Defesa da Fé


O velho conceito bíblico ou o novo conceito herético?


Uma apresentação das “novas perspectivas sobre Paulo”


Por Augustus Nicodemus Lopes

Pastor presbiteriano, mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em interpretação bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA)


Quando a gente pensa que já viu de tudo nos círculos acadêmicos de estudos bíblicos é surpreendido com a chegada de uma abordagem potencialmente revolucionária sobre o apóstolo Paulo. Essa abordagem acaba causando profundo impacto em uma das doutrinas mais preciosas para os evangélicos, especialmente àqueles que se identificam com a Reforma Protestante do século 16.

Estamos falando da NPP — Nova Perspectiva sobre Paulo, um movimento com cerca de vinte anos de existência que recentemente chegou ao Brasil, especialmente por meio dos escritos de N. T. Wright, de quem falaremos mais adiante. A NPP, desde cedo, vem sofrendo críticas por parte de estudiosos da reforma. Homens do calibre de John Piper, D. A. Carson, Lingon Duncan e Sinclair Ferguson, entre muitos outros, têm escrito livros e artigos e ministrado palestras manifestando preocupação com as implicações desse movimento.

O que é, então, a NPP? Quais são suas propostas e por que tem causado furor entre os estudiosos evangélicos reformados? De maneira sucinta, a NPP defende que, desde a Reforma Protestante, temos lido as cartas de Paulo de maneira errada. Pensávamos que o centro da pregação do apóstolo fosse a justificação pela fé sem as obras da lei, quando, na verdade, Paulo estava polemizando com aqueles pregadores judeus cristãos que não queriam a presença dos gentios na nascente igreja judaico-cristã. É preciso, então, abandonar a “velha” perspectiva, que teve origem em Lutero e nos demais reformadores, e adotar uma nova, que faça justiça aos fatos da época do apóstolo.

A seguir, tentaremos explicar melhor como tudo isso começou.


Uma nova perspectiva sobre o judaísmo palestino


É necessário entender que, antes de ser uma nova perspectiva sobre Paulo, esta abordagem é uma nova perspectiva sobre o judaísmo da Palestina nos tempos desse apóstolo. Estudiosos como E. P. Sanders conseguiram convencer a muitos de que o judaísmo do primeiro século não era uma religião legalista de busca de méritos para a salvação. Os judeus já se consideravam salvos e praticavam as obras da lei para que pudessem permanecer inseridos no povo de Deus. Os fariseus, apesar do seu apego às leis de Moisés, sabiam que a salvação não era pela obediência a essas leis, mas pela fidelidade de Deus à aliança feita com Abraão.

Portanto, quando Paulo dizia que a salvação era pela fé sem as obras da lei, ele não estava combatendo o legalismo ou a tentativa de salvação pelas obras. Antes, estava simplesmente condenando a ênfase que os judeus davam às obras, a ponto de não permitir que os não-judeus convertidos ao cristianismo fossem considerados parte do povo de Deus.

Apesar de sua importância, há vários problemas com a tese de Sanders. Um deles é que ele usou fontes dos séculos 3o e 4o (Talmude, Mishna, Midrashes) para reconstruir o pensamento judaico do século 1o, algo que chamamos de anacronismo.


Uma nova perspectiva sobre a Reforma Protestante


A nova perspectiva de Sanders sobre o judaísmo trouxe uma nova perspectiva sobre a Reforma. Para os defensores da NPP, Lutero leu Paulo à luz da sua própria experiência e, assim, desviou as igrejas reformadas da correta interpretação do que o apóstolo havia escrito sobre salvação, justificação e obras da lei. Já em 1963, o luterano Krister Stendhal havia escrito um artigo influente, intitulado “Paulo e a consciência introspectiva do Ocidente”, no qual acusava Lutero de ter imposto a Paulo o seu próprio drama existencial quanto à salvação. Paulo nunca teve problemas de consciência antes de sua salvação, disse Stendhal, nem qualquer outro judeu daquela época. Ninguém estava perguntando: “O que posso fazer para ser salvo?”. Essa foi a pergunta de Lutero, mas não era a pergunta de Paulo nem dos judaizantes com quem ele discutiu em Gálatas.

Além disso, as Confissões de Agostinho influenciaram, em demasia, a Igreja no Ocidente, levando-a à introspecção e à busca individual da salvação. Isso fez que Lutero visse, na polêmica de Paulo sobre as obras da lei, em Gálatas e Romanos, a sua própria luta em busca de salvação dentro da Igreja Católica — o que foi um erro.

Os defensores da NPP criticam os reformados por terem defendido, durante tanto tempo, que o centro da pregação de Paulo, bem como do Novo Testamento, era a doutrina da justificação pela fé, quando esta, na verdade, era a agenda de Lutero e não de Paulo. Todavia, como tem sido observado, não foram somente os luteranos que tiveram esse entendimento. O protestantismo em geral, inclusive aquele não influenciado diretamente pelas obras de Lutero e demais reformadores, sempre entendeu, lendo sua Bíblia, que ela trata essencialmente desse assunto: de que maneira o homem pode ser justificado diante de um Deus santo e justo?


Uma nova perspectiva sobre as obras da lei


Na seqüência, veio uma nova perspectiva sobre as obras da lei. A Reforma sempre entendeu que obras da lei, em Gálatas e Romanos, contra as quais Paulo escreve, eram aqueles atos praticados pelos judeus em obediência aos mais estritos preceitos da lei de Moisés. Os judeus procuravam guardar tais preceitos com o objetivo de acumular méritos diante de Deus. Foi contra tais obras que Paulo asseverou aos gálatas e aos romanos que a salvação é pela fé em Jesus Cristo, somente.

Entretanto, James G. Dunn, em especial, argumentou que as obras da lei às quais Paulo se refere em Gálatas e Romanos eram a circuncisão, a guarda do calendário religioso e as leis dietárias de Moisés — sinais caracterizadores da identidade judaica no século 1o.

Paulo era contra essas coisas porque elas separavam os judeus dos gentios e impediam que gentios convertidos se sentassem à mesa com judeus convertidos. Em outras palavras, a polêmica de Paulo não era contra o legalismo dos judaizantes, mas, sim, contra a insistência deles em manter os gentios distantes. A questão não era soteriológica, mas eclesiástica. A Reforma havia perdido esse ponto de vista por causa de Agostinho e Lutero.

Mas, cabe aqui a observação: se as obras da lei não eram esforços meritórios, fica muito difícil entender não somente Gálatas e Romanos, mas, inclusive, passagens de Atos, como esta, por exemplo: “Alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam os irmãos: Se não vos circuncidardes, segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos” (At 15.1). No fim, temos de escolher se acreditamos em Atos ou no que James Dunn está dizendo.


Uma nova perspectiva sobre Paulo


Tudo isso trouxe o que James Dunn chamou de uma “nova perspectiva sobre Paulo”. Esse movimento se dividiu em duas linhas gerais.

Os mais radicais, como, por exemplo, H-J Schoeps, que acham que Paulo, por ser um judeu da Dispersão, não entendeu e, portanto, torceu inadvertidamente a soteriologia do judaísmo da Palestina, atacando-o, por julgar que era uma religião baseada em méritos, quando, na verdade, não era.

E outros, como H. Raisanen, que alegam que Paulo era judeu por fora e gentio por dentro, o que lhe causava uma ambigüidade nunca vencida, que o levava a falar mal da lei em Gálatas e falar bem da lei em Romanos. Nessa vertente, o problema é Paulo, que passou uma visão distorcida dos judeus e dos fariseus do século 1o. Esta linha, na nova perspectiva, não tem muitos defensores.

Sem contar aqueles que afirmam que o problema não é Paulo, mas, sim, os reformados que o leram com os óculos de Lutero. É preciso olhar para Paulo por meio de uma nova perspectiva que leve em conta as descobertas de Sanders (o judaísmo não era legalista), de Stendhal (Paulo era um fariseu sem problemas com a lei) e de Dunn (obras da lei são apenas marcadores da identidade judaica).

Segundo essa última ótica, é preciso reler Gálatas e Romanos e tentar descobrir qual era realmente a polêmica de Paulo com os judeus, judaizantes e fariseus, de sua época. Deve ser outra coisa e não salvação pela fé sem as obras da lei.

A pergunta que não quer calar é: como a Igreja de Cristo, mesmo contando com exegetas e teólogos do maior calibre, conseguiu se enganar por tanto tempo, do século 16 até hoje, em um assunto tão básico?


Uma nova perspectiva sobre a justificação


Por fim, tudo isso trouxe uma nova perspectiva sobre a justificação proposta pelos defensores da NPP. Os reformados sempre afirmaram, com base em Gálatas, Romanos e demais livros do Novo Testamento, que a mensagem central das cartas de Paulo é: os pecadores podem ser justificados de seus pecados mediante a fé em Jesus Cristo, sem obras pessoais e meritórias. E essa justificação consiste em Deus nos imputar — isto é, atribuir — a própria justiça de Cristo. Lutero dizia que somos justificados com uma justiça alheia, a de Cristo, e não com uma justiça nossa, que procede de nossa obediência à lei de Deus (obras da lei). Lutero e demais reformadores entenderam que esse era exatamente o ponto de discussão entre Paulo e os judaizantes, que, na época, queriam exigir que os crentes gentios guardassem a lei de Moisés para que fossem salvos.

É aqui que entra em cena Nicholas Thomas Wright, bispo anglicano de Durham, Inglaterra, provavelmente, hoje, o estudioso mais conhecido e destacado que defende a nova perspectiva sobre Paulo. Ele ganhou a simpatia de muitos evangélicos por suas posições firmes contra o aborto, a eutanásia e as uniões civis entre homossexuais dentro da Igreja Anglicana.

O ponto mais controverso da posição de Wright sobre Paulo é sua tentativa de redefinir a doutrina da justificação pela fé. Wright abraça a “nova perspectiva”, seguindo Stendahl, Sanders e Dunn. A principal obra de Wright, que o marcou como defensor da “nova perspectiva”, é What St. Paul Really Said? [O que o apóstolo Paulo realmente disse?]. Segundo ele, a justificação, para Paulo, não significa que Deus transfere a sua própria justiça ao pecador, como ensina a doutrina da imputação. Deus, à semelhança do que se faz num tribunal, considera vindicado o pecador, sem, contudo, imputar-lhe a sua própria justiça. De acordo com Wright, é esse o caso nos tribunais gregos — nenhum juiz imputa ao acusado a sua própria justiça pessoal, simplesmente o absolve. A conclusão é que Paulo nunca ensinou a doutrina da imputação da justiça. Não é isso o que Paulo entende por “justificação”, “justificar” e “justificado”. Deus absolve o pecador por causa de sua fidelidade ao pacto, à aliança. É exatamente isso o que significa a sua justiça.


O que há de bom na NPP?


Há algo de bom na NPP?

Sim, há!

O movimento nos leva a estudar o contexto de Paulo mais profundamente. Os estudos de Sanders nos trouxeram muitas informações sobre o pensamento rabínico dos séculos 3o e 4o sobre a salvação. As observações de Stendhal nos ajudam a ter uma visão mais correta sobre a relação pessoal de Paulo para com a lei — ele, de fato, não era um fariseu em crise existencial antes de se converter. E Dunn chama a nossa atenção para o aspecto missiológico e social da polêmica de Paulo contra as obras da lei. Todavia, esses aspectos positivos não anulam as sérias implicações do movimento, especialmente quanto à doutrina da justificação.

Isso pode soar como mais uma daquelas especulações irrelevantes que ocupam os teólogos a maior parte do tempo. Todavia, não é. O que a NPP coloca em jogo são duas das mais importantes doutrinas da fé cristã: a morte substitutiva de Cristo e a imputação da sua justiça aos que crêem. Mesmo que Wright fale que os crentes terão seus pecados perdoados, fica a pergunta: “Com base em quê, se a morte de Cristo não é substitutiva nem seus méritos são transferíveis?

Fica, então, o alerta: “Nem sempre o vinho novo é melhor!”.

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