isaque” (31.42, 53) e “Poderoso de Jacó” (49.24).


Antropologia: o homem

O livro em estudo apresenta a formação do homem, sua vocação, sua queda e sua situação em conseqüência da queda. Na literatura de Gênesis, o homem é um ser social que vive dentro de certo padrão de responsabilidade, isto é:

• Na dimensão das coisas, quando seu dever é cultivar e guardar seu meio ambiente imediato e dominar e encher a terra.

• Na dimensão das pessoas, quando o companheirismo é visto como uma necessidade primária do homem e alvo da atenção de Deus ao prover companhia complementar para o homem, bem como demonstrar as relações familiares ameaçadas por tensões motivadas pelo egoísmo e pela inveja.

• Na dimensão da autoridade, quando a responsabilidade de governar, confiada ao homem, tem por finalidade a ordem e o bom andamento de todas as coisas.


Soteriologia: a salvação

Gênesis aponta para a graça que, longe de ser mera resposta ao pecado, é fundamental para a própria criação. A entrada do pecado põe em cena muitos aspectos da graça, ao revelar os meios e os modos que Deus se utilizou para preservar a humanidade e levar certos homens a entrar em aliança com Ele, por meio dos quais abençoaria finalmente o mundo todo (cf. 18.18). Deus, em Gênesis, restringe a corrupção e a anarquia produzidas pelo pecado, como nos seguintes casos: o dilúvio, a Torre de Babel e a decadência de Sodoma. Em um livro considerado tão antigo e com características primitivas, a obra salvadora de Deus não é menos completa nem menos variada. É Deus, não o homem, que busca. Aquela expressão pós-queda, que diz: “Adão, onde estás?” (3.9), ecoa por todo o livro. A salvação é muito mais que simples aceitação, antes, é uma intimidade com o céu, de matizes tão variados como os personagens que a desfrutam; uma relação assumida e firmada em uma aliança na qual Deus prometia ser o Deus da descendência deles.


A relevância de Gênesis para o Antigo e o Novo Testamento


O relato de Gênesis é de extrema relevância para a compreensão do Antigo e do Novo Testamento. Há contribuições singulares, como as que se seguem:


A apresentação de Deus como soberano

Deus é o Criador e nada revela sobre sua origem ou passado, apenas surge da eternidade misteriosa para iniciar a sua obra de criação. A soberania de Deus é uma grande tônica no livro.


Um registro específico das origens

Embora se tenha encontrado documentos antigos com vagos relatos sobre a criação do homem, nenhum deles, remotamente, pode ser comparado ao registro simples, específico e majestoso do livro de Gênesis. Sem esse registro, não teríamos uma visão objetiva de como o mundo começou, de como as várias formas de vida tiveram seu início, da verdadeira origem do homem, de como entrou o pecado na história da humanidade, de como as várias raças foram formadas e porque os idiomas são variados.


O pecado original

Gênesis demonstra claramente que Deus não criou o pecado e o mal, e que o pecado não ficou inativo nem permaneceu apenas como um defeito de menor importância. O livro descreve como o pecado foi se multiplicando e o resultado descrito no capítulo 6.11-12 é demonstrado nas vidas e famílias no decorrer de todo o relato (cf. 19.31-36 – as filhas de Ló).


Julgamentos sobrenaturais

A revelação de Deus como justo juiz em Gênesis é indiscutivelmente relevante para as teologias veterotestamentária e neotestamentária. Os vários julgamentos, como, por exemplo, a maldição após a queda, o dilúvio, a confusão das línguas na torre de Babel e a destruição de Sodoma e Gomorra, retratam a intolerância de Deus para com o pecado e a rebelião.


O proto-evangelho

A promessa divina de redenção descrita no capítulo 3.15 é uma descrição resumida do plano divino para resgatar a humanidade. Isso é plenamente compreendido no Novo Testamento, onde entendemos que a vinda de Jesus não é um “arranjo” divino para uma situação que fugiu do seu controle, mas, sim, o cumprimento de promessas tão antigas quanto a criação do próprio homem.


O conceito de aliança

A chamada “aliança abraâmica” é a base de todo o programa divino para a humanidade e a ela se reportam vários autores da literatura canônica. Haveria sérias dificuldades à exegese das outras alianças descritas nos relatos bíblicos se houvesse a inexistência do relato desta aliança.


Cristologia

Ainda que veladas à mente secular, há referências cristológicas sutis no relato do livro de Gênesis. A referência ao descendente da mulher (3.15), à semente de Abraão (12.3) e a um “leão da tribo de Judá” (49.9,10) aponta para o Jesus do Novo Testamento, além das referências ao “Anjo do Senhor”, que precisam ser intensamente estudadas e analisadas, a fim de que sejam corretamente identificadas como manifestações de Deus na terra, o que confirmaria o Jesus preexistente (ou pré-encarnado).

Assim, o livro de Gênesis se constitui de suma importância para o estudo das Escrituras Sagradas, em função de suas informações cósmicas, étnicas, históricas, religiosas e proféticas. A ignorância sobre essas informações sempre ensejou o desenvolvimento de inúmeras heresias que precisam ser combatidas!


Referências bibliográficas:

ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 1991.

JESKE, John C. Gênesis. Milwaukee, Wisconsin, USA. Editorial Northwestern, 1996.

KIDNER, Derek Gênesis: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.

RAD, Gerhard Von. Genesis: a commentary. SCM Press LTD. USA, 1972.

SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1994.

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