Defesa da Fé


A doutrina do Deus-Adão


Flagrante contradição entre os presidentes da Igreja Mórmon


Por Paulo Cristiano Silva, vice-presidente do CACP


A doutrina do Deus-Adão é um espinho para a Igreja dos Santos dos Últimos Dias (a partir de agora, IJSUD). Espinho esse que, se possível, gostariam de extirpar da bibliografia mórmon. Brigham Young, o segundo presidente da Igreja Mórmon e sucessor de Joseph Smith, ensinou que Adão era Deus. Ele apresentou essa doutrina por mais de vinte anos em muitos sermões diferentes, e a Igreja Mórmon acreditou nela, aceitou-a e ensinou-a por, pelo menos, cinquenta anos. Os mórmons de hoje, em geral, dividem-se entre negá-la e aceitá-la.

O décimo segundo presidente da IJSUD, Spencer W. Kimball, chegou a classificar a doutrina do Deus-Adão de “falsa”, portanto, se os mórmons atuais seguirem o posicionamento de Brigham Young, conforme a doutrina herética que apregoa Adão como Deus, estarão revelando que a IJSUD é falsa, inegavelmente.

A doutrina do Deus-Adão contradiz o Livro de Mórmon, principal obra sagrada desse movimento religioso. Além disso, obviamente, contradiz a Bíblia. Mas, o leitor poderia pensar: “Por que comentar sobre uma doutrina que a maioria dos mórmons já abandonou e reconhece como falsa?”. É simples: porque essa contradição história entre os próprios mórmons abala a integridade dos profetas, que deveriam ser infalíveis, tal como é a Bíblia dos evangélicos.

Crer que Brigham Young foi um profeta de Deus e aceitar sua revelação sobre o Deus-Adão é admitir que o outro profeta, Spencer W. Kimball, e a IJSUD são falsos. Por outro lado, rejeitar a doutrina do Deus-Adão é negar o “profeta” antigo que a apresentou, Brigham Young, e admitir que ele era falso. Essa contradição doutrinária prova que a IJSUD é uma igreja falsa, liderada, por vários anos, por profetas falsos.

A seguir, examinaremos, de forma breve, mas honesta, as evidências. Preste atenção às datas à medida que prosseguirmos.


O que consta do Jornal de Discursos


Brigham Young introduziu essa doutrina em um sermão que pregou no dia 9 de abril de 1852. Leia-o no contexto do Journal of Discourses:

“Agora, ouvi, ó habitantes da terra, judeus e gentios, santos e pecadores! Quando nosso pai chegou ao jardim do Éden, entrou nele com um corpo celestial, e trouxe consigo Eva, uma de suas esposas. Ele ajudou a organizar este mundo. Ele é Miguel, o Arcanjo, o Ancião de Dias! Acerca de quem santos homens têm escrito e falado, ele é nosso pai e nosso Deus, e o único Deus com quem devemos lidar.” (vol.1, p.50,51 – grifos do autor).

Repetidas vezes, Brigham Young ensinou que Adão era Deus. Esta não foi uma homilia única e isolada. A seguir, a contradição clara proferida por outro presidente, Spencer W. Kimball:

“Prevenimos-vos contra a disseminação de doutrinas que não são segundo as Escrituras e que, supostamente, foram ensinadas por algumas das autoridades gerais das gerações passadas. Tal é o caso, por exemplo, da teoria do Deus-Adão. Denunciamos tal teoria e esperamos que todos tomem precaução contra esta e outros tipos de doutrinas falsas”.

Os mórmons gostariam que o seu povo e os de fora acreditassem que Brigham Young foi citado erradamente ou mal compreendido. Gostariam de pensar que a doutrina do Deus-Adão fosse uma tentativa de difamar o seu profeta, por parte dos antimórmons. Não obstante, qualquer mórmon honesto, e que esteja disposto a encarar os fatos, pode descobrir, por si mesmo, exatamente o que Brigham Young ensinou sobre o assunto no Journal of Discourses e em outros escritos mórmons. Para os que não têm acesso ao Journal of Discourses, Melaine Layton, Jerald Tanner, Sandra Tanner e Bob Witte trazem, em seus respectivos livros, fotocópias dos sermões de Brigham Young a respeito de Adão ser Deus.


Quem é o Adão mórmon?


Mark E. Peterson, apóstolo mórmon, escreveu um livro intitulado Adam, Who Is He? [Adão, quem é ele?]. Peterson afirmava que o apóstolo mórmon, Charles G. Rich, acompanhou, no dia 9 de abril de 1852, o sermão em que Brigham Young pregou a doutrina do Deus-Adão e ouviu o segundo presidente do movimento dizer algo diferente sobre o ponto que realmente acabou sendo registrado no Journal of Discourses. Com isso, Peterson queria encobrir a heresia de Brigham Young. Segundo o apóstolo Rich, Brigham dissera: “Que ideia erudita! Jesus, nosso irmão mais velho, foi gerado na carne pelo mesmo personagem que esteve no jardim do Éden, e que conversou com nosso Pai do céu”.

Examinemos esta afirmativa e verifiquemos sua exatidão e honestidade históricas. O historiador mórmon Leonard J. Arrington escreveu um livro intitulado Charles G. Rich, Mormon General and Western Frontiersman [Charles G. Rich, líder mórmon e mediador ocidental]. Nesse livro, Arrington conta sobre uma viagem que Rich fez. Segundo seu relato, Rich deixou San Bernardino, na Califórnia, em 24 de março de 1852, em direção ao vale de Salt Lake (Utah), com um carroção carregado de suprimentos. De Salt Lake, retornou a San Bernardino, chegando ali em 20 de agosto de 1852, em 22 dias, “a viagem mais rápida de que se tem registro”, segundo Arrington. Obviamente, se Rich levou 22 dias para ir de Salt Lake City a San Bernardino, ele teria levado pelo menos 22 dias para ir de San Bernadino ao Vale de Salt Lake. Portanto, se ele saiu de San Bernardino no dia 24 de março, teria sido impossível que Charles G. Rich chegasse a Salt Lake City no dia 9 de abril a tempo de ouvir o sermão de Brigham Young. Os escritores mórmons nem mesmo conseguem conciliar suas evasões da verdade!

Brigham Young disse que seus sermões, quando proferidos, eram como se fossem as Escrituras. E falou isso como “profeta vivo” oficial da IJSUD, dando ao seu povo, ostensivamente, a revelação que Deus tinha para eles. Um ano depois de ele pregar esse sermão, o ponto central de sua mensagem a respeito do Deus-Adão foi publicada no Millenial Star Mórmon [Estrela milenar mórmon], enfatizando que Brigham Young havia ensinado que Adão era Deus. O sermão logo foi reproduzido no Journal of Discourses, periódico que necessitava da aprovação de Brigham Young. Ele não mudou nem rejeitou o sermão em parte alguma. Desde 1852 até a morte de Brigham Young, em 1877, o sermão permaneceu intacto, como ele permitira que fosse reproduzido no Journal of Discourses.

A afirmação de Mark Peterson foi, simplesmente, uma entre muitas tentativas para encobrir o ensino de Brigham Young acerca do Deus-Adão. Temos apresentado algumas das evidências relacionadas ao fato de Brigham Young ter inegavelmente ensinado a doutrina herética de que Adão foi Deus e acrescentado que Adão era “o único Deus com quem devemos lidar”. Isso elimina Jesus, Eloim e todos os outros deuses mórmons.

Rejeitamos a ideia de que Brigham Young foi citado erradamente ou compreendido mal em sua mensagem de 9 de abril de 1852. Chamamos a atenção do leitor para o fato de que Brigham Young ainda ensinava a mesma doutrina do Deus-Adão 21 anos mais tarde!

Na citação de um jornal mórmon, intitulado The Deseret News [Notícias de Deseret] , de 18 de junho de 1873, vinte e um anos depois do primeiro sermão de Brigham Young sobre o Deus-Adão, em 9 de abril de 1852, Young disse:

“Quanta descrença existe na mente dos Santos dos Últimos Dias em relação a uma doutrina particular que a vós revelei, e que me foi revelada por Deus [...] de que Adão é nosso Pai e Deus [...] Nosso Pai Adão ajudou a formar esta terra, ela foi criada expressamente para ele e, depois de ter sido ela criada, ele e seus companheiros para aqui vieram. Ele trouxe consigo uma de suas esposas, chamada Eva, por ser a primeira mulher sobre esta terra. Nosso Pai Adão é quem está no portão e tem as chaves da vida eterna e da salvação a todos os seus filhos que já vieram e que ainda virão à terra [...] ‘Bem’, diz alguém: ‘Por que Adão foi chamado Adão?’. Ele foi o primeiro homem sobre a terra, e seu estruturador e criador. Ele, com a ajuda de seus irmãos, trouxe-a à existência. Então, disse ele: ‘Desejo que meus filhos que estão no mundo dos espíritos venham e habitem aqui. Uma vez já vivi numa terra parecida com esta, num estado mortal. Fui fiel, recebi minha coroa de exaltação [leia-se ‘tornei-me um ‘deus’, segundo o ensino mórmon]. Tenho o privilégio de estender minha obra, e o seu aumento não terá fim. Desejo que meus filhos, que me nasceram no mundo dos espíritos, venham e tomem tabernáculos na carne, que seus espíritos possam ter uma casa, um tabernáculo ou uma habitação como o meu tem, e onde está o mistério?”.


Referências sobre o Deus-Adão


É impressionante quantas oposições à narrativa bíblica há numa afirmação tão curta como esta que acabamos de ler. Basta-nos lembrar, por exemplo, o simples relato de Gênesis 1–2, que afirma que Deus criou o homem e soprou nele o alento da vida, algo que teria sido desnecessário se ele já estivesse vivo. Essa criação, então, tornou-se o primeiro homem, Adão, alma vivente. Eva foi criada por Deus, aqui nesta terra, do corpo de Adão; ela, obviamente, não foi trazida aqui por Adão como “uma de suas esposas”. Adão não teve absolutamente nada a ver com a criação da terra. Ele era uma mera criatura, a primeira do gênero humano, feita por Deus depois de a terra ter sido formada.

A propósito, o Senhor deu uma única esposa a Adão e não “mais uma” ou “uma das”. O homem quebrou esse padrão de monogamia mais tarde para seu próprio pesar, afrontado o padrão matrimonial instituído por Deus. No Novo Testamento, Jesus claramente afirmou o plano de Deus para o casamento (Mt 19.5) ao falar sobre o homem deixar seu pai e sua mãe e apegar-se à sua esposa, formando uma só carne. Cristão algum no Novo Testamento jamais disse ter mais que uma esposa de cada vez; e aos bispos, anciãos e diáconos era terminantemente proibido ser marido de mais de uma mulher (1Tm 2–3; Tt 1). Sob a nova aliança (o Novo Testamento), com maior luz e com o Espírito Santo habitando em seu povo, Deus proíbe expressamente a prática de se ter mais de uma esposa (At 17.30).

Historicamente, os líderes mórmons têm ignorado e quebrado o mandamento explícito de Deus sobre o casamento. Muitos dos fundadores mórmons tiveram mais de uma esposa. Isso significa que não eram qualificados para o cargo que possuíam e que todas as suas afirmações de autoridade eram espúrias aos olhos de Deus.

Brigham Young não somente introduziu, em 1852, a doutrina do Deus-Adão, como também permaneceu ministrando esse ensino por muitos anos, como prova outro sermão de 1857. E prosseguiu até 1873. Outras fontes mórmons também substanciam esse fato.

A doutrina do Deus-Adão, de Brigham Young, foi citada exata e largamente em publicações mórmons por muitos anos. Brigham Young viu muitas dessas citações e seus sermões publicados no Journal of Discourses. Por conta disso, teve anos e anos de oportunidade para corrigir qualquer citação errada nessas publicações. Mas, nunca o fez. Isso prova, efetivamente, que ele ensinou e queria dizer que Adão era Deus, e o “único Deus com quem devemos lidar”.

F. D. Richards, mórmon preeminente, disse: “A respeito da doutrina de Adão ser nosso Pai e Deus [...] o profeta e apóstolo Brigham a declarou, e essa é a palavra do Senhor”. Outro periódico, intitulado Diary of Hosea Stout [Diário de Hosea Sout], assim declara: “Outra reunião esta noite. O presidente B. Young ensinou que Adão foi o Pai de Jesus e o único Deus para nós”. E o líder mórmon George Q. Cannon ainda ensinou que “Jesus Cristo é Jeová”, e que “Adão é seu Pai e nosso Deus”. O mórmon Edward W. Tullidge escreveu: “Adão é nosso Pai e Deus. Ele é o Deus da terra; assim diz Brigham Young”.

Um comentário muito interessante foi feito pelo mórmon A. F. MacDonald em Minutes of the School of the Prophets [Minutos da escola de profetas] muitos anos depois do primeiro sermão de Brigham Young sobre o Deus-Adão, em 1852: “Acerca da doutrina pregada pelo presidente Young alguns anos atrás, na qual ele diz que Adão é nosso Deus — o Deus que adoramos — nisso crê a maioria do povo [...] Orson Pratt disse não crer nela [...] Se o presidente faz uma afirmação, não é nossa prerrogativa disputá-la [...] Quando ouvi, pela primeira vez, a doutrina de Adão ser nosso Pai e Deus, fiquei favoravelmente impressionado — gostei dela e a vi como uma nova revelação — pareceu-me razoável que, como pai de nossos espíritos, ele nos trouxesse aqui”.

O ponto está estabelecido: Brigham Young deveras ensinou que Adão era Deus! Como diz Melaine Layton, ex-mórmon de grande conhecimento, em seu excelente livro Mormonism [Mormonismo], ainda não publicado no Brasil: “É verdade que os mórmons de hoje não acreditam nisso; entretanto, vários mórmons disseram-me que creem. A maior parte dos restantes ou nunca ouviu falar de tal coisa ou diz simplesmente que não é verdade. Entretanto, permanecem os fatos: por mais de cinquenta anos (1852-1903), os escritores oficiais do mormonismo ensinaram, sem hesitação, que Adão é nosso Deus, e a grande maioria das pessoas acreditou nisto!”.


As implicações nas contradições entre os profetas mórmons


Considere, outra vez, a contradição incrível do décimo segundo presidente, Spencer W. Kinmball: “Admoestamos-vos contra a disseminação de doutrinas que não estão de acordo com as Escrituras e que, supostamente, foram ensinadas por algumas das Autoridades Gerais das gerações passadas. Tal é o caso, por exemplo, da teoria do Deus-Adão. Denunciamos tal teoria e esperamos que todos tomem cautela contra esta e outras espécies de doutrinas falsas”.

Como sabiamente diz Wally Tope, referindo-se a essa afirmação: “Ou Spencer W. Kimball mentiu, não fez seu trabalho de casa, ou recusa-se a crer na linguagem clara. Todas as alternativas são inescusáveis”.

Simplesmente, não existe saída. É impossível e totalmente desonesto fingir que Brigham Young foi citado erradamente ou compreendido mal por mais de cinquenta anos pelos líderes mórmons e milhares de pessoas. Se suas “revelações” foram contraditadas em data posterior, por que deveríamos acreditar na inspiração dos profetas mórmons? Como sabem os mórmons que não estão interpretando mal seu profeta atual? Quantidade alguma de desculpas vai satisfazer um Deus Santo que exige a verdade de acordo com sua verdadeira Palavra, a Bíblia. A doutrina do Deus-Adão é falsa, foi fabricada por um profeta falso e assimilada por uma igreja falsa.

Essa heresia levou a outras doutrinas blasfemas, também ensinadas por Brigham. Entre elas, encontra-se aquela que diz ter sido Adão o pai de Jesus, como resultado de relações sexuais com a virgem Maria, de modo que Jesus realmente não nasceu de uma virgem e, sendo assim, “Jesus Cristo não foi gerado pelo Espírito Santo”, como declara explicitamente Brigham Young.

Sabemos que nenhum profeta verdadeiro de Deus contradiz a Escritura. Por tudo isso, certamente, o Jesus que os mórmons conhecem não é o Jesus da Bíblia.


Referências:

1 Church News, 9 de outubro de 1976.

2 ARRINGTON, Leonard J. Charles G. Rich, Mormon General and Western Frontiersman. Salt Lake : BYU Press, s/d., p.173.

3 Journal of Discourses, vol. 13, p. 95.

4 Deseret – estado provisório dos Estados Unidos, proposto em 1849 por colonos mórmons na cidade de Salt Lake.

5 The Deseret News, 18 de junho de 1873.

6 Journal of Discourses, 1857, vol. 5, p. 331.

7 Millenial Star, 26 de agosto de 1954, vol. 16, p.534.

8 Diary of Hosea Stout, 9 de abril de 1852, vol. 2, p.435.

9 Diary Journal of Abraham H. Cannon, 23 de junho de 1889, vol. 11, p.39.

10 The Women of Mormon, 1877, p. 79, 179, 196, 197.

11 Journal of Discourses, vol. 1, p. 50,51.

Curso Teologia Online Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Básico de Teologia Série Apologética Curso Médio de Teologia Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Bacharel de Teologia Série Apologética

ICP - Instituto Cristão de Pesquisas © Todos os direitos reservados. 2017